«Fora inutil negar o que eu propria confessei. O meu nome é

Hermengarda: o duque de Cantabria, Favila, foi meu pae, e Pelagio é o

filho e successor de Favila.»

O amir ficou alguns momentos calado com o braço d'Hermengarda preso na

mão robusta, que ella sentia tremula com o tumultuar dos affectos que

agitavam o coração do arabe. Este, por fim, exclamou:

«Pelo precursor do sancto propheta; por Issa[1], Hermengarda, que, se

amas teu irmão, me digas:--eu serei tua. Estas palavras o farão senhor

da mais rica provincia do Andalús, daquella que elle escolher para

reinar como amir: os guerreiros que o seguem serão os walis das suas

cidades, os kaiyds dos seus castellos: dos meus thesouros metade será

delle. As escravas que muito hei amado não mais verão sorrir-lhes o

rosto de seu senhor. Tu serás rainha do meu coração; rainha sem rival;

senhora de tudo sobre quanto se estende o poder de Abdulaziz, do filho

querido do invencivel Musa. Profere só essas palavras, e a sorte de

Pelagio será invejada pelos nossos mais illustres guerreiros!...»

No gesto do agareno todos os vestigios da colera tinham desapparecido:

só nelle se lia a anciedade de um amor immenso, que precisa, mais que

do goso brutal, de um sentimento accorde com os proprios sentimentos.

Mas Hermengarda só vira affronta e opprobrio nas palavras do amir, e

o odio a este homem, cuja natural fereza e orgulho o amor convertera

em brandura e, talvez, em submissão, tornou-se ainda maior ao ouvi-lo.

Recobrando toda a energia da sua alma, que por um momento vacillara,

respondeu, olhando para Abdulaziz com ar de desprezo:

«Nem sempre os valentes conquistadores da Hespanha podem achar

traidores que vendam por ouro e honras infames os sepulchros de seus

paes e os altares do Senhor. Não! Pelagio não acceitará nunca um logar

entre os filhos de Witiza e o conde de Septum; porque Deus o guarda

para vingador de seus trahidos irmãos. Infiel, grande era o preço que

davas por uma filha da serva raça dos godos: guarda-o para o empregares

melhor; para comprares as nobres e livres donzellas do teu paiz. Tudo o

que me offereces é vil; porque vem de ti, maldicto. Só uma offerta te

acceito; ha muito que t'a pedi: a morte... a morte, e que seja breve.

Abomino-te, destruidor da Hespanha... Não! Enganei-me! Desprezo-te,

salteador do deserto.»

Com os labios brancos e o olhar desorientado, o amir ouvia as palavras

d'Hermengarda, e a sua fronte enrugava-se como a face do oceano ao

passar do furacão. Tremendo silencio reinou por alguns momentos na

tenda. Com um rir abafado e diabolico, o amir o rompeu por fim:

«A morte?--Não terás a morte: juro-t'o pelo sepulchro do propheta.

Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará elle

para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto? Tu serás minha,

mulher orgulhosa; porque o meu amor é, como o meu odio, inexoravel

e fatal. Depois, quando o incendio que me devora estiver extincto;

quando o tedio morar para mim nos teus braços, irás cevar nas tendas

dos bereberes a sensualidade brutal dessa soldadesca selvagem. Póde ser

que teu nobre irmão venha entretanto salvar-te!... Guarda para então as

suberbas; que hoje, pobre escrava, só te resta obedecer á voz do teu

senhor.»

Ao dizer isto, Abdulaziz, segurando com a dextra o braço d'Hermengarda,

apertou-o com tanta violencia que a desgraçada deu um grito de agonia e

cahiu de joelhos aos pés do arabe. O amir ergueu-a e, impellindo-a com

força, ao mesmo tempo que despedaçava com a esquerda o raro cendal que

lhe velava o rosto, a fez cahir pallida e trémula sobre o almatrah. Os

labios da donzella quizeram ainda proferir algumas palavras--porventura

uma supplica; mas apenas murmurou sons inarticulados, que expiraram em

arquejar doloroso.

