A noite vai no seu fim: a campa do mosteiro dá o signal do terceiro

nocturno. Subitamente, o sanctuario illumina-se, e os vidros multicores

jorram nas trevas externas a claridade dos candelabros e tochas, como,

de dia, deixam transudar a luz do sol no ambito interior da igreja;

ésto perpetuo de resplendores, que ora descem do céu para a terra, ora

tentam, subindo da terra para as alturas, desfazer o manto das trevas.

N'uma extensa fileira, a cuja frente vem a veneravel Chrimhilde, as

monjas entram no coro e, tomando para um e outro lado, param voltadas

para o altar. Juncto da abbadessa uma donzella de trajos brancos

sobresái entre as monjas vestidas de negro, não tanto pela alvura das

roupas, como pela formosura: e todavia, são formosas muitas das virgens

que a rodeiam, pela maior parte ainda no viço da vida. É a nobre dama

recem-chegada, á qual nem o cansaço de trabalhosa jornada, nem o habito

dos commodos do mundo poderam impedir acompanhasse na oração aquellas

que o tracto de poucas horas já lhe fazia amar como irmans. Chrimhilde

prostra-se com a face no chão: as monjas e a dama vestida de branco

seguem o seu exemplo. Através desses labios innocentes que beijam

o pavimento do templo murmuram durante alguns instantes as orações

submissas. Depois, a abbadessa ergue-se, e pouco a pouco aquelles

semblantes, que cobre uma pallidez d'ineffavel repouso e brandura,

vão-se alevantando da terra, com os olhos voltados para o céu,

semelhantes aos de anjos de marmore ajoelhados em roda de um tumulo,

que surgissem pouco a pouco animados por vida repentina e, cheios de

saudade da morada celeste, enviassem aos pés do Senhor o seu primeiro

suspiro. Então a psalmista começa a entoar um dos hymnos sacros do

Presbytero de Carteia que havia pouco se tinham introduzido no ritual

gothico, e as demais monjas respondem em córos alternos. O hymno dizia

assim:

«As azas da tua providencia, oh Senhor, despregam-se por cima da terra,

e o justo desgraçado acolhe-se debaixo dellas:»

«Porque ahi moram os sanctos contentamentos; esquecem as dores da vida;

vive-se á luz da esperança.»

«Confiado em ti, o fraco affronta as tyrannias do forte; o humilde ri

das suberbas do poderoso.»

«Quem revelou aos pequeninos e oppressos esta divina guarida? Quem nos

ensinou a esperar? Quem a ser felizes pela fé no meio das agonias?»

«Foi Christo, o teu filho querido. A tua justiça condemnava á dor o

genero-humano, ainda no berço: elle nos conquistou para a felicidade no

meio dos tormentos da cruz.»

«Nós tomaremos, tambem, esta em nossos hombros: ella é a guia da

bemaventurança.»

«O seu peso é suave; porque sob ella os espinhos da existencia que

ensanguentam os membros do peregrino sem repouso, chamado o homem,

convertem-se em prado macio de relva e boninas.»

«Que reine para sempre a cruz!»

«Erguei-a sobre todos os pincaros das serranias, gravae-a em todas as

arvores dos bosques, hasteae-a sobre as rochas maritimas, estampae-a

nas muralhas das cidades, na fronte dos edificios, apertae-a ao

coração.»

«E depois, que o genero-humano se prostre e adore nella a redempção que

nos trouxe o Ungido de Deus.»

«A cruz triumphará eterna!»

Neste momento aquellas vozes harmoniosas cessaram, como se de subito

nos labios de todas as monjas se houvesse posto o sello da morte. A

porta do templo, aberta com violento impulso, rangera nos gonzos, e

um velho ostiario viera cahir de bruços sobre as lageas do pavimento,

soltando o grito doloroso que por tantos milhares de bocas diariamente

se repetia na Hespanha:--Os arabes!

As vozes confusas dos vigias, misturadas com o tinir do ferro,

responderam, como um uivar de feras, ás palavras do ostiario: as faces

pallidas das virgens empallideceram ainda mais.

