Em quanto Manuel Coutinho e seus amigos traçavam á pressa o plano, que
acabámos de escutar, os dois officiaes francezes batiam, chamando o
lavrador com a auctoridade de quem mandava.
João da Ventosa e Manuel Simões conservavam-se ainda na mesma posição,
mas os canecos tinham ido tantas vezes á fonte do cangirão, e o summo da
cepa fôra tão seductor, que, apezar de suas dimensões respeitaveis, o
alentado vaso estava quasi no fundo. A lingua começava a pegar-se ao céu
da bôcca dos dois bebedores, e os olhos a piscarem-se. Ambos cabeceavam
a compasso com aquelle sorriso beatifico e petrificado, proprio da
embriaguez mansa, quando as pancadas rijas dos militares os despertaram
em sobresalto.
Saltaram de um pulo para o meio da casa. O baralho sebento e coçado do
uso quotidiano, com que haviam jogado a bisca voou das mãos ao
fazendeiro espavorido, e as cartas espalharam-se ao acaso pelo chão. As
proezas contra os agentes de policia de Lisboa, e a execução summaria de
Gaspar Preto, (o _Sapo_), eram dois espinhos, que não lhes deixavam a
consciencia tranquilla. A todas as horas tremiam de ver a justiça á
porta, sem animo todavia para fugir, o que acontece varias vezes.
--O que será? balbuciava o robusto camponez da Aramanha. A modo que
sinto patas de cavallos lá fóra. Arrastam espadas. Com mil cobras!
Estaremos caídos na esparrella, sôr compadre?
--Valha-o um milheiro... de lacraus, homem! retorquiu o companheiro de
copo, affectando serenidade, porém mais morto, do que vivo tambem.
Sempre se lembra de cousas!... Não é nada, aposto! Não ha de ser nada...
--Deus queira! Mas olhe: não gosto nada de francezes á meia noite!...
--Nem eu com a breca! Caluda! Batem como quem se despede. Os
excommungados, se não abro, pregam-me com a porta dentro! Vamos! Alma
até Almeida!... O que fôr soará. Você ouve? Fique-se ahi para esse
canto, estire-se, durma, ou finja que dorme, e nem tugir, nem mugir.
Deixe-me cá a mim com elles! Muito finos hão de ser se metterem os pés
pelas algibeiras ao João!... Ahi vae! Ahi vae! Isto aqui não é nenhuma
estalagem!...
E rosnando, e gritando, o lavrador accudia o mais devagar, que lhe era
possivel, contando os passos, tropegos das libações e do susto.
A porta desaferrolhou-se por fim, as trancas rangeram e cairam, e o
pobre João da Ventosa esteve quasi perdendo os sentidos, quando viu
deante de si os dois officiaes francezes apeiados, e a escolta ainda a
cavallo. Um tremor invencivel apoderou-se-lhe dos membros, e um suor
frio, acompanhado de arrepios suspeitos pela espinha dorsal, acabou de o
paralyzar. Em um instante passaram-lhe pela mente todas as conjecturas
lugubres, que o medo podia forjar. Sentiu os ossos dos dedos estalados
com os anginhos e os braços cortados com as cordas. Viu-se na enxovia
comido de miseria, nas garras do escrivão e do carcereiro, dois abutres
insaciaveis. Ouviu e respondeu aos interrogatorios; e, convencido do seu
delicto, escutou a sentença de morte, entrou para o oratorio, e com os
cabellos hirtos e a lividez do terror encarou o espectro pavoroso da
forca...
Olhava, e não via, movia os beiços, e não falava, procurava arrastar os
pés, e elles parecia que tomavam raiz no chão! Foi um minuto de delirio
e anciedade, mas um minuto de tal agonia, que a outro qualquer toda a
cabeça se poria de certo branca. Entretanto era animoso, e recobrou-se.
O sangue quasi gelado aqueceu, os espiritos acovardados restauraram-se.
--Assim como assim, disse comsigo, melhor é acabar aqui de uma bala, ou
de uma cutilada, do que nas mãos do carrasco. Vivo não me levam elles de
casa, e muito inteiros não hão de ficar tambem. Veremos.
