Os raios derradeiros do sol desappareceram: o clarão avermelhado da

tarde vai quasi vencido pelo grande vulto da noite, que se alevanta do

lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e

luminosa surge a meus olhos, oh Hermengarda, semelhante á apparição do

anjo da esperança nas trevas do condemnado.

E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a frente a coroa das virgens;

sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor; o amiculo alvissimo da

innocencia, fluctuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhes as fórmas

divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos bellas que a realidade.

É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas,

em sonhos ou desenhada no vapor do crepusculo, tu não és para mim mais

do que uma imagem celestial; uma recordação indecifravel; um consolo e

ao mesmo tempo um martyrio.

Não eras tu emanação e reflexo do céu? Porque não ousaste, pois, volver

os olhos para o fundo abysmo do meu amor? Verias que esse amor do poeta

é maior que o de nenhum homem; porque é immenso, como o ideal, que elle

comprehende; eterno, como o seu nome, que nunca perece.

Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! adorava-te só no

sanctuario do meu coração, emquanto precisava de ajoelhar ante os

altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dous templos?

Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre.

Porque vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz

ensanguentada do Calvario; quando a mão inexoravel do sacerdocio soldou

a cadeia da minha vida ás lageas frias da igreja; quando o primeiro

passo alèm do limiar desta será a perdição eterna?

Mas, ai de mim! essa imagem que parece sorrir-me nas solidões do espaço

está estampada unicamente em minha alma e reflecte-se no céu do oriente

através destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes

queimou as lagrymas.

Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!... Crês que morri, ou,

porventura, nem isso crês; porque para creres era preciso lembrares-te,

e nem uma só vez te lembrarás de mim!

Lá, no tumulto dos cortezãos, onde o amor é calculo ou sentimento

grosseiro, terás achado quem te chame sua, quem te aperte entre os

braços, quem tivesse para dar a teu pae o preço do teu corpo e te

comprasse como alfaia preciosa para serviço domestico. O velho estará

contente, porque trocou sua filha por ouro.

A isto chama prudencia o mundo estupido e ambicioso; a isto, que não é

mais do que uma prostituição abençoada sacrilegamente perante as aras

sacrosanctas.

Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante me tem feito vagueiar

louco pelas montanhas, uivando como o lobo esfaimado e tentando

despedaçar os rochedos com as mãos, d'onde me goteja o sangue!

E tu folgas e ris! Oxalá nunca saibas quão intenso e atroz é o

meu tormento, que devo velar diante dos homens debaixo de aspecto

tranquillo, como se, em vez de martyrio, elle fosse um abominavel crime.

4

E quem te disse, Presbytero, que o teu amor não era um crime?

Tens razão, consciencia! Quando aos pés do veneravel Siseberto o

gardingo Eurico jurou que abandonava o mundo devia despir as paixões

que do mundo trouxera.

A luz brilhante d'affeições e esperanças a que vivia e que me povoava o

coração de felicidade devia apagar-se então, como a lampada do templo

ao amanhecer; porque eu voltava-me para o céu, buscando a luz do Senhor.

Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo desappareceu no occaso, e os

que me creem alumiado mal pensam que vivo em trevas!

As minhas paixões não podiam morrer, porque eram immensas, e o que é

immenso é eterno.

E assim, nem ouso pedir a paz do sepulchro; porque para mim não haveria

paz, senão no anniquilamento!

O anniquilamento! Que mal te fiz eu, oh meu Deus, para me não deixares

cá dentro mais que uma idéa risonha, mais que um desejo capaz de encher

o abysmo da minha desventura? Que mal te fiz eu para que esse desejo,

essa idéa seja a que unicamente resta ao precíto que se revolve em

perpetuas angustias?

Mas para mim, como para elle, tal pensamento é vão e mentido!

Eternidade, eternidade, a alma do homem está encerrada e captiva no

illimitado do teu imperio!

VII

A Visão

No espelho da visão está a segurança da verdade.

_Codigo wisigothico--I-1-2._

_Presbyterio. Antemanhan. Oito dos idos d'abril da era de 749._

1

O somno ou a vigilia, que me importa esta ou aquelle? As horas da minha

vida são quasi todas dolorosas; porque a imaginação do homem não póde

dormir.

Para o povo, ignorante e impiamente credulo, a noite é cheia de

terrores; em cada folha que range na selva elle ouve um gemido de alma

que vagueia na terra; em cada sombra de arvore solitaria que se balouça

com a aragem sente o mover de um phantasma; as exhalações dos bréjos

são para elle luz de demonios, alumiando folgares de feiticeiras.

Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranquillo. Ao

cruzar os umbraes domesticos esses terrores sumiram-se com os objectos

que os geraram. A sua alma parece despir-se da phantasia grosseira,

como o corpo se despe da stringe aspera que lhe resguarda os membros.

Não assim eu. Quando as palpebras, cerrando-se, m'escondem o mundo das

realidades, os olhos do espirito volvem-se para o mundo das existencias

ideaes. Ás vezes, a felicidade e a esperança vem consolar-me então;

muitas mais, porém, os sonhos maus me perseguem; e por bem alto preço

me saem os instantes de ventura transitoria trazidos por visões

consoladoras.

Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria da

fronte se não seccou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o

pulso bate desordenado e violento.