A alvorada começava a repintar na terra a claridade do sol, escondido

ainda no oriente. Os godos com as armas nas mãos coroavam as ameias.

Do alto de uma das torres Atanagildo observava a campanha, e a fronte

entenebrecia-se-lhe com um véu de tristeza.

Naquella noite muitos nobres senhores de terras tinham chegado ao

mosteiro, vindos da banda de Legio. Um numeroso exercito d'arabes

apparecera subitamente na vespera juncto aos muros da cidade, que logo

fora acommettida pelos pagãos. Era o que sabiam. Fugitivos desde o

apparecimento dos inimigos, ao anoitecer haviam enxergado para aquella

parte um clarão grande e duradouro. Se eram as fogueiras dos arraiaes

arabes, se o incendio de Legio, não o podiam resolver; só, sim, que

sería impossivel resistir por largo tempo cidade tão mal defendida a

tamanha copia d'infiéis, que não tardariam a derramar-se para o lado do

mosteiro, proseguindo nas suas devastadoras conquistas pela Gallecia e

pela Tarraconense.

Era esta negra prophecia dos fugitivos que se tinha verificado ao

romper da manhan. Atanagildo, do alto da torre principal, vira ao longe

um vulto negro que descia dos outeiros, onde já allumiava tudo a luz

matutina. Esse vulto assemelhava-se a serpe monstruosa que, rolando-se

do monte para a planicie em collos tortuosos, se lhe reflectissem nas

duras conchas os raios solares; porque naquelle corpo gigante havia um

contínuo e rapido scintillar. Atanagildo percebera o que era, e por

isso a tristeza lhe obscurecia a fronte.

Como a faisca electrica, o terror se espalhara no mosteiro apenas se

dissera que os arabes se approximavam. Mais de um coração de guerreiro

batia apressado, como o do pobre ostiario que buscara na piedade de

Deus o amparo que mal podia esperar das muralhas do forte edificio;

do pobre ostiario, que, sem o saber, fora desmentir o hymno triumphal

da cruz, diariamente derribada dos altares nos templos profanados da

Hespanha.

Dentro em breve, o exercito do Islam se approximara a tão curta

distancia que facilmente se distinguiam os esquadrões dos filhos do

deserto e as turmas dos berebéres. Tambem os arabes tinham observado o

reluzir das armas através das ameias do mosteiro. A hoste inteira parou

no valle, e alguns cavalleiros encaminharam-se pela senda tortuosa que

findava na ponte levadiça contigua ao grande portal, erguida desde que

pelos fugitivos constara que os mosselemanos se avizinhavam.

Quando o quingentario conheceu que os arabes paravam no fundo do valle,

o seu coração generoso verteu sangue com a lembrança de que todo o

esforço dos soldados que coroavam os adarves do mosteiro, por muito que

houvera sido, não fora bastante para salvar os desgraçados que tinham

buscado abrigo á sombra daquellas muralhas. Viu o desalento pintado nos

semblantes dos mais valorosos, e a ultima esperança varreu-se-lhe da

alma. Todavia, esperou com rosto seguro a chegada dos cavalleiros que

subiam a encosta.

Estes approximaram-se, emfim. Pelo seu aspecto e trajo via-se que na

maior parte eram godos. Com as espadas nas bainhas, pareciam vir em som

de paz: tambem, por isso, nem uma frecha só se disparou contra elles

dos muros.

Pouco antes de chegarem ao fosso profundo que circumdava o edificio,

um cavalleiro que parecia o principal daquelle pequeno esquadrão,

adiantando-se aos demais, veio topar com a entrada da ponte e, olhando

para as muralhas, onde reluziam immoveis as lanças dos christãos,

chamou:--«Atanagildo!»

Ao ouvir aquella voz, o quingentario empallideceu: com visivel

anciedade, voltou-se para um centenario que estava juncto delle e

disse-lhe:

«Mandae descer a ponte e dae passagem franca a esse cavalleiro que

proferiu o meu nome: mas a elle, unicamente a elle!»