Tomada esta prompta resolução, socegou mais, levantando os olhos para os
recem-chegados. Os officiaes tinham-se arredado um pouco, e falavam a
meia voz com o sargento. Quando voltaram, um d'elles, cujo ar aberto e
espirituoso, rosto juvenil, e vista maliciosa não promettiam na
apparencia nenhum executor de ordens severas, tocou-lhe então no braço,
e na aravia arrevesada, com que os estrangeiros arremedam e estropiam de
ordinario o idioma portuguez, exclamou:
--Ah! Ah! O sr. lavrador é que é o dono da casa dos fantasmas? Venho
fazer-lhe uma visita de proposito, e pedir-lhe que me arranje um quarto,
aonde possa falar á vontade com os seus inquilinos, as almas do outro
mundo. Mal sabe as curiosas cousas, que desejo perguntar-lhes...
--A quem? bradou o João ainda vexado de receios. É escusado. Não sei
nada. Póde prender-me, matar-me...
--Prendel-o! Matal-o!... Quem lhe metteu essas loucuras na cabeça?...
Sou capitão, e chamo-me Armand d'Aubry. Ouvi falar d'este palacio e dos
fantasmas, que dão bailes e concertos á meia noite, e jurei convidar-me
com este meu amigo para assistir a um d'elles... Diga-me senhor, tem
bastante valimento na casa para me alcançar dos seus espectros o favor
de se não incommodarem por amor de mim, e de me tractarem como pessoa da
familia?...
O lavrador não sabia se estava sonhando, se estava acordado, ou se
aquelle homem era doido. Não o entendia, e fitando n'elle os olhos
espantados contemplava-o boqui-aberto e quasi nescio de estupefacção.
--A proposito! proseguiu o militar. Andámos um bom par d'estas suas
leguas portuguezas, que são eternas e cançativas, e estamos caindo de
fome e de somno. Póde dar-nos sem demora um pedaço de pão, um gole de
vinho, e uma cama? Aonde poderei alojar os meus soldados?...
--V. s.^a está em sua casa! redarguiu por fim o lavrador, respirando
mais desafogado. Queira entrar. Eu chamo já a velha e os creados, que
estão dormindo. É um instante em quanto se lhes fazem as camas e se
arranja alguma cousa para ceiarem. Sem ceremonia entrem camaradas!
Tragam os cavallos á redea e venham commigo. Graças a Deus temos aonde
aquartelar um regimento... Safa! accrescentou limpando depois o suor da
testa com as costas da mão. A gente não ganha para sustos! Sempre
cuidei!... Ah! E os outros lá de cima? E os creados d'elles que estão na
granja da encosta? Com a breca! Se dão com a lingua nos dentes vae tudo
por ares e ventos. Valha-me Deus!... Se eu nunca hei de acabar de ser
tôlo! Já minha avó me dizia: João, para que te mettes tu a dobar meadas
alheias?! Não ha remedio. É preciso fazer das fraquezas forças.
E juntando o exemplo ao preceito, a sua voz taurina fez saltar em um
momento, e pôr de pé os moços e a governante, accender o lume, e
preparar tudo para que a hospitalidade promettida aos dragões francezes
correspondesse á fartura e largueza, de que se prezava.
--Sabeis que este palacio negro e a caír faria a fortuna de um auctor de
novellas tragicas? observou em francez o companheiro de Armand, o
tenente Lassagne. Se os espectros o vexam, como se diz, devêmos
confessar que escolheram scena propria para seus terrores.
--Espero antes de nos separarmos, atalhou d'Aubry na mesma lingua, que
d'esta vez as almas do outro mundo é que hão de ter medo e fugir. Sei de
uma excellente receita para isso.
--Ah! Ah! E o nosso sargento, curtido em trinta campanhas, o que diz do
demonio e seus saquazes?
--Roberto?!... Ri-se e encrespa os bigodes. Tanto lhe faz combater os
austriacos e os prussianos, como os mamelucos, ou os subditos de sua
magestade infernal Satanaz I. É capaz de disparar á queima-roupa sobre
Asmodeu em pessoa.
--Ha de ser curioso! O meu receio unico é que os phantasmas se recolham
aos bastidores e addiem a representação. N'esse caso os logrados
seriamos nós....
--De certo!... Mas tenho motivos para crer que a noite de hoje entra no
programma diabolico. A demora em abrir a porta, a perturbação d'este
lavrador que me parece um contra-regra soffrivel de visões e espectros,
certo ar de mysterio e de desconfiança, tudo me faz suppor, que apenas
deitarmos a cabeça no travesseiro... teremos logo de a levantar para nos
entendermos com as almas do outro mundo. Aposto que lá em cima os
ensaiadores andam já a tombos com o averno, ou com o purgatorio?!
