Fr. João era o mais irado, ou antes, era o unico irado. O seu labio
superior, extendido como tromba cresceu, e a barba de tres andares
descaíu-lhe com o beiço de baixo quasi até o peito, signal manifesto de
seu despreso. O suor da colera, colera de frade, oleosa e leveda,
inundou-lhe a testa. As pupillas faiscavam.
--Santo Deus! que ouço!... atalhou pondo-se em pé, hirto e furioso, e
alçando os braços como se afagasse a peroração do melhor de seus
sermões. É o sr. Manuel Carranca quem profere taes blasphemias, ou é
algum inimigo de Deus e da patria?!...
--Padre mestre! accudiu não menos irritado e furibundo o arguente
interpellado, já tambem de pé. Não me tente a paciencia! Eu digo a
verdade e não solto blasphemias. Pão pão, queijo queijo! Nunca tive
trato com mouros, judeus, ou herejes, nem consinto que ponham nota na
minha religião, entende?...
--Se não quer ser lobo não lhe vista a pelle. Sou ministro de Deus, e
não adulador de poderosos. Castigo os que erram! replicou o orador com
um gesto inimitavel de desdem olympico.
--Castiga? Diz que ha de castigar-me?!... bradou o capitão-mór livido e
convulso de raiva.
--Digo-lhe que já o castiguei, e que hei de continuar!... retorquiu o
frade não menos rascivel crescendo dentro dos habitos.
--A mim! Manuel Carranca, morgado e capitão-mór de ordenanças de Leiria,
pae de familia, e homem de sessenta annos de edade?!... insistiu o outro
suffocado, roxo, e com os punhos cerrados.
--Quem o ouvisse não lhe faria doze annos! Uma criança não fala mais
loucamente; concluiu fr. João encolhendo os hombros, limpando o suor, e
sentando-se de golpe.
--Sabe que mais, sôr padre? gritou quasi em delirio o aggredido. Tenho
pena de o ver de saias. Senão!... Juro-lhe por alma de Eufrasia, minha
santa companheira, que Deus tem, que deixava metade da pelle agarrada
aos nós da corda, com que o havia fustigar!...
Só o pugilato podia terminar a contenda, chegada a estes termos. Fr.
João parecia possesso. Sentava-se, erguia-se, estorcia-se, clamava, e
accusava, defendia-se, ameaçava, enternecia-se, e elle só fazia mais
ruido, do que cem mendigos implorando voz em grita a caridade dos fieis.
O seu adversario ria-se com despreso das contorsões do prégador, e
repetia entre gargalhadas nervosas, quando uma pausa nos accessos do
reverendo lh'o consentia:
--Juro-lhe! Se os frades como as mulheres, não vestissem saias, o padre
mestre saía esta noite d'aqui em carne viva!
O auditorio escutava calado e neutro as imprecações dos contendores,
ria-se das interjeições e dos trejeitos, e murmurava, porque se perdia
em puerilidades similhantes um tempo precioso.
A algazarra dos dois subiu, porém, a tal ponto, que o coronel de
milicias, que dormitava talvez encostado ao punho, como insensivel ao
ruido, que o cercava despertou meio sobresaltado, abriu metade das
palpebras preguiçosas, e articulou em tom pausado sómente estas
palavras:
--Que vozeria é esta, senhores? Estamos á porta de algum açougue, ou em
uma casa honesta, deliberando a bem da patria? Peço socego.
Não foi preciso mais. Tudo emmudeceu. Isidoro Pinto Gomes era um ancião
veneravel, nobre pelo sangue, exemplar pelas virtudes, e acatado
geralmente.
--Vamos! Proseguiu. Não é já cedo, e é preciso sem demora concluir! E
correu a vista serena pelos collegas, detendo-a um pouco severa sobre o
frade e o capitão-mór, que, sentados um defronte do outro, ainda se
ameaçavam com os olhos. O sr. fr. João Salgado propunha que montassemos
a cavallo, e partissemos d'aqui a levantar Santarem, Villa Franca,
Leiria...