No seu furor, o filho de Musa não sentira um rugido de colera que

respondera ao grito d'Hermengarda, nem um ai passageiro e sumido,

que, segundo era intimo, parecia de homem a quem a ponta de um punhal

rasgara subitamente o coração. Nas telas, porém, que dividiam o

aposento do logar d'onde pouco antes saíra o eunucho e que ficavam

fronteiras á entrada principal da tenda uma figura humana se estampou

negra sobre o chão brilhante da tapeçaria. O amir, volvendo casualmente

os olhos, a viu. Crescia rapida. Escutou. Passos ligeiros soavam no

vasto aposento. Voltou-se. Mas apenas pôde erguer o braço: vira reluzir

no ar um ferro: vira um vulto cuberto d'armas semelhantes ás dos

cavalleiros d'Al-Sudan: sentiu um golpe que lhe partia o braço erguido

e, batendo-lhe ainda no craneo, lhe retumbava no cerebro. Deu um grito,

fechou os olhos e cahiu aos pés d'Hermengarda, manando-lhe o sangue da

fronte. O monstro humano que conduzira alli a irman de Pelagio, assomou

então no topo interior da tenda: o brado do amir o attrahira. Vendo

seu senhor derribado e juncto delle o que o feríra, o eunucho fez uma

horrivel visagem, como pretendendo falar; mas sómente soltou um rugido

acompanhado de um gesto d'ameaça. Segundo o atroz costume do oriente,

Al-Fehri, destinado desde a infancia ao serviço mysterioso do harem,

fora condemnado em tenros annos a nunca imitar a voz humana. Privado da

lingua, as suas expressões eram acenos ou afflictivos e inarticulados

rugidos.

O cavalleiro observava-o. Fê-lo sorrir o ademan feroz e ameaçador do

eunucho. Tinha previsto todas as difficuldades daquella arriscada

empreza e contava com o seu esforço e frieza d'animo para as vencer.

Ligeiro, travou de uma das tochas que ardiam juncto da mesa do

banquete e chegou-a ás ricas tapeçarias que forravam a tenda. A chamma

enredou-se na tela: um rolo de fumo espesso trepou em espiraes,

ennegrecendo-lhe os recamos e lavores brilhantes. Em breve, as

labaredas abraçadas com os feixes de lanças, com os pannos custosos,

que ondeiavam torcendo-se, treparam até o cimo e, curvando-se

espalmadas sob o tecto, romperam em linguas ardentes aprumadas para

o céu. O incendio, espalhando ao longe a sua sinistra claridade,

erguia-se como um tocheiro disforme acceso no meio do arraial e

despertava assim do somno profundo os soldados d'Al-Sudan lançados em

volta do pavilhão do amir.

Mas já a este tempo o cavalleiro se affastava do logar daquella scena

medonha. As palavras--«liberdade e Pelagio!» proferidas por elle,

tinham calado como um balsamo de vida no coração d'Hermengarda. O

desconhecido, tomando-a nos braços, atravessou ligeiro para o lado

do arraial onde estanceiavam os godos. Outro cavalleiro lhe tinha

de rédea dous ginetes. Hermengarda, a quem o perigo e a esperança

haviam restituido toda a natural energia, não hesitou em acompanhar

o seu audaz e mysterioso salvador. Seguindo os caminhos tortuosos e

incertos que as tendas do immenso arraial formavam e guiando-se pela

lua, que principiava a saír detrás dos outeiros, os tres fugitivos

encaminharam-se para o lado do campo além do qual as montanhas, lá ao

longe, reflectiam já o luar das cumiadas cubertas de neve.

Entretanto Al-Fehri correra a despertar os negros da guarda do amir, e

o cavalleiro ainda ouviu os gritos destes ao contemplarem o incendio,

mais prestes em acorda-los que o eunucho. Á entrada da tenda, o

vigia que devera despertá-los ao primeiro signal de Abdulaziz havia

adormecido de somno mais profundo que o delles. Um punhal enterrado na

garganta até o punho lhe sellara para sempre os labios. Os gestos de

desesperação d'Al-Fehri fizeram conhecer aos soldados o perigo do amir.

Por entre as chammas, ferido e semi-morto, a custo poderam salvá-lo.

Pouco a pouco, o tumulto se alongou pelo arraial: os cheiks arabes e os

capitães de Juliano corriam para o logar onde brilhava o incendio, e,

dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar

dos tambores, o tropeiar dos cavallos naquella vasta planicie fariam

crer a quem olhasse para alli dos montes vizinhos que no arraial se

pelejava uma batalha nocturna.

