«Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha peregrinação. A minha
illiada está no ultimo canto. Quero dizer-te que é esta a minha
penultima carta.
«Não sou tão independente como pensava. A não serem os poetas, ninguem
gosta de contar as suas magoas ao vento. É bello dizer-se, que um gemido
nas azas da brisa vai da terra em dorido suspirar até ao côro dos anjos.
É bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar á avesinha gemedôra
os segredos do nosso penar. Tudo isto é delicioso d'uma puerilidade
inoffensiva; mas eu, Carlos, não tenho alma para estas cousas, nem
engenho para estes artificios.
«Vou contando as minhas penas a um homem, que não póde zombar de minhas
lagrimas, sem trahir a generosidade do seu coração, e a sensibilidade do
talento Sabes qual é o meu egoismo, o meu estipendio n'este trabalho,
n'esta franqueza d'alma, que ninguem te póde disputar como unico em
merecêl-a? Eu te digo. Quero uma carta tua, dirigida a Angelica
Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; não tenhas pejo em
denuncial-a; associa-te um momento á minha dôr, e dize-me o que farias
se tivesses sido Henriqueta.
«Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o lance
extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e a...
como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.^{ma} filha D.
Laura.
«--Pois é possivel existires?--perguntava o visconde, sinceramente
admirado, a sua mulher.
«--Pois não me conheces, Antonio?--respondia ella com estupida
naturalidade.
«--Tinham-me dito que morreras...--tornou elle com desazada
hypocrisia--tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha
tinheis sido victimas da cholera-morbus...
«--Felizmente que lhe mentiram--interrompeu Laura com affectada
meiguice.--Nós é que lhe tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de
pronunciar o seu nome sem saudosas lagrimas.
«--Como tendes vivido?--perguntou o visconde.
«--Pobre, mas honradamente--respondeu Josepha, dando-se uns ares
austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céo por
testemunha.
«--Ainda bem!--tornou o visconde--mas que modo de vida tem sido o vosso?
«--O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha tem sido o
amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos com tamanha
crueldade!... Que mal te fizemos nós?
«--Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas?--respondeu o
visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancar duas
volumosas lagrimas, tanto a proposito.
«--O passado, passado--disse Laura, afagando carinhosamente as mãos
paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes de illudir S. Simão
Stylita.--Quer o pai saber (proseguiu ella com sentimento) qual tem sido
a minha vida? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que
encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado
incessantemente... tenho luctado com as tentações da penuria, e tenho
feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...
«--Bem, minha filha--interrompeu o visconde com sincera
contrição--esqueçamos o passado.... D'hora em diante será a abundancia a
premio da tua virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu és minha
filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?
«--Não, meu pai.--Não meu Antoninho.--Responderam ambas, como se
tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.
«--Pois bem--continuou o visconde--vamos a conciliar com o mundo as
nossas posições presentes, passadas e futuras. D'hora ávante, Laura, és
minha filha, és filha do visconde do Prado, e não pódes chamar-te Laura.
Serás Elisa, comprehendes-me? é necessario que te chames Elisa...
«--Sim, meu pai... eu serei Elisa--atalhou a _innocente modista_ com
impetuosa alegria.
«--É necessario abandonar Lisboa--proseguiu o visconde.
«--Sim, sim, meu pai... vivamos num sertão... quero gosar, sosinha, na
presença de Deus a felicidade de ter pai...
«--Não hiremos para um sertão... vamos para Londres; mas...
attendam-me... é preciso que ninguem as veja, n'estes primeiros annos,
principalmente em Lisboa... A minha posição actual é muito melindrosa.
Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram
perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto
de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... Josepha, repara em ti, e vê
que és a viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente
mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta
sociedade. Voltaremos um dia, e terás então supprido com a educação
pratica a rudeza que indispensavelmente tens.
«Não progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma do visconde foi
rigorosamente cumprido.
«Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com
esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do
visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio
dizer-me que acabava de vêr, elegantemente trajada, uma mulher que
conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou varias circumstancias da
vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo
opulento, a quem tal mulher estava associada.
«Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os unicos portuguezes eram
Vasco de Seabra e _sua irmã_, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua
filha D. Elisa Pimentel.
«Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma illusão.
«No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter
encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles gritos barbaros dos
serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. Vasco não duvidou em
ser interprete do visconde, com tanto que as suas luzes em lingua
ingleza podessem chegar ao escondrijo d'onde nunca mais vira sahir a
supposta Laura.
«Correram as cousas á medida do seu desejo. Na noite d'esse dia, fomos
convidados para tomar chá, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber
ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me
d'este temor, afiançando-me que se tinha illudido com a semelhança das
duas mulheres.
«Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artificio tirou
maior partido das maneiras adquiridas em habitos libertinos. Elisa era a
mulher de côrte, com os ademans fascinadores dos salões, onde a
immoralidade do coração passeia de braço dado com a illustração do
espirito. O som da palavra, a escolha da phrase, a compostura airosa da
mimica, o tom sublime em que as suas idêas eram voluptuosamente lançadas
na torrente de uma conversação animada, tudo isto me fez crêr que Laura
era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada á feição do meu
espirito.
«Quando agora pergunto á minha consciencia como estas transições se
fazem, descreio da educação, lamento os annos consumidos no cultivo da
intelligencia, e chego a persuadir-me que a escóla da devassidão é a
ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da graça e da
civilisação.
«Perdôa-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na vida, que só pelo
absurdo se explicam.
_Henriqueta_.»