O centenario obedeceu. D'ahi a pouco as armas do guerreiro tiniam

pelas escadas da torre. Apenas subiu ao terrado, encaminhou-se para

Atanagildo e, estendendo-lhe a dextra, exclamou:--«Meu irmão!»

O quingentario, em cujas faces pallidas passara um relampago de

vermelhidão, recuou e, com voz affogada, respondeu:

«Atanagildo teve um irmão; mas esse morreu para elle: porque entre

elle e Suintila está a cruz quebrada aos pés dos pagãos; está o céu

e o inferno. A minha herança é a ignominia do vencimento, os ferros

d'escravo e as promessas do Christo: a tua as riquezas, a victoria e a

maldicção de Deus. Não tróco os nossos destinos, nem quero a amizade

do precíto. Arrepende-te, abandona os infiéis, e então Atanagildo te

apertará ao peito e te dará aquelle nome tão suave da nossa infancia, o

sancto nome de irmão.»

«Estás louco!--replicou Suintila--...Porém, não foi para disputar

comtigo que vim aqui: vim para te salvar. Olha para o valle: áquella

hoste numerosa que lá vês poucas horas poderão resistir estes muros mal

guarnecidos, Abdulaziz, o invencivel filho do amir d'Africa, é quem

a capitaneia: Legio cahiu hontem em nosso poder, e de parte nenhuma

podes ser soccorrido. O bispo d'Hispalis e o conde de Septum, que vem

comnosco, offerecem-te o mando de um dos seus esquadrões. Os arabes

pedem aos godos que os seguem fidelidade ao estandarte do kalifa, não

á crença do Islam: pódes guardar tua fé. Eis o que Suintila alcançou

a teu favor. Estas velhas muralhas e as donzellas encerradas nestes

claustros, que Abdulaziz soube serem pela maior parte formosas e que

elle destina para enviar a Kairwan, são o vil preço da tua salvação.

Suintila aconselha-te que o entregues; porque, apesar das injurias,

ainda se não esqueceu de que é irmão de Atanagildo. Resolve e responde:

que devo dizer a Juliano e a Oppas, a quem suppliquei para ser mandado

aqui?»

«Dize-lhes--atalhou o quingentario, cujos olhos faiscavam

d'indignação--que eu respeito a vida de um aráuto, ainda quando este é

um miseravel renegado, como tu ou como elles, aliás não fora Suintila

quem lhe levaria minha resposta. Dize-lhes que as suas infames offertas

são para mim tão abominaveis como elles. Dize-lhes que, antes de um

sacerdote sacrilego e de um conde traidor poderem estampar o ferrête

da prostituição na fronte das innocentes virgens do Senhor, terão de

passar por cima das ruinas destes muros e dos cadaveres dos seus e dos

meus soldados. E tu, renegado, sae d'aqui! Possa eu nunca mais vêr-te o

rosto e esquecer-me na hora de morrer de que nessas veias gyra o sangue

de nossos nobres e generosos avós.»

«Como te aprouver, meu irmão!»--replicou Suintila, e um sorriso lhe

deslisou nos labios, descorados por mal disfarçada colera. Proferidas

estas palavras, desceu as escadas da torre.

A cavalgada, que lenta subira a encosta, descia-a rapidamente

emquanto Atanagildo, visitando os muros, exhortava os guerreiros da

cruz a pelejarem esforçadamente. Quando estes souberam quaes eram as

intenções dos arabes ácerca das virgens do mosteiro, a atrocidade do

sacrilegio affugentou-lhes dos corações a menor sombra d'hesitação.

Sobre as espadas juraram todos combater e morrer como godos. Então

o quingentario, a quem parecia animar sobrenatural ousadia, correu

ao templo. Era necessario que as monjas soubessem qual futuro as

aguardava. Resignado a acabar defendendo-as, Atanagildo nem por isso

esperava salvá-las das mãos dos agarenos. Dolorosa era a nova; mas

cumpria não lhes esconder o seu horrivel destino.

