VI.

Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela expansão d'uma alma que,

talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho d'um martyrio

surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que podesse

consolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solidão, tornava-se como

egoista das suas dôres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais

bella flôr da sua corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um

mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflicção não rastejava

pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres,

que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das

segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dôr, sem deshonrar-se

com uma publicidade esteril, interessava um coração, esposava uma

sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre

admiração! Ha mulheres vaidosas--deixem-me assim dizer--da fidalguia do

seu soffrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquella angustia

represada que só póde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta

anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a

sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das conveniencias, essas

sim, são duas vezes anjos despenhados!

Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que ahi se

choram, e que a opulencia material não enxuga, experimentaria

consolações d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o

respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião universal,

symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma

gota de orvalho na aridez d'algum coração, seria o sacerdote

providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida

da terra para que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do céo.

Não ha na terra mais gloriosa missão!

Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a

consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta

mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes

são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!... E ella...

em que fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem póde explicar, e

mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, ás vezes, inconcebivel?

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No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:

«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o

resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e

amoldaste a minha historia ás legitimas consequencias de todas as

aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e

chamaste a isto, talvez, uma deducção contida nos principios.

«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça é essa, e o contrario dos

teus juizos é o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a

virtude é o absurdo da logica dos factos, é a heresia da religião das

sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do

mundo. Achas-me metaphysica de mais? Não te impacientes. A dôr

refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura de

Erasmo, que nas sisudas deducções de Montesquieu.

«Minha mãi estava reservada para uma grande provação! Amparou-a Deus

n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que não era de esperar.

Vasco de Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para me

apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas.

Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre

meu irmão, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a

fortuna lh'o deparasse.

«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado,

pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, até

então, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a toda a pressa, e

partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.

«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se,

porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as

esperanças de encontrar-me.

«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos

quaes não faltava condição alguma das aventuras romanticas d'um rapto,

dir-t'a-hei em poucas linhas.

«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre,

uma anarchia de sensações que, levadas ao extremo do goso, pareciam

tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as

seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo,

divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo á região

dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienação com

que a minha alma se derramava nas sensações ardentissimas d'aquelle

homem.

«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez «que era

muito meu amigo.» O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam

electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos já os não

aqueciam n'aquelles labios! «Sinto por ti uma sincera estima.» Quando

isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases

triviaes, a paixão está morta. E estava...

«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas,

discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente,

quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e seis horas entregue ás

minhas innocentes recreações scientificas.

«Vasco cançara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz.

Suffoquei a indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites.

Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas vêas. Não houve

nunca mulher assim desgraçada!

«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra «casamento» foi banida de

nossas curtas conversações... Vasco desquitava-se de compromissos, que

elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu

escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar ás

obscuras superstições do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de

Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. João,

na primeira ordem.

«Comecei então a pensar em minha mãi, em meu irmão, na minha honra, na

minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de

minha vida até ao momento em que me atirei á lama e salpiquei com ella a

face da minha familia.

«Peguei da penna para escrever a minha mãi. Escrevera a primeira

palavra, quando comprehendi o vexame, a degradação, e a villania com que

ousava apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada de

nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentação, e desejei

n'aquelle instante, que minha mãi me julgasse morta.

«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a

meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde

do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco,

e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irmã de

Vasco.

«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na

historia d'esta gente, que já conheceste no camarote da 2.^a ordem.

«Mas não posso agora dispor de mim... Saberás, alguma vez, a razão

porque não pude continuar esta carta.

«Adeus, até outro dia,

_Henriqueta_.»

Scenas Contemporaneas · 第 33 / 121 题