IV

Periodo sereno da minha vida moral, capitulo a escrever sobre uma

banqueta de altar, ou com o alphabeto azul que delinêa o fumo do

incenso no ar tranquillo, inolvidaveis tregoas de intimo socego em toda

a minha juventude, eis em que se tornou a minha amarga descida ao fundo

descredito escolar.

A astronomia, como os céus do psalmo, levou-me á contemplação. O

mal na terra, descripto pelo Sanches com uma pericia de conhecedor e

praticante, tomou vulto no seio das minhas cogitações. A incredulidade

primeira acabou em meu espirito, reconhecendo o descalabro d'este val de

lagrimas em que vivemos. Ao tempo que devia consagrar á minha

rehabilitação nos estudos, puz-me a estudar, como Ignacio de Loyola,

talvez na mesma idade, a rehabilitação do mundo.

Encarnei o peccado na figura de Sanches e carreguei. Nutria talvez no

intimo o ambicioso interesse de um dia reformar os homens com o meu

exemplo pontifical de virtudes no solio de Roma; mas a verdade é que me

dediquei conscienciosamente ao santo empenho de merecer essa

exaltação, preparando-me com tempo. Perdido o ideal scenographico de

trabalho, e fraternidade, que eu quizera que fosse a escola, tinha que

soltar para outras bandas os pombos da imaginação. Viveiro seguro era

o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que se não contava.

Accresce que predispunha ao enlevo a tristeza oppressa de discipulo máu

em que eu jazia. E como nos pequenos esforços que tentava para me

reerguer ninguem dava attenção, deixei-me ficar insensivel, resignado,

como em desmaio sob um desmoronamento. Tinha a consciencia em paz, a

consciencia que é o espectaculo de Deus. Servia-me a crença como um

colchão brando de malandrice consoladora. Note-se de passagem que

apezar dos anceios de bemaventurança, eu ia mal no catecismo como no

resto.

A mais terrivel das instituições do _Atheneu_ não era a famosa

justiça do arbitrio, não era ainda a _cafua_, asylo das trevas e do

soluço, sancção das culpas enormes. Era o _Livro das notas_.

Todas as manhãs, infallivelmente, perante o collegio em peso,

congregado para o primeiro almoço, ás oito horas, o director apparecia

a uma porta, com a solemnidade tarda das apparições, e abria o

memorial das partes.

Um livro de lembranças comprido e grosso, capa de couro, rotulo

vermelho na capa, angulos do mesmo sangue. Na vespera cada professor, na

ordem do horario, deixava alli a observação relativa á diligencia dos

seus discipulos. Era o nosso jornalismo. Do livro aberto, como as

sombras das caixas encantadas dos contos de maravilha, nascia, surgia,

avultava, impunha-se a opinião do _Atheneu_. Rainha caprichosa e

incerta, tyrannisava essa opinião sem correctivo como os tribunaes

supremos. O temivel noticiario, redigido ao sabor da justiça suspeita

de professores, muita vez despedidos por violentos, ignorantes, odiosos,

immoraes, erigia-se em censura irremissivel de reputações. O julgador

podia ser posto fóra por uma evidenciação concludente dos seus

defeitos; a diffamação estampada era irrevogavel.

[Figura 13]

E peior é que lavrava o contagio da convicção e surprehendia-se cada

um consecutivamente de não haver reparado que era mesmo tão ordinario

tal discipulo, tal collega, reforçando-se passivamente o conceito, até

consummar-se a obra de vilipendio quando, por ultimo, o condemnado, sem

mais uma suggestão de revolta achava aquillo justo e baixava a cabeça.

A opinião é um adversario infernal que conta com a cumplicidade,

emfim, da propria victima.

Com excepção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do peito, os

que dormiam á sombra de uma reputação habilmente arranjada por um

justo conchavo de trabalho e captivante doçura, havia para todos uma

espectativa de terror antes da leitura das notas. O livro era um

mysterio.

Á medida que se desenrolava a gazetilha, as ancias iam serenando. Os

victimados fugiam, acabrunhados de vergonha, opprimidos sob o castigo

incalculavel de trezentas carinhas de ironia superior ou compaixão de

ultraje. Passavam junto de Aristarcho ao sair para a tarefa penal de

escripta. O director, arrepiando uma das coleras olympicas que de um

momento para outro sabia fabricar, descarregava com o livro ás costas

do condemnado, aggravante do injuria e escarneo á pena de diffamação.

O desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando.

Quando a cousa não dava para coleras, Aristarcho limitava-se a

sublinhar com uma ponderação qualquer a sentença cathedratica; ora

uma exclamativa de espanto, ora uma ameaça, ora um insulto vivo e

breve, ora um conselho amortalhado em funebre dó.

Ás vezes enlaçava com dous dedos o menino pela nuca e o voltava,

tremente e submisso, para o collegio attento, offerecendo-o ás

bofetadas da opinião: «Vejam esta cara!...»

A criança, livida, fechava os olhos.

Em compensação, não havia expressamente punições corporaes.

O professor Manlio, sempre considerando a recommendação, poupou-me

longamente ao castigo formidavel das partes. Perdeu por fim a paciencia

e fulminou-me.

No dia seguinte ao almoço, amargava eu, sem assucar que me bastasse, o

resto do café quinado da espectativa (porque Manlio tinha-me

prevenido), quando ouvi Aristarcho, alargando pausas dramaticas de

commoção, ler, claro, severo: «O Sr. Sergio tem degenerado...»

Eu havia figurado já na gazetilha do _Atheneu_ com algumas notas de

louvor; guardou-se a sensação para a nota má. O director olhou-me

sombrio.

No fundo do silencio commum do refeitorio, cavou-se um silencio mais

fundo, como um poço depois de um abysmo. Senti-me devorado por este

silencio hiante. A congregação justiceira dos collegas voltou-se para

mim, contra mim. Os vizinhos de logar á mesa affastaram-se dos dois

lados, para que eu melhor fosse visto. De longe, da copa, chegava um

ruido argentino, horrivel, de colheres á lavagem; os tamarineiros no

parque ciciavam ao vento.

Aristarcho foi clemente. Era a primeira vez, perdoou.

A peior hypothese do systema do pelourinho era quando o estudante

ganhava o callo da habitualidade, um assassinato do pudor, como succedia

com o Franco.

Dias depois da terrivel nota, voltava eu a figurar com outra má, menos

philosophicamente redigida, porém aggravada de reincidencia. Aristarcho

não perdoou mais. Houve ainda terceira, quarta, por diante. Cada uma

d'ellas doia-me intensamente; comtudo não me indignavam. Aquelle

soffrimento eu o desejava, na humildade devota da minha disposição

actual. Chorava á noite, em segredo, no dormitorio; mas colhia as

lagrimas numa taça, como fazem os martyres das estampas bentas, e

offerecia ao céu, em remissão dos meus pobres peccados, com as notas

más boiando.

No recreio, andava só e calado como um monge. Depois do Sanches não me

aproximava de nenhum collega, senão incidentemente, por palavras

indispensaveis. Rebello tentou attrahir-me; ou desviava. Sanches,

rancoroso, perseguia-me como um demonio. Dizia cousas immundas. «Deixa

estar, jurava entre dentes, que ainda hei de tirar-te a vergonha.» Na

qualidade de vigilante levava-me brutalmente á espada. Eu tinha as

pernas roxas dos golpes; as canellas me incharam. Se Barbalho se lembra

de vingar a bofetada, creio que me submettia á letra evangelica.

Durante este periodo de depressão contemplativa uma cousa apenas

magoava-me: não tinha o ar angelico do Ribas, não cantava tão bem

como elle. Que faria se morresse, entre os anjos, sem saber cantar?

[Figura 14]

Ribas, quinze annos, era feio, magro, lymphatico. Bocca sem labios, de

velha carpideira, desenhada em angustia--a supplica feita bocca, a prece

perenne rasgada em beiços sobre dentes; o queixo fugia-lhe pelo rosto,

infinitamente, como uma gotta de cêra pelo fuste de um cyrio...

Mas, quando, na capella, mãos postas ao peito, de joelhos, voltava os

olhos para o medalhão azul do tecto, que sentimento! que doloroso

encanto! que piedade! um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que

subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gothico!

E depois cantava as orações com a doçura feminina de uma virgem aos

pés de Maria, alto, tremulo, aereo, como aquelle prodigio celeste de

garganteio da freira Virginia em um romance do conselheiro Bastos.

Oh! não ser eu angelico como o Ribas! Lembro-me bem de o vêr ao

banho: tinha as omoplatas magras para fóra, como duas azas!

E eu era feliz nesse tempo, quando invejava o Ribas.

Havia na minha febre religiosa certo numero de reservas, que pareciam o

germen de futuro _libertino_, como dizem os padres mineiros; eu não

admittia a confissão, não pensava em communhão, estranhava os

exaggeros do culto publico, votava antipathia aos homens de batina.

Santa Rosalia era a minha devoção.

Porque Santa Rosalia? Não havia motivo: era uma pequena imagem em

cartão, gravura de aço e aguadas de fino colorido, lembrança que me

dera uma prima, então morta, e eu guardava em memoria amavel.

Era boa a priminha. Mais velha do que eu tres annos, carinhosa, maternal

commigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como

uma senhora. Tinha os olhos grandes, grandes, que pareciam crescer ainda

quando fitavam, negros, animados de um movimento suave de nuvem sobre

céu macio; o semblante claro, branco, puro, de marmorea pureza, coando

uma transparencia de sangue a cada face. Raro falava; desconhecia a

agitação, ignorava a impaciencia. Sabia talvez que ia morrer. Ao

vêl-a passar, sem rumor, como os espectros femininos do sonhador

americano--leve na terra como o roçar da veste de um anjo, sentia-se

com aperto de coração que não pertencia ao mundo aquella criança:

buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da fórma, sob a

campa, em sitio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela

manhã--e a liberdade etherea do sentimento.

