TIRANIA DO FOGO

I

Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na

cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do

incêndio que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em

toda a vastidão onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos

das suas chamas. É cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais

ingrata dos fraguedos. É cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando,

de oiro precioso, o chão ainda gelado de Dezembro. E os renovos do sobro

e o pinheiral, que entre os seixos avaros despontavam, em cinzas

converteram a curta e tenra vida das suas hastes.

A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em

sua austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga,

ou nos avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando,

tem por escrava toda a formosura, dissipa-a sem piedade em seus

altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao

peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida

mortal dos nossos olhos--são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo

as inflamou.

Rogações de Eremita · 第 81 / 111 题