--Todo o reino, sr. coronel. È facil! interrompeu o padre.
--È fácil de fazer e difficil de sustentar, redarguiu Manuel Coutinho.
Os francezes ainda estão em Abrantes e Lisboa...
--É para os lançar fóra que eu queria que todos esses povos armados...
--E vossa reverendissima conta acompanhar-nos e combater ao nosso lado?
interrogou o coronel sempre com a mesma gravidade.
--Certamente! exclamou o prégador menos enthusiasmado já. Com as minhas
orações, com as armas espirituaes...
Uma risada estrondosa de escarneo, desatada com insolencia pelo
capitão-mór, estrangulou-lhe entre os dentes o resto do discurso.
--Sr. Manuel Carranca, observou Isidoro Pinto, risadas não são razões.
Queira reportar-se. Estamos em acto serio, e que póde custar a cabeça a
todos nós... Continuemos! As armas espirituaes de grande auxilio nos
poderão ser, porém infelizmente não bastam. Junot e os seus soldados
pelejam com valentia, e não se dispersam com exorcismos. Sr. Manuel
Coutinho, o seu voto? Vem de Lisboa, é militar, e tem prudencia. O que
entende?
--Que novos levantamentos nos atrazam em vez de nos adeantar. Os
francezes são soldados, e bons soldados, força é confessal-o, e só por
outros soldados podem ser vencidos. O povo tem desejos e vontade, mas
falta-lhes disciplina...
--_Deus super omnia_! exclamou o incorregivel fr. João. Não lhes queria
estar na pelle se de Leiria até ás abas da capital toda a gente se
levantasse contra elles. Só os nossos campinos e guardadores, que
formoso esquadrão! De mais Lisboa está á primeira voz. Sei-o com
certeza. O Conselho Conservador na primeira occasião atira pelos ares os
inimigos de Deus e de el-rei...
--Vossa reverendissima está enganado! respondeu o mancebo inalteravel,
em quanto o frade rubro e arquejante esponjava com o lenço de algodão o
suor da eloquencia, e sorvia uma apoz outra tres pitadas triumphantes de
esturro.
--Estou enganado?! bradou. Queira dizer em que?
--Em tudo. Primeiro o povo não se levanta assim de repente e todo.
Depois os campinos e guardadores não aturam uma carga de cavallaria ou o
fogo da artilharia, a qual alcança longe, e mette medo. Por ultimo a
cidade de Lisboa não se move!...
--Ora essa! Muito mal nos iria então!...
--Porque? Não marcham os inglezes de Montemór, ao pé de Coimbra? Confie
mais n'elles, que sabem fazer a guerra. O general Bernardim Freire com
as milicias e voluntarios tambem avança. O que queria de Lisboa? Uma
revolução de paizanos? As baterias do castello e as bayonetas de Junot
depressa a venceriam. Ninguem deseja mais a capital liberta, do que eu,
como portuguez, como militar, e... Os outros motivos são só meus. Mas
conheço a necessidade e resigno-me. A nossa causa ha de triumphar nos
campos de batalha, e não nas ruas, e com tumultos. As victimas já não
têem sido poucas.
--Qual é então a sua opinião, sr. Manuel Coutinho? observou o coronel,
calando com um volver de olhos imperioso a loquacidade do prégador, que
abria a bôcca para replicar. O que devemos fazer?
--A minha opinião é que montemos a cavallo, recrutemos o maior numero
possivel de homens valentes, e que sem ruido nos vamos unir ao exercito
de operações. O nosso posto é lá.
--Muito bem! Sou do mesmo voto. O que dizem os senhores?
--Que estamos promptos, disse o capitão-mór de ordenanças. Ardo em
impaciencia de tirar uma desforra mestra da grande sova de Leiria...
--E nós todos de tirarmos desforra da invasão! atalhou Isidoro Pinto com
dignidade. Partiremos esta madrugada, e se Deus quizer seremos mais
felizes d'esta vez.