No meio da confusão que produzíra por toda a parte este acontecimento

inesperado e cujo motivo e circumstancias inteiramente se ignoravam,

ninguem reparou nos dous cavalleiros e na donzella que, atravessando

rapidamente por entre as tendas dos arabes e dos godos, se dirigiam

para as atalaias do norte. Era, porém, aqui onde os maiores perigos

aguardavam os tres fugitivos.

A revolta do campo chegara aos ouvidos dos vigias. Sobresaltados pelo

clarão que refulgia do logar do incendio e pelo rumor que soava dessa

parte, o grito de alarma correra de boca em boca, de uns para os

outros outeiros, que successivamente se illuminavam. No largo gyro que

tal bradar fizera, aquella cadeia de sons uniformes fora subitamente

quebrada. Lá, na almenara do norte, nenhuma voz respondera ao vozeiar

dos esculcas; nenhuma luz de fogueira brilhara de novo. De cada um

dos postos vizinhos, uma decania de corredores transfretanos desceu,

então, aos valles e, subindo depois por uma e outra encosta, vieram

todas topar na coroa do outeiro. Á claridade da lua, cujos raios

inclinados roçavam já pela terra, viram reluzir no chão troços d'armas,

e, estirados ao pé dellas, estavam os corpos de seus donos involtos

nos saios de malha. Rapido e violento devia ter sido o commettimento,

numerosos os cavalleiros inimigos; porque nem um dos atalaias podera

escapar. Nem um: que todos ahi jaziam! Braço robusto tinham por certo

aquelles que assim ousavam penetrar no campo de Abdulaziz: as feridas

profundas assignadas nos cadaveres davam disso testemunho. Não havia

que duvidar: Pelagio salteiara o arraial. O incendio que reverberava

ao longe e o arruído como de um grande combate diziam que o facho da

vingança fora arrojado ao meio das tendas do Islam, e que o ferro dos

defensores da Hespanha viera, nas trevas da noite, lavar com sangue o

logar dos banquetes, tincto ainda de vinho e immundo de prostituição.

Este pensamento passou fugitivo e confuso pelo espirito dos guerreiros,

que olhavam como petrificados para a scena de morte que tinham ante

si a qual, de um lado, era alumiada pela luz debil da lua nascente,

e, do outro, pelo clarão avermelhado e ainda mais frouxo do incendio

ao longe. Um correr de cavallos que subiam ligeiro a encosta da banda

do arraial lhes divertiu a attenção. Volveram para lá os olhos. Tres

vultos a cavallo se dirigiam para alli. Dous, cubertos de armas

escuras, ladeiavam o terceiro, cujas roupas alvejavam ao luar. Os

corredores transfretanos adiantaram-se para elles. Ao aproximarem-se,

viram que o vulto branco era de mulher e que os outros trajavam saios e

elmos e traziam achas d'armas. Eram em tudo semelhantes aos guerreiros

d'Al-Sudan que compunham a guarda do amir.

Um dos dous cavalleiros affastou-se da donzella e, dirigindo-se aos

capitães das decanias, unidas no topo do outeiro, disse-lhes em romano,

com voz que simulava profunda colera:

«Os inimigos entraram no campo e accommetteram a propria tenda de

Abdulaziz. Os soldados do conde de Septum lhes deram passagem; porque a

elles estava confiada a guarda do campo. Em qual das atalaias estão os

traidores?»

«Os valentes da Transfretana nunca mereceram esse nome--replicou um

dos decanos ou capitães dos esculcas.--Foi aqui onde deram o passo

aos inimigos; mas o caminho destes foi por cima dos seus cadaveres.

Julgae-os.»

E as duas decanias affastaram-se para os lados. Vinte cadaveres estavam

lançados por terra.

«Sobre elles não cahiu o opprobrio na sua ultima hora:--disse

o guerreiro depois de contemplar um momento aquelle

espectaculo.--Abdulaziz ordena que se guardem estreitamente as saídas

do campo. Não tardam os cavalleiros zenetas que vem ajunctar-se nas

atalaias comvosco, a fim de que nenhum infiel possa escapar, emquanto

nós vamos conduzir para logar seguro, fóra do arraial revolto, a

escrava querida do amir. Vinde!--proseguiu elle, voltando-se para o

companheiro.

