--Trinta contos! É um sacrificio grande, bem sei, mas a vida e a
liberdade valem mais. As provas estão em nossas mãos. Se as abrirmos, o
conselho de guerra ámanhã...
--Condemna-me á morte?!...
--Sem duvida nenhuma. O capitão de mar e guerra Magendie, nomeado para o
presidir, passa por severo e intractavel. Os outros officiaes, sobre
tudo mr. Etienne, estão resentidos, e entendem que um exemplo é
indispensavel...
--Bem! E o capitão Magendie e os outros officiaes sabem o que me propõe?
--Deus nos accuda! Pois isto são segredos de chocalheiros?! O que lhe
estou dizendo ficará entre tres pessoas. O senhor Lagarde, o senhor
Paulo de Azevedo, e eu. Vamos! Decida-se. O tempo vôa. O conselho
reune-se ámanhã ás nove horas do dia, e esta noite hão de ser-lhe
presentes, ou negados os documentos.
--Uma palavra ainda! Leonor sabe?...
--Para que a haviamos de affligir? A sr.^a D. Leonor, como boa filha, ha
de achar tudo justo e rasoavel; mas se for preciso...
--Pois senhor... Quer dizer-me o seu nome?
--Simão... Simão basta.
--Pois, sr. Simão, a minha resposta é simples. Não acceito. Estamos em
Portugal, e não nas roças do Brazil. Sou innocente, nunca tive medo da
morte, e não compro por nenhum preço esses curtos e attribulados dias,
que ainda posso viver. Diga isto a quem o mandou.
--Veja! Medite! Olhe que depois não tem remedio.
--Vejo a infamia, e não me admira. Tractam-nos como captivos, e
pedem-nos o resgate? O meu, ao menos, não hão de leval-o d'aqui. Antes
as balas dos inimigos da minha patria no peito, do que atirar um real ás
mãos immundas dos falsos magistrados, que vendem o sangue.
--Ha de arrepender-se.
--É commigo. Não se incommode a convencer-me.
--Mas a sr.^a D. Leonor?!...
--É filha de soldado. Poupe-lhe a sua piedade. Não gaste mais em vão um
tempo precioso; talvez ache em outra parte alguem mais docil. Lance a
derrama, colha na rêde o que apanhar, mas, por Deus! livre-me da sua
presença e das suas propostas. Está-me fugindo a paciencia por
instantes!...
--A sr.^a D. Leonor vem ahi...
--Minha filha?!...
--Sim. Vem vêl-o, e despedir-se talvez. Sabe o que o ameaça. Foi
avisada. Dou-lhe uma hora para a abraçar e falarem. Póde revelar-lhe a
minha proposta. Aqui volto logo...
--É escusado. Tenho uma palavra só.
--Não importa. Deixe! A firmeza inspira-me interesse. Gosto dos homens
da sua rijeza. Seria pena se!...
--Se eu me não quizesse comprar por trinta contos?...
--É verdade. O que são trinta contos para um cavalheiro rico?
--Nada! São sómente uma infamia e uma covardia. O senhor Simão acha
natural, e não era de esperar outra coisa; eu unicamente sinto ter as
mãos atadas, e não poder estampar a resposta nas faces do villão que me
suppoz capaz de tal deshonra. Queira sair!
--Não tenha esse genio! Não lhe levo a mal o desafogo. A gente quando se
entala doe-lhe e grita, mas depois vem a reflexão...
--Saia! Não vê que me faz horror e asco?
--Jesus! Que palavras! Eu saio, eu saio! Não se escandeça. Socegue! O
que lhe estou dizendo é para seu bem. Até logo! Abrace sua filha,
lembre-se de que tudo tem remedio, menos a morte, e caia em si. Acha
cara por trinta contos a protecção que lhe offerecemos?! É a vida, é a
liberdade!...
Estas palavras foram já ditas de fóra da porta chapeada da prisão. Um
impeto de Paulo de Azevedo apressou a retirada do mellifluo procurador
das veniagas da policia. O agente, cujos modos e indole de certo
denunciou logo ao leitor o dialogo, que acabàmos de escutar, seria homem
de cincoenta annos. Baixo, livido, e anafado, com uma cabelleira cravada
até á testa, uma pala verde deante dos olhos, e um tom aflautado e
mavioso, pertencia áquella especie de algozes, que abraçam a victima com
o riso nos labios, e que a dilaceram, consolando-a com phrases
dulcissimas.