Um dia, não sei se do pranto que tinha nos olhos, vi animar-se o rosto

á pequenina gravura. Eu pensava na prima; descobri na imagem uma

identidade commovente de traços physionomicos com a pequenina morta.

Guardei então, como um retrato, Santa Rosalia.

Com a evolução de mysticismo era natural completar-se a consagração

da estampa; canonisada triumphalmente no concilio ecumenico dos meus

mais intimos votos.

Era a sala geral do estudo, á beira do pateo central, uma peça

incommensuravel, muito mais extensa do que larga. De uma das

extremidades, quem não tivesse extraordinaria vista custaria a

reconhecer outra pessoa na extremidade opposta. A um lado,

encarreiravam-se quatro ordens de carteiras de páu envernisado e os

bancos. Á parede, em frente, perfilavam-se grandes armarios de portas

numeradas, correspondentes a compartimentos fundos; deposito de livros.

Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos. O dono

pregava um cadeado á portinha e formava um interior á vontade. Uns, os

futuros _sportmen_, criavam ratinhos, cuidadosamente desdentados a

tesoura, que se atrellavam a pequenos carros de papelão; outros, os

politicos futuros, criavam cameleões e lagartixas, declarando-se-lhes

precoce a propensão pelo viver de rastos e pela cambiante das pelles;

outros, entomologistas, enchiam de casulos dormentes a estante e vinham

espiar a efflorescencia das borboletas; os colleccionadores, Ladislaus

Nettos um dia, fingiam museus mineralogicos, museus botanicos, onde

abundavam as delicadas rendas seccas de filamentos das folhas

descamadas; outros davam-se á zoologia e tinham caveiras de

passarinhos, ovos vasados, cobras em cachaça. Um d'estes ultimos

soffreu uma decepção. Guardava preciosamente o craneo de não sei que

phenomenal quadrupede encontrado em excavações de uma horta, quando

verificou-se que era uma carcassa de gallinha!

Eu tive idéa de armar em capella o compartimento do meu numero. Havia

compartimentos enfeitados de chromos e desenhos; o meu seria um bosque

de flôres, e eu acharia uma lampada minuscula para conservar lá dentro

accesa. Ao fundo, em dourado _passe-partout_ alojaria Santa Rosalia, a

padroeira.

O projecto caiu pela difficuldade das flôres. Pagando a um criado, mal

conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de accommodar a

gravura na gaveta do movel que possuiamos ao dormitorio, perto da cama,

para as escovas e os pentes.

E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assidua veneração,

depositava uma flôr, mantendo na gaveta o clima tepido dos meus

fervores, symbolisados num tributo de perfume.

Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas mysticas de Maio, saudei-as

enternecido do alto das janellas do salão azul, como as mensageiras do

amor de Maria.

Iam começar os hymnos pela manhã no oratorio do _Atheneu_. Abençoados

momentos de contricção e ternura, em que á disposição venturosa do

corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia

christã, no magnifico salão, guardando ainda, como os vapores matinaes

das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do

estuque.

[Figura 15]

O sol vinha tambem á capella e collava de fóra a fronte ás vidraças,

brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com

medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro atheu.

Pelas janellas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de

jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da vespera,

cançados, debulhavam-se em conchinhas de nacar pelo soalho, mortos,

expirando no ambiente a alma livre do aroma.

Nós, ajoelhados, resentidos da influencia moral do scenario, oravamos

sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquella

mocidade, naquelle instante, repousando na tregoa da oração das

miseriazinhas da hora commum.

Eu não olhava para o altar. Lá estava rica, no throno illuminado,

sobre tres ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição

Immaculada, alteando á fronte a corôa de prata, onde engastavam

pedraria os reflexos das luzes. A minha contricção, o meu canto

pertenciam a Santa Rosalia, ao querido, cartão singelo que eu trazia

dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando

o extase da fé pelo magnetismo do santo contacto.

O mez de Maio foi a culminação do periodo anagogico de crença.

Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incommodos de meu pae,

impedindo-lhe ás visitas do costume ao _Atheneu_. Eu pensava nos seus

soffrimentos, e era isto mais um thema para as variações do

mysticismo.

A neblina de melancolia, baixada sobre o collegio da altura da

cordilheira, repercussão da tristeza verde das mattas, pesava-me aos

hombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu

passeava na circumscripção do recreio como num claustro, olhando as

paredes, brancas como tumulos caiados, limitando as preoccupações do

espirito á minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na

modestia curvada dos brutos--annullando-me a mim mesmo na angustia do

pensamento religioso, como no sacco de panno bicudo, preto, do

farricoco.

[Figura 16]

O céu, que a imaginação buscara d'antes, como os canticos buscam os

zimborios, caía agora sobre mim como um solideo de bronze.

Triste e feliz.

Ninguem sabia dos sonhos e attribuiam á excentricidade o meu amor á

solidão e ao socego.

Durante o hymno do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os

estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós

empapuçados sobre a cinta de couro, cabellos revoltos, não tomavam o

rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao

respeito d'aquelles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se

não diminuiam as afllicções da terra e os nossos apertos, não é que

o não pedissemos ao Anjo...

Cantavamos a primeira estrophe (o Ribas marcava o diapasão) e as

seguintes, até á ultima, que acabavam todas por uma longa nota

esfusiada em foguete, cantavamos com um esforço de adoração que bem

compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os

collegas.

O diapasão do Ribas era ama deliciosa nota, tratada a pastilhas,

guardada a _cache-nez_ nos dias frios, furto sem duvida ao thesouro de

gorgeios de algum sabiá descuidado. Aristarcho adorava esta nota. As

vezes, na aula de musica chamava o Ribas e pedia-lhe aquella, aquella...

a do hymno...

Ribas candidamente, por agradar ao director, punha de fóra a mimosa

nota, como uma balinha de parto, côr de ambar, na ponta da lingua. Ao

meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro

que todos, o precioso som. O collegio entoava depois, e as vozes iam

todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a

do Ribas recolhia-se aos córos celestiaes, festejada na cordialidade

fraternal dos harmonicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam

da investida num retrocesso icario, desmembradas, desengonçadas,

espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o

conjuncto podia passar por um cantico.

Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.

O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reacção irresistivel

de fadiga. O somno chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa.

O harmonium da capella, dedilhado pelo Sampaio, hoje medico

parteiro, e applicado a extrahir vagidos como outr'ora extrahia os

accordes--produzia vagarosamente roncos de somneira da sésta de um

tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abbade. Alguns

meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas

primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem

longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação,

sustendo-me fervoroso durante a reza nocturna.

Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no

soalho um genuflexorio despertador, fitando arregaladamente os olhos,

ardidos de somno, na lingueta tiritante do fogo das velas...

Alludi varias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se

apresentava habitualmente Aristarcho.

Era um manto transparente, da natureza d'aquelle tecido leve de brisas

trançadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarcho passava aos

hombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade,

geralmente estranho á industria pouco abstracta dos tecelões e á

trama concreta das lançadeiras.

Ninguem conseguiria tocar com o dedo a mysteriosa purpura. Sentia-se,

porém, o influxo da realeza impalpavel.

Assim é que um simples olhar do director immobilisava o collegio

fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um

despotismo cruento.

O director manobrava este talento de imperio com a pericia do corredor

sobre o _pur sang_ sensivel.

A sala geral do estudo tinha innumeras portas. Aristarcho faria

apparições, de subito, a qualquer das portas, nos momentos em que

menos se podia contar com elle.

Levava as apparições ás aulas, surprehendendo professores e

discipulos. Por meio d'este processo de vigilancia de inopinados,

mantinha no estabelecimento por toda parte o risco perpetuo do flagrante

como uma atmosphera de susto. Fazia mais com isso que a espionagem de

todos os bedeis. Chegava o capricho a ponto de deixar algumas janellas

ou portas como votadas a fechamento para sempre, com o fim unico de um

bello dia abril-as bruscamente sobre qualquer machinação clandestina

da vadiagem. Sorria então no intimo, do effeito pavoroso das

armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de marechal,

pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a pregustação de um

repasto de sangue.

Nos momentos de ira e de exaltações eloquentes é que sabia fazer-se

em verdade divino. Era mais que uma revelação temerosa do Olympo; era

como se Jupiter mandasse Mercurio catar á terra os raios já disparados

e os unisse ao stock inavaliavel dos arsenaes do Etna, para soltar tudo,

de uma só vez, de uma só colera, num só trovão, anniquilando a

natureza sob a bombarda omnipotente.

Mas não sómente parodiava elle os furores olympicos. Aquella alma

ductil de artista sabia decair até á blandicia, até á lagrima a

proposito.

Jupiter guardava para a opportunidade a caricia de edredon, o gesto

flexuoso do soberano cysne. Expandia-se ás vezes sobre o _Atheneu_ em

rompimentos de amor paterno, tão derramado, tão geitosamente sincero,

que não tinhamos remedio senão replicar no mesmo tom, por um madrigal

de enternecimento de filhos.

E admiravamos.

A hora solemne do meio-dia Aristarcho aproveitava para distribuir uma

merenda de conselhos, depois do canto e antes de outra de fatias,

incomparavelmente mais bem recebida. Muitas vezes não eram só

conselhos. Tambem reprimendas em massa por culpas collectivas,

arrecadações de cigarros, ou pequenos processos summarios em que se

averiguava a autoria de delictos importantes, como encher de papel

picado uma sala, cuspir ás paredes, molhar a privada, e mesmo muito

mais graves, como num episodio do Franco, que se prende ao periodo beato

das minhas reminiscencias.

