áquelle livro, ficava das obras por Galharde impressas em 1520, e quão
pouco provavel era que entre um e outro anno obra alguma, naquella
typographia impressa, viesse quebrar o largo periodo de onze annos de
inactividade officinal, lembrou que o _Missal Eborense_ poderá ter sido
impresso em _1529_, tendo faltado na subscripção latina o vocabulo
«_vigesimo_»[37]. Esta probabilidade nada tem, com effeito, contra si
que a invalide, e um facto, porque assim o digâmos hodierno, a vem
demonstrar plausivel:
Convidou o editor Fernandes Lopes a Innocencio Francisco da Silva para
dirigir a reimpressão do _Elucidario_, de Santa Rosa de Viterbo. Em 1865
sahiu, com effeito, a lume esta obra dividida em dois tomos, como a 1.^a
edição, imprimindo-se no 1.^o uma «Advertencia preliminar» do illustre
bibliographo, a qual elle datou do «1.^o de junho de 1865». Pois bem;...
na capa e no frontispicio de cada um dos dois tomos assignou-se a esta
reimpressão, por data, o anno de MCCCLXV! Este lapso, sendo tão patente,
salta para logo aos olhos de quem manuzear a obra[38].
Continuemos agora a examinar quanto se nos offereça, do pouco
aproveitavel que nos tem sido possivel ajuntar, que se relacione com a
vida deste grande trabalhador typographo, que tanto illustrou a sua
arte, e tantos testemunhos nos deixou, apesar das muito mais que certas
lacunas da lista das suas impressões, da perfeição com que sustentou os
créditos da sua officina.
XII
Dos antecedentes do operoso impressor nada se conhece. Que terra de
França lhe fôsse a terra natal; quando tenha vindo para Lisbôa, e se
para esta cidade veiu, acaso, contratado como «_obreiro de imprimidor_»
de algum de seus tres antecessores, Valentim de Moravia, João Pedro de
Cremona ou Hermann de Kempis, que entre nós ficou «Armão de Campos»,
hypotheses que nos não parecem descabidas, outras tantas interrogações
são que teem de ficar sem resposta.
Por igual, destinadas estão ao mesmo resultado as que se referem ao modo
como o activo «imprimidor» constituiu familia. Germão Galharde casou
aqui, e tarde, ou veiu já casado para Lisbôa, o que não parece? Sua
mulher era estrangeira, ou nascera em Portugal? Que o velho typographo
deixou um filho, por ventura continuador da sua prole, eis o de que não
resta dúvida. E que falleceu deixando-o ainda menor, tambem não é menos
certo. O livro que estamos examinando no-lo confirmará.
Suppondo que nascera em 1490, por exemplo, Germão Galharde poderia
contar vinte e tres annos, quando, ao que Tito de Noronha conjectura,
veiu a fallecer Valentim Fernandes[39]. E se tal data estivesse certa
pouco teriam sobrevivido ao Patriarcha da Imprensa em Portugal os seus
consocios João Pedro de Cremona e «Armão de Campos, bombardeiro de
el-rei», successivamente desapparecidos, em 1514, o primeiro, em 1518 o
segundo.
Valentim Fernandes, porém, segundo adiante vai ver-se, ainda n'este
último anno trabalhava, e se este, afinal, tem de ser considerado o
último da sua vida, bem poderá ter-se dado que Germão Galharde,
obreiro--quem sabe?--de qualquer d'estes seus tres antecessores, se
habilitasse com o material do celebre impressor da viuva de D. João II,
para começar a sua laboração de conta propria, logo no anno seguinte ao
do desapparecimento d'este. Em 1519, com effeito, parece ter-se Germão
Galharde estreiado com a primeira edição da _Arismetyca_, de Gaspar
Nicolas,[40] levando desde então a vida cheia de laboriosa occupação até
os provaveis setenta annos, se exceptuarmos os dois que passou em
Coimbra, em Lisboa, e, porventura, na mesma casa.
Aonde era ella situada?
Vêr-se-ha n'este estudo se é possivel responder, por presumpções, a tal
pergunta.
XIII
Chamou-se Anna Picaya a mulher do operoso impressor, e se não foi
portuguesa, que a não deixa parecer compatriota nossa o appelido,
arriscado será attribuir-se-lhe esta ou aquella nacionalidade.
