PUREZA AMARGA

I

A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era

doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras

do monte e do rebanho.

E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em

fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.

E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais

encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as

diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.

Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e

a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às

convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de

ondas salgadas quanta doçura tinha no seu cálice--como se por

vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê

sua amargura.

Rogações de Eremita · 第 79 / 111 题