Assistia o Mestre com a attenção de costume á reza cantada, fazendo

gyrar nos dedos uma medalha do relogio sobre o collete, na abertura do

fraque. Ao final, depois de um intervallo preparatorio, aperitivo de

emoções, tomou a palavra num tom solemne de revelação e referiu, com

toda a grandeza de que era susceptivel, a hypothese, reclamando a

indignação vingadora do _Atheneu_.

Franco, no domingo da vespera, aproveitando a largura da vigilancia no

dia vago, fôra vadiar ao jardim. E para tomar agua de um poço ahi

existente, cuja bomba não funccionava em regra, deliberou, imaginem!

humedecer a bucha aspiradora com um liquido que Moysés seria capaz de

obter no arido deserto, sem milagre mesmo e sem Horeb. Agora considerem

que o referido poço fornecia agua para a lavagem dos pratos.

Um murmurio de horror elevou-se das alas de estudantes.

«Adianta-te, Franco», mandou Aristarcho.

Com a insensibilidade petrea que o encouraçava para as humilhações,

saiu Franco do logar e de cabeça baixa, como um cão, foi parar no

centro da sala. Alli esteve por alguns segundos, exposto, no meio do

enorme quadrado de alumnos. Os olhares caíam-lhe em cima, como os

projectis de um fuzilamento.

O que mais indignava, era pensar que se havia comido em pratos lavados

depois da profanação irremediavel da lympha. Passado este effeito, com

que contava para a punição moral, o director concluiu o libello.

Ficassemos tranquillos, estavam puros os labios. Franco tinha sido

surprehendido por um copeiro que o prendera, e fôra a bomba

incontinente declarada--interdicta.

Muita gente duvidou da opportunidade da interdicção. Limpavam com asco

a lingua no lenço, esfregavam a bocca até esfolar.

«O porco! bramia Aristarcho. O grandissimo porco!» repetia como um

deus fóra de si. Em redor todos apoiavam a energia da corrigenda.

Resolveu-se, porém, deixar com vida o criminoso.

Aristarcho marcou apenas dez paginas de castigo escripto á noite, e

passar de joelhos as horas de recreio, a começar da presente.

Formulado o veredicto, Franco caiu de rotulas no soalho com estampido,

como se repentinamente se lhe houvesse estalado ás pernas uma mola.

«Ahi não! aqui, tratante!» gritou o director, indicando a porta do

salão. Cantava-se a oração do meio-dia, como sabem, na casa das

recreações em dia de chuva, que alargava tres boas portas para o pateo

central. Aristarcho estava perto da do meio.

De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos

maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos

rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas seductoras da

merenda, ficava ainda o condemnado com um reforçozinho de pena.

Passando por elle, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe

os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma

palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos

com o arremesso dos unicos recursos da sua posição.

Até que um grande, mais estouvado, fel-o cair contra o portal, ferindo

a cabeça. A este, Franco não respondeu; pôz-se a chorar.

Os inspectores fiscalisavam o serviço do pão, prevenindo espertezas

inconvenientes.

Escaparam-lhes os máus tratos.

As desventuras do pobre rapaz e as minhas proprias haviam-me levado para

o Franco. Eu me constituira para elle um quasi amigo. Franco era

silencioso, como arreceiado de todos, tristonho, de uma melancolia

parente da imbecilidade; tinha accessos refreados de raiva, queixas que

não sabia formular. Os livros, causa primeira de seus desgostos,

faziam-lhe horror. A necessidade de escrever por castigo promovera nelle

a habilidade dos galés: adquirira um desembaraço pasmoso na faina de

encher de garranchos paginas e paginas. Esta interminavel escripta

fizera-lhe callos ao canto das unhas: meus dedos perderam o brio, dizia

elle nos momentos de amargo humor, em que improvisava sarcasmos contra

si mesmo.

A principio fugia de mim, resmungando cousas indecifraveis. Depois

acceitou-me. Mas não excediam as suas confidencias o restrictissimo

limite de uns grunhidos de aversão, historias de desastres pandegos que

sabia, ingenuas observações a respeito de assumptos infantis,

referencias de odio aos superiores.

Uma vez recebeu carta da provincia, uma das poucas que lhe chegavam por

anno. Depois da leitura percebi que tinha lagrimas nos olhos. O pranto

era-lhe um acontecimento na physionomia, invariavelmente de uma

pasmaceira de mascara de arame. Interessei-me por aquelle soffrimento;

elle deu-me a carta a ler. O pae do Franco era um pobre desembargador

desterrado nos confins de Matto-Grosso, com oito filhos. Uma carta

dolorosa. Fôra entregue directamente pelo caixeiro do correspondente,

escapando á curiosidade do director, que gostava de espiar a

correspondencia dos alumnos. Falava em vir á côrte no fim do anno, com

todos os sacrificios, falava em encontrar o filho bom menino, educado,

estudioso. Contava depois, entre exclamações consternadas, que uma

filha, a mais velha, desapparecera do collegio onde estava, em companhia

de um professor de piano, homem casado, sendo encontrada tres ou quatro

dias depois ao abandono. Em vão tinham feito perguntas á infeliz no

interesse da punição do culpado; sepultara-se a mocinha num mutismo

desolador, como se houvesse perdido a voz, recusando alimento, não

tirando do chão os olhos desvairados, escravos da contemplação

demente da vergonha.

--Como tem descido Sergio, lastimavam os inspectores, palestrando a

ordem do dia com o director, é o intimo do Franco.

Ainda que isso não fosse rigorosamente exacto, não foi surpreza para

mim vêr o excommungado convidar-me para uma extraordinaria empreza á

noite. «Vingar-me da corja!» murmurava, gargarejando um riso

incompleto e azedo. Isto á tardinha, depois da gymnastica, no mesmo dia

do processo da bomba.

Conseguira no lusco-fusco escapar á sala onde o haviam encerrado para a

tarefa das paginas. E juntos eu e elle, porque eu lhe acceitara o

convite com uma facilidade que ainda hoje não comprehendo, galgámos um

canto de muro que havia no pateo e saltámos para o jardim florestal.

Em baixo das arvores era já noite espessa. Demos uma volta no escuro

acompanhando a curva de uma alameda. O Franco ia adiante calado, andando

leve e rapido como uma sombra no ar. En o seguia irresistivelmente, como

sonhando, num sonho de curiosidade e de espanto. Que ia fazer o. Franco?

Aonde ia elle? Chegámos ao capinzal a um de cujos lados extremos ficava

a natação. Logo ao portão de ingresso nesse terreno, havia um

deposito de lixo, onde os jardineiros accumulavam as varreduras da

chacara, negrejando putrefactas, virando estrume ao tempo.

Franco deteve-se junto ao monturo. Sempre em silencio e activamente,

como para não perder aquelle raro estimulo de vontade que o impellia,

foi examinando o lixo com o pé.

A um canto, entre tocos de bambú, tiniram garrafas. Franco abaixou-se e

como em acção mecanica, sem se voltar, apanhou uma garrafa, outra e

outra; foi-me dando, sobraçou ainda outras e proseguimos, o Franco

adiante, leve e rapido, sempre no seu andar de sombra, como suspenso e

diffuso na nevoa quasi lucida do campo aberto.

Atravessámos o capinzal quasi sumidos entre as altas bandas de capim

d'Angola, cuja escura vastidão se constellava de vagalumes e vibrava da

grita intensa dos grilos e do clamor dos sapos. Diante da natação o

Franco parou e me fez parar, «A minha vingança!» disse entre dentes,

e me indicou a toalha d'agua do grande tanque. A massa liquida, immovel,

na calma da noite, tinha o aspecto de lustrosa calçada de azeviche;

algumas estrellas repetiam-se na superficie negra com uma nitidez

perfeita.

Com o mesmo modo atarefado de todo aquelle singular emprehendimento, o

Franco acercou-se de mim, tirou-me as garrafas que me dera e

desappareceu da minha vista.

Eu ouvi que elle quebrava as garrafas uma por uma. D'ahi a pouco

reapparecia, trazendo as abas da blusa em regaço. E começou a lançar

então com o maior socego ao tanque para todos os lados, aqui, alli,

dispersamente, como semeando, as lascas do vidro que partira. Um breve

rumor de mergulho borbulhava á flôr d'agua, abrindo-se em circulos

concentricos os reflexos do céu. Eu vi muitas vezes contra o albor mais

claro do muro fronteiro, passando, repassando, a sombra do sinistro

semeador.

«A minha vingança!» repetiu-me ainda o Franco. «Para o sangue,

sangue, accrescentou com o rizinho secco. Amanhã rirei da corja!...

Trouxe-te aqui para que alguem soubesse que eu me vingo!»

Ao falar mostrava-me o lenço que enxugara o sangue do golpe á testa.

O justo terror da aventura, era logar vedado, por aquellas horas, só me

assaltou quando, a pular o muro do pateo, fui cair entre as mãos do

Sylvino. Nos apuros da alhada, mal vi o Franco seguro pelo pescoço,

como um ladrão em flagrante.

Em presença do director, no escriptorio inquisitorial, improvisei uma

mentira. Foramos colher sapotis, affirmei, explicando á tremenda

arguição a estranheza da sortida. O director marcou a pena de oito

paginas. Franco, que andava com um _deficit_ de vinte pelo menos, teve

de accrescentar mais estas ao passivo insolvavel. Pela vergonha da

tentativa de furto e no systema dos castigos moraes, addicionou-se a

observação supplementar: passariamos, os delinquentes, no outro dia,

as horas do almoço e do jantar, ao refeitorio, de pé, carregando em

cada mão quantos sapotis coubessem.

