Hermengarda: o duque de Cantabria, Favila, foi meu pae, e Pelagio é o
filho e successor de Favila.»
O amir ficou alguns momentos calado com o braço d'Hermengarda preso na
mão robusta, que ella sentia tremula com o tumultuar dos affectos que
agitavam o coração do arabe. Este, por fim, exclamou:
«Pelo precursor do sancto propheta; por Issa[1], Hermengarda, que, se
amas teu irmão, me digas:--eu serei tua. Estas palavras o farão senhor
da mais rica provincia do Andalús, daquella que elle escolher para
reinar como amir: os guerreiros que o seguem serão os walis das suas
cidades, os kaiyds dos seus castellos: dos meus thesouros metade será
delle. As escravas que muito hei amado não mais verão sorrir-lhes o
rosto de seu senhor. Tu serás rainha do meu coração; rainha sem rival;
senhora de tudo sobre quanto se estende o poder de Abdulaziz, do filho
querido do invencivel Musa. Profere só essas palavras, e a sorte de
Pelagio será invejada pelos nossos mais illustres guerreiros!...»
No gesto do agareno todos os vestigios da colera tinham desapparecido:
só nelle se lia a anciedade de um amor immenso, que precisa, mais que
do goso brutal, de um sentimento accorde com os proprios sentimentos.
Mas Hermengarda só vira affronta e opprobrio nas palavras do amir, e
o odio a este homem, cuja natural fereza e orgulho o amor convertera
em brandura e, talvez, em submissão, tornou-se ainda maior ao ouvi-lo.
Recobrando toda a energia da sua alma, que por um momento vacillara,
respondeu, olhando para Abdulaziz com ar de desprezo:
«Nem sempre os valentes conquistadores da Hespanha podem achar
traidores que vendam por ouro e honras infames os sepulchros de seus
paes e os altares do Senhor. Não! Pelagio não acceitará nunca um logar
entre os filhos de Witiza e o conde de Septum; porque Deus o guarda
para vingador de seus trahidos irmãos. Infiel, grande era o preço que
davas por uma filha da serva raça dos godos: guarda-o para o empregares
melhor; para comprares as nobres e livres donzellas do teu paiz. Tudo o
que me offereces é vil; porque vem de ti, maldicto. Só uma offerta te
acceito; ha muito que t'a pedi: a morte... a morte, e que seja breve.
Abomino-te, destruidor da Hespanha... Não! Enganei-me! Desprezo-te,
salteador do deserto.»
Com os labios brancos e o olhar desorientado, o amir ouvia as palavras
d'Hermengarda, e a sua fronte enrugava-se como a face do oceano ao
passar do furacão. Tremendo silencio reinou por alguns momentos na
tenda. Com um rir abafado e diabolico, o amir o rompeu por fim:
«A morte?--Não terás a morte: juro-t'o pelo sepulchro do propheta.
Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará elle
para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto? Tu serás minha,
mulher orgulhosa; porque o meu amor é, como o meu odio, inexoravel
e fatal. Depois, quando o incendio que me devora estiver extincto;
quando o tedio morar para mim nos teus braços, irás cevar nas tendas
dos bereberes a sensualidade brutal dessa soldadesca selvagem. Póde ser
que teu nobre irmão venha entretanto salvar-te!... Guarda para então as
suberbas; que hoje, pobre escrava, só te resta obedecer á voz do teu
senhor.»
Ao dizer isto, Abdulaziz, segurando com a dextra o braço d'Hermengarda,
apertou-o com tanta violencia que a desgraçada deu um grito de agonia e
cahiu de joelhos aos pés do arabe. O amir ergueu-a e, impellindo-a com
força, ao mesmo tempo que despedaçava com a esquerda o raro cendal que
lhe velava o rosto, a fez cahir pallida e trémula sobre o almatrah. Os
labios da donzella quizeram ainda proferir algumas palavras--porventura
uma supplica; mas apenas murmurou sons inarticulados, que expiraram em
arquejar doloroso.