Mas a physionomia abjecta e repugnante não podia enganar ninguem. A
providencia traduzira fielmente em suas feições ignobeis a perfidia e a
traição. Aguazil promovido por mil torpezas á jerarchia de espião em
chefe e de confidente de Lagarde, vociferava contra sua maldade até a
plebe dos malsins, seus humildes subditos. As lagrimas e os tractos eram
para elle um prazer suave; e armado de dentes até o umbigo, a sua avidez
insaciavel, mas inventiva, achára artes de devorar até a pobreza e a
miseria, tornando suas tributarias as enxovias, as galés, e a
prostituição.
Nunca Paulo d'Azevedo alcançára sobre si maior victoria, do que
reprimindo os accessos de colera, em que por vezes o sangue lhe subiu ao
rosto, e abstendo-se de corrigir, alli mesmo, e por sua mão, o emissario
descarado da venalidade do intendente geral da policia. A lucta
custou-lhe, porém, esforços, que depois lhe quebraram o animo. Leonor,
entrando, assustou-se de o ver sentado, ou antes prostrado, com o rosto
entre as mãos, e a alma e o coração tão trespassados, que de
desfallecimento quasi havia perdido todo o accordo. Para o despertar do
lethargo doloroso foi necessario, que a mão delicada e a voz affectuosa
da filha despertassem a ternura em seu peito quasi insensivel á força de
oppressão.
--Meu pae! Meu querido pae! exclamou a donzella, cingindo-lhe os braços
ao collo, e beijando-o extremosa e arrebatada.
--És tu Leonor! Minha Leonor! Ai filha! Que saudades e que tristezas
desde que nos separámos!
--Então! São trabalhos com que Deus quer provar a nossa resignação.
Louvemos a sua bondade e confiemos na sua justiça.
--Nunca duvidei d'ellas. Submisso e conforme com a vontade do Altissimo
espero que Elle disponha de mim. Já sabia que vinhas, que te davam
licença...
--Disse-lh'o aquelle homem de preto, que saiu, quando entrei?...
--Disse. E nunca os ferros me pesaram tanto como ha pouco. Não imaginas
o que elle me propoz?!...
--Da parte de Lagarde? Adivinho! Um casamento para mim?!...
--Um casamento para ti?! bradou Paulo erguendo-se convulso. Pois o
infame atreveu-se a pedir a tua mão?...
--Tranquillize-se, meu pae, não era para elle. N'esse ponto ao menos
fez-me justiça, accudiu a donzella sorrindo.
--Então para quem?
--Para um sobrinho seu, Armand d'Aubry, militar, moço, e digno de estima
pelas qualidades.
--E tu? interrogou o pae, fitando-a.
--Respondi que não! redarguiu Leonor serenamente. Como a minha mão era o
pretexto de um resgate, e o que Lagarde cubiçava eram os meus bens,
offereci-lhe os que herdei de minha mãe em troca da vossa liberdade.
--Fizeste mal! disse o cavalheiro severo, mas commovido. E o sobrinho,
esse Aubry, tão vil como o tio, extendeu logo a mão, e acceitou o preço?
Vens pedir o meu consentimento?!
--O sobrinho, meu pae, alma grande e nobre, tudo, rejeitou a minha mão e
os meus bens, redarguiu a donzella.
--Ah! Tanta generosidade em um francez!... Espanta-me! Acaba!
--Tenho concluido. Aubry pediu-me perdão da vileza do tio, e jurou
proteger-nos...
--De graça? Duvido! Verás que não! insistiu Paulo, meneando a cabeça com
ar incredulo. Representou um lance de theatro, talvez ensaiado em casa
para figurar de homem de brios, e a esta hora estará rindo-se com
Lagarde da tua simplicidade em o acreditar.
--Não julgo, meu pae, que se ria de mim com Lagarde, porque rompeu com
elle.
--Apparencias!
--Verdades! E a prova é que se Manuel Coutinho, o coronel de milicias de
Leiria, e muitos outros não gemem hoje em uma prisão, á generosidade de
Aubry o devem.
--Ah! Conta-me essa historia. Quero sabel-a.
Leonor expoz-lhe então os successos, que o leitor já conhece, e terminou
manifestando a sua confiança nas promessas do official francez.