--Talvez! Então este casarão é o quartel general?...
--De todos os conspiradores, desertores, e foragidos, que nos fazem a
honra de detestar o nome francez como estrangeiro, como jacobino, e como
herege! Podeis estar seguro! Se dessemos busca ás salas e corredores
arruinados do andar nobre, punhamos a mão, juro-vos, sobre o ninho ainda
quente d'esses escandecidos patriotas, que se tornam invisiveis, sempre
que podem, para nos darem detraz dos muros e vallados os bons dias e as
boas noites com as balas das espingardas. Meu tio, o intendente Lagarde,
não hesitava, e a esta hora já tinha uma nuvem de beleguins e soldados a
cercar tudo, e a farejar e aforoar os cantos e desvãos... Eu... creio
mais nas minhas pistolas e na minha espada, do que nos laços e ardis da
policia, e ha tres noites que sonho a fio com delicias na probabilidade
de um duello, ou de um combate com uma legião de fantasmas...
Entrou n'este instante o João da Ventosa, e os creados,
multiplicando-se, pozeram a mesa, interrompendo o dialogo dos dois
officiaes. A ceia não tardou, e o lavrador, por calculo, ou por
generosidade, viu-se claramente, que desejava estimular por todos os
modos a sêde dos hospedes, convidando-os a libações repetidas, que a
natural sobriedade de Lassagne, e a prudencia de Armand tiveram o
cuidado de conter dentro de limites rasoaveis. Apezar dos louvores
encarecidos, com que o rustico Amphitryão encarecia os productos da
colheita ribatejana, e a despeito da qualidade fina e capitosa do licor,
os dois militares honraram o Baccho portuguez com summa circumspecção. O
amigo de Manuel Simões, pouco satisfeito, ao que parecia, e forçado nos
ultimos entrincheiramentos, ergueu-se para ir pessoalmente escolher na
adega duas garrafas, uma de Madeira, e outra do Porto, capazes,
affiançava elle, de vencer o jejum de um cenobita, a immobilidade de um
morto, e a frieza de um velho.
--Sentido! murmurou d'Aubry quasi ao ouvido do tenente. Os espectros,
segundo noto, são eruditos. Leram Virgilio, Horacio, e Vegecio. Este
aldeão medita uma nova edição do cavallo de Troia em formato reduzido. O
que elle vae buscar não é vinho, é somno para nos ter á sua
disposição...
--Nos meus dias de taful e de rapaz talvez se arrependesse, porque me
atreveria a beber o mar! disse Lassagne sorrindo, e retorcendo entre os
dedos as guias do bigode louro.
--Ah! Leão! Meu querido Leão! Muito verdadeiro é o adagio que diz: viaja
para aprenderes. Quem havia de suppor, que, sem sermos Samsão, vinhamos
encontrar em umas ruinas da Ponte da Asseca esta parodia dos artificios
biblicos de Dalilla?
--Oh! accudiu o tenente rindo. Dalilla de vestea, calções, e varapau?!
--Porque não? O habito não faz o monge. Álerta! Ahi vem o nosso homem, e
suspeito que a adega, como a famosa caverna de não sei que santo, ha de
ter uma bôcca aberta para o inferno. Deus me perdoe, se o calumnio,
porém creio firmemente, que elle foi saber a senha dos fantasmas para o
espectaculo d'esta noite.
As duas garrafas continham na realidade o licor precioso das colheitas
rivaes das vinhas do Douro e dos cachos insulanos, e tinham sido
escolhidas por um entendedor emerito. Os officiaes festejaram-as com o
alvoroço, que mereciam suas qualidades e seus annos, simulando mesmo
certa turbulencia, que a um observador mais habil, do que o João da
Ventosa, pareceria mais do que suspeita, se attentasse para a expressão
maliciosa dos olhos de Aubry, e para o sorriso ironico engatilhado nos
labios de Lassagne. Tudo tem comtudo um termo, e davam tres quartos para
a meia noite, quando os dois francezes, entre bocejos, e dando mostras
de excessivo peso na cabeça, pediram treguas, e manifestaram o desejo de
descançar das fadigas da jornada e dos effeitos narcoticos da campanha
bacchica. O lavrador accendeu dois castiçaes de casquinha, e mais
vacillante, do que elles, porque não se poupára durante o combate para
os estimular, guiou-os pela escada interior aos dois quartos, aonde,
como sabemos, já tinha aquartellado Leonor e seu pae na famosa noite,
immortalizada pelas proezas do sargento Cabrinha e de seus milicianos.