Confessemos, emtanto, que se um desengano d'esta ordem pudesse
admittir-se _por palpite_, inclinados temos sempre estado a que Anna
Picaya haja sido biscainha.
Casou Germão Galharde moço ainda? Esperou, pelo contrario, a idade da
experiencia, para dar-se ao matrimonio? Não temos, como já ficou
observado, modo de responder desenganadamente a taes perguntas. Tudo que
pudémos conjecturar, é que o filho que deixou menor terá vindo ao mundo,
adiantado já seu pae em annos, se muito não erra a conta que lhe démos,
ao vir busca-lo a Morte.
Esta circumstancia, comtudo, não se oppõe a que já houvesse outros
filhos, e até poderia parecer que os houve, com effeito, se fôsse
possivel interpretar um tanto latitudinariamente certas expressões de um
documento que não tarda a vir transcripto a este estudo.
No emtanto, e posto que a typographia da _Viuva de Germão Galharde_ se
sustentasse ainda durante alguns annos, depois do fallecimento do seu
celebre fundador, o seu material veiu a passar a novo proprietario, e
nada nos indica terem-se filhos maiores, se os havia, ou ter-se o menor
que ficou ao tempo do obito paterno, occupado, homem feito, na arte, que
o progenitor tanto illustrou.
Este appelido, a partir d'então, mergulha no esquecimento, pelo menos
aqui, em Lisbôa; e apenas a meio do seculo XVII o nosso illustre
polygrapho D. Francisco Manoel se lembrára, escrevendo ao seu amigo
Azevedo, da lenda dos _Galhardos_ da Serra da Estrella, que aliás
nenhuma relação tem com os de que aqui tratamos, para comparação da
brevidade com que fizera um seu livrinho. Esta carta, porém, inédita
ficára, com a collecção a que pertence, até que um distincto cultor da
memoria de tão infeliz quão abalisado epistolographo a trouxe a lume em
nossos dias[41].
Assim continúa o esquecimento, sem interrupção, por esses tempos fóra. A
meiados porém do XVII.^o seculo apparece-nos, de repente, um typographo
«Galhardo». Diplomava-se com o titulo de «_Impressor do sr. Cardeal
Patriarcha_»; chamou-se Antonio Rodrigues Galhardo, e teve a sua casa,
com capella, horta e mais officinas, no Pateo a que a sua familia dava o
nome;--o _Pateo dos Galhardos_, a Santa Izabel[42]. Muito depois, (1837)
filhos seus, ligados sob a firma «_Galhardo & Irmãos_», imprimem na rua
da Procissão, n.^o 45, entre outros livros, a «_Chronica de El-Rei D.
Sebastião, por Fr. Bernardo da Cruz, publicada por A. Herculano e o Dr.
A. C. Payva._»
Antonio Rodrigues Galhardo é descendente do «imprimidor» francês Germão
Galharde? Quem, já agora, poderá affirma-lo, ou quem estará habilitado
para nega-lo?
Emtanto, a coincidencia é para notar, e para notar fica sendo, tambem,
que esta familia Galhardo veiu a apparentar-se com Alexandre Herculano,
pelo casamento de um amigo de juventude do Grande Escriptor, e depois
seu camarada na emigração, o fallecido general da arma de artilharia,
que foi, quando coronel, director da Escola do Exercito, Joaquim Antonio
Rodrigues Galhardo, com a irmã do Auctor da Historia de Portugal.
XIV
Quando Germão Galharde falleceu, andava-se imprimindo na sua officina a
_quarta_ edição do «_Reportorio dos Tempos em linguajem portugues_».
Este Repertorio, composto pelo saragoçano André de Ly, fôra vertido em
linguagem, com addições, por Valentim Fernandes, que dedicou a traducção
a Antonio Carneiro, secretario do rei D. Manoel.
Ora acontece--e n'este passo se patenteia quão arriscadas são
affirmativas peremptorias em especies tão dubitativas--; acontece, íamos
dizendo, que em _Documentos para a Historia da Typographia Portugueza_,
impressos em 1888, affirmou o tão sabedor Deslandes «não ser conhecido
exemplar algum da impressão d'este _Repertorio_ feita por Valentim
Fernandes, comquanto se deva ter por certo que a houvesse dado á estampa
em sua vida.»
--Que veiu a dar-se então?--Veiu a dar-se facto igual ao succedido com o
exemplar do _Testamento da Infanta D. Maria_, impresso em 1610, e que o
catalogo da Livraria Fernando Palha, ao descrever o exemplar que aquelle
bibliophilo possuía declara «_seul exemplaire connu d'une pièce non
citée par les bibliographes_».