No seu furor, o filho de Musa não sentira um rugido de colera que
respondera ao grito d'Hermengarda, nem um ai passageiro e sumido,
que, segundo era intimo, parecia de homem a quem a ponta de um punhal
rasgara subitamente o coração. Nas telas, porém, que dividiam o
aposento do logar d'onde pouco antes saíra o eunucho e que ficavam
fronteiras á entrada principal da tenda uma figura humana se estampou
negra sobre o chão brilhante da tapeçaria. O amir, volvendo casualmente
os olhos, a viu. Crescia rapida. Escutou. Passos ligeiros soavam no
vasto aposento. Voltou-se. Mas apenas pôde erguer o braço: vira reluzir
no ar um ferro: vira um vulto cuberto d'armas semelhantes ás dos
cavalleiros d'Al-Sudan: sentiu um golpe que lhe partia o braço erguido
e, batendo-lhe ainda no craneo, lhe retumbava no cerebro. Deu um grito,
fechou os olhos e cahiu aos pés d'Hermengarda, manando-lhe o sangue da
fronte. O monstro humano que conduzira alli a irman de Pelagio, assomou
então no topo interior da tenda: o brado do amir o attrahira. Vendo
seu senhor derribado e juncto delle o que o feríra, o eunucho fez uma
horrivel visagem, como pretendendo falar; mas sómente soltou um rugido
acompanhado de um gesto d'ameaça. Segundo o atroz costume do oriente,
Al-Fehri, destinado desde a infancia ao serviço mysterioso do harem,
fora condemnado em tenros annos a nunca imitar a voz humana. Privado da
lingua, as suas expressões eram acenos ou afflictivos e inarticulados
rugidos.
O cavalleiro observava-o. Fê-lo sorrir o ademan feroz e ameaçador do
eunucho. Tinha previsto todas as difficuldades daquella arriscada
empreza e contava com o seu esforço e frieza d'animo para as vencer.
Ligeiro, travou de uma das tochas que ardiam juncto da mesa do
banquete e chegou-a ás ricas tapeçarias que forravam a tenda. A chamma
enredou-se na tela: um rolo de fumo espesso trepou em espiraes,
ennegrecendo-lhe os recamos e lavores brilhantes. Em breve, as
labaredas abraçadas com os feixes de lanças, com os pannos custosos,
que ondeiavam torcendo-se, treparam até o cimo e, curvando-se
espalmadas sob o tecto, romperam em linguas ardentes aprumadas para
o céu. O incendio, espalhando ao longe a sua sinistra claridade,
erguia-se como um tocheiro disforme acceso no meio do arraial e
despertava assim do somno profundo os soldados d'Al-Sudan lançados em
volta do pavilhão do amir.
Mas já a este tempo o cavalleiro se affastava do logar daquella scena
medonha. As palavras--«liberdade e Pelagio!» proferidas por elle,
tinham calado como um balsamo de vida no coração d'Hermengarda. O
desconhecido, tomando-a nos braços, atravessou ligeiro para o lado
do arraial onde estanceiavam os godos. Outro cavalleiro lhe tinha
de rédea dous ginetes. Hermengarda, a quem o perigo e a esperança
haviam restituido toda a natural energia, não hesitou em acompanhar
o seu audaz e mysterioso salvador. Seguindo os caminhos tortuosos e
incertos que as tendas do immenso arraial formavam e guiando-se pela
lua, que principiava a saír detrás dos outeiros, os tres fugitivos
encaminharam-se para o lado do campo além do qual as montanhas, lá ao
longe, reflectiam já o luar das cumiadas cubertas de neve.
Entretanto Al-Fehri correra a despertar os negros da guarda do amir, e
o cavalleiro ainda ouviu os gritos destes ao contemplarem o incendio,
mais prestes em acorda-los que o eunucho. Á entrada da tenda, o
vigia que devera despertá-los ao primeiro signal de Abdulaziz havia
adormecido de somno mais profundo que o delles. Um punhal enterrado na
garganta até o punho lhe sellara para sempre os labios. Os gestos de
desesperação d'Al-Fehri fizeram conhecer aos soldados o perigo do amir.
Por entre as chammas, ferido e semi-morto, a custo poderam salvá-lo.
Pouco a pouco, o tumulto se alongou pelo arraial: os cheiks arabes e os
capitães de Juliano corriam para o logar onde brilhava o incendio, e,
dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar
dos tambores, o tropeiar dos cavallos naquella vasta planicie fariam
crer a quem olhasse para alli dos montes vizinhos que no arraial se
pelejava uma batalha nocturna.