--É um procedimento nobre! Quasi que tenho pena que a acção fosse de um
francez. Não gosto de dever a inimigos. Não importa. De hoje em deante
esse mancebo é sagrado para nós como um parente. Agora, Leonor, chega-te
mais para mim. Quero ver-te mais de perto. Estás pallida, muito pallida,
mas fica-te bem. Cada vez mais linda! E havia de um estrangeiro levar-me
a joia da minha alma por uns mezes mais, ou menos de velhice cansada?!
És o retrato de tua sancta mãe--não nos olhos!--os teus são mais pretos
e formosos e os cabellos tambem! Senta-te aqui nos meus joelhos. Agora
um beijo, muitos beijos!... Ha tanto tempo que te não via, filha! Não
imaginas como a tua falta me fazia velho! Dize-me, ajuntou com um
sorriso humido das lagrimas, que estavam a saltar, e os amores, como vão
os nossos amores? Manuel Coutinho adora-te como tu mereces, não? É
sempre escravo dos caprichos da sua noiva? Quero saber tudo!...
--Meu pae! accudiu ella córando cheia de rubor, e escondendo a face no
hombro do ancião.
Por isso mesmo, porque sou teu pae, é que pergunto. Bem! Bem! Se Deus
quizer hão de ser muito felizes ambos! Mas disseram-me que vinhas
despedir-te...
--Despedir-me?! exclamou a donzella sobresaltada. Despedir-me porque?! A
condessa da Ega alcançou-me licença para entrar aqui, e vim logo. Sabe
as noticias, as grandes noticias que ha, e que já são certezas?
--Não sei nada, filha. Não falo senão com os guardas, que são francezes,
e bem vês...
--Que hão de encobrir tudo. Pois ouça. Tenho muito que lhe contar.
Alegre-se, e diga se não tenho razão de lhe pedir alviçaras.
A narração feita pela donzella com as mãos entre as do pae, com os
lindos olhos accesos em enthusiasmo, e fitos nos d'elle, e com o rosto
inflammado nas risonhas côres da esperança, a pouco e pouco foi
communicando a Paulo de Azevedo o ardor e o jubilo, que exaltavam
aquelle animo juvenil. Suspenso dos labios queridos da filha, quando
ella lhe pintou a insurreição de Traz-os-Montes, o cavalheiro não poude
conter-se, que não exclamasse:
--Ah! Sepulveda! Que invejas hão de ter muitos mancebos aos teus oitenta
annos!...
Quando lhe descreveu o Algarve, Coimbra, Leiria, e o Alemtejo
sublevados, e desafiando com as armas na mão a pericia dos francezes, o
antigo official, levantando-se, e córando de prazer, bradou:
--Portugal! Julgavam-te morto, e até queriam rasgar e repartir entre si
a tua mortalha?! Bom é que lhes mostres que vives, como viveram nossos
antepasados. Aljubarrota, Valverde, o Canal, e Montes Claros foram a
licção dos invasores de hontem, assignala o teu valor em novos campos de
batalha para terror e castigo dos invasores de hoje! Continúa, Leonor!
A amante de Manuel Coutinho, proseguindo, contou-lhe a chegada e o
desembarque de sir Arthur Wellesley, a marcha do exercito nacional ás
ordens de Bernardim Freire, o combate da Roliça, e a saída de Junot ao
encontro das tropas britannicas.
--Louvado sejaes, Senhor, pela grandeza insondavel de vossa justiça!
exclamou o ancião, inclinando reverente a fronte, e erguendo as mãos. Do
grão de areia formaste a montanha, que se levanta contra os soberbos,
dos fracos e desamparados compões a força, que ha de subjugal-os.
Leonor! Junot será vencido! Diz-m'o o coração, diz-m'o a vontade do céu
manifestada em tantos prodigios. Ditosos olhos os que virem romper a
aurora do grande dia da nossa liberdade, que já sinto proximo!
--Então, meu pae, não lhe dizia eu, que o nosso captiveiro estava a
findar por pouco?!
--O teu, filha, o da patria, e ainda bem! O meu!...
--O vosso tambem. Porque não?! accudiu ella, abraçando-o.
--Talvez acabe mais cedo mesmo! Quem sabe! Não importa. No fim de tudo?!
murmurou comsigo. Possa o meu sangue, como expiação, lavar as ultimas
nodoas da culpa, por que este reino foi castigado!
--Senhor Paulo! Passou a hora! O que me diz? Está mais socegado. Volveu
á serenidade que tão bem lhe fica?