--Que gloria, senhores, para nós e para nossos descendentes! exclamou o
morgado de Penin, cujo enthusiasmo facil de inflammar se exaltava
n'estas occasiões. A patria libertada, Portugal triumphante!...
--O que não rirá sua alteza real o principe regente, quando souber como
nós por cá tractámos os francezes! Para mim o melhor dia da minha vida
ha de ser o ditoso momento em que possa beijar os augustos pés do meu
rei... Oh, se elle voltar, e ha de voltar, apezar de indigno filho de S.
Francisco, irei com o povo puchar aos varaes da sua carruagem!
E espraiando o zelo monarchico n'esta jaculatoria servil, o frade corria
os olhos, de que já saltavam as lagrimas de uma alegria antecipada, pela
assembléa soffrivelmente fria, ou quasi hostil á demonstração.
--Sr. fr. João, disse o coronel de milicias, levantando-se, e alçando a
cabeça com ar magestoso, se o principe D. João voltar, e Deus o traga
depressa, deixe ás mulas de Alter, cujo é, o peso do seu coche. Essas
mãos sagradas são para os officios divinos, e não para as tarefas dos
cocheiros...
--Mas! replicou o frade interdicto e atalhado com a licção. Não estamos
todos aqui ajuramentados para verter até á ultima gota de sangue pelo
principe e pela familia real?... Se não fosse isto e a santa religião
tanto fazia Bonaparte como qualquer outro.
--Eu lhe digo! redarguiu Isidoro Pinto. Sou portuguez e sou catholico.
Como portuguez quero morrer livre aonde nasci; como catholico detesto os
que adoram o meu Deus só com os labios, roubando e profanando os
templos, prendendo e espoliando em Roma o vigario de Christo. Depois de
Deus e da patria--mas só depois--é que vem para mim a restauração do
throno de nossos reis...
--Depois?! É singular! murmurou fr. João contrariado e aggressivo.
--Pois não devia achar singular, redarguiu o coronel serenamente. E
senão diga-me: Para que são os reis?...
--Essa é boa! Para que são?!... Deus instituiu-os...
--Como pastores, guardas, e defensores dos povos. E o que defendeu, ou
guardou o principe regente? A sua pessoa, as suas alfaias, a sua
segurança. A nós mandou-nos abrir as fronteiras, e entregou-nos
manietados por uma ordem sua aos inimigos, de que fugia.
--Nunca tal ouvi! clamou o prégador attonito. O que queria o sr. coronel
que sua alteza fizesse em tão grande aperto?
--O que fez D. João I e D. João IV. Que ficasse! Era a sua obrigação. Os
reis não estão acima de todos para se esconderem dos perigos atraz dos
ultimos vassallos, ou para esperarem que elles combatam e vençam na sua
ausencia.
--Que importa isso? Não estamos nós?
--Importa muito! É verdade que estamos, mas elle falta; e em quanto sua
alteza, que Deus guarde, saboreia a duas mil leguas d'aqui os ananazes e
bananas da sua xacara de S. Christovam, choramos nós a liberdade perdida
mettidos no captiveiro, em que nos deixou...
--Mas sua alteza não se esqueceu de nós. O seu manifesto declarando a
guerra á França!...
--Ah sim! Bem sei! Declarou-lhes a guerra! Quem a sustenta? Nós e nossos
filhos com o sangue vertido no campo e nos patibulos, com as casas
saqueadas e reduzidas a cinzas, com os bens e a saude arruinados. A
côrte festeja de longe o nosso valor. A Gazeta do Rio chama-nos heroes;
porém!... Uns comem os figos, e aos outros arrebenta-se-lhes a bôcca.
Acha isto justo, nobre, e bem feito? Se acha, faz mal, se concorda,
calo-me. O principe e os titulares hão de voltar, quando lhes abrirmos
as portas; em quanto houver perigo, não! Se os cavalheiros de provincia,
se o clero, se o povo imitassem tanta ingratidão--tamanha
vergonha--deixe-me chamar as cousas pelo seu nome, Portugal seria de
Napoleão, de Junot, do principe da Paz, da Hespanha, de todos, emfim,
menos de quem o desamparou para cuidar de si. Louvado Deus, se o rei
fugiu, e desertou do throno, nós lembrámo-nos da nossa historia, dos
nossos brios, e do nosso juramento. Esqueceremos apenas... que estamos
combatendo sós! Quando o senhor D. João e os fidalgos se recolherem,
nós, pobres e mutilados, mas honrados, iremos dar-lhe os parabens, e
tornaremos logo para casa a ver se ainda salvamos do naufragio o pão de
nossos filhos... Peço desculpa d'estas palavras, meus senhores! ajuntou,
cortejando os conspiradores, que o tinham ouvido silenciosos, porém
sympathicos. Sou velho, e os velhos têem o defeito ás vezes de falarem
muito. Prometto emendar-me, porque a occasião é de acções, e não de
palavras. Amanhã de madrugada partimos. Boas noites! São horas de
descanço.
Fr. João mettia dó. A sua filaucia oratoria, punida pelas sinceras e
sisudas reflexões do coronel, tinha-se convertido em humildade, em mais
do que humildade, em consternação. A verdade e a justiça das queixas,
que ouvia, eram tão evidentes, que não lhe consentiam replica.
Arrependido de as ter provocado, apertou com expressivo ardor a mão do
velho cavalheiro, e com os olhos baixos e modos contrictos encaminhou-se
ao aposento, em que o aguardava a cadeira, em que havia de repousar. Os
seus amigos não tinham melhor leito.
Os outros cavalheiros iam separar-se egualmente, quando os assustou o
tropear de muitos cavallos caminhando a trote largo. Manuel Coutinho por
uma fresta das tabuas, que tapavam uma das janellas rasgadas sobre a
estrada, espreitou com precaução, e ao clarão do luar viu reluzir os
cascos, e peitos de armas dos dragões francezes. Ao mesmo tempo uma voz
forte dava a ordem de alto, e por um instante tudo caiu em silencio. Os
conspiradores olharam uns para os outros e instinctivamente levaram a
mão ao punho da espada. O mancebo continuava entretanto o seu exame sem
se sobresaltar.
--É uma escolta de seis homens, e acompanha dois officiaes! disse elle
retirando-se. Somos doze, e os nossos creados que dormem na granja
muitos mais e decididos. Apaguemos já a luz, vamos para o outro lado do
palacio, e demos tempo ao lavrador de nos avisar. Naturalmente os
francezes pedem hospedagem, e passam aqui a noite...
--Se assim for! E a nossa jornada?! atalhou o capitão-mór de ordenanças.
--A nossa jornada está primeiro do que elles! accudiu sorrindo-se Manuel
Coutinho. Simplesmente o que póde acontecer é apresentarmo-nos com
alguns prisioneiros ao exercito.
--Excellente! Excellente! gritou a voz de trovão do morgado de Penin.
Vamos a elles. Que nenhum escape!
--Mais baixo, senhor morgado, mais devagar! Não acorde o leão que dorme.
Os soldados é facil apanhal-os aonde ficam. Os officiaes ainda mais. O
João decerto os mette nos quartos, que sabemos, e pela porta de
espelho... Entretanto por causa das suspeitas, e porque esta casa ainda
póde ser-nos util, sou de voto, que os assustemos e afugentemos com uma
representação de fantasmas... e que á saída lhes demos a voz de presos.
--Lá está o João da Ventosa com elles à fala! observou o major, que
espreitava á janella: Apeiam-se! A ceia que os espera ha de custar-lhes
a digerir.
--Deram-nos tão mau almoço em Leiria, atalhou rindo o coronel, que lhes
devemos esta ceia. Vamos ensaiar os nossos papeis.
D'ahi a um momento estava deserta a vasta sala. Os conspiradores tinham
desapparecido por uma porta falsa, aberta na parede com tal arte, que
ninguem seria capaz de a descobrir.
V