CANTARES DAS SEBES

I

Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra,

ouvi o cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem

e nos guardam os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que

nos anima de vigor o sangue e nos enleva em alegria a alma.

Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o

campo onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos

sob grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre

para que as sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os

vinhedos,--se uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e

de aves diligentes em buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a

cegueira humana pervertida pode quebrar a árvore que nasce ou

desrespeitar ruimmente o suor alheio, ergue-se a sebe e entoa os seus

mandados, e cobre de fortalezas todo o chão traçando os seus limites

à cobiça, à imprevidência, à malvadez e ao próprio dano da inocência

instigada por amor--como um gládio de justiça austera repartindo toda a

terra entre os seus filhos. Ora severa e rude na mudez, ora coroada de

verdura errante, murmurando o agreste murmúrio desprendido pelo beijar

de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a selva, o prado, o

pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e encantar

nossos olhos em beleza.

Rogações de Eremita · 第 44 / 111 题