Atravessando por entre os soldados tingitanos, a donzella e os seus

libertadores começaram a descer apressadamente a encosta.

Já os tres fugitivos íam a alguma distancia, quando, como tomado de uma

idéa subita, um dos esculcas exclamou:

«Aquelle homem é godo!--Nenhum arabe fala assim a lingua romana: muito

menos os broncos guerreiros d'Al-Sudan. Por minha fé, que são inimigos!»

Os acontecimentos inesperados dessa noite, a incerteza em que se

achavam os esculcas sobre o que succedia no arraial, a rapidez com

que se passara esta scena e, sobretudo, a audacia e o tom imperativo

com que o desconhecido falara não haviam dado logar á reflexão e ás

suspeitas. Mas as palavras do soldado foram para todos um raio de luz:

«Tens razão, buccellario:--atalhou o capitão da decania.--Fazei-os

parar.»

Os tres, que já íam a meia encosta, ouviram muitas vozes

clamar:--esperae!

«Somos perseguidos!--disse em voz baixa aquelle que ficara juncto da

donzella emquanto o outro falava com os vigias.

«Está salva!--respondeu o companheiro, que parecia ter concentrado

todos os seus cuidados n'um pensamento unico, a fuga d'Hermengarda.

Duas frechas lhes sibillaram então por cima das cabeças.

«Covadonga e Pelagio!--gritou o que proferira as ultimas palavras.

Eram chegados á raiz do monte, juncto ao qual uma planicie inculta e

cuberta d'urzes se estendia até ir topar com os bosques que povoavam os

primeiros cabeços das serranias septemtrionaes.

A esta voz, lá na orla da floresta, ao cabo do sarçal, surgiram de

repente uns reflexos metalicos, que se agitavam trémulos, semelhantes

á phosphorencia de um marnel por noite sem lua. Depois, o grito

de--Covadonga e Pelagio--foi repetido daquelle lado da gandra, como

respondendo ao que soltara o cavalleiro.

«São os nossos valentes irmãos--disse ao companheiro o que falara com

os decanos das tiuphadias transfretanas.--São nossos irmãos, que nos

esperam. Tu, Sancion, guiarás ao meio delles a nobre irman do duque de

Cantabria. Entretanto eu reterei aqui os miseraveis renegados, que já

descem do outeiro a perseguir-nos; retê-los-hei emquanto alcançaes a

entrada do bosque e vos embrenhaes na serrania, seguindo ao norte. A

agrura das montanhas e a profundeza dos valles das Asturias demorarão

os inimigos, quando eu haja de perecer e não podér embargar-lhes os

passos. Ide-vos.»

«Não perecerás sem mim, cavalleiro negro:--replicou o fero

Sancion.--Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cegamente

emquanto não salvassemos a irman de Pelagio. Mas, apenas alcançar a

orla da floresta onde mandaste esperar os nossos dez companheiros,

voltarei com todos os que me quizerem seguir. Para guiar a filha de

Favila bastam dous guerreiros: o resto não bastará, talvez, a reter

durante o tempo necessario para a fuga a turba dos infiéis que se

approxima.»

E, sem esperar a resposta do cavalleiro negro, Sancion adiantou-se,

dizendo á donzella, que apenas podera perceber algumas palavras

truncadas da conversação dos dous:

«Partamos!»

E a galope, acompanhado d'Hermengarda, brevemente se alongou pela

vereda torcida, que se distinguia no meio das moutas, como beta

alvacenta estampada no tapete escuro das sarças.

A attenção do cavalleiro negro, que os seguira com os olhos, foi,

porém, distrahida para o outro lado pelo tropeiar, já pouco distante,

dos corredores transfretanos, que a toda a brida se acercavam delle.

Era chegada a occasião de mostrar o extremo do seu esforço.

XV

AO LUAR

Das brenhas através affugentando-os,

C'o a rapida carreira á ponte impelle-os.

