_Os mesmos e_ Eduardo, _que vem passando com uma dama pelo braço, e
pára._
Jorge.--Pois senão póde, resigne-se...
Alvaro.--Tenho a optar por outro expediente antes da resignação...
Eduardo.--Naturalmente quer bater-se... Eu sou de opinião que os meus
amigos devem cortar-se reciprocamente os pescoços ás 4 horas da tarde...
Jorge (_sorrindo_).--Fecha lá as torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui
falla-se seriamente... Não vês que aquelle senhor está formalisado?
Eduardo.--Pois o senhor está formalisado? e v. exc.^a (_para Julia_)
tambem está formalisada? e a menina (_para a que tem no braço_) tambem
se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber porque.
Formalisem-se todos, desde o dono da casa até ao creado da campainha.
Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, porque são quasi quatro
horas... não acha?
Alvaro.--Se me dá licença...
Eduardo.--A respeito de licenças, isso não é comigo: é com o dono da
casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar de que a snr.^a D. Julia é
a rainha das mais formosas? (_Com escarneo_).
Alvaro.--Snr. Eduardo, as suas zombarias são intempestivas!... Entre
cavalheiros é d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um salão...
Eduardo.--O meu caro senhor está funebre como um mestre de cantochão...
Fallou muito bem; mas eu é que não me sinto disposto a manter a
reputação de eloquente ás quatro horas da manhã... Se me querem vêr
dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me cá... já tomou chocolate?
Julia (_desprendendo-se do braço_).--Dê-me licença... Minha mana
chama-me...
Alvaro.--Eu acompanho-a, minha senhora... (_Vão sahir_).
Jorge.--Minha bella menina, estamos quites... D'hoje em diante cada um
de nós caminha para o seu polo diverso...
Julia.--São indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe
aprouver, snr. Jorge... (_Sahe_).
Eduardo.--Disse que caminhasses para onde te approuvesse... Eu de mim
vou para casa... Queres vir?... É verdade... que é da transparente
creatura, que eu tinha no braço? Evaporou-se?... Deixal-a... (_Atira-se
ao sophá_). Ai que somno!... Em que pensas tu?... (_Entra um creado com
chavenas de chocolate_). Isso que é? Venha cá... É chocolate... Vm.^{ce}
não terá a habilidade de converter isto em vinho do Porto?...
Creado.--Não, senhor...
Eduardo.--Então vm.^{ce}, pelo que diz na sua, é um grande idiota.
(_Toma duas chavenas da bandeja_). Póde retirar-se... Aquelle senhor
está fazendo versos... (_O creado sahe_). Ó Jorge, não tens no coração
um reservatorio onde caiba uma chavena de excellente chocolate?
Jorge.--Adeus... retiro-me...
Eduardo.--Alto lá!... Eu preciso saber em que lei devo viver...
Reconsideraste a respeito de Leocadia? Quem é que a ama, sou eu, ou és
tu?
Jorge.--Fallas d'ella com tão pouco respeito!...
Eduardo.--De quem? de s. exc.^a!?... Pois eu disse alguma cousa que
possa chamar-se grosseira?
Jorge.--Leocadia não é uma apolice que se passe com o mesmo valor de mão
em mão...
Eduardo.--Justamente o peor que ella tem é não ser apolice, nem ao menos
acção da empreza do caminho de ferro de leste...
Jorge.--Estás estragado!...
Eduardo.--Do estomago? Palavra d'honra que sim! As taes sandwichs são
indigestas como um artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo...
Ella ahi vem... Queres ficar só com ella?... Eu vou entreter Julia...
Que mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto não está de
todo estragado...