Todo o requinte de punição não me deu cuidado; pelo contrario, estava

nas condições do meu programma de pequeno martyr _ad majorem gloriam_.

Ao deixar o escriptorio outra cousa preoccupava-me. Ardia de remorsos;

tinha cacos de garrafa na consciencia. A armadilha sanguinaria de Franco

obsedava-me como um delicto meu.

Depois das horas do serão de estudo, quando se retiravam os estudantes

para os dormitorios, fiquei com o Franco a trabalhar. Tive que

suspender, ao fim de quatro paginas. Devorava-me o remorso como uma

febre; aterrava-me a idéa do banho na manhã seguinte, os rapazes

atirando-se á vingança perfida, a agua toldada de rubro. Impossivel

fazer mais uma linha. Deixei o companheiro e fugi para o salão dos

medios.

A excitação recrudesceu; eu rolava na cama sobre um tormento de lascas

cortantes. Que fazer? Denunciar o Franco de madrugada? Correr, ás

escuras, e abrir o escoadouro ao tanque? Prevenir aos collegas, pedindo

que espalhassem? A controversia avultava-me no craneo como uma

inchação de meninges. Dar-se-ia caso que Franco, possuido de

arrependimento, fosse apresentar cedinho aos inspectores a delação do

proprio feito? Cheguei a tentar o engodo da consciencia com a

ponderação de que talvez não saltassem ao tanque muitos de uma vez, e

o primeiro ferido salvaria os outros. Mas a febre vencia, com a

perspectiva do sangue. Dez, vinte, trinta rapazes, á borda, gemendo,

extrahindo difficilmente da carne as lascas encravadas! E eu, cumplice,

que o permittira, e maior culpado, que me não cegava a razão, em

summa, de justa desforra...

Ergui-me da cama, e descalço nas taboas frias, para vêr se me acalmava

o mal-estar, errei pelos salões adormecidos.

Os collegas, tranquillos, na linha dos leitos, afundavam a face nas

almofadas, pallejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns

affectavam um esboço commovedor de sorriso ao labio; alguns, a

expressão desanimada dos fallecidos, bocca entre-aberta, palpebras

entre-cerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De

espaço a espaço, os lençóes alvos ondeavam do hausto mais forte do

peito, alliviando-se depois por um d'esses longos suspiros da

adolescencia, gerados, no dormir, da vigilia inconsciente do coração.

Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a

pender da cama, guardando no abandono do descanço uma attitude ideal de

vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces,

vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de caricias. O

ar de fóra chegava pelas janellas abertas, fresco, temperado da

exhalação nocturna das arvores; ouvia-se o grito compassado de um

sapo, martellando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros

e outros, mais longe. O gaz, frouxamente, nas arandelas de vidro fosco,

bracejando dos balões de aza de mosca, dispersava-se igual sobre as

camas, doçura dispersa de um olhar de mãe.

Que venturosa segurança naquelle museu de somno! E amanhã, pobres

collegas! o banho, a volta, pés ensanguentados, listrando de vestigios

vermelhos o caminho!

[Figura 17]

Voltei ao meu salão. Tirei da gaveta a imagem de Santa Rosalia;

beijei-a com lagrimas, pedi conselho como um filho. A inquietação não

passava. Atravessei ainda os dormitorios devagarinho, que me não

ouvisse o Margal, accommodado num biombo a um dos angulos do salão

azul. Uma crepitação dos ossos do tornozelo esteve a ponto de me

comprometter. Dentro do biombo, tossiram; parei um momento; curou-se a

tosse; prosegui.

Desci ao primeiro andar do edificio; entrei na capella.

A capella em trévas, de um negrume absoluto de merinó preto. A

escuridão dava-lhe uma amplitude de subterraneo, mysteriosamente

sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no

estrado. Ajoelhei-me no chão e descancei a testa nos braços a um dos

angulos do estrado do oratorio. Rezei.

Na qualidade de máu estudante não sabia até ao fim nenhuma oração.

Rogava por minha conta, improvisando supplicas, vehementes, angustiosas,

que deviam forçar a hombro a porta de S. Pedro. Implorava de Deus

directamente, sem o intermediario empenho da minha padroeira. Até que,

não posso dizer como, adormeci.

Uma palmada acordou-me. Era dia. Ergui-me vexado, de camisola, diante do

Margal e de uma porção de collegas que miravam. «É somnambulo, é

somnambulo», explicavam.

Esta saída dispensava-me de dizer a que fôra alli; encampei a

explicação, concordando. «Que horas são? perguntei. Seis horas,

responderam. Chegamos agora mesmo do banho.» Tinham os cabellos

empastados sobre os olhos. «E os cacos?!» gritei espavorido. Examinei

os pés dos companheiros. Nas chinelas com que desciam ao banho não via

sangue! Esclarecia-se: houvera ordem de banhos de chuva no competente

banheiro, alojado em um dos commodos baixos do _Atheneu_, pelo motivo de

ter servido seis vezes a agua da natação. Graças ao Senhor! Vinha-me

do céu esta solução de aguas sujas, alcançada pela minha prece.

Dilatou-se-me a alma em ditoso allivio.

Á minha interjeição explosiva de cacos, os collegas suppuzeram

tontura de somno. Não assim o inspector, que me chamou a indagar. Nova

mentira: durante a escapada dos sapotis, uma garrafa, que arremessei de

máu geito, fizera-se em cacos contra o muro, sobre o tanque.

Providenciou-se. O criado encarregado de varrer o tanque, com o zelo da

domesticidade, chamou attenção para o numero dos fragmentos; tão

extraordinaria era a hypothese da intenção perversa que não pegou.

No mesmo dia estive com o Franco, durante os recreios, a completar a

pena. Não me disse palavra acerca da decepção da sua vingança.

Julgando-se compromettido, concentrava-se na insensibilidade de

carapaça que o defendia, esperando tudo, a minha delação, uma

trovoada de doestos, a _cafua_, um accrescimo ao _deficit_ permanente da

divida penal. Aborrecia-se, porém, da necessidade de ser punido por um

fiasco de tentativa.

Quanto ao requinte da exposição no refeitorio, mãos cheias de

sapotis, não houve meio de obrigar-me Aristarcho. Concordara em ficar

de pé; não era pouco. Franco naturalmente submetteu-se e lá esteve,

braços abertos, a fazer de fructeira no interesse do systema das

punições moraes. Tanto melhor para o systema.

Á vista da reluctancia, calculou-se em paginas de escripta quanto

podiam valer dous punhados de sapotis; reducção difficil, que a

justiça collegial alcançou mathematicamente, pronunciando uma

condemnação que me daria que fazer até mais de meia-noite.

Este rasgo de vigor mentia ao meu religioso papel de submissão e

soffrimento. Foi o repentino prenuncio de proxima refórma no interior

espiritual. E, como as evoluções da vontade sabem extrahir de qualquer

facto a hermeneutica do determinismo, deu-se immediatamente uma

occorrencia que ponderou muito na transformação.

De noite, novamente ao lado do Franco, a fatigar-me na tarefa das

paginas, tive que ficar até tarde numa das salas do primeiro andar.

Pelas dez e meia, o director, antes de sair para casa, veio vêr-nos.

«Ainda escrevem... estes peraltas?...» disse-nos de enorme altura, á

guisa de boas-noites, e desappareceu confiando-nos ao amavel João Numa,

bacoro, inspector das salas de cima. Na sua qualidade de gorducho, o

João não era diligente. Apenas viu partir Aristarcho, trancou a ultima

porta do _Atheneu_ e foi dormir.

Acabrunhado pela noitada anterior, estava eu de somno que mal podia

erguer a cabeça. De uma vez que cedi ao cançaço fui despertado por

sentir que me alisavam a mão. Adormecera sobre o braço direito contra

a carteira, pousando o rosto na tinta do castigo, deixando cair o braço

esquerdo para o banco. Um instante depois estava fóra da sala, de um

pulo, como se tivesse reconhecido em sonhos que o Franco era um monstro.

Ao dia immediato saí da cama como de uma metamorphose. Imaginei,

generalisando errado, que a contemplação era um mal que o mysticismo

andava traidoramente a degradar-me: a convivencia facil com o Franco era

a prova. O _Atheneu_ honrava-me, por esse tempo, com um conceito que só

depois avaliei. Eu não me julgava assim tão apeiado, mas suppuz-me

directamente a caminho de um mergulho. Se a alma tivesse cabellos, eu

registraria neste ponto um phenomeno de horripilação moral.

Fiquei perplexo.

O triumpho na escola podia ser o Sanches; em compensação, a humildade

vencida era o Franco. Entre os dous extremos repugnantes,

revelavam-se-me tres amostras typicas á linha do bem viver: Rebello, um

ancião; Ribas, um angelico; Matta, o corcunda, um policia secreta. Para

angelico decididamente não tinha geito, estava provado, nem omoplatas

magras; para ancião, não tinha idade, nem oculos azues, nem máu

halito; para ser o Matta, faltava-me o justo caracter e a corcova...

Onde estava o dever? Na cartilha? Na opinião de Aristarcho? Na

misanthropia senil dos oculos azues?

Salteou-me nisto, ás avessas, o relampago de Damasco: independencia.