Succede, porém, que em 1907, percorrendo nós um Inventario de Codices
adquiridos pela Bibliotheca Nacional, publicado no _Boletim das
Bibliothecas e Archivos_, N.^o 1--3.^o anno, 1904, depara-se-nos a
menção de certo Codice da Coll. Vimieiro, em cujo miôlo viémos a
encontrar um exemplar do predito _Testamento_, da mesma edição de 1610!
Tal achado annulou, por conseguinte, o privilegio de «_seul exemplaire
connu..._», attribuido pelo catalogo sobredito ao exemplar que
descreveu!
Ao diligente bio-bibliophilo Deslandes outro tanto acontecera. Não lhe
fôra dado conhecer a bibliotheca do curioso architecto José Maria
Nepomuceno, e eis que, fallecido este, divulga-se em 1897 o catalogo da
famosa livraria de que era possuidor intelligente. Ora, sob o N.^o 683,
ahi appareceu minuciosamente descripto um exemplar do _Reportorio dos
tempos_, que «posto não traga indicado o logar da impressão, nem o anno,
se póde quasi affirmar ter sido composto em Lisbôa, e no anno de 1518,
por isso que as taboas (astronomicas) indicam começarem «no presente
anno»,--o predito.
E já agora, observaremos que, sendo este _Reportorio_, como no rosto
indica, «trelladado e empremido por Val[~e]tym fernãdes alemam», está
n'estes termos implicito o testemunho formal de que o celebre impressor,
contra o que julga Tito de Noronha, _in_ Ordenações do Reino, ainda
cinco annos após o de 1513 era vivo, e exercia a arte.
Por voltar a Germão Galharde, sabe-se que por A. de 17 de março de 1539,
lhe foi outorgado privilegio de déz annos, para imprimir de novo o
_Reportorio_ de que se trata. Deslandes, porém, affirma, e d'esta vez
ainda não se apresentou facto que o contradiga, não conhecer, nem lhe
constar que outrem conhecesse, exemplar algum da impressão d'este livro,
tirada durante os déz annos do mencionado privilegio.
Declara, comtudo, em contraposição, _ter visto_ exemplares sahidos da
officina de Galharde em 1521 e 1528; edições estas que não andam notadas
por nossos bibliographos.
Por fórma que, havendo já _tres_ edições conhecidas do _Reportorio dos
tempos_, bem parece que sêja, por ora, capitulada _quarta_, como o
fizémos, a de que se está tratando. Isto, em obsequio ás que se dizem
datadas de 1519, bem como á de 1557, citada por Barbosa, das quaes, até
agora, não se achou porque se confirme a existencia.
XV
Foi Anna Picaya que terminou a impressão do _Reportorio_, objecto do
anterior capitulo.
Na Nota[43] _infra_ trasladâmos a competente subscripção.
A seguir a este livro, vem em 1561, editado pelo opulento João de
Borgonha, o tão fallado elogio da Sigéa, de Mestre André de Resende; em
1563, nova edição do precioso _Reportorio_, especie de _Diario
Ecclesiastico_, dos Oratorianos, sem o qual nossos avós do XVIII.^o
seculo não podiam passar. Finalmente, em 1564, dá ainda a Viuva de
Germão Galharde o _Exemplo pera bien bivir_, de Fernão Peres de Gusmão,
obra acabada a 21 de março do predito anno[44].
D'esta data em diante, até 5 de setembro de 1898, nada mais se soube que
se relacionasse com a officina typographica da viuva Galharde. Naquelle
dia, porém, publica o dr. Sousa Viterbo, como notámos no fêcho do Cap.
V. e correspondente nota, destes _Estudos_, resumido e commentado, o
depoimento, por denúncia feita na Inquisição em 5 de novembro de 1571,
do flamengo Pero Alberto, obreiro de Marcos Borges.[45] Resulta de tal
depoimento o ficarem desde então confirmados dois factos; mais proximo
um, mais remoto o outro. Pelo primeiro, corrobora-se a existencia da
typographia da viuva Galharde em 1563. Este não é essencial. Que a
celebre typographia funccionava ainda 1564 já nós sabiamos, e o leitor
comnosco. O que tem valôr é o outro facto; o que revela a transferencia
da imprensa de Marcos Borges de «_detrás de nossa Senhora da Palma_»
para o Arco do Carangueijo. A indicação considerámo-la preciosa, porque
nos indicava quem fôra o successor da viuva Galharde; isto é, porque
vinha concorrer, ainda que de modo indirecto, para nos fortalecer na
presumpção de que era no Arco do Carangueijo, com effeito, onde vamos
dentro em pouco encontrar Anna Picaya, com seu filho menor, que Germão
Galharde fundára a officina por elle mantida durante 41 annos.
