Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor
por ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta
ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável predestinada à
consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, ensinou-me a
invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, para
a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a
tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em
ti buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é
também minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas
horas de repouso e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus
lábios; que para me sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo
e o seu tumulto e assim purificado, assim armado desse escudo
inviolável, fortalecido contra todas as tentações de desvario,
atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me isentasse.
Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo
perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido
o meu espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o
pensamento e outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me
lembrasse a culpa cantando os teus louvores e a tua grandeza.
Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus
tesoiros e me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas
aves, teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada aurora
que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a
toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de
infância que à minha mãe ouvi no seu regaço!