As mulheres e os velhos que tinham vindo buscar asylo no mosteiro

enchiam já o templo, em cujas abobadas murmuravam e repercutiam

os gemidos e as preces. Rompendo pela multidão, o quingentario

encaminhou-se para o coro e chamou por Chrimhilde, que com as

monjas acompanhava o povo nas suas orações fervorosas. A abbadessa

aproximou-se das reixas douradas que a separavam do guerreiro.

«Chrimhilde,--disse Atanagildo em voz baixa--é necessario valor! Dentro

de poucas horas sobre os muros do mosteiro da Virgem Dolorosa estará

hasteiado o pendão dos infiéis, e eu terei deixado d'existir, porque

jurei sobre a cruz desta espada ficar sepultado debaixo das ruinas

delle. O exercito dos arabes é irresistivel, e a unica esperança que

me resta é que o Senhor acceitará o meu sangue, derramado em seu nome,

como um testemunho da minha fé.»

«Os infiéis--acudiu a abbadessa, procurando dar ás palavras

que proferia um tom de firmeza que o tremulo da voz lhe

desmentia--contentar-se-hão, talvez, com as riquezas aqui amontoadas

imprudentemente e com a posse destes logares. Se é isto o que

pretendem, saiamos e cedamos ao culto impio de Mohammed o templo do

Deus vivo, já que para o salvar sería inutil todo o sangue que se

vertesse. Com as virgens esposas do Senhor buscarei os ermos das

serras do norte, e, como as monjas primitivas, ahi acharemos a paz e

o repouso, emquanto o pae celestial nos não chama á nossa verdadeira

patria.»

«Prouvera a Deus, veneravel Chrimhilde--tornou o quingentario--que nos

fosse licito desamparar estes muros: deixar só entregues ás profanações

dos infiéis a pedra e o cimento! Mas uma atroz mensagem acaba de me ser

mandada por quem, como eu, devia horrorisar-se della. Repelli-a, porque

se me offereciam vida e honras a troco de perpetua infamia. Agora

resta-me unicamente o morrer como godo e como soldado da cruz.»

«E qual era essa mensagem?--perguntou a abbadessa anciosamente.--Em

nome de quem vinha ella?»

«Do bispo d'Hispalis e do conde de Septum; de um sacerdote e de um

nobre. O preço da nossa liberdade era a prostituição das vossas

filhas queridas, das monjas consagradas á Virgem Dolorosa, que esses

malaventurados destinam para saciar as paixões brutas daquelles a quem

venderam a terra d'Hespanha. Para o obter cumpre-lhes, porém, passar

por cima dos membros despedaçados dos guerreiros que povoam estas

muralhas. Pela cruz assim o jurámos todos. Havemos de cumpri-lo.»

As palavras de Atanagildo vibraram no coração de Chrimhilde, como vibra

o primeiro dobre pelo finado que ainda jaz em seu leito da derradeira

agonia na alma do bom filho, que resa, chorando, ajoelhado ao pé delle.

Recuou atterrada e, volvendo para o céu os olhos enxutos, porque a

afflicção nelles estancara as lagrymas que despontavam, ficou por

alguns momentos com as mãos erguidas, como implorando uma inspiração

de cima. Pouco a pouco, porém, as suas faces tingiram-se da cor da

vida, o sorriso da esperança rodeiou-lhe os labios, e as lagrymas,

consolo supremo das maiores magoas e, tambem, expressão eloquente dos

contentamentos mais intimos, lhe rebentaram com força e lhe orvalharam

a negra estamenha do habito.

«O martyrio! o martyrio!--murmurou a abbadessa.--Oh Christo! bemdicto

seja o teu nome.»

«O martyrio, sim:--interrompeu o quingentario--mas depois do

sacrilegio; mas depois que as victimas da corrupção dos traidores

tiverem sido arrastadas para longe da Hespanha e depois que nos harems

do oriente houverem sido polluidas pela sensualidade brutal dos

conquistadores. Eu, ao menos, não verei esta ultima offensa á crença

sacrosancta de nossos paes...»