Era a voz aflautada do agente de Lagarde, cuja cabeça de reptil se
arriscava, toda olhos e ouvidos, por entre a porta aberta sem ruido. O
cavalheiro estremeceu e descórou. Cresceu-lhe a ira, e investindo contra
elle obrigou-o a desapparecer. Um clarão sombrio, que faiscou ao mesmo
tempo de suas pupillas, exprimiu toda a sua raiva.
--Ah! bradou elle. Ainda este homem aqui!...
--Quer que entre? perguntou o delator sempre escudado com a porta.
--Entre! Leonor, és filha de militar. Tens animo e constancia, bem sei.
Ouças o que ouvires, não te assustes, não digas uma palavra.
Voltando-se para o confidente da policia, cujo sorriso oleoso parecia
grávido de mysterios e de insinuações, accrescentou depois:
--Veiu propor-me ainda agora, que eu comprasse a minha vida por trinta
contos. Já lhe respondi, e repito deante de minha filha: se estivesse
solto, seu amo pagaria a affronta, a que teve a covardia de se atrever
contra um preso! Captivo, e em poder de inimigos, tenho só livre a alma
para protestar, e para dizer que prefiro mil vezes a morte á infamia de
pesar o meu sangue a ouro nas balanças iniquas de um salteador e de um
espião. Póde sair!
--Sr.^a D. Leonor, gritou Simão, não deixe seu pae assassinar-se por uma
teima! E o agente, simulando compuncção hypocrita, quasi se lançára de
joelhos aos pés da donzella, que se desviou enojada. O sr. Paulo não lhe
disse nada, agora vejo! O conselho de guerra julga-o ámanhã ás dez
horas; e a sua sentença... é de morte! Offereci-lhe salval-o por uma
quantia. Quer á força sacrificar-se! Commetter um crime, um suicidio!
Diga-lhe!...
--Que o meu coração se despedaça de o perder, mas que a minha alma se
arrebata de admiração com a sua nobre recusa? É isto o que quer que eu
diga? Para quê?! Ha muito que meu pae e eu nos conhecemos!...
--Oh! minha senhora! Cuidei que amava mais seu pae, do que trinta contos
de réis! observou o espia ferindo todos os alvos.
--Meu pae fez o seu dever. Rejeitou o pacto infame. Eu cumpro o meu,
dizendo-lhe que nunca tive tanto orgulho em me chamar sua filha.
--Mas! A sentença é infallivel e executa-se logo. Ámanhã á tarde terá de
orar sobre um cadaver! Veja que está matando seu pae!
--Silencio! clamou o cavalheiro indignado e terrivel de aspecto.
Assassino és tu, mas da honra dos homens, e até da fraqueza de uma
senhora. Vai-te! Perdes aqui o tempo, não achas compradores, e podes
encontrar... Por Deus! Não me tentes mais!
--Tenha dó de si! insistiu o agente, recuando deante do ancião, mas
orando sempre em nome dos trinta contos. Não se fie em vans esperanças.
Ninguem o salva senão nós, minha senhora! O capitão Magendie, conhecido
pela severidade, é o presidente do conselho de guerra, e a vida de seu
pae...
O honrado Simão aqui estacou com o resto da phrase estrangulado na
garganta. Uma larga mão, desabando-lhe sobre o hombro com o peso de um
rochedo, acachapou-o debaixo do seu vigoroso impulso. Ao mesmo passo uma
voz aspera e imperiosa dizia-lhe com ironica intenção:
--Chamavas pelo capitão Magendie, creio eu. Aqui está o capitão
Magendie! Repete deante d'elle o que dizias nas suas costas! Quero saber
se ousavas fazer-me cumplice do infame pacto de sangue, que vieste
propor! Fala!
Paulo de Azevedo e sua filha contemplaram attonitos e cheios de assombro
a subita intervenção d'aquelle homem, que um erro de officio do espia,
deixando a porta da prisão aberta atraz de si, introduzira no momento
mais interessante do drama, de que eram auctores e personagens.
--Fala que mando eu! repetiu o capitão, saccudindo o delator livido,
tremulo, e mudo de terror.
O cavalheiro e Leonor começavam já a compadecer-se do infeliz Simão,
muito parecido n'este instante a um chacal colhido nas garras do leão.