V

[Figura 18]

Devo, entretanto, é minha ephemeride religiosa a maior somma de

gratidão. Suavisou-me com a complacencia divina o periodo de vadiação

profunda e amollecimento hypnotico com que me pesou a atmosphera do

_Atheneu_. Toda a perseguição de castigos, sem prejuizo da minha

delicadeza moral resvalava pelo cilicio da penitencia; eu emergia forte

das provações. Que tranquillidade, na apathia, ter por fiador a Deus!

Iamos á missa nos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o

director os visse attentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me

o espirito para o alto e adherir á abóbada como as decorações

sagradas, ajustar-se estreitamente nos detalhes da architectura do

templo como o ouro subtil dos douradores, conservar-se lá em cima,

ávido ainda de ascensão, ambicioso de céu como a baforada dos

thuribulos.

Havia accessos communicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu

não tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal

dominadas por um olhar de Aristarcho, de joelhos á frente do collegio e

mãos cruzadas sobre o castão do unicornio; como certa vez que um cão

bregeiro e sem principios, mesmo ao elevar-se a santa Particula, entrou

e escapou-se com o casquete de um fiel contricto. Eu resistia ao riso.

Cantavamos ao côro em dias solemnes. Melhor organisação vocal

possuiria o _Orpheon_ do que a minha; mas se cantassem os corações em

vez dos labios, nenhum hymno evolaria mais largo, mais bello que o meu.

Traziam-nos agua com assucar num jarro de vidro para molhar as cordas

vocaes. Eu rejeitava esta doçura terrena.

O _Atheneu_ concorria para o brilhantismo das procissões. Eu me

embrulhava amplamente na opa, encarnada como os sacrificios, que me

podia enrolar tres vezes: empunhava uma tocha que me martyrisava os

dedos com os pingos ardentes de cêra. E lá ia, cobiçando ainda a

força lombar dos mascates para ter ás costas, eu só, aquelles pesados

andores; invejando o garbo ao presidente da Philarmonica particular

_Prazer do Rio Comprido_, que vinha após no prestito, com o estandarte

S. P. M. P. R. C., e o punho athletico de um equilibrista de perchas

para levar correcto e rijo os balançados guiões.

Com que tristeza, ao entrar a procissão, quando o director nos mandava

seguir para o collegio, com que tristeza não espiava de longe, pela

porta, o interior flammejante do templo! Lá ficava a festa de Deus...

e nós para o _Atheneu_ soturno, em marcha inexoravel! Eu sacudia a

cabeça com desespero; não podia soffrer a privação d'aquella

alegria, gozar na alma a orgia de fogo dos altares, subir com o

pensamento, degráus, degráus, ao throno scintillante, arrojando-se

para cima na escalada da Gloria.

Depois d'esses enthusiasmos foi-se-me a religião escurecendo.

Era meu vizinho, na sala geral do estudo, Barreto, um personagem duplo,

que representava, nas horas de recreio, a folgança em pessoa e tinha

momentos de meditação trevosa com esgares de terror e falava da morte,

da outra vida, rezava muito, tinha figas de pau, bentinhos,

medalhazinhas em cordões, que saltavam fóra do seio ao brinquedo.

Iniciara-me Sanches no Mal; Barreto instruiu-me na Punição. Abria a

bocca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chammas; ao

calor d'aquellas praticas, as culpas ardiam como sardinhas em frege.

Barreto andara num seminario rigoroso, regimen de nitro para congelar as

ardencias da idade. Era magro, testa de Alexandre Herculano, beiços

finos, olhos pretos, refulgentes, saídos, physionomia geral de caveira

em pelle reseccada de mumia. No queixo viam-se-lhe dous fios unicos de

barba, em caracol, cada um para a sua banda.

Só elle, talvez, conheceu-me as preoccupações beatas. Senhor do meu

fraco, pôz-se a informar dos pavores da fé com a emphase satisfeita de

um cicerone. Recordo-me de um assumpto: a communhão sacrilega! A

proposito, Barreto me deu um livro a ler, um livro cruel, que descrevia

cousas dignas de Moloch; crianças directamente justiçadas pela celeste

colera, uma d'ellas que, por haver commungado sem confissão prévia,

illudindo ao sacerdote, fôra apanhada pela roupa entre dous cylindros

de aço d'uma machina e reduzida a pasta, acabando impenitente, maldita,

sem tempo para um ai Jesus... Era-me incrivel que de uma simples hostia

podesse a thaumaturgia da crendice obter tantos effeitos de terror.

Barreto commentava reforçando. Mettia medo acceso em iras santas de

prégador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da

Providencia, na terra, dos supplicios da eternidade. Descrevia o inferno

como se tivesse visto. Rubida caverna, dragões verde-negros, côr de

limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condemnados, demonios

fulvos revolvendo tachos de asphalto em fusão, outros espiritos

caudatos levando a chuço magotes, para os tachos, de inconsolaveis

reprobos.

Li a _Nova Floresta_, de Bernardes. O reverendissimo autor veio retocar a

obra do Barreto, com as suas narrativas de illuminado terrifico.

Comecei a achar a religião de insupportavel melancolia. Morte certa,

hora incerta, inferno para sempre? juizo rigoroso; nada mais negro!

Era cedo demais, para que eu podesse pesar philosophicamente a

revelação; encontrei, todavia, embaraço invencivel no ritual das

ceremonias. Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular

litteralmente uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente na

prescripção fastidiosa do preceito. Ir á missa, muito bem; mas o

resto e ainda mais a dependencia dos senhores ministros do culto... Em

duas palavras: a sacristia e o inferno, provaveis escandalos e horrores

inevitaveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes tentado

dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitissimo, com um pequeno

jejum ainda por cima; ao dia seguinte, nota má! Era um descredito para

o favor divino. Que custava á summa Omnipotencia modificar em licção

sabida uma ignorancia soffrivel, como transmutara em fartura sem conta

uma miseria de cinco pães?

Ia-se por esta fórma a exaltação dos meus fervores, quando me achei

envolvido no episodio dos cacos. A attribulação do remorso reaccendeu

por um momento a chamma decadente; o resultado da minha supplica nesse

duro transe não provara mal; muito adiantada, porém, ia a

decomposição do meu extase. Eu esqueci a circumstancia com a

ingratidão facil dos pretendentes servidos. E cheguei á conclusão

audaz.

Não tendo força para estacar de arranco a torrente dos seculos

christãos, consegui ao menos ficar á margem. Ignorante do atheismo,

limitei-me a voltar o rosto aos phantasmas do eterno. Subi ao

dormitorio, tirei da gaveta Santa Rosalia, guardei a flôr da ultima

offerenda, secca, porque a minha pontualidade de culto faiscava já,

depuz-lhe em despedida um osculo, e, sem mais profanação, fil-a baixar

á sala de estudo, onde lhe commetti o modesto encargo de marcar as

paginas de um volume. Estava demittida a minha padroeira!

Pouco depois, algum apaixonado de gravuras raptou-m'a, e eu lamentei

apenas perder a lembrança da saudosa prima.

Maio tinha passado e as rosas; acabaram-se as orações á Virgem. Sem

os hymnos da manhã, sem o sorriso a côres de Santa Rosalia, restava-me

o Deus dos novissimos, das communhões sacrilegas, o Deus selvagem do

Barreto. Positivamente não quiz saber do carrasco; alijei a

metaphysica como um pesadelo. E me achei de novo sósinho no _Atheneu_;

sósinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compendio,

panorama da noite consoladora.

E ainda bem, que voltava da crença pela Via-lactea, como para a crença

fôra. Retirada honrosa de um desengano.

Os dias de saída eram de quinze em quinze. Partia-se ao domingo, depois

da missa; voltava-se á segunda-feira, antes das nove da manhã. Os dias

santos de guarda occasionavam saídas de vespera. O commissario dos

generos e despenseiro insistia com o director afrouxasse mais o systema

de feriados. Os rapazes precisam passear, gryphava elle, com a liberdade

de mordomo confidente. Aristarcho replicava com a invenção cordata dos

generos de terceira, elasticidade insensivel dos orçamentos.

Havia, porém, saídas extraordinarias de premio ou de obsequio.

A cada licção julgada boa, o professor assignava um papelucho

amarello, _bom ponto_, e entregava ao distincto. Dez premios d'estes

equivaliam a um cartão impresso, _boa nota_, como dez vezes vinte réis

em cobre valem um nickel de duzentos. O systema decimal applicava-se

mais á conquista de um diploma honroso, equivalente a um baralho de dez

cartões de boa nota. Com tal diploma era o estudante candidato á

condecoração final de uma medalha, de prata ou de ouro, conforme

fosse mais ou menos optimo nos diversos superlativos do merecimento

escolar. Reduzia-se assim a papel o valor pessoal, na _clearing-house_

da directoria; ou, melhor: adaptava-se a theoria de Fox ao processo das

recompensas, com todos os riscos de um cambio incerto, sujeito aos

panicos de banca-rota, sem um criterio de justiça a garantir, sob a

ostentação do papel-moeda, a realidade de um numerario de bem

aquilatada virtude.

Fosse como fosse, certo é que, com os bilhetes de boa nota, comprava-se

uma saída, e isto era o importante, como nos paizes de más finanças:

desde que o papel tem curso, de que vale o valor?

Inutil é dizer que me não chegavam nunca as saídas de premio. Tanto

melhor me sabiam as outras.

Durante a primeira quinzena de collegio, o pensamento de um feriado e

regresso á familia inebriou-me como a anciedade de um ideal fabuloso.

Quando tornei a vêr os meus, foi como se os houvesse adquirido de uma

resurreição milagrosa. Entrei em casa desfeito em pranto, dominado

pela exuberancia de uma alegria mortal. Surprehendia-me a ventura

incrivel de mirar-me ainda nos olhos queridos, depois da eternidade

cruel de duas semanas. Não! A magnanimidade do cataclysmo temido

favorecera o meu tecto. Deus permittira, na largueza prodiga da summa

bondade, que eu revisse a nossa casa sobre os alicerces, o nosso tão

lembrado tecto e a chaminé tranquilla a fumar o _spleen_ infinito das

cousas immoveis e elevadas.