--Viva Deus! exclamou Aubry, rindo, depois de corresponder ás boas
noites e offerecimentos encarecidos do patrão, de fechar logo a porta a
duas voltas de chave, e de ouvir o ruido dos passos do rendeiro a descer
a escada. Viva Deus! Estamos nas covas de Salamanca, e aposto que
separados apenas por uma parede da sala regia aonde os fantasmas dão as
suas audiencias. Lassagne! Ha mezes passaveis por ser a primeira pistola
e a mais fina espada do regimento. Não deixeis ficar mal a destreza
n'estas ruinas, porque vos affirmo, que, vivos ou mortos, os que
entrarem n'este quarto, pela janella, pelo sobrado, pelo tecto, ou pelos
muros, não saem d'aqui sem dizer d'onde vem, e para onde vão.
--Virão elles? replicou o outro official, encolhendo os hombros com o
usal sorriso. Receio que algum diabrete os avise...
Não receieis. Não faltam. Diz-m'o o coração. A fortuna tem sido madrasta
commigo, e deve-me tanto, que de certo não me nega o gosto de ver e
apalpar um espectro, e de lhe perguntar noticias dos... inglezes, do
general Bernardim Freire, ou de algum guerrilha emboscado perto d'aqui!
Se vos parecer deixaremos para depois o itinerario do purgatorio e os
fogachos do inferno....
--Impio! respondeu o seu interlocutor em tom jovial. E não quereis que
nos chame esta gente jacobinos e herejes?! Em que acreditaes?
--Em Deus, que nos ouve; em Jesus, que nos remiu; na immortalidade, que
ha de unir-nos em espirito aos que amámos e chorâmos n'este desterro
chamado vida! retorquiu o mancebo de repente serio e quasi melancholico.
Mas!... São horas de apreciarmos os colchões das camas, e de dormirmos
um instante com os olhos abertos. Lassagne tendes o somno pesado?...
--Leve como um açor! Um nada me desperta.
--Bello! Eu tambem. Por esse lado não ha que temer. Agora as pistolas.
Optimo! As escorvas estão seccas e ardem bem. Tende sempre as armas á
mão. Boas noites! Deus permitta que os fantasmas se não arrependam.
Estou ancioso de os conhecer.
E o estouvado, rindo e espreguiçando-se, apertou a mão do amigo, pousou
as pistolas á cabeceira sobre um velador, e deitando-se vestido em cima
do leito, cerrou os olhos. Lassagne imitou-o. D'ahi a um momento
resonavam ambos.
Teria passado uma hora, e jazia tudo em profundo socego, quando Aubry,
que na realidade tinha o somno esperto de uma ave, accordou ao ruido
lento dos gonzos enferrujados da porta falsa, que abria sobre o seu
quarto, disfarçada com o velho espelho porta pela qual vimos verificada
a evasão de Paulo de Azevedo mezes antes. O mancebo tinha conservado a
véla accesa, e ao primeiro som esfregando os olhos, e reassumindo os
espiritos perturbados, sentou-se na cama, correndo a vista por todo o
aposento afim de perceber d'onde partia o assalto.
Um instante bastou para formar exacta idéa d'elle. A porta resistia de
velhice, mas, gemendo, cedia sempre, e o espelho recuava.
O sobrinho de Lagarde saltou de manso á casa, engatilhou as pistolas, e
com ellas nas mãos, e a espada núa debaixo do braço, pé ante pé,
encaminhou-se á entrada do quarto, em que repousava Lassagne.
Achou-o erguido tambem, e armado. Com o dedo sobre os labios
recommendou-lhe silencio. Os dois apenas trocaram um gesto. Não era
preciso mais. Estavam entendidos.
Aubry encobriu-se com o cortinado do leito; Lassagne atraz do vão da
porta, e ambos aguardaram que os espectros acabassem de vencer os
obstaculos. Queriam desenganar-se finalmente por seus olhos da
verdadeira significação das mysteriosas apparições, que vinham
visital-os. Não esperaram muito!