Que terá, porém, succedido entre 21 de março de 1564, data do ultimo
livro, conhecido, impresso pela «Viuva Galharde», e 1571, anno em que
Marcos Borges nos apparece estabelecido, segundo todas as
probabilidades, na casa que ella occupara?
Tudo que é possivel responder, resume-se no seguinte:
Qualquer que haja sido o motivo, o velho estabelecimento typographico
pouco mais terá produzido, depois de 1564, sob a gerencia da viuva de
Germão Galharde, e se mais alguma obra veiu a lume, após a de Fernão
Peres de Gusmão, perdeu-se, como quasi de certeza outras se perderam,
impressas pelo fundador da casa.[46]
Certo é que a meiados de 1566, e contra o que estabeleceu Tito de
Noronha, já Antonio Gonçalves, o nomeado impressor da 1.^a ed. dos
Lusiadas, trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do
Carangueijo, com material que pertencêra á officina de Galharde.
Com effeito, do exame comparativo de algumas das obras impressas em uma
e outra das duas officinas resulta absoluta certeza que Antonio
Gonçalves utilisou frontispicios e letras iniciaes de phantasia que
pertenceram áquelle. Já Tito de Noronha deixára notado o facto, em uma
de suas tão copiosas quanto instructivas monographias.
Por nossa parte, temos por bem possivel que o 4.^o de dez folhas n. n.,
onde se acha impresso o _Auto das Regateiras_, de Antonio Ribeiro, o
_Chiado_, e que não tendo segundo Innocencio narra, logar, data, nem
nome de impressor, apresenta, comtudo, na portada letras que parece
quererem designar _Germão Galharde_, haja saído da officina de Antonio
Gonçalves, applicando-lhe este alguma gravura de frontispicio que haja
feito parte do material daquelle impressor.
Não temos, nesta occasião, o vagar preciso para examinar este folheto,
que se acha na Bibliotheca Nacional, e pertenceu á livraria de D.
Francisco de Mello Manoel da Camara. Acaso do exame resultaria alguma
cousa de mais positivo. Seja, porém, como fôr, uma prova de decidir é a
propria composição do frontispicio dos Lusiadas, impressos por Antonio
Gonçalves em 1572. As peças que o compõem pertenceram ao material de
Germão Galharde. Esta asserção comprova-se, pondo em conspecto o
frontispicio da edição _princeps_ dos Lusiadas (a do pelicano com o
collo para a esquerda do leitor, bem entendido), e a do _Summario_, de
Christovão Rodrigues de Oliveira, sahido a lume procedente da officina
de Galharde, depois de 1551, com toda a certeza, e talvez em 1554.
Já em 1570 Antonio Gonçalves aproveitára este mesmo frontispicio no
_Reportorio dos tempos_, que lhe coube imprimir tambem, edição que a
Innocencio parece ter escapado, mas de que ha um exemplar nos Reservados
da Bibliotheca Nacional. Este sempre lembrado impressor terá começado
por ser «imprimidor-obreiro» do velho typographo francês, sendo bem
possivel que se haja conservado na casa, após a morte de seu mestre.
Resolvida Anna Picaya a fechar a officina, ou, porventura, fallecida,
terá o seu official, disposto a estabelecer-se, uma vez que a casa
acabava, comprado os aprestos desta. Tudo parece conciliar-se para
acreditar tal supposição.
Mais difficil é o precisar desde quando Marcos Borges terá passado a
occupar as casas da viuva, e o motivo que lhe facilitaria o
estabelecer-se nellas. Não parece, com effeito, que as duas
operações--venda do material a um, e cedencia da casa a outro, se
cedencia foi, hajam resúltado da mesma causa;--o desfazer da velha
officina. Lembremo-nos que em 1567, isto é, um anno após o
estabelecer-se Antonio Gonçalves, como provaremos, ainda Marcos Borges
imprimia a _Chronica de Jorge Castrioto_ no mesmo sitio onde começára a
sua laboração; «_atrás de nossa senhora da Palma_». Presumivel será,
pois, que Anna Picaya se haja conservado, com seu filho, nas suas casas,
após ter acabado com a officina, vindo, porventura, a fallecer depois de
1568, adquirindo--quem sabe?--Marcos Borges a propriedade, e
estabelecendo-se nella.
