_Os mesmos, e_ Julia, Alvaro, Jorge _e_ Leocadia.
Viscondessa (_com emphase_).--Pois não queremos uma virtude assim
melancolica... É necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr.
Eduardo... A verdadeira felicidade está na consciencia. O seu passado
não tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braços
como ao filho prodigo... (_Alvaro solta uma risada_).
Que riso é esse, snr. Alvaro?
Alvaro.--É um riso nervoso!...
Eduardo (_á parte_).--Mau!...
Leocadia.--Não tem razões para tanta melancolia!... É estimado
geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiança de todas as
pessoas... (_O visconde solta uma risada_).
Que risada é essa, snr. visconde?
Visconde.--É uma risada como a d'aquelle senhor (_apontando Alvaro_). É
uma risada nervosa!
Eduardo (_á parte_).--Peor!...
Julia.--Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfigurações moraes
custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr.
Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que é, sente pesar de o
não ter sido desde muito... (_Jorge solta uma risada_).
Tambem o senhor se ri?
Jorge.--É uma risada como a d'aquelle senhor... (_apontando Alvaro_) é
uma risada nervosa...
Eduardo (_á parte_).--Está tudo por terra!... (_Alto_). Vejo que os meus
amigos estão muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes
proveitosos... Não acho bonito que me escarneçam... Fazem-me lembrar a
fabula do leão e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas
culpas!... (_Riem todos tres_).
Ora comprehendam isto!... É um abuso do riso!... Eu não lhes mereço
isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e não se
cospe assim na honra...
Jorge (_á parte_).--Vou-lhe arrancar a mascara!...
Visconde (_á parte_).--Hypocrita!
Alvaro (_á parte_).--O impostor não passará d'hoje...
Viscondessa.--Que falsa posição é esta?
Leocadia.--Não entendo isto!
Julia.--Nem eu!
Eduardo.--Nem eu!...
Viscondessa.--Que modos são esses!... em que pensam os senhores?...
Alvaro.--Eu pensava nos recursos do talento depravado!... Senhores!... é
necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor
(_indicando Eduardo_) é um impostor!
Eduardo.--Eu! Calumnia! infamia... quero as provas...
Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia que as dê...
Visconde.--Justamente: a snr.^a D. Leocadia que as dê!...
Jorge.--Minha mulher!...
Leocadia.--Eu!
Eduardo.--Ella!...
Alvaro _e_ Visconde.--Sim! ella!...
Jorge.--Pois bem... cáia a mascara... Esse senhor é um infame seductor!
Eduardo.--Eu!
Viscondessa.--Elle!
Jorge, Visconde, _e_ Alvaro.--Sim, sim, elle!
Eduardo.--Provas, senhores calumniadores!
Jorge.--Provas? a snr.^a D. Julia que as dê!
Alvaro.--Minha mulher!
Julia.--Eu!
Eduardo.--Ella!
Jorge _e_ Visconde.--Sim, sim, ella!
Alvaro.--N'esse caso... rasgue-se o véo do mysterio... Todos somos
victimas da hypocrisia d'esse homem!
Visconde.--Menos eu!
Viscondessa.--Nem eu!
Eduardo.--Provas, senhores!
Alvaro.--Provas? a snr.^a viscondessa que as dê.
Visconde.--Minha mulher!
Viscondessa.--Eu!
Eduardo.--Ella!
Alvaro _e_ Jorge.--Sim, sim!
Eduardo.--Todas tres!...
Alvaro (_para Julia_).--Responde!
Jorge (_para Leocadia_).--Que dizes a isto?
O visconde (_para a viscondessa_).--Pois não te defendes?
Todas tres.--É falso!...
Eduardo (_mudando de tom_).--Eu vou defendêl-as, minhas senhoras!
Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia não tem defeza nenhuma, porque...
Eduardo.--Silencio!
Jorge.--A snr.^a D. Julia não tem defeza nenhuma, porque...
Eduardo.--Esperem!...
Visconde.--Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas é preciso que
me provem que...
Eduardo.--Alto lá... Queiram retirar-se, minhas senhoras... É defeza a
presença das rés no tribunal que vai installar-se... Queiram
retirar-se... (_Ellas sahem_).