«Ide:--proseguiu a abbadessa, que parecia não o haver escutado,

embebida em meditação profunda:--Quando os infiéis se approximarem,

enviae-lhes mensageiros de paz. Que vos deixem acolher ás montanhas com

essa multidão d'infelizes que vieram buscar o abrigo destes muros. Não

cureis das monjas da Virgem Dolorosa, nem receieis por ellas. Achei um

meio para as salvar da sorte medonha que as ameaça. Desamparae-nos;

porque o archanjo do esforço é o nosso defensor. O meu arbitrio será

acceito pelas escolhidas do Christo; sê-lo-ha, porque o Senhor m'o

inspirou. Nada mais é preciso dizer-vos.»

E, de feito, o seu olhar e gesto eram de uma inspirada: mas nesse olhar

e gesto havia o que quer que era de severa aspereza misturado com

alegria suave, como em céu que varre o noroeste as nuvens tenebrosas

remendam o azul purissimo do firmamento, d'onde, através dellas, jorram

torrentes de luz.

«Mas o juramento?--tornou tristemente o quingentario.--Devo respeitar o

vosso segredo; todavia parece-me licito duvidar da efficacia dos meios

que imaginaes para vos salvardes das mãos dos mosselemanos.»

«O vosso juramento é inutil--acudiu Chrimhilde--e eu vos escuso delle.

A resistencia só servirá para arrastardes comvosco á morte os velhos

inermes e as criancinhas innocentes. Ide e abri pacificamente as portas

aos pagãos. Se tanto é preciso, eu vo-lo ordeno. Atanagildo, um dia nos

veremos no céu.»

Dictas estas palavras com toda a firmeza de uma resolução inabalavel,

a abbadessa affastou-se da reixa e encaminhou-se para o meio das

freiras, que, entretanto, haviam estado immoveis com os olhos cravados

no pavimento. O quingentario ficou por alguns momentos pensativo:

depois, agitado pela lucta cruel dos affectos e pensamentos oppostos

que tumultuavam no seu coração, atravessou vagarosamente o templo e

desappareceu.

A um signal de Chrimhilde as monjas saíram do coro; a donzella vestida

de branco, ao lado da veneravel abbadessa, apertava-lhe a mão entre as

suas; mas os seus meneios eram firmes como os della e mais do que os

della altivos. Desde que a ultima freira passou, as préces misturadas

de soluços que sussurravam na egreja converteram-se n'um som unico de

chôro perdido, como se a ultima esperança houvera desapparecido com

ellas.

A campa do mosteiro bateu tres pancadas com largos intervallos: é o

signal que convoca as monjas a capitulo. Para lá se encaminham. A

donzella que nessa noite chegara acompanha-as, tambem, ahi. Entraram.

As pesadas portas da casa capitular rangem nos gonzos cerrando-se,

e o correr dos ferrolhos interiores reboa ao longe pelos corredores

monasticos. Ao mesmo tempo a ponte levadiça cai sobre o fosso que

rodeia as muralhas do vasto edificio; um cavalleiro se arroja sózinho

ao meio dos esquadrões do Islam, que já subiram a encosta, e pede para

falar com o conde de Septum em nome de Atanagildo. Dentro de poucos

instantes ei-lo que volta, e os mosselemanos param a curta distancia.

Então um grande numero de crianças, de velhos e de mulheres, saíndo,

como torrente comprimida, do portal profundo do mosteiro, atravessam

por meio de duas fileiras de soldados de Juliano e de guerreiros arabes

que vieram collocar-se aos lados da ponte. Esta multidão desordenada

ondeia, separa-se, apinha-se de novo, para tornar a espalhar-se, até

que desapparece ao longe, caminho das montanhas. Após ella, cubertos

dos seus saios de malha, mas sem armas, os soldados de Atanagildo

seguem com rosto melancholico as mesmas trilhas por onde se vai

escoando a turba, até que, tambem como esta, se derramam pelas selvas

densas dos montes e pelos barrancos escarpados que, retalhando os

Nervasios, dão passagem através delles para as regiões septemtrionaes

da Hespanha.