Como quere que sêja, vamos ver agora como se chegou a presumir que a
typographia de que temos tratado haja sido no Arco do Caranguejo.
XVI
Fallecido Germão Galharde, procedeu-se a inventario, sendo Anna Picaya
nomeada «titor» de seu filho Antonio. Concorriam mais filhos, já
maiores, á herança? Eis o de que não ha certeza. Das quatro obras unicas
de que nos restam exemplares, sahidas da officina do extincto, após a
morte deste, tres dizem-se impressas «_em casa da viuva molher que foi
de Germão Galharde_.» No titulo e subscripção da quarta, porém, segunda
na ordem chronologica da impressão, lê-se:
«_Lvdovicae Sigaeae_ | _Tvmvlvs_ | ¶ _L. Andrea Resendio_ | _Auctore_ |
¶ _Apvd haeredes Germani_ | _Galiardi. An._ | _MDLXI_ | ¶ _Olyssippone_
| ¶ _Venalis apud Iohannem de Borgo_ | _Regium Bibliopolam, in vico
nouo_.»[47]
Ora, esta excepção, «_haeredes_», que aliás não resolve a dúvida, por
isso que realisado o casamento de Galharde «á moda do reino»,
co-herdeira com o filho menor era a viuva, meieira na casa, parece-nos
ter sido muito de proposito empregada naquelle impresso por motivo que a
occasião tornava perfeitamente plausivel. Corria por esse tempo o
inventario seus termos, e habilitavam se á herança do chefe da familia a
sua viuva e o filho menor. A expressão _haeredes_, posta na subscripção
do _Elogio_, de Mestre André de Resende, em 1561, era, portanto, de todo
o ponto bem cabida; exprimia a situação de ambos, como inventariantes e
como industriaes. Por isso se empregou.
Quando os saccadores, em desempenho do seu cargo, _convidaram_ a viuva
impressora a entregar-lhes a importancia do escote que lhe coubera na
_voluntaria_ imposição, (entre 15 de fevereiro e 31 de outubro de 1566)
pagou ella, sem repugnar, os 455 rs. em que foi fintada. Especie de
contribuição extraordinaria de maneio, a que só escapavam os
privilegiados;--familiares do Santo Officio, servidores de S. A. e quem
quer que tivesse armas e cavallo, e «jogasse lança de dezoito palmos
para cima»[48],--era para todos os mais a commum sorte; não havia
fugir-lhe.
Mas, fechara-se, emfim, o inventario, julgara-se a partilha, e
liquidou-se o que vinha a tocar ao menor; a sua legitima. Importava em
«cincoenta e nove mil, quinhentos e vinte e dois réis». Havia mais
orphãos em semelhantes circumstancias. A provisão de S. A.
beneficiava-os, para os effeitos da _voluntaria_ derrama, com o desconto
do «terço» do valor total apurado, para que sobre o remanescente
recahisse o talho. Anna Picaya, tutora de seu filho, teria de pagar por
elle «duzentos e oitenta réis». Reclamou. Agora, não era a obrigação do
estabelecimento; era a legitima do orphão, despiedada,--provaria
até--illegalmente desfalcada. O menor Antonio Galharde era filho de um
homem que durante mais de quarenta annos tinha prestado assignalados
serviços ás letras do país que adoptara por patria. Os seus prélos não
tinham gemido só em serviço de quantos praticavam a nobre arte de
escrever, senão que tinham tambem trabalhado para a corôa. Antonio
Galharde era filho de um «official impressor da casa real»[49]; a
isenção de que seu pae, se vivo fôra, gosaria, porque não mandava S. A.
que aproveitasse ao filho menor?
Que S. A., pois, «inclinasse por um pouco a magestade.» Á triste viuva,
sobrecarregada com os encargos da tutella e ao filho orphão
devia-se-lhes contemplação. Ambos receberiam mercê no favoravel despacho
com que S. A. se servisse attende-los.
