Eduardo, Jorge, Alvaro, _e o_ Visconde.
Eduardo.--Venham cá... Os senhores não tem ouvido dizer que eu me
regenerei? Respondam, sim ou não?
Alvaro.--Qual _regenerou-se_! É um impostor!...
Eduardo.--Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me: a opinião
publica a meu respeito é essa?
Visconde.--Não é... porque o senhor enganou-nos.
Eduardo.--Pois, se não é, porque não respeitam os senhores a opinião
publica á qual me mandaram obedecer?
Visconde.--Já lhe disse que a opinião publica está illudida com o
senhor!
Eduardo.--E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que hoje?
Jorge.--Não quero disputas... Não respondo ao seu interrogatorio...
Quero uma satisfação immediata.
Alvaro.--E eu tambem.
Eduardo.--E o snr. visconde?
Visconde.--Veremos, depois...
Eduardo (_sorrindo_).--Acha que não vale a pena decidir já... Pois lá
hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma
bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me não matam,
arruinam a minha boa reputação, que eu aprecio mais que a vida; segunda
asneira... Que lucram os senhores com isto?
Alvaro.--Nada de philosophias!... É indispensavel para a minha honra um
duello...
Jorge.--Não prescindo.
Eduardo.--Pois se não prescindem, lá vamos... Mas os primeiros que
hão-de bater-se um com o outro, são os senhores! (_Indicando Alvaro e
Jorge_).
Alvaro _e_ Jorge.--Nós?!...
Eduardo.--Os senhores...
Alvaro.--Porque?!
Eduardo.--Porque teem trabalhado reciprocamente na sua deshonra.
Jorge.--Isso é uma nova infamia!
Eduardo.--Mãos na consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro
mezes na praia dos Inglezes não os exime de serem honrados!
Alvaro _e_ Jorge.--Na praia dos Inglezes!...
Eduardo.--Querem explicações?... Vejam lá o que resolvem... Querem
explicações?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonança...
Aproveitemos o vento que é favoravel... Concordam em que occultemos
mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (_Comprime os labios com os
dedos_...) Os senhores, se -----File:
245.png---\psaborano\zurc\Manela\psaborano\luisa\---------------são
honrados como a opinião publica os apregôa, calem-se tambem...
Visconde.--Mas eu é que não entro n'esse contracto...
Eduardo.--Nem lh'o propuz... mas, v. exc.^a contando com o silencio
d'estes cavalheiros, de certo não quererá uma ignobil publicidade a
respeito de... Veja lá o que resolve...
Visconde.--Mas v. s.^a não ha-de entrar mais em minha casa...
Eduardo.--D'accordo. Amanhã embarco para a exposição de Pariz, e
tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condição?... O silencio
approva... Muito bem... (_Ao fundo_). Minhas senhoras! queiram
entrar!... (_As damas entram_). Vv. exc.^{as} foram julgadas
innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes
pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem
perdão das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os
seus nomes...
Viscondessa.--Assim o suppuz!
Julia.--Assim devia acontecer!
Leocadia.--Mas eu não perdôo a quem me infamou!
Viscondessa _e_ Julia.--Nem nós!
Eduardo.--Hão-de perdoar, que são muito boas senhoras, e o perdão das
injurias é o sentimento mais nobre do coração humano... Eu retiro-me com
os meus creditos, e vv. exc.^{as} ficam com os seus... Muito boas
noites... (_Sahe_).
* * * * *
Os outros, como é natural, ficam a olhar uns para os outros com aquellas
caras proprias de taes conflictos. O author vem fóra dizer que não ha na
comedia allusões nenhumas. A platéa retira satisfeita, e continúa a
guardar-se dos cynicos.
No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia é immoral, e attentatoria
contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o jornal, e
mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, vem no
conhecimento de que os mordentes são os legitimos _Orgons_ d'este
seculo; mas, um pouco menos felizes que os d'uma grande comedia, que o
leitor, se se não recorda, ou não leu nunca, póde encontrar com o titulo
de _Tartuffe_. Se, todavia, detesta a letra redonda, estude a vida
pratica, e chegará á mais difficil das formaturas, ao _ultimatum_ da
sabedoria: «o conhecimento dos homens.» É tão facil, ao primeiro
intuito, estremar o cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que
repellis, e não me relacioneis com o segundo, que abraçaes: que eu,
profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o dinheiro,
e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a virtude não
seja sempre uma irrisão n'este planeta. Disse.