Apenas o quingentario, que fora o derradeiro a atravessar a ponte

levadiça, volvendo ainda os olhos arrasados de lagrymas para aquella

sancta morada, desceu a encosta, as duas fileiras de soldados

arremessaram-se ao fundo portal, cujas abobadas pela primeira vez

reboaram com os gritos discordes de homens desenfreiados, e o edificio

solitario respondeu-lhes com um silencio lugubre. Diante delles estavam

patentes as vastas arcarias e escadas, os longos corredores, os pateos

espaçosos. Lá, no centro, o templo solitario, com as portas abertas de

par em par, amostra-lhes aos olhos ávidos as suas riquezas, ao passo

que parece querer vedar ao sol, com as cores sombrias das vidraças

das janellas, o espectaculo das profanações de que na sua existencia

secular vai ser theatro e testemunha pela primeira vez.

Como o tufão, rugindo, se abysma nas galerias tortuosas de mina

extensa, assim os godos renegados e os mosselemanos, que os seguem de

perto, se precipitam dentro do mosteiro. Pelas arcadas e corredores,

pelas salas e aposentos ouve-se o rir e falar desentoado, o ruído de

passadas rapidas, o tinir das armas, o estourar das portas. Arabes,

mouros, soldados godos da Tingitania misturam-se, disputam, ameaçam-se,

dividindo o sacco. Os cheiks e os capitães do conde de Septum

vedam-lhes unicamente a entrada das habitações interiores, onde a

riqueza do templo lhes promette á cobiça mais avultada presa. Elles sós

se encaminham para essa parte e desapparecem nos claustros monasticos,

onde não se ouve outro signal de vivos, senão o som de seus pés e, a

espaços, o tinir das proprias armaduras, que roçam pelos pilares de

marmore.

Suintila, o deshonrado irmão do virtuoso Atanagildo, era do numero dos

capitães que haviam primeiramente penetrado no claustro solitario.

Tinha-se adiantado mais e descia por uma escadaria lobrega que

terminava, segundo parecia, n'uma quadra allumiada por muitas tochas.

Esta circumstancia, que lhe excitava viva curiosidade, o obrigou

a apertar o passo. A meia descida parou. Crera ouvir um cantico

entoado por muitas vozes accordes, que a espaços era interrompido por

gemidos dolorosos. Escutou: não se enganava! Então o terror começou

a apossar-se delle, e, porventura, teria retrocedido, se não sentira

que alguem mais o seguia. Eram dous cheiks arabes e um centenario do

conde de Septum que o acaso guiara para aquella parte. Interposto

entre o clarão avermelhado que saía do subterraneo e os tres que se

approximavam, Suintila fez-lhes signal de silencio e continuou a

descer mansamente, até chegar á porta que dava da escadaria para o

aposento illuminado. Então conheceu onde estava. Era um desses logares

mysteriosos e sanctos que a primitiva architectura religiosa construía

debaixo dos templos--templos tambem, mas da morte; porque ahi, sobre

os altares, repousavam as cinzas dos martyres, e aos pés delles os

fiéis que obtinham para ultima jazida uma pouca de terra onde ainda

fossem affagar-lhes as cinzas o sussurro longinquo das préces e o

perfume dos sacrificios.--Suintila achava-se na crypta do mosteiro da

Virgem Dolorosa. O clarão que vira era o de muitos lumes, accesos em

lampadarios gigantes, e reverberando nas stalactites penduradas das

juncturas do marmore: era o reflexo das tochas que ardiam diante dos

crucifixos, unicas imagens que se viam sobre as aras núas. Em cada um

dos tumulos das monjas antigas, enfileirados ao comprido dos muros,

negrejavam apenas uma data e um nome. Era o que restava para memoria

de muitas virtudes naquelles annaes do mosteiro, naquella chronologia

de pedra. O sepulchro da viuva d'Hermeneghild, o desgraçado irmão de

Rekkáred, elevado mais que os outros á entrada do templo subterraneo,

semelhava um throno de rainha em palacio de sombras, porque o ambiente

grosso e frio e o halito das sepulturas revelavam que ahi era o imperio

da morte.