_Officio Mosarabe--Hymno de S. Torquato._

Os soccorros dados immediatamente a Abdulaziz tinham-lhe restituido o

sentimento da vida. O clarão da sua tenda, que ainda ardia a poucos

passos do logar para onde o haviam transportado, foi a primeira cousa

que lhe feriu a vista ao descerrar os olhos do lethargo em que estivera

submerso. Esse facho desmesurado, cujo fóco vermelho lhe apparecia

cuberto de vasta cupula de fumo negro, o crepitar do incendio, o

rumor e alarido do arraial e a inquietação que se lia nos gestos dos

que o rodeiavam retraçaram-lhe subitamente no espirito a scena que

se passara, pouco antes, naquelle pavilhão incendiado. Era um quadro

complexo e terrivel; e o primeiro signal de vida que o amir deu foi um

grito d'horror e desesperação. Alçando violentamente o corpo, ficou

assentado sobre o almatrah em que estava deitado. Com o rosto livido e

tincto do sangue que lhe corria da fronte e o olhar espantado e feroz,

hesitar-se-hia ao vê-lo, se esse vulto era o de um homem vivo, se o

de um morto que, afastando o sudario, se fosse a erguer da tumba para

revelar algum dos temerosos mysterios que encerra a apparente quietação

do sepulchro. Parecia que o aspecto do amir convertera em estatuas

todos os circumstantes: a immobilidade era completa, e o silencio

profundo.

Mas uma e outra cousa duraram apenas rapido instante. Com a voz rouca e

affogada, o arabe rugia:

«Segui-o! segui o infiel!... As suas armas são negras e semelhantes

ás dos guerreiros d'Al-Sudan... A melhor cidade do Gharb e a mais

bella das minhas escravas a quem m'o trouxer vivo aqui. Todos!...

Ide, trazei-m'o vivo! Prestes, cheiks, walis, kaiyds, cavalleiros do

propheta! Prestes! correi após o meu assassino!»

As palavras de Abdulaziz revelavam o delirio da sua alma; cheiks,

walis, e kaiyds olharam tristemente uns para os outros e não fizeram um

unico movimento.

«Que! Não me obedeceis? Não obedeceis ao filho de Musa--exclamou o

amir--porque a sua voz não soa no meio das trombetas e tambores; porque

elle não cinge a espada, nem cavalga o seu corcel de batalha? Sem mim,

atterram-vos as solidões das montanhas? Cheiks do Sahará e de Barca,

walis d'Andalús, kaiyds e almocadens do exercito dos crentes... sois

covardes e desleaes. Quando corre este sangue, vós não sabeis vingá-lo!»

«Não somos desleaes nem covardes, Abdulaziz:--interrompeu o mancebo

Abdallah, o unico dos chefes arabes que ousava replicar ao amir nos

seus violentos accessos de furor.--Mas como queres que te obedeçamos,

se não sabemos de quem te havemos de vingar? De um individuo ou de

milhares delles; dos adoradores de Deus ou dos infiéis nazarenos; de

nossos irmãos ou de nossos inimigos, não nos importa! Terás a vingança

que pedes, inteira quanto mãos d'homens a podem dar. A torrente dos

teus cavalleiros espera, apenas, que profiras um nome e apontes um

logar, para correr destruidora e irresistivel. Não deves antes d'isso

condemnar-nos.»

«Quereis um nome e um logar?--interrompeu o amir.--Ainda, pois, não os

adivinhastes? Pelagio e as montanhas do norte. Lá, lá!... Era elle ou

um demonio o que me feriu... Porque?... Quando?... Oh, agora me lembra.

Ía possuí-la, e roubaram-m'a! Por alto preço pagarão os nazarenos

d'Al-Djuf tanta audacia. A cavallo os almogaures do deserto...

Persegui-o até o encontrardes. Mas vivo... quero-o vivo em minhas mãos!

Ai daquelle que o matar!»

Alguns dos cheiks íam já a saír da tenda para executar as ordens do

amir. Um brado subito deste os fez parar.

«Não!... Não partireis sem mim! Quero acompanhar-vos; hei-de

acompanhar-vos pelas brenhas e desvios; quero assistir á carnificina

desses malaventurados que ainda resistem aos decretos de Deus. É

preciso que em breve estejam nas minhas mãos Pelagio e sua irman.

Ambos!... Que me tragam ambos!»

