«Carlos.
«Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do
dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó
moral, não é assim?
«Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro d'uma
mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Victima da
tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares interessado
na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu,
generoso Carlos, ingrata a essa manifestação cavalheirosa, embora ella
seja um rasgo de artista, e não um desejo espontaneo.
«Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande sacrificio
que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto d'uma febre incessante,
que me insultou n'aquelle camarote da segunda ordem, e que, n'este
momento, parece declinar.
«Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a carta: mas
eu sinto-me tão pequena para os sacrificios grandes!... Não te quero
responsabilisar pela minha saude; mas, se o meu silencio de longos
tempos succeder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta
cahiu no leito, d'onde ha-de erguer-se, senão é graça que os mortos
hão-de erguer-se um dia.
«Queres apontamentos para um romance que terá o merito de ser portuguez?
Vou dar-t'os.
«Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos brazões, mas
não brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem historia
contemporanea, sem bailes, e sem bilhetes de boas festas. As visitas que
Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e,
no masculino, quatro caseiros que vinham annualmente pagar as rendas,
com que seu pai regulava economicamente uma nobre independencia.
«O irmão de Henriqueta era um moço de talento, que grangeara uma
instrucção, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua
paixão unica. Isolado de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a
sua irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espirito
varonil, e inspirou-lhe uma ambição faminta de sciencia.
«Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e não posso, n'esta parte,
engrinaldar-me de flôres immodestas, se bem que não me faltariam depois
espinhos que me desculpassem as vaidosas flôres...
«Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu irmão. Nossos paes não
comprehendiam as praticas litterarias com que aligeiravamos as noites
d'inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos
olhos aquelle rir de bondoso orgulho, que tanto inflamma as vaidades da
intelligencia.
«Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e
enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. Só
com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura modifica a
organisação de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na sciencia
das cousas, pensa de um modo extraordinario na sciencia das pessoas. O
prisma das suas vistas penetrantes é bello, mas as lindas cambiantes do
seu prisma são como as côres variegadas do arco iris, que annuncia
tempestade.
«Meu irmão lia-me os segredos do coração! não é facil mentir ao talento
com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve dó de mim.
«Meu pai morreu, e minha mãi pediu á alma de meu pai que lhe alcançasse
do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um
milagre na rapida convalescença com que minha mãi sahiu d'uma
enfermidade de quatro annos.
«Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, onde entrei como entrava
sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quiz retirar-me, e meu
irmão chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um
homem.
«Este homem chama-se Vasco de Seabra.
«Não sei se por orgulho, se por acaso, meu irmão chamou a conversa ao
campo da litteratura. Fallava-se em romances, em dramas, em estilos, em
escólas, e não sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que me
captivaram o coração e a cabeça.
«Vasco fallava bem, e revelava cousas que me não eram novas com estilo
novo. N'aquelle homem, via-se o genio aformoseado pela arte que só na
sociedade se adquire. Em meu irmão faltava-lhe o relevo de estilo, que
se lapida ao tracto dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo
uma verdade, sem pretenções de _bas-bleu_, que é de todas as miserias a
mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.
«Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se não retirasse.
«Disse-me meu irmão que aquelle rapaz era uma intelligencia superior,
mas depravada pelos maus costumes. A razão porque elle viera a nossa
casa era muito simples; encarregara-o seu pai de fallar com meu irmão a
respeito da remissão d'uns fóros.
«Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: fixou-me,
cortejou-me, corei, e não me atrevi a seguil-o com os olhos, mas segui-o
com o coração. Que suprema miseria, Carlos! Que renuncia tão impensada
faz uma mulher da sua tranquillidade!
«Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que
o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a contemplar a
marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre
aquelle _indifferente_ que me fazia córar e soffrer. Viu-me,
adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortezia,
mas fingi-me, e não lhe correspondi. Foi isto um heroismo, não é
verdade? Seria; mas eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o
tratar tão grosseiramente.
«Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque não ha nada mais
grato para nós que a recordação dos ultimos instantes de ventura a que
se prendem os primeiros instantes da desgraça.
«Aquellas linhas fastidiosas são a historia da minha transfiguração. Ahi
principia a longa noite da minha vida.
«Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os
perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi não vêl-o mais:
revesti-me d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade ás outras
mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era fraca
como todas as outras.
«Eu já não podia divorciar-me da imagem d'aquelle homem, d'aquellas
nupcias infelizes, que meu coração contrahira. O meu instincto não era
mau; porque a educação tinha sido boa; e, não obstante a humildade
constante com que sempre sujeitei a minha mãi os meus innocentissimos
desejos, senti-me então, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar
contra a minha familia.
«A frequente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indifferente
a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãi, a tal respeito, e
respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão presentiu a
necessidade de matar aquella inclinação nascente, e expoz-me um quadro
feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito publico em que era
tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me offerecia em namoro.
Fui altiva com meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não
tinham contrahido a obrigação de se consultarem.
«Meu irmão soffreu; eu tambem soffri; e, passado o momento da exaltação,
quiz cerrar a ferida que abrira n'aquelle coração, desde a infancia,
identificado com as minhas vontades.
«Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu podesse
reconcial-os ambos! Não podia, nem sabia fazel-o! Uma mulher, quando
principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com
apparencias, nem calcula os prejuizos que póde evitar com uma pouca de
impostura. Eu fui assim. Deixei-me hir abandonada á correnteza, da minha
inclinação; e, quando forcejei por me tornar, tranquilla, á isenção da
minha alma, não pude vencer a corrente.
«Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande
paixão que ellas exprimiam não era ainda igual á paixão que me faziam.
«Meu irmão quiz tirar-me de Lisboa, e minha mãi instava pela sahida, ou
pela minha entrada a toda a pressa nas Silesias. Informei Vasco das
intenções de minha familia.
«No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno d'outra
sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãi, e foi
urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! Não sei do que seria
então capaz a minha alma offendida! Sei que foi capaz de tudo que póde
caber em forças d'uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira,
sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.
«Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem me pedia a
mim a satisfação dos despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a
dava plena, como elle a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela
porta da deshonra, e muito cedo entraria n'ella com a minha honra
illibada. Que desgraça! n'aquelle tempo até as pompas do estilo me
seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.
«Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia é curta. Até ao
correio que vem.
_Henriqueta_.»