Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma,
vem recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto
emaciado estão marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as
canseiras, velhice e privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo
que algum dia entumeceu as veias duma face enamorada de ventura e
prazer, e em ventura enlevando os que a buscavam. Aqueles sadios braços
que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, são mal definidas sombras
esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os olhos que brilharam
amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos moços do
arraial, esmoreceram todo o seu calor, amortecidos em descorados véus,
quase sem luz.
Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali
contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na
luz os seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em
que resignada arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o
sonho e outros sonhos trazendo em sua voz:
--«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»