No meio da confusão que produzíra por toda a parte este acontecimento
inesperado e cujo motivo e circumstancias inteiramente se ignoravam,
ninguem reparou nos dous cavalleiros e na donzella que, atravessando
rapidamente por entre as tendas dos arabes e dos godos, se dirigiam
para as atalaias do norte. Era, porém, aqui onde os maiores perigos
aguardavam os tres fugitivos.
A revolta do campo chegara aos ouvidos dos vigias. Sobresaltados pelo
clarão que refulgia do logar do incendio e pelo rumor que soava dessa
parte, o grito de alarma correra de boca em boca, de uns para os
outros outeiros, que successivamente se illuminavam. No largo gyro que
tal bradar fizera, aquella cadeia de sons uniformes fora subitamente
quebrada. Lá, na almenara do norte, nenhuma voz respondera ao vozeiar
dos esculcas; nenhuma luz de fogueira brilhara de novo. De cada um
dos postos vizinhos, uma decania de corredores transfretanos desceu,
então, aos valles e, subindo depois por uma e outra encosta, vieram
todas topar na coroa do outeiro. Á claridade da lua, cujos raios
inclinados roçavam já pela terra, viram reluzir no chão troços d'armas,
e, estirados ao pé dellas, estavam os corpos de seus donos involtos
nos saios de malha. Rapido e violento devia ter sido o commettimento,
numerosos os cavalleiros inimigos; porque nem um dos atalaias podera
escapar. Nem um: que todos ahi jaziam! Braço robusto tinham por certo
aquelles que assim ousavam penetrar no campo de Abdulaziz: as feridas
profundas assignadas nos cadaveres davam disso testemunho. Não havia
que duvidar: Pelagio salteiara o arraial. O incendio que reverberava
ao longe e o arruído como de um grande combate diziam que o facho da
vingança fora arrojado ao meio das tendas do Islam, e que o ferro dos
defensores da Hespanha viera, nas trevas da noite, lavar com sangue o
logar dos banquetes, tincto ainda de vinho e immundo de prostituição.
Este pensamento passou fugitivo e confuso pelo espirito dos guerreiros,
que olhavam como petrificados para a scena de morte que tinham ante
si a qual, de um lado, era alumiada pela luz debil da lua nascente,
e, do outro, pelo clarão avermelhado e ainda mais frouxo do incendio
ao longe. Um correr de cavallos que subiam ligeiro a encosta da banda
do arraial lhes divertiu a attenção. Volveram para lá os olhos. Tres
vultos a cavallo se dirigiam para alli. Dous, cubertos de armas
escuras, ladeiavam o terceiro, cujas roupas alvejavam ao luar. Os
corredores transfretanos adiantaram-se para elles. Ao aproximarem-se,
viram que o vulto branco era de mulher e que os outros trajavam saios e
elmos e traziam achas d'armas. Eram em tudo semelhantes aos guerreiros
d'Al-Sudan que compunham a guarda do amir.
Um dos dous cavalleiros affastou-se da donzella e, dirigindo-se aos
capitães das decanias, unidas no topo do outeiro, disse-lhes em romano,
com voz que simulava profunda colera:
«Os inimigos entraram no campo e accommetteram a propria tenda de
Abdulaziz. Os soldados do conde de Septum lhes deram passagem; porque a
elles estava confiada a guarda do campo. Em qual das atalaias estão os
traidores?»
«Os valentes da Transfretana nunca mereceram esse nome--replicou um
dos decanos ou capitães dos esculcas.--Foi aqui onde deram o passo
aos inimigos; mas o caminho destes foi por cima dos seus cadaveres.
Julgae-os.»
E as duas decanias affastaram-se para os lados. Vinte cadaveres estavam
lançados por terra.
«Sobre elles não cahiu o opprobrio na sua ultima hora:--disse
o guerreiro depois de contemplar um momento aquelle
espectaculo.--Abdulaziz ordena que se guardem estreitamente as saídas
do campo. Não tardam os cavalleiros zenetas que vem ajunctar-se nas
atalaias comvosco, a fim de que nenhum infiel possa escapar, emquanto
nós vamos conduzir para logar seguro, fóra do arraial revolto, a
escrava querida do amir. Vinde!--proseguiu elle, voltando-se para o
companheiro.