Com o tempo habituei-me á feliz probabilidade de achar na mesma os

prezados lares, e ousei nos momentos da scisma collegial fundamentar

projectos de divertimento sobre a esperança de que, abusando a minha

ausencia e só para me atormentar o coração, a terra se não havia de

abrir e devorar exacta e exclusivamente o que me era mais caro.

Não foram, porém, preoccupações pueris de temor, nem prospectos de

folguedo que levei ao primeiro dia de saída depois da demissão de

Santa Rosalia.

Vinha buscar-me um criado. Eu, adiante do portador, na minha fardeta de

botões dourados, parti do _Atheneu_, grave e mudo como um diplomata a

caminho da conferencia. Ia effectivamente ruminando a mais séria das

intenções: affrontar uma entrevista franca com meu pae, descrever-lhe

corajosamente a minha situação no collegio e obter um auxilio para

reagir.

Meu pae acabava de deixar o leito. Nada sabia dos meus ultimos

insuccessos. Ficou admirado e consternado. D'ahi o exito completo da

minha entrevista.

Dias depois, no collegio, eu era um pequeno potentado. Derrubei o

Sanches; consegui a revogação da disciplina das espadas; reconquistei

a benevolencia de Manlio; levantei a cerviz! Desembaraçado do arbitrio

pretencioso de um vigilante, o trabalho agradou-me. Um conselho de casa

affirmou-me que havia a nobre opinião de Aristarcho e a opinião ainda

melhor da cartilha, mas havia uma terceira--a rainha propria, que se

não era tão boa, tão abalisada como as outras, tinha a vantagem alta

da originalidade. Com uma palavra fez-se um anarchista.

D'ahi por diante era fatal o condicio entre a independencia e a

autoridade. Aristarcho tinha de roer. Em compensação, adeus

esperanças de ser um dia vigilante! principalmente: adeus indolencia

feliz dos tempos beatos!

Para a campanha da reacção, armazenei uma abastança inextinguivel de

vaidade e deliberei menosprezar do melhor modo premios e applausos com

que se diplomavam os grandes estudantes. Habituado á vida do internato,

nutria a certeza de conseguir sósinho quanto não podera com o amparo

de um amigo, nem com a ajuda de Deus. No firme proposito de me não

fazer exemplar nem me applicar ao cobrejamento de habilidades a que o

papel de modelo obrigava, estabeleci, comtudo, a razoavel mediocridade

sem compromissos, de um novo programma.

Poucos premios ganhava dos papeluchos amarellos; era contrapeso

facilitava aos poucos que me vinham a emancipação bohemia do cisco.

Por esta escala foram ter alguns com o meu nome ao gabinete do director.

Aggravo de desdem que se não perdoaria jamais.

Desenvolveu-se nas alturas uma antipathia por mim, que me lisongeava

como uma das formas da consideração. Chegava eu assim, por trajecto

muito differente do que sonhara á desejada personificação moral de

pequeno homem.

Invejosos da minha altivez, os inimigos fizeram partido. Sanches era o

chefe, na cortina; Barbalho era o _leader_ abertamente. Eu sorria

vaidoso, levando de vencida a guerrinha, como a espuma á proa de um

barco.

Este foi o caracter que mantive, depois de tão varias oscillações.

Porque parece que ás physionomias do caracter chegamos por tentativas,

semelhante a um estatuario que amoldasse a carne no proprio rosto,

segundo a plastica de um ideal; ou porque a individualidade moral a

manifestar-se, ensaia primeiro o vestuario no sortimento psychologico

das manifestações possiveis.

Reinavam no _Atheneu_ duas perniciosas influencias que contrabalançavam

efficazmente o porejamento de doutrina a transudar das paredes, nos

conceitos de sabedoria decorativa dos quadros, e ainda mesmo a policia

das apparições ubiquas e subitaneas do director. Cousa difficil de

precisar, como a disseminação na sociedade, do principio do mal,

elemento primario do dualismo theogonico. O _meio_, philosophemos, é um

ouriço invertido: em vez da explosão divergente dos dardos--uma

convergencia de pontas ao redor. Através dos embaraços pungentes

cumpre descobrir o meato de passagem, ou acceitar a lucta desigual da

epiderme contra as puas. Em geral, prefere-se o meato.

As maximas, o director, a inspecção dos bedeis, por exemplo, eram tres

espinhos; as referidas influencias eram mais dous. A mocidade ia

transigindo do melhor geito com as bicudas imposições das

circumstancias.

Representavam-se as influencias dissolventes por duas especies de

encarnação, fundidas em hybridismo de disparate--a da fórma feminina

personificada em Angela, a canarina, ou antes a camareira de D. Emma, e

a de um encontro de taboas humildes, conjunctadas ás pressas, por

força do prosaismo incivil de um episodio da economia organica.

Falavam assim á imaginação, impressões de relance, um olhar banhado

de lascivia, a tempestade galopante das roupas, em desordem de fuga,

calculada para effeitos de irritação, um descuido de alças afrouxadas

ao corpinho, um proposito de poças d'agua em dias de chuva, obrigando a

saias curtas e canellas núas, ora a uma porta em rapida passagem, ora

através do parque frondoso; ou ao escriptorio, por motivo de recados de

D. Emma cuja frequencia desesperava o director; ou sobre o muro da

natação, ou a qualquer canto com os copeiros, em duetto de idyllio que

se espiava; ou em graçola aventurada aos inspectores, que se babavam.

Os grandes pilheriavam; os pequenos, sérios, olhavam como quem aprende.

Depois, a conspiração dos sarrafos, o favor ao vicio á sombra do

pinho alcatroado, a penuria do fumo, a mendicidade das fumaças

concedidas por beneplacito de dedicação, a pontinha do _bird's eye_ de

bocca em bocca, como o chimarrão do Rio Grande, mordida, salivada,

saboreada com todo o gosto acre do que se esconde e que é vedado, e a

lembrança solitaria, devastadora das imagens do mal, distantes,

inalcançadas, dança de flôres doudas ao vento; a correspondencia

covarde acolhida num intersticio de traves como em asylo de infima

miseria; as obscenas leituras, e o alvoroço do receio perpetuo, adubo

caustico de prazer máu; a vaidade de illudir, a secreta mofa, o

appetite de cupim pela demolição invisivel do que está constituido, a

urdidura preoccupada, extenuante de uma tramazinha de hypocrisias

minimas e complicadas--vivescencia vermicular dos estimulos torpes,

respirada no ambiente corrompido do retiro, nascida de baixo, de um

buraco, propaganda obscura da lama.

E diluia-se pelos semblantes a pallidez creme, cavavam-se olhares

vitreos das regiões do impaludismo endemico.

Soavam-me ainda aos ouvidos as predicas de ascetismo do Barreto. Para

elle o mal era femea. O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe um

rabo ao coccyx e criava o Satanaz bilontra, immoral e alegre. A cauda do

demonio do Barreto era de rendas. Na rua do Ouvidor, faria o

Satanaz--fanfreluche. Uma cousa horrivel, com dous olhos, destinados á

perdição dos homens. Saia digna de consideração, só a de padre,

que, por signal, é batina, não é saia. O mais não passava de

pretexto da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra. Cuidado com

Satanaz sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço com dous seios,

uma pantomima do inferno, faceira e traidora, gracioso e comburente,

d'onde por descuido e por acaso vae-se desprendendo a humanidade, como

as cobrinhas pyrotechnicas de Pharaó. O menor descuido, desgraça

eterna!

Contou-me que o porteiro do seminario em que estivera, para não ser

despedido, fôra intimado a separar-se da propria irmã. Deus, para vir

ao mundo, tinha severamente elaborado o mysterio excepcional de uma

virgindade sem mancha. E, se não fossem as prophecias, que não podiam

ficar compromettidas, o vehiculo a Conceição, por amor da insexual

pureza, teria sido o carapina José, ou mesmo o velho Zacarias, ainda

mais respeitavel pela calva.

A theologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar

quanta imagem de sorriso viesse pousar-me á idéa. Virando a pagina dos

fervores, a theoria ficou-me de resto, do Satanaz feminino. Com a pureza

a mais, natural da idade, ia zombando de Angela e pompas adjacentes.

Fechado o peito como a paz de Jano, e exteriormente a vaidade me

amparava.

Para me prevenir ainda mais, veio uma occorrencia provar pelo facto que

o Barreto tinha razão acerca da influencia feminina; uma occorrencia

que ensanguentou os annaes do estabelecimento, entristecendo o director,

embora a final se lhe tornasse agradavel pelo muito que fez falar do

_Atheneu_.

Tinhamos acabado de jantar e corria como sempre a recreação, que

precedia a hora da gymnastica. Das bandas da copa, ordinariamente

socegada, chegou-nos subitamente um rumor de algazarra. Era estranho.

O alarido cresceu; uma altercação violenta; depois fragor de lucta, o

estrondo de uma mesa tombando. Depois gritos de soccorro; mais gritos; a

voz de Aristarcho aguda, dando ordens como em combate. Estavamos

attonitos.

De repente vimos assomar á porta, que dominava o pateo sobre a escada

de cantaria, um homem coberto de sangue. Um grito de horror escapou a

todos. O homem precipitou-se em dous pulos para o recreio. Trazia um

ferro na mão gottejando vermelho, uma faca de lamina estreita ou um

punhal.

