SCENA IX.

_Os mesmos, e_ Julia, Alvaro, Jorge _e_ Leocadia.

Viscondessa (_com emphase_).--Pois não queremos uma virtude assim

melancolica... É necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr.

Eduardo... A verdadeira felicidade está na consciencia. O seu passado

não tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braços

como ao filho prodigo... (_Alvaro solta uma risada_).

Que riso é esse, snr. Alvaro?

Alvaro.--É um riso nervoso!...

Eduardo (_á parte_).--Mau!...

Leocadia.--Não tem razões para tanta melancolia!... É estimado

geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiança de todas as

pessoas... (_O visconde solta uma risada_).

Que risada é essa, snr. visconde?

Visconde.--É uma risada como a d'aquelle senhor (_apontando Alvaro_). É

uma risada nervosa!

Eduardo (_á parte_).--Peor!...

Julia.--Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfigurações moraes

custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr.

Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o

não ter sido desde muito... (_Jorge solta uma risada_).

Tambem o senhor se ri?

Jorge.--É uma risada como a d'aquelle senhor... (_apontando Alvaro_) é

uma risada nervosa...

Eduardo (_á parte_).--Está tudo por terra!... (_Alto_). Vejo que os meus

amigos estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes

proveitosos... Não acho bonito que me escarneçam... Fazem-me lembrar a

fabula do leão e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas

culpas!... (_Riem todos tres_).

Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu não lhes mereço

isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e não se

cospe assim na honra...

Jorge (_á parte_).--Vou-lhe arrancar a mascara!...

Visconde (_á parte_).--Hypocrita!

Alvaro (_á parte_).--O impostor não passará d'hoje...

Viscondessa.--Que falsa posição é esta?

Leocadia.--Não entendo isto!

Julia.--Nem eu!

Eduardo.--Nem eu!...

Viscondessa.--Que modos são esses!... em que pensam os senhores?...

Alvaro.--Eu pensava nos recursos do talento depravado!... Senhores!... é

necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor

(_indicando Eduardo_) é um impostor!

Eduardo.--Eu! Calumnia! infamia... quero as provas...

Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia que as dê...

Visconde.--Justamente: a snr.^a D. Leocadia que as dê!...

Jorge.--Minha mulher!...

Leocadia.--Eu!

Eduardo.--Ella!...

Alvaro _e_ Visconde.--Sim! ella!...

Jorge.--Pois bem... cáia a mascara... Esse senhor é um infame seductor!

Eduardo.--Eu!

Viscondessa.--Elle!

Jorge, Visconde, _e_ Alvaro.--Sim, sim, elle!

Eduardo.--Provas, senhores calumniadores!

Jorge.--Provas? a snr.^a D. Julia que as dê!

Alvaro.--Minha mulher!

Julia.--Eu!

Eduardo.--Ella!

Jorge _e_ Visconde.--Sim, sim, ella!

Alvaro.--N'esse caso... rasgue-se o véo do mysterio... Todos somos

victimas da hypocrisia d'esse homem!

Visconde.--Menos eu!

Viscondessa.--Nem eu!

Eduardo.--Provas, senhores!

Alvaro.--Provas? a snr.^a viscondessa que as dê.

Visconde.--Minha mulher!

Viscondessa.--Eu!

Eduardo.--Ella!

Alvaro _e_ Jorge.--Sim, sim!

Eduardo.--Todas tres!...

Alvaro (_para Julia_).--Responde!

Jorge (_para Leocadia_).--Que dizes a isto?

O visconde (_para a viscondessa_).--Pois não te defendes?

Todas tres.--É falso!...

Eduardo (_mudando de tom_).--Eu vou defendêl-as, minhas senhoras!

Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia não tem defeza nenhuma, porque...

Eduardo.--Silencio!

Jorge.--A snr.^a D. Julia não tem defeza nenhuma, porque...

Eduardo.--Esperem!...

Visconde.--Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é preciso que

me provem que...

Eduardo.--Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a

presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram

retirar-se... (_Ellas sahem_).

Scenas Contemporaneas · 第 117 / 121 题