Atravessando por entre os soldados tingitanos, a donzella e os seus
libertadores começaram a descer apressadamente a encosta.
Já os tres fugitivos íam a alguma distancia, quando, como tomado de uma
idéa subita, um dos esculcas exclamou:
«Aquelle homem é godo!--Nenhum arabe fala assim a lingua romana: muito
menos os broncos guerreiros d'Al-Sudan. Por minha fé, que são inimigos!»
Os acontecimentos inesperados dessa noite, a incerteza em que se
achavam os esculcas sobre o que succedia no arraial, a rapidez com
que se passara esta scena e, sobretudo, a audacia e o tom imperativo
com que o desconhecido falara não haviam dado logar á reflexão e ás
suspeitas. Mas as palavras do soldado foram para todos um raio de luz:
«Tens razão, buccellario:--atalhou o capitão da decania.--Fazei-os
parar.»
Os tres, que já íam a meia encosta, ouviram muitas vozes
clamar:--esperae!
«Somos perseguidos!--disse em voz baixa aquelle que ficara juncto da
donzella emquanto o outro falava com os vigias.
«Está salva!--respondeu o companheiro, que parecia ter concentrado
todos os seus cuidados n'um pensamento unico, a fuga d'Hermengarda.
Duas frechas lhes sibillaram então por cima das cabeças.
«Covadonga e Pelagio!--gritou o que proferira as ultimas palavras.
Eram chegados á raiz do monte, juncto ao qual uma planicie inculta e
cuberta d'urzes se estendia até ir topar com os bosques que povoavam os
primeiros cabeços das serranias septemtrionaes.
A esta voz, lá na orla da floresta, ao cabo do sarçal, surgiram de
repente uns reflexos metalicos, que se agitavam trémulos, semelhantes
á phosphorencia de um marnel por noite sem lua. Depois, o grito
de--Covadonga e Pelagio--foi repetido daquelle lado da gandra, como
respondendo ao que soltara o cavalleiro.
«São os nossos valentes irmãos--disse ao companheiro o que falara com
os decanos das tiuphadias transfretanas.--São nossos irmãos, que nos
esperam. Tu, Sancion, guiarás ao meio delles a nobre irman do duque de
Cantabria. Entretanto eu reterei aqui os miseraveis renegados, que já
descem do outeiro a perseguir-nos; retê-los-hei emquanto alcançaes a
entrada do bosque e vos embrenhaes na serrania, seguindo ao norte. A
agrura das montanhas e a profundeza dos valles das Asturias demorarão
os inimigos, quando eu haja de perecer e não podér embargar-lhes os
passos. Ide-vos.»
«Não perecerás sem mim, cavalleiro negro:--replicou o fero
Sancion.--Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cegamente
emquanto não salvassemos a irman de Pelagio. Mas, apenas alcançar a
orla da floresta onde mandaste esperar os nossos dez companheiros,
voltarei com todos os que me quizerem seguir. Para guiar a filha de
Favila bastam dous guerreiros: o resto não bastará, talvez, a reter
durante o tempo necessario para a fuga a turba dos infiéis que se
approxima.»
E, sem esperar a resposta do cavalleiro negro, Sancion adiantou-se,
dizendo á donzella, que apenas podera perceber algumas palavras
truncadas da conversação dos dous:
«Partamos!»
E a galope, acompanhado d'Hermengarda, brevemente se alongou pela
vereda torcida, que se distinguia no meio das moutas, como beta
alvacenta estampada no tapete escuro das sarças.
A attenção do cavalleiro negro, que os seguira com os olhos, foi,
porém, distrahida para o outro lado pelo tropeiar, já pouco distante,
dos corredores transfretanos, que a toda a brida se acercavam delle.
Era chegada a occasião de mostrar o extremo do seu esforço.
XV
AO LUAR
Das brenhas através affugentando-os,
C'o a rapida carreira á ponte impelle-os.