«Matou! matou! gritavam da copa; pega o assassino!»

Sobre os passos do fugitivo vinham diversas pessoas. João Numa,

gordinho, livido e tremulo, ao descer a escada, rolou, partindo os

oculos na pedra.

Aristarcho, a uma janella, bem certo da inviolabilidade pessoal, ao

peitoril, desenvolvia uma energia sem limites, mandando pegar o homem da

faca. Os inspectores do recreio tinham azulado. Os rapazes berravam como

loucos.

Inesperadamente reapparece o Sylvino, muito branco, com as suissas mais

pretas, pelo contraste do medo:

«Esperem! esperem! dizia convulso, como quem traz na algibeira um

expediente salvador. Esperem!»

Exactamente no meio do pateo abriu as immensas pernas de Rhodes magro, e

levou á bocca um apito.

Infelizmente, com a força do sopro engasgou-se o assobio, depois de

dous chilros falhos.

Cercado pelos criados que o perseguiam com trancas e cacetes, o homem da

faca, cuja intenção era escapulir para o jardim, encostou-se a uma

parede, «Deixem-me passar, que mato mais um,» rosnava, com a

physionomia faiscante, «Caminho para mim!» repetia, agitando o ferro

num fremito de cascaveis.

Alguns moços destemidos tinham-se avizinhado e completavam o imprudente

cerco.

«Abre!» rugiu praguejando o criminoso acuado. E, de um salto de fera,

arremessou-se contra os sitiantes, brandindo a faca.

Com a milagrosa destreza do instincto de conservação, cada um

safou-se como pôde: o perseguido passou como um tiro. «Fugiu!»

clamavam de todos os lados.

Quando o vimos cair de bruços.

Alguem se precipitara inesperadamente ao seu encontro e, escorando-o com

o joelho e empolgando-o pelo gasnete, com o punho o fizera rodar por

terra.

Era o Bento Alves!... Com uma das mãos, o bravo collega opprimia a cara

ao sujeito contra o solo, ralando-a na areia, com a outra, por um

prodigio de vigor, immobilisava-lhe o braço armado. Com o esquerdo

livre, o criminoso firmava, tentando erguer-se. Esmagava-o a pressão de

um monolitho.

Quando foram em auxilio, já o Bento Alves desarmara o adversario,

coagindo por meio da tenaz dos dedos com que lhe ferrava o congote.

De toda parte, acclamavam-no heróe. Á janella, de longe, Aristarcho,

enthusiasmado, esquecia o divino aprumo e bracejava como um moinho de

vento, sem conseguir dar voz á emoção.

Bento Alves retirou-se com a faca em trophéu, deixando o criminoso sob

uma pilha de valentes da ultima hora e criados que o suffocavam.

Quando o pobre diabo pôde tomar pé, manietado, amarrado de mil

maneiras por cintas de couro, como as mumias no envoltorio de tiras,

acercou-se d'elle o Sylyino e o aggrediu covardemente com um sermão de

moral.

Era criminoso dizia-se. De que crime? Dentro de alguns momentos o

collegio inteiro o sabia.

O homem da faca era um dos jardineiros do _Atheneu_. Durante o jantar

enfrentara-se de razões com um criado da casa de Aristarcho e o matara.

Havia algum tempo que disputavam os dous a primazia no coração de

Angela; uma terrivel pendencia. O criado de Aristarcho julgava-se na

legitima posse d'esse escrinio de affectos, pela convivencia ao lado da

bella, consorciados maritalmente na intimidade dos alguidares, onde as

mãos se confundiam como as louças ou na sociedade affectuosa do

serviço dos aposentos do director e da senhora, permutando entre si

dichotes assucarados, á flagellação dos tapetes.

O jardineiro, patricio da camareira, dava por si a razão de

nacionalidade, o facto de haverem chegado á America na mesma turma de

immigrantes e uma autoação completa de juramentos idoneos da

seductora.

Levados a tal aperto os nós da paixão não se desatara; cortam-se. O

jardineiro cortou. Por mór azedume da situação, dizem que Angela de

parte a parte estimulava os adversarios declarando a cada um por sua vez

preferil-o exclusivamente.

Confiado o assassino aos urbanos, tornou-se a victima o objecto das

attenções.

Era este um rapagão de trinta annos, pardo e sympathico. O assassino

era mais escuro, especie de andaluz de touradas, baixo, solido, grosso

como um cepo de açougue.

Apenas desappareceu o criminoso, o collegio inteiro assaltou a escada,

desejosos de vêr o assassinado. Á porta do refeitorio, porém,

Aristarcho despachou: «não têm que ver!» Ao mesmo tempo a sineta

importuna badalava chamando á forma. O professor Bataillard, de branco,

no cinturão vermelho, appareceu ao lado do director. Os rapazes

morderam-se de raiva. E não houve nunca no mundo dous superiores mais

odiados.

Mas a teia da disciplina tinha malhas de maior largura. Alguns rapazes

acharam meio de se esgueirar até á copa, e eu tambem com elles.

Desde muito, andava querendo ver um cadaver, espectaculo real, de mãos

contrahidas, revirados beiços. As carias iconographicas de parede

deixavam-me impassivel, com as estampas theoricas de cerebros a

descoberto, globos oculares exorbitados, ventres golpeados em abas,

mostrando visceras, figuras humanas de pé, descançando a um quadril,

movendo a supinação num geito de complacencia passiva, esfolados para

que lhes vissemos as veias, modelos vivos da sciencia em pose de

supplicio, constancias de brahmane, como á espera que houvéssemos

aprendido de cór a circumvolução do sangue, para vestir de novo a

pelle e os musculos deslocados. Não me bastava.

Nos grandes armarios havia melhor: peças anatomicas de massa, sangrando

verniz vermelho, legitima hemorrhagia; corações enormes, latejantes,

humidos á vista, mas que se destampavam como terrinas; olhos de

cyclope, arrancados, que pareciam viver ainda estranhamente a vida

solitaria e inutil da visão; mas olhos que se abriam como fôrmas de

projectis de entrudo. Mas eu queria a realidade, a morte ao vivo.

Lembrava-me de ter visto um anjinho, entre velas no caixão agaloado,

simples carinha amarellenta, sombreada de azul em nodoas dispersas, em

mãos crispadas numa fita, cobrindo-se de flôres a immobilidade do

ultimo somno. Vira ainda uma velha, na eça elevada, uma opulenta velha

que morrera sem herdeiros. Ao redor, choravam muito as tochas pranto de

cêra côr de mel, inconsolaveis, espichando compridas chammas, que

pareciam subir ao tecto com um filete de fumo. Distinguiam-se bem os

dous pés para dentro, em botinas de panno; e o nariz pronunciando-se

sob o lenço de rendas.

[Figura 19]

Isto não era ter visto cadaver. Eu queria o cadaver flagrante, despido

dos artificios de armação e religiosidade, que fazem do defunto

simples pretexto para um cerimonial de apparato. O que me convinha era o

galho por terra, ao capricho da quéda, decepado da arvore da

existencia, tal qual.

O cadaver do criado estava em condições; com a vantagem do adereço

dramatico do sangue e do crime, como nos theatros.

Encaminhava-me, pois, para a cozinha e sentia palpitações fortes,

abalando-me certo modo de agradavel pavor. A cozinha do _Atheneu_, além

dos alojamentos da copa, era espaçosa como um salão. Ás paredes

scintillava o trem completo de cobre areiado, em linha as peças

redondas como uma galeria de broqueis. No centro uma comprida mesa

servia de refeitorio á criadagem.

Naquella occasião havia muita gente perto da mesa. Vi pelas costas

pessoas alheias ao estabelecimento. Disseram-me que estava presente a

autoridade e tratava de remover o morto. Aquella gente toda devia ser,

de costas, a autoridade policial, feição do poder publico que eu não

discriminava ainda bem, mas já considerava. Caído ao soalho, vi o

cadaver sobre uma esteira de sangue.

Guardava ainda a contorsão esquerda da agonia; á bocca fervia-lhe um

crivo de espuma rosada; trajava collete fechado, calças de casimira

grossa. Os ferimentos não se viam. Os olhos estavam-lhe inteiramente

abertos e de tal maneira virados que me fizeram estremecer.

Alguns minutos depois de minha entrada, chegaram dous sujeitos com uma

rêde. Os copeiros ajudaram a apanhar o corpo; os homens da rêde o

levaram.

Impressionou-me para sempre o desfallecimento flacido dos membros,

quando levantaram o cadaver, a molleza da cabeça, rodando nos hombros,

com um movimento proprio dos que padecem intoleravel angustia, e um

choque subito para traz que me gelou o sangue, empinando-se o queixo e o

nó da garganta, rasgando-se a bocca, brusco, como se o ferido vomitasse

um resto tenaz da vida.

Após a rêde, pela escada da cozinha, saíram todos; eu fiquei.

Examinava ainda o chão alagado de sangue quando alguem, passando,

afagou-me os cabellos: era Angela!

--_Morió_, disse, indicando o sangue, arregalando as sobrancelhas, e

desappareceu com o andar de bamboleio.

Primeira vez que reparei que era bonita a canarina. Sim, senhor! E para

o demonio culpado de tão horrivel incidente fui de uma benevolencia tal

de opinião que me nasceram remorsos.

Angela tinha cerca de vinte annos; parecia mais velha pelo

desenvolvimento das proporções. Grande, carnudo, sanguinea e fogosa,

era um d'esses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados

expressamente para esposas da multidão--protestos revolucionarios

contra o monopolio do thalamo.