--Fala, ou morres aqui mesmo! bradou pela terceira vez o capitão de mar
e guerra. Quero ouvir e saber tudo!
N'este momento as faces de Leonor afoguearam-se do mais vivo carmim. Uma
figura nova acabava de entrar em scena. Era Armand d'Aubry. O mancebo
approximou-se d'ella com um sorriso, cortejou Paulo de Azevedo,
disse-lhe o seu nome, e beijando a mão á donzella com respeito,
disse-lhe:
--Não é verdade, minha senhora, que já me accusava de vanglorioso, ou de
esquecido?...
--Eu, senhor d'Aubry! Que direito tinha para isso?
--A minha palavra dada.
--Sei que é escravo d'ella; mas ás vezes ha razões...
--Nenhuma póde desculpar um descuido, que eu confesso, e que podia ter
sido fatal. Fiei-me na palavra... de um homem que a trahiu, e descancei
de mais. Felizmente chego ainda a tempo!
Um grito agudo de dor arrancado ao virtuoso Simão pelos dedos de ferro
de Magendie interromperam n'este ponto a conversação.
D'Aubry, adeantando-se, interpoz-se entre a victima e o militar
irritado.
--Magendie! disse meio serio, meio a sorrir-se, quereis esmagar esse
verme debaixo dos tacões das botas?!...
--Não! Fôra vergonha e opprobrio! Mas o miseravel invocava o meu nome,
quando entrei! Quero saber o que ousou inventar!
--Deixe-o! accudiu Leonor, dando alguns passos para o capitão. O que
elle propunha não deshonra o sr. Magendie.
--Espero que não se atrevesse a implicar-me nas torpezas, que vinha aqui
negociar. Se o fez... juro pela minha espada que lhe arranco a lingua
mentirosa...
--Não! Não! atalhou a donzella. Falou só da severidade do sr. Magendie,
e da sentença de morte que ha de proferir ámanhã contra meu pae.
--Eu! Ah! Pois tiveste a insolencia de fazer de mim carrasco? Serás
punido! E arremettendo contra o espia, inerte e transido, serviu-lhe as
costellas de tres, ou quatro pranchadas, que retiniram, seguindo-se umas
ás outras com a velocidade do raio.
--Magendie! Basta! Deixa esse desgraçado! clamou Armand, sustendo-lhe o
braço já alçado para repetir a correcção.
--Sáe! ajuntou arrastando o delator quasi pela gola da casaca, e
lançando-o fóra. Se te demoras... não levas um osso inteiro.
Simão desappareceu, lastimado do corpo, e dorido da alma, pelo exito
pessimo da sua missão.
--Minha senhora, disse d'Aubry com nobreza. Os instantes são preciosos.
O general Junot, que não é tão mau, como o odio dos portuguezes o crê,
informado de tudo--porque não lhe occultei nada--assignou a ordem de
soltura de seu pae sob palavra sómente, de que o sr. Paulo de Azevedo
não ha de pegar em armas contra as tropas de sua magestade o imperador e
rei n'esta ocasião. Fui talvez temerario, mas obriguei-me em nome do
preso. Se me excedi, como só eu respondo...
--Meu pae! Meu querido pae! Livre! Solto!... exclamou Leonor apertando o
ancião nos braços. Obrigada sr. Armand! Obrigada!
--Sr. d'Aubry! redarguiu o cavalheiro, vencendo a custo a commoção, e
não soltando do coração a filha amorosamente cingida ao peito, a
palavra, que deu, é como se fosse minha. Não abusarei da sua
generosidade. Verei de longe os successos, mas não estranhe, não me leve
a mal, que suspire pela victoria dos meus compatriotas...
--É tão natural! O que hei de estranhar? Sr.^a D. Leonor! Se lhe
disserem que Armand d'Aubry ficou no campo, lembre-se d'elle, lembre-se
do homem, que, não podendo merecel-a, quiz ao menos eximir-se ao seu
despreso.
--Despreso!? Porque nos fez Deus nascer tão separados, sr. d'Aubry!
--Paciencia, accudiu o mancebo com um sorriso contrafeito. Seja minha
irmã! E se em suas orações não póde pedir a Deus que faça triumphar a
minha causa, rogue-lhe ao menos que me dê a morte gloriosa do soldado.
Adeus! Lembre-se alguma vez de mim sem odio. Magendie são horas! Se
quereis ser dos primeiros na batalha... a cavallo, e a galope!
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