Terribilissimos foram os sonhos que Deus mandou ao Presbytero; mas,

porventura, mais terrivel é a sua significação.

Diz-me voz intima que esse doloroso espectaculo a que assistiu a minha

alma é, oh Hespanha, o mysterio dos teus destinos.

E esta foi a visão:

2

Eram as horas das trevas profundas. Sem saber como, achava-me no viso

mais alto do Calpe: traspassava-me a medúla dos ossos o vento frio da

noite, e parecia-me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo

da penedia.

Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horisonte,

como se a luz do sol o illuminasse.

O espectaculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondavel

fazia-me erriçar os cabellos, que o norte me açoutava com o sopro

gelado.

Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar alli alguns não

sei se instantes ou seculos.

O mar cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao metal fervente

destinado para a feitura d'estatua colossal que resfriasse de subito em

vasta caldeira.

E era horribilissimo ver convertido em cadaver, de todo immovel e mudo,

o oceano; aquelle oceano que ha mais de quarenta seculos nem um só dia

deixou de revolver-se e bramir em torno dos continentes, como o tigre

ao redor da rez que jaz morta.

O sibillar das rajadas tambem cessou completamente. Parado sobre a face

da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a

gleba que o cobre, frio, humido, pesado, sem ranger, sem movimento,

cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar

compassado dos pulmões.

Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuissima foi avultando pouco a

pouco, derramando-se pelo horisonte e repintando a abobada immensa dos

céus.

Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas,

dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se abatido

e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos

nos primeiros dias do estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e

morto na caldeira mais funda do valle fechado.

Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, affogueiado, como a

atmosphera que pesava em cima delle: e, além, jazia o cadaver do mar.

Eu, o Silencio e a Solidão eramos quem estava ahi.

3

Subitamente, naquelle vasto horisonte, até então puro na sua luz

horrenda, dous castellos de nuvens cerradas e negras começaram a

alevantar-se, um da banda da Europa, outro do lado d'Africa.

Os bulcões conglobados corriam um para o outro e multiplicavam-se,

vomitando novos castellos de nuvens, que se diffundiam, fluctuando

ennoveladas com fórmas incertas.

E aquellas montanhas vaporosas e negras rasgaram-se d'alto a baixo em

fendas semelhantes a algares profundos, e os seus fragmentos informes e

cambiantes vacillavam tremulos em ascensão diagonal para as alturas do

céu.

Ao approximarem-se, os dous exercitos de nuvens prolongaram-se em

frente um do outro e toparam em cheio. Era uma verdadeira batalha.

Como duas vagas encontradas, no meio de grande procella, que, tombando

uma sobre a outra, se quebram em cachões que espadanam lençoes de

escuma para ambos os lados, antes que a menos violenta se incorpore

na mais possante, assim aquellas nuvens tenebrosas se despedaçavam,

derramando-se pela immensidão da abobada affogueiada.

Então, pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com

gritos agudos, como os do que morre violentamente, e um tinir de ferro,

como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de

elmos.

Mas este ruido foi-se alongando e cessou: os bulcões alevantados da

banda d'Africa tinham embebido em si os que subiam da Europa, e desciam

rapidamente para o lado dos campos gothicos.

Depois, sentí lá embaixo, na raiz da montanha, um rir diabolico. Olhei:

o Calpe esboroava-se ao redor de mim, e os rochedos sobre que eu estava

assentado vacillavam nos seus fundamentos.

Despertei. Tinha os cabellos hirtos, e o suor frio manava-me da fronte

aquecida por febre ardente.

Senhor, Senhor! foste tu que déste a ler á minha alma a ultima pagina

do livro eterno em que a providencia escreveu a historia do imperio

godo?

Contam-se cousas incriveis desses povos que assolam a Africa, chamados

os arabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra

os vestigios da cruz. Quem sabe se aos arabes foi confiado o castigo

desta nação corrupta?

Já as nossas praias foram visitadas por elles, e para os repellir

cumpriu que desembainhasse a espada o illustre Theodemiro, o ultimo

guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.

Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei

comtigo. Na procella que se alevanta d'Africa deixarei submergir o meu

debil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajunctar os

meus. Que m'importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno?

VIII

O DESEMBARQUE

E eu estava em um angulo, observando com temor.

Paulo Diacono: _Vidas dos PP. Emeritenses_.

DO PRESBYTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CORDUBA

Ao Duque Theodemiro, saude!

Quando Witiza reinava, na corte esplendida de Toletum, havia dois

tiuphados que a todos serviam d'exemplo d'intima e sincera amizade.

Opiniões e intentos, alegrias e tristezas eram communs para ambos.

Chamava-se Theodemiro o mais velho, Eurico o mais moço. Nas suas

esperanças de mancebos, as Hespanhas foram-lhes, muitas vezes, limitado

theatro para illusões de ambição. A gloria era o seu perpetuo sonho,

e as recordações das façanhas dos antigos godos embriagavam-lhes os

animos ao lembrarem-se de que as armas dos seus avós da Germania tinham

brilhado victoriosas sempre sobre os membros despedaçados do imperio

romano. Quando o grito da revolta soou na Cantabria as tiuphadias dos

dous mais irmãos que amigos acompanhavam Witiza na expedição contra

os montanhezes rebeldes e contra os