_Officio Mosarabe--Hymno de S. Torquato._
Os soccorros dados immediatamente a Abdulaziz tinham-lhe restituido o
sentimento da vida. O clarão da sua tenda, que ainda ardia a poucos
passos do logar para onde o haviam transportado, foi a primeira cousa
que lhe feriu a vista ao descerrar os olhos do lethargo em que estivera
submerso. Esse facho desmesurado, cujo fóco vermelho lhe apparecia
cuberto de vasta cupula de fumo negro, o crepitar do incendio, o
rumor e alarido do arraial e a inquietação que se lia nos gestos dos
que o rodeiavam retraçaram-lhe subitamente no espirito a scena que
se passara, pouco antes, naquelle pavilhão incendiado. Era um quadro
complexo e terrivel; e o primeiro signal de vida que o amir deu foi um
grito d'horror e desesperação. Alçando violentamente o corpo, ficou
assentado sobre o almatrah em que estava deitado. Com o rosto livido e
tincto do sangue que lhe corria da fronte e o olhar espantado e feroz,
hesitar-se-hia ao vê-lo, se esse vulto era o de um homem vivo, se o
de um morto que, afastando o sudario, se fosse a erguer da tumba para
revelar algum dos temerosos mysterios que encerra a apparente quietação
do sepulchro. Parecia que o aspecto do amir convertera em estatuas
todos os circumstantes: a immobilidade era completa, e o silencio
profundo.
Mas uma e outra cousa duraram apenas rapido instante. Com a voz rouca e
affogada, o arabe rugia:
«Segui-o! segui o infiel!... As suas armas são negras e semelhantes
ás dos guerreiros d'Al-Sudan... A melhor cidade do Gharb e a mais
bella das minhas escravas a quem m'o trouxer vivo aqui. Todos!...
Ide, trazei-m'o vivo! Prestes, cheiks, walis, kaiyds, cavalleiros do
propheta! Prestes! correi após o meu assassino!»
As palavras de Abdulaziz revelavam o delirio da sua alma; cheiks,
walis, e kaiyds olharam tristemente uns para os outros e não fizeram um
unico movimento.
«Que! Não me obedeceis? Não obedeceis ao filho de Musa--exclamou o
amir--porque a sua voz não soa no meio das trombetas e tambores; porque
elle não cinge a espada, nem cavalga o seu corcel de batalha? Sem mim,
atterram-vos as solidões das montanhas? Cheiks do Sahará e de Barca,
walis d'Andalús, kaiyds e almocadens do exercito dos crentes... sois
covardes e desleaes. Quando corre este sangue, vós não sabeis vingá-lo!»
«Não somos desleaes nem covardes, Abdulaziz:--interrompeu o mancebo
Abdallah, o unico dos chefes arabes que ousava replicar ao amir nos
seus violentos accessos de furor.--Mas como queres que te obedeçamos,
se não sabemos de quem te havemos de vingar? De um individuo ou de
milhares delles; dos adoradores de Deus ou dos infiéis nazarenos; de
nossos irmãos ou de nossos inimigos, não nos importa! Terás a vingança
que pedes, inteira quanto mãos d'homens a podem dar. A torrente dos
teus cavalleiros espera, apenas, que profiras um nome e apontes um
logar, para correr destruidora e irresistivel. Não deves antes d'isso
condemnar-nos.»
«Quereis um nome e um logar?--interrompeu o amir.--Ainda, pois, não os
adivinhastes? Pelagio e as montanhas do norte. Lá, lá!... Era elle ou
um demonio o que me feriu... Porque?... Quando?... Oh, agora me lembra.
Ía possuí-la, e roubaram-m'a! Por alto preço pagarão os nazarenos
d'Al-Djuf tanta audacia. A cavallo os almogaures do deserto...
Persegui-o até o encontrardes. Mas vivo... quero-o vivo em minhas mãos!
Ai daquelle que o matar!»
Alguns dos cheiks íam já a saír da tenda para executar as ordens do
amir. Um brado subito deste os fez parar.
«Não!... Não partireis sem mim! Quero acompanhar-vos; hei-de
acompanhar-vos pelas brenhas e desvios; quero assistir á carnificina
desses malaventurados que ainda resistem aos decretos de Deus. É
preciso que em breve estejam nas minhas mãos Pelagio e sua irman.
Ambos!... Que me tragam ambos!»