D'ahi a pouco, umas andas forradas de telas preciosas recebiam

Abdulaziz, conduzido para alli sobre o mesmo almatrah ensanguentado

em que os medicos judeus lhe haviam ligado as feridas. Rodeiavam as

andas os cavalleiros negros de Al-Sudan. Duzentos bereberes, filhos

das serranias do Atlas, estavam, tambem, em volta dellas: estes deviam

transportá-las a gyros pelos alcantis das Asturias. As renques de

tendas alvejantes, ponteagudas, formando uma como vasta cidade, que, ao

subir da lua, davam ao arraial o aspecto de um cemiterio do oriente,

sem os cyprestes funebres e esguios; toda essa multidão de pavilhões

brancos, semelhantes a um mar de pyramides, havia desapparecido, e,

apenas, o luar, batendo nos ferros das lanças dos esquadrões cerrados

e na geada que cahia sobre os turbantes dos cavalleiros, refrangia

trémulo um clarão prateiado.

E o sussurro que se ouvia entre tantos milhares de homens era, apenas,

o murmurio das respirações oppressas pelo frio nocturno e o resfolegar

dos ginetes, aspirando o nevoeiro humido que se alevantava da terra.

Mas lá, na vanguarda, para o lado das atalaias do norte, d'onde se

descortinavam os topos recortados das montanhas sobre o chão claro

do céu, como fileira de gigantes petrificados durante uma dança de

embriaguez, tão phantasticos eram os seus contornos, ouvia-se o

ruído alto e indistincto do cruzar de muitas vozes, do tropeiar de

muitos cavallos: viam-se lampejar as armas nos visos dos dous ultimos

outeiros que por aquella parte rodeiavam o campo, e agitarem-se ondas

de vultos humanos e sumirem-se, onda após onda, como se os devorasse

voragem aberta de subito debaixo dos seus pés: eram os cavalleiros que

transpunham a eminencia. O exercito, detrás daquelles dous outeiros,

que formavam como um ponto unico, vinha successivamente engrossando até

o logar em que estava Abdulaziz. Parecia um desmesurado triangulo de

ferro, a ponto de ir bater na muralha da serrania, que, vestida com a

sua armadura de selvas, esperava o embate daquelle disforme vaivem, que

já começava a oscillar ante ella.

Uma scena horrenda se passava, entretanto, além das atalaias, no

extenso sarçal que se estendia até o sopé das primeiras montanhas. Os

soldados transfretanos tinham-se lançado pela encosta abaixo atrás dos

fugitivos. Ao chegarem á planicie, um dos tres desconhecidos estava

diante delles, esperando-os quedo no meio da estreita trilha aberta

por entre as urzes. A acha d'armas goda e a cadeia que lh'a prendia ao

braço reluziam unicamente naquelle vulto, cujo saio e cavallo negros e

cujo silencio profundo faziam lembrar um desses espectros errantes alta

noite pelos logares desertos.

Os outros dous vultos galopavam a alguma distancia, encaminhando-se

para a orla do bosque, onde continuavam a reverberar reflexos de armas

polidas.

«Quem és tu?--disse um dos capitães das decanias, dirigindo o cavallo

para o vulto negro.--Quem és tu, que ousaste enganar os atalaias do

campo d'Abdulaziz, os guerreiros do conde de Septum?»

«Sou um homem que aínda não renegou nem da cruz, nem da Hespanha; um

homem que não acceitou o ouro dos barbaros para ser o assassino covarde

de seus irmãos.»

«Miseravel, que ajunctas ao engano a insolencia!--rugiu o decano,

alçando a espada.--As derradeiras palavras de orgulho e rebeldia acabam

de sair-te dos labios.»

Ultímas palavras foram, porém, as do decano: a borda gyrou sibilando

no ar, e o guerreiro transfretano cahiu para o lado morto, como se o

fulminara o raio.

Com um grito de horror e de colera, os que o seguiam precipitaram-se

para o desconhecido.

Rodeiado de quasi vinte homens, o cavaleiro negro repetia apenas uma

parte das gentilezas que practicara na fatal jornada do Chryssus. A

cada golpe da borda respondia um gemido de moribundo; depois, uma

injuria ameaçadora dos que ficavam; depois, um rir de desprezo do

cavalleiro, e, d'ahi a pouco, um novo gemido d'alma que se despedia da

terra. O tropel dos pelejadores rareiava de instante a instante.

Eurico, o presbytero · 第 9 / 14 段