Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela expansão d'uma alma que,
talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho d'um martyrio
surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que podesse
consolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solidão, tornava-se como
egoista das suas dôres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais
bella flôr da sua corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um
mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflicção não rastejava
pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres,
que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das
segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dôr, sem deshonrar-se
com uma publicidade esteril, interessava um coração, esposava uma
sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre
admiração! Ha mulheres vaidosas--deixem-me assim dizer--da fidalguia do
seu soffrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquella angustia
represada que só póde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta
anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a
sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das conveniencias, essas
sim, são duas vezes anjos despenhados!
Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que ahi se
choram, e que a opulencia material não enxuga, experimentaria
consolações d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o
respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião universal,
symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma
gota de orvalho na aridez d'algum coração, seria o sacerdote
providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida
da terra para que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do céo.
Não ha na terra mais gloriosa missão!
Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a
consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta
mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes
são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!... E ella...
em que fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem póde explicar, e
mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, ás vezes, inconcebivel?
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No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:
«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o
resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e
amoldaste a minha historia ás legitimas consequencias de todas as
aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e
chamaste a isto, talvez, uma deducção contida nos principios.
«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça é essa, e o contrario dos
teus juizos é o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a
virtude é o absurdo da logica dos factos, é a heresia da religião das
sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do
mundo. Achas-me metaphysica de mais? Não te impacientes. A dôr
refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura de
Erasmo, que nas sisudas deducções de Montesquieu.
«Minha mãi estava reservada para uma grande provação! Amparou-a Deus
n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que não era de esperar.
Vasco de Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para me
apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas.
Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre
meu irmão, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a
fortuna lh'o deparasse.
«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado,
pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, até
então, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a toda a pressa, e
partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.
«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se,
porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as
esperanças de encontrar-me.
«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos
quaes não faltava condição alguma das aventuras romanticas d'um rapto,
dir-t'a-hei em poucas linhas.
«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre,
uma anarchia de sensações que, levadas ao extremo do goso, pareciam
tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as
seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo,
divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo á região
dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienação com
que a minha alma se derramava nas sensações ardentissimas d'aquelle
homem.
«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez «que era
muito meu amigo.» O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam
electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos já os não
aqueciam n'aquelles labios! «Sinto por ti uma sincera estima.» Quando
isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases
triviaes, a paixão está morta. E estava...
«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas,
discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente,
quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e seis horas entregue ás
minhas innocentes recreações scientificas.
«Vasco cançara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz.
Suffoquei a indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites.
Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas vêas. Não houve
nunca mulher assim desgraçada!
«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra «casamento» foi banida de
nossas curtas conversações... Vasco desquitava-se de compromissos, que
elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu
escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar ás
obscuras superstições do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de
Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. João,
na primeira ordem.
«Comecei então a pensar em minha mãi, em meu irmão, na minha honra, na
minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de
minha vida até ao momento em que me atirei á lama e salpiquei com ella a
face da minha familia.
«Peguei da penna para escrever a minha mãi. Escrevera a primeira
palavra, quando comprehendi o vexame, a degradação, e a villania com que
ousava apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada de
nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentação, e desejei
n'aquelle instante, que minha mãi me julgasse morta.
«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a
meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde
do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco,
e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irmã de
Vasco.
«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na
historia d'esta gente, que já conheceste no camarote da 2.^a ordem.
«Mas não posso agora dispor de mim... Saberás, alguma vez, a razão
porque não pude continuar esta carta.
«Adeus, até outro dia,
_Henriqueta_.»