D'ahi a pouco, umas andas forradas de telas preciosas recebiam
Abdulaziz, conduzido para alli sobre o mesmo almatrah ensanguentado
em que os medicos judeus lhe haviam ligado as feridas. Rodeiavam as
andas os cavalleiros negros de Al-Sudan. Duzentos bereberes, filhos
das serranias do Atlas, estavam, tambem, em volta dellas: estes deviam
transportá-las a gyros pelos alcantis das Asturias. As renques de
tendas alvejantes, ponteagudas, formando uma como vasta cidade, que, ao
subir da lua, davam ao arraial o aspecto de um cemiterio do oriente,
sem os cyprestes funebres e esguios; toda essa multidão de pavilhões
brancos, semelhantes a um mar de pyramides, havia desapparecido, e,
apenas, o luar, batendo nos ferros das lanças dos esquadrões cerrados
e na geada que cahia sobre os turbantes dos cavalleiros, refrangia
trémulo um clarão prateiado.
E o sussurro que se ouvia entre tantos milhares de homens era, apenas,
o murmurio das respirações oppressas pelo frio nocturno e o resfolegar
dos ginetes, aspirando o nevoeiro humido que se alevantava da terra.
Mas lá, na vanguarda, para o lado das atalaias do norte, d'onde se
descortinavam os topos recortados das montanhas sobre o chão claro
do céu, como fileira de gigantes petrificados durante uma dança de
embriaguez, tão phantasticos eram os seus contornos, ouvia-se o
ruído alto e indistincto do cruzar de muitas vozes, do tropeiar de
muitos cavallos: viam-se lampejar as armas nos visos dos dous ultimos
outeiros que por aquella parte rodeiavam o campo, e agitarem-se ondas
de vultos humanos e sumirem-se, onda após onda, como se os devorasse
voragem aberta de subito debaixo dos seus pés: eram os cavalleiros que
transpunham a eminencia. O exercito, detrás daquelles dous outeiros,
que formavam como um ponto unico, vinha successivamente engrossando até
o logar em que estava Abdulaziz. Parecia um desmesurado triangulo de
ferro, a ponto de ir bater na muralha da serrania, que, vestida com a
sua armadura de selvas, esperava o embate daquelle disforme vaivem, que
já começava a oscillar ante ella.
Uma scena horrenda se passava, entretanto, além das atalaias, no
extenso sarçal que se estendia até o sopé das primeiras montanhas. Os
soldados transfretanos tinham-se lançado pela encosta abaixo atrás dos
fugitivos. Ao chegarem á planicie, um dos tres desconhecidos estava
diante delles, esperando-os quedo no meio da estreita trilha aberta
por entre as urzes. A acha d'armas goda e a cadeia que lh'a prendia ao
braço reluziam unicamente naquelle vulto, cujo saio e cavallo negros e
cujo silencio profundo faziam lembrar um desses espectros errantes alta
noite pelos logares desertos.
Os outros dous vultos galopavam a alguma distancia, encaminhando-se
para a orla do bosque, onde continuavam a reverberar reflexos de armas
polidas.
«Quem és tu?--disse um dos capitães das decanias, dirigindo o cavallo
para o vulto negro.--Quem és tu, que ousaste enganar os atalaias do
campo d'Abdulaziz, os guerreiros do conde de Septum?»
«Sou um homem que aínda não renegou nem da cruz, nem da Hespanha; um
homem que não acceitou o ouro dos barbaros para ser o assassino covarde
de seus irmãos.»
«Miseravel, que ajunctas ao engano a insolencia!--rugiu o decano,
alçando a espada.--As derradeiras palavras de orgulho e rebeldia acabam
de sair-te dos labios.»
Ultímas palavras foram, porém, as do decano: a borda gyrou sibilando
no ar, e o guerreiro transfretano cahiu para o lado morto, como se o
fulminara o raio.
Com um grito de horror e de colera, os que o seguiam precipitaram-se
para o desconhecido.
Rodeiado de quasi vinte homens, o cavaleiro negro repetia apenas uma
parte das gentilezas que practicara na fatal jornada do Chryssus. A
cada golpe da borda respondia um gemido de moribundo; depois, uma
injuria ameaçadora dos que ficavam; depois, um rir de desprezo do
cavalleiro, e, d'ahi a pouco, um novo gemido d'alma que se despedia da
terra. O tropel dos pelejadores rareiava de instante a instante.