I
A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era
doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras
do monte e do rebanho.
E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em
fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.
E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais
encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as
diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.
Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e
a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às
convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de
ondas salgadas quanta doçura tinha no seu cálice--como se por
vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê
sua amargura.