I
Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que
vertessem sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia
e a treva, o Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus
fogos incendiando-lhes a fecundidade.
Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O
viço converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta.
Murcharam os prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu
frescor, levanta agora o vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra
nua. Rolam no chão as palhas trituradas como restos de vidas insepultas.
São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na
vitória, na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade
santa e dolorosa.
Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão,
para lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de
doçura, para madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos
salve dos golpes traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores
aquela mesma terra que por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao
despertar-lhe sua paixão constante de abundância, o seu fascinante arfar
de formosura e a pródiga caridade do seu seio.