E se isto assim se passou, pode affirmar-se que a «titor» do menor
Antonio Galharde venceu! No traslado da certidão do orphanologico que
baixara aos encarregados da cobrança, e foi lançado a fl.^s 685 e segg.,
do _Livro do Lançamento_, riscou-se a designação do escote, escripta na
margem esquerda, averbando-se na direita a significativa cota, constante
do proprio documento remissor que segue:
«ORFFAÃOS»
«T^o Dos orfãos que Johão Do sal escrivão Delles Mandou a esta cassa do
lançam.^{to} per sua sua certidão»
...........................................................................
...........................................................................
«It Ant.^o filho de Jermão Galharde Imprimidor tem de ligitima cinquoèta
e noue mill e quinhètos e vinte e dous rs abatido o terco paguara
dozètos e oytenta rs e sua titor[50] Ana Picaya sua may m^{or} ao arquo
do cangreijo»
A margem direita do livro está escripto: «abatido p.^{la} provisão de S.
A. não vay a Rol»
Parece, pois, poder concluir-se do teor desta certidão que a casa que
Germão Galharde possuia, e onde residia e tinha a sua officina
typographica, era _ao Arco do Carangueijo_, isto é, no extremo N. da rua
deste nome, para além da actual rua das Pedras Negras, partindo em linha
obliqua do começo da travessa do Almada. O chanfro existente no cunhal
posterior do predio que faz face ao Largo da Magdalena, do lado de L., e
que todos podem notar, é quanto resta do Arco de Dona Thereza, de onde
ascendia para o N. a «Rua do Arco do Carangueijo.»
Passaremos agora a tratar de Antonio Gonçalves, e findaremos.
XVII
Affirmámos no cap. XV.^o d'estes _Estudos_ que a meiados de 1566 já
Antonio Gonçalves, o nomeado impressor da 1.^a ed. dos Lusiadas,
trabalhava por sua conta, muito distante do Arco do Caranguejo.
Vamos procurar dizer onde era.
Preliminarmente, porém, preciso se torna lembrar que na segunda metade
do seculo XVI, correspondente ao anno supra mencionado, Lisbôa, sob o
ponto de vista da sua divisão ecclesiastica, a unica por então
estabelecida, achava-se, de um modo geral, dividida em tres grandes
zonas; a oriental, a central e a septentrional. Confrangidas em torno
dos pendores da primitiva cidade, e descendo para a vertente sul que
lhes corresponde, todas as parochias de limitado territorio,
successivamente fundadas durante os quatro seculos anteriores. Na
extrema esquerda, imminente ao Tejo, a de Santo Estevão,
excepcionando-se do acanhado territorio de todas as mais, pela tira
enorme que a alongava até Enxobregas[51]. Ao centro, S. Nicolau e Santas
Justa e Rufina, soffregas de territorio, dominando tudo, abrangendo
tudo, reservando apenas cada uma d'ellas para si as eminencias
correspondentes á orientação das respectivas sédes. A primeira,
alastrando-se por boa parte do valle central da cidade, e trepando para
o «Bairro do Almirante», o Carmo e circumvisinhanças, bracejava, a
oeste, para os ferragiaes atinentes ás muralhas, dando a mão ás suas
duas convisinhas dos Martyres e do Loreto. A freguezia de Santa Justa,
mais extensa ainda do que a de S. Nicolau, dominando, ao septemtrião, o
resto da chãa que aquella lhe deixava, investia pelo povoado em fóra até
á Areia Gorda, por um lado, até Arroios, pelo outro, galgava o monte de
Sant'Anna, laborava as cumiadas que a aproximavam da Alcaçova, mal
permittindo, suzerana desdenhosa, como a sua possante companheira, que
algumas pequenas parochias circumstantes affirmassem a desvaliosa
existencia.
Eis porque se lê no «Livro do Lançamento» que temos manuseado, a fls.
539, v.^o, o seguinte titulo:
«_Começa o quatorzeno Rol Da freguezia De Santa Justa: Na Rua das Casas
de Manoel a.^o_ (Affonso) _até ao postiguo De Santo André_».
Estamos, pois, junto ao, de nossos dias, chamado Arco de Santo André,
que acaba de ser derribado, e que a Divisão Parochial do Patriarcha D.
Fernando de Sousa e Silva, de 1780, mandou considerar, por dentro e por
fóra, no territorio da freguezia daquella invocação constituindo em 1566
extremas de N. E. da parochia de Santa Justa.