Atirada de modos, como o dithyrambo do amor ephemero; vasia como as

estatuas ôccas; sem sentimentos, material e estupida, possuia,

entretanto, um segredo satanico de graduar os largos olhos de sepia e

ouro, animar expressões no rosto que dir-se-ia viver-lhe na face uma

alma de superficie, possante, capaz dos altos martyrios da ternura e de

interpretar os poemas tragicos da dedicação.

Gostava de arregaçar as mangas para mostrar os braços, luxo de alvura,

braços perfeitos de princeza, que davam que pensar ao espanador humilde

no serviço da manhã. Exposta ás soalheiras, revestira-se a côr

branca do rosto de um moreno calido, tom fugitivo de magnolias fanadas,

invulneravel aos rigores de ar livre, como deve ter sido outr'ora a

epiderme do Ceres. Ferissem-lhe a tez os dardos corrosivos da

insolação, vinha-lhe apenas ao rosto um rubor mais bello, e não lhe

tirava mais o sol á mocidade da carne do que á propria terra, sob a

calcinação dos ardores; uma primavera de rosas.

Consciente da formosura, Angela abusava.

[Figura 20]

E era do mal livrar-se. Começava por um jogo de virtude. Enxugava em ar

de seriedade os labios humidos; as palpebras, de longas pestanas,

baixavam sobre os olhos, sobre o rosto, viseira impenetravel do pudor.

Convidava á adoração colhendo aos hombros o manto da candura,

refugiando-se na indifferença hieratica das vestaes. Depois, uma

pontinha de ingenuo sorrir, olhos fechados ainda; gradação de

infantilidade que substituia á vestal uma criança esquiva e timida,

rindo, voltando a cara. Os olhos, por fim, aventuravam-se de relance,

uma temeridade de noiva possivel, nada mais, volvendo ao retrahimento

scismador. Depois, a contemplação confiada; romance inteiro, linha por

linha, de uma virgindade. Até que subito, meu castissimo Barreto!

aquella virtude, aquella meiguice, aquella esquiva candura, aquella

nubilidade melancolica, aquella physionomia honesta, pesarosa talvez de

ser amavel, fendia-se em dous batentes de porta magica e rodava em

explosão o sabbath das lascivias.

Os olhos riam, distillando uma lagrima de desejo; as narinas offegavam,

adejavam tremulas por intervallos, com a vivacidade espasmodica do amor

das aves; os labios, animados de convulsões tetanicas, balbuciavam

desafios, promettendo submissão de cadella e a doçura dos sonhos

orientaes. Dominava então pela offerta abusiva, de repente; abatia-se

á derradeira humiliação, para attrahir de baixo, como as vertigens.

Alli estava, por terra, a prostituição da vestal, o hymeneu da

donzella, a deturpação da innocente, tres servilismos reclamando um

dono; appetite, appetite para esta orgia rara sem convivas!

Não escolhia amores. Era de todos como os elementos; como os elementos,

sem remorso das desordens e depredações. Franqueava-se á

concorrencia. Havia lugar para todos á sombra dos cabellos castanhos

que lhe podiam vestir as copiosas fórmas, fartos, perpetuamente seccos,

que ella sacudia a correr como uma poeira de feno.

Aquelle modo do olhar, passando, de Angela, clarificou-me a imaginação

das sombras de terror em que me enleiara o alvoroço do acontecimento da

tarde e a vista horrivel do cadaver.

Depois da façanha, Bento Alves, o heróe, sumiu-se; commentavam-lhe de

mais a bravura. Nem aos exercicios do campo compareceu.

Bento Alves era um mysterioso. Mysteriosos são no collegio os que não

andam a atravancar o espaço com as gatimanhas das suas expansões.

Frequentava as aulas superiores; sem que fosse um estudante de rumuroso

merito, fazia-se respeitar dos mestres e condiscipulos. Sisudo como

certos rapazes de intelligencia menor que se arreceiam do ridiculo, não

sómente pela sisudez impunha-se ao respeito. Consideravam-no

principalmente pela nomeada de herculeo. Os fortes constituem realmente

uma fidalguia de privilegios no internato. No tumulto da existencia em

commum, fundem-se as distincções de classe na democracia do

colleguismo; as cambiantes de fortuna apagam-se no figurino geral das

blusas pardas. Os titulos de superioridade prevalecem primitivamente

no criterio semi-barbaro dos verdes annos; o punho valido chega a fazer

vantagem sobre a propria vantagem do favoritismo.

Alves não alardeava de forte; evitava disputas, não jogava o pulso,

proferia exercitar-se á gymnastica sem espectadores. Ás vezes, por

brinquedo, cingia o braço, a um collega entre o pollegar e o médio e

fechava-lhe sob a manga um bracelete roxo dolorido. Aquelles que se

sujeitavam ao formidavel ensaio de tatuagem por compressão,

acercavam-se, d'ahi por diante, de Bento Alves com os escrupulos da mais

reservada prudencia.

Entretanto era molle, da preguiça monumental dos animaes pujantes.

Veloz, detestava a carreira; alegre, fugia aos folguedos. Gostava do seu

socego; desviava os incommodos da convivencia distribuida, transbordante

dos _estimados_. Não se falava d'elle no _Atheneu_. Limitavam-se a

temel-o em silencio.

Depois da valorosa façanha a que o tinha levado a casualidade, teve de

vêr-se heróe á força. Um desespero. Se algum companheiro caía na

tolice de dizer-lhe alguma cousa relativamente ao crime do jardineiro,

Bento Alves rasgava a conversa com um monosyllabo de impaciencia,

encrespando-se como um javali. Apezar de tudo foi o pobre modesto

percutido, laminado sobre a bigorna da notoriedade.

Felizmente o barulho da entrada para o Atheneu de um moço celebre veio

modificar a odiosa voga.

Acabava de matricular-se Nearcho da Fonseca, pernambucano de illustre

estirpe.

Apresentou-se com o pae, vulto politico em galarim no tempo. Era um

mancebo de dezesete annos, rosto cavado, cabellos abundantes, de talento

não commum, olhar vivo, moroso de importancia, nariz adunco, avançado,

secco, quasi translucido como um nariz de vidro. Franzino como a infancia

desvalida, magro como uma prelecção de osteologia, surprehendeu-nos,

entre outras, uma recommendação a seu respeito, pelo proprio director

ás barbas do pae:--Nearcho da Fonseca era um grande gymnasta!

Talentoso que fosse, concebiamos, se por nada mais, ao menos pela

cabelleira... Mas um gymnasta aquelle espectro da necessidade!

A juventude, entretanto, é a eterna esperança: nós esperamos por uma

exhibição comprobante.

Abalou-se a tribu dos acrobatas, dos athletas; toda a rapaziada de brio,

o Luiz á frente, que localisava na protuberancia nodosa do biceps o

pundonor supremo da creatura, preparou na mais vasta admiração um

aposento consideravel para acolher o confrade.

Formados trezentos, á tarde, diante dos apparelhos, foi em movimento de

avidez que ouvimos Bataillard com o cavalheirismo que o distinguia,

convidar a exhibir-se o grande Nearcho.

Estava presente o director; estava presente o respeitavel progenitor de

Blondin. O _Atheneu_ olhava.

Nearcho deixou a fórma, rompendo a marcha com o pé esquerdo, segundo a

regra, mãos á ilharga, sério como um bispo, e encaminhou-se para o

trapezio com o passo medido das emas, imperturbavel como quem sabe

profundamente a technica do marchar. Perto do apparelho, sempre de mãos

á cinta, volta a volver! virou-se para o collegio, teso, e quebrou para

nós um duro salamalek, conservando por segundos a effracção angular

das figurinhas delineadas, representando a lavoura, na cantaria

historica do Egypto.

Assumptavamos anciosos.

Depois do comprimento, Nearcho empunhou a barra do trapezio, pollegar

para baixo, segundo a pragmatica das posições. E fez uma flexão. Ah!

não sabeis, profanos que sois, quanto vale a flexão dos membros

superiores! A formula no mundo ideal da mecanica é a alavanca de

Archimedes; da applicação pratica e contundente é o murro britannico.

Constate nisto: encolher as munhecas.

Nearcho fez uma, fez duas, fez cinco! Seguiu-se uma vira-volta, e

Nearcho ao trapezio, de cócoras, pôde perambular sobre o pasmo

circumstante o pausado beque... Não era tudo, porém! Nearcho arranjou

mais umas phantasias de cambalhotas, capazes de transformar radicalmente

os principios firmados da arte dos trambolhões, e beneficiou-nos,

suando, com um sorriso triumphal.

Faltava a sorte do fim. Nearcho espichou quanto pôde a lamentavel

ausencia de musculos e deu-nos... uma _sereia_! A sereia é tudo que ha

de mais elementar, de mais pulha, de mais tolamente ostentoso em materia

do apparelhos. O sujeito segura-se ás cordas, levanta os pés da barra,

mette os pés pelas mãos e de cabeça para a terra empurra o ventre. O

pobre Nearcho, desbarrigado, não tinha ventre para empurrar.

Não empurrou cousa nenhuma; quando muito uns ossinhos que lhe saíam á

altura do umbigo como cabos de faca. Pulou ao chão.

Estava exhibido o acrobata! Nós olhavamos uns para os outros,

bestificados, em compostura abatida de caras-d'asnos. Aristarcho

percebeu e reprehendou-nos com o sobrecenho. Nós comprehendemos

delicadamente: estava alli o respeitavel pae de um collega...

Uma roda de palmas, claras, estrepitantes, inacabaveis, percorreu as

fileiras com a electricidade communicativa das acclamações.

Nearcho, altivo, agradeceu com o nariz.

O Atheneu (chronica de saudades) · 第 15 / 24 题