As torrentes de luz que inundavam esta morada de terror não permittiram

a Suintila enxergar no primeiro volver de olhos os objectos que estavam

ante elle. Espantado, tentava descobrir no meio daquella resplandecente

solidão algum vulto humano, quando os cantos e gemidos, suspensos

momentaneamente, romperam de novo: primeiro as vozes harmoniosas;

depois o gemido íntimo, doloroso, affogado; logo outra vez o silencio.

Os dous cheiks e o centenario tinham chegado ao pé de Suintila.

Animados uns pela presença dos outros, encaminham-se para o grande

tumulo e d'alli olham para o logar d'onde haviam soado os canticos. Eis

o temeroso espectaculo que têem diante de si:

Grossos e altos cancellos de roble separam do resto do templo um

extenso recincto sem sepulchros, immediato ao altar principal: uma cruz

agigantada se ergue no topo: por um e outro lado daquelle espaço além

das grades negrejam duas fileiras de monjas: muitas estão de joelhos

e debruçadas sobre o primeiro degrau do altar: em pé, entre as duas

fileiras, uma dellas, cujos olhos desvairados reluzem á claridade das

tochas e cujo aspecto severo infunde uma especie de terror, tem na mão

um punhal, cujo ferro sem brilho parece tincto em sangue. Juncto da

monja um vulto de mulher vestida de branco sobresáe no meio das virgens

cubertas de lucto: unido ás grades que defendem a entrada daquelle

recincto, um velho, cujas melenas e longa barba lhe alvejam sobre os

hombros e peito, está de joelhos com os braços estendidos através da

balaustrada: agita-o uma convulsão horrivel de pavor, que lh'embarga

na garganta os sons articulados e só lhe consente murmurar um ruído

confuso, semelhante ao respiro ancioso de agonisante. Um dos dous

córos de freiras começa a entoar de novo os psalmos: a monja do punhal

estende a mão, ordenando silencio. Vai falar. Suintila, a ponto de

arremessar-se para aquelle lado, pára e escuta as suas palavras. São

lentas e lugubres, como as de um espectro, que se alevantasse d'alguma

das campas derramadas ao longo da crypta. Dirige-as ao vulto branco que

está a seu lado:

«Ainda uma vez, nobre dama, attendei ás supplicas do velho buccellario

que tenta salvar-vos. Para vós ha esperança na terra: a nossa mora

no céu. Quando os infiéis souberem que ainda existe na Hespanha quem

possa quebrar com ouro o vosso captiveiro ou vingar com ferro a vossa

affronta, respeitarão a pureza de nobre virgem. A nós, que não temos

ninguem no mundo, restava-nos unicamente o tremendo arbitrio que o

Senhor nos inspirou. O martyrio não tardará a cingir-nos a fronte d'uma

aureola de gloria: os anjos de Deus nos esperam.»

«A minha ultima resolução, veneravel Chrimhilde, é acabar juncto de

vós e de nossas irmans. O meu animo saírá, como o dellas, illeso da

ultima prova que o Christo nos pede na vida. Como ellas, darei sem

hesitar testemunho da cruz. O velho buccellario de meu pae mente á

propria consciencia quando affirma que os infiéis respeitarão a pureza

de uma donzella goda: a infamia tem sido escripta por elles na fronte

das familias mais illustres da Hespanha: o cutello ou a prostituição é

o que os arabes offerecem á innocencia. Eu escolho o cutello: a morte

val mais que a deshonra. Porventura, para a evitar me guiou o Senhor ao

mosteiro da Virgem Dolorosa.»

Seja feita a vontade do Altissimo:--respondeu a abbadessa alevantando

ao céu as mãos, entre as quaes apertava o punhal.

Eurico, o presbytero · 第 6 / 14 段