«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o coração de
reconhecimento. Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a
injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de egoismo que
entorpece o espirito, e calcina o coração. E, de mais, suppunha-te
insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui um disparate, que
eu não ousaria balbuciar na presença do mundo. O que vale é que as
minhas cartas não serão lidas pelas mediocridades, que se acham em
concilio permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas
conveniencias, as heresias do genio.
«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu fórmo do homem
transcendente em genio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente
em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes.
«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo
proclama virtuosos, e sabios. Deixal-os proclamar. O talento não é a
sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a
sciencia. O talento é a vibração convulsiva do espirito, a originalidade
inventiva e rebelde á authoridade, a viagem extatica pelas regiões
incognitas da idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham
são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós, Voltaire e Byron são
talentos. Compara as vicissitudes d'essas duas mulheres, e os serviços
prestados á humanidade por esses homens, e terás encontrado o
antagonismo social em que luctam o talento com a sabedoria.
«Porque é mau o homem de talento? Essa bella flôr porque tem no seio um
espinho envenenado? Essa esplendida taça de brilhantes e ouro porque é
que contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?
«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á cabeça d'uma mulher,
ainda mesmo reforçada por duas duzias de cabeças academicas!
«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter talento. Pedi-lhe
as circumstancias do seu martyrio sublime, e respondeu-me o seguinte com
a mais profunda convicção, e a mais tocante solemnidade philosophica: Os
talentos são raros, e os estupidos são muitos. Os estupidos guerream
barbaramente o talento: são os vandalos do mundo espiritual. O talento
não tem partido n'esta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um
tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do
contacto do mundo, e curte em silencio aquelle fel de vingança, que,
mais cedo ou mais tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra
desviado do corpo do exercito.
«Ahi tem--acrescentou elle--a razão porque o homem de talento é perigoso
na sociedade. O odio inspira-lhe a eloquencia da traição. A mulher, que
lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, acredita-o,
abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu
algoz, e pedindo á sociedade que grite com ella.
«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos acreditar este doudo.
Eu por mim não me satisfaço com o seu systema, todavia sinto-me propensa
a aperfeiçoar o prisma do doudo, até encontrar as côres inalteraveis do
juizo.
«Seja o que fôr, eu creio que és uma excepção e não soffra com isto a
tua modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias,
escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha
Thebaida, sem cilicios, sim?
«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim
philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se diz, que não
vale nada.
«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. Não era ella, porém,
tão intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra não era
meu irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o segredo de nossas
relações. Bem longe estava eu de comprehender este zelo de virtuosa
honestidade, quando a mão d'um demonio me tirou a venda dos olhos.
«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de admiração, mas acredita que
foi uma urgencia rhetorica, uma composição artistica, que me obrigou a
admirar-me, escrevendo, de cousas que me não admiram, pensando.
«Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher,
que despresei o mundo, e me despresei a mim propria para satisfazer-lhe
o capricho d'alguns mezes? Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha,
supposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle...
Vasco amava a filha do visconde do Prado, a _Laura_ d'alguns mezes
antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei quantos centos de
contos de reis.
«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao é verdade, Carlos? Não
devo soffrer um instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com
uma grilheta d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para
não ouvir-lhe o ruido... a sentença do forçado que o segue até ao fim
d'uma existencia farta de opprobrio, e celebre de infamias!
«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma ulcera que não tem cura...
choro, porque é intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não tenho
lagrimas que não sejam remorsos... não tenho remorsos que não sejam
picados pela affronta que fiz a minha mãi, e a meu irmão... Não me doe o
meu proprio aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo,
algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o desejo de
torturar-me...
«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, meu
paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e hei-de
conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me converter em estatua,
como a mulher de Loth, quando olho com attenção para o meu passado...
«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não
sei como recebeu o convite; o que eu sei é que os vinculos d'estas
relações estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se
comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas
intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás. Foi ella a propria
que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã! Isto é uma
atrocidade sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias
possiveis! O insulto não podia ser mais despedaçador! O punhal não podia
entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de
Seabra!... Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo! Tenho
direito á tua compaixão, se não pódes estremecer de enthusiasmo diante
do heroismo d'uma martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti
fugir-me o entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na
garganta... horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem
uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle
idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos labios
um sorriso de imbecilidade...
«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha physionomia...
Fez-me não sei que perguntas... não me lembro mesmo se aquella mulher
permaneceu diante de mim... Basta!... não posso prolongar esta
situação...
«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. Pedi-lhe
que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; eram
minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha mãi.
«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de almoço, visitava o
visconde do Prado, escrevi estas linhas:
«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de ter deshonrado Henriqueta de
Lencastre. Esta mulher sentia-se digna d'uma corôa de virgem, virgem do
coração, virgem na sua honra, quando abandonava um villão, que não pôde
infectar da sua infamia o coração da mulher, que arrastou ao abysmo da
sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a salvou!»
«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui á estação dos
caminhos de ferro.
«Dous dias depois entrava n'um paquete.
«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as mãos, e chorei... Era a
vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céo.
Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um
conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.
«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não m'a negou. Aluguei uma
agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; onde, ha quatro annos,
comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilicios do meu
remorso.
«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não
haja um indicio da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me
denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs.
«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que disse que
seu marido a abandonára, chamando-lhe _Laura_. Aquella está punida...
«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma pequena aventura, que
aproveitei para tornar menos insipidas aquellas horas, em que me
acompanhaste... Foi uma rival que não honra ninguem... uma _Laura_ com
os respeitos publicos, e as considerações que se barateiam a corpos
ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era
feliz, quando o infame amante d'essa mulher me dava aquelle annel, que
viste, como oblação de sacrificio que me fazia d'uma rival...
«Escreve-me.
«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.
«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:
«Não me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da
historia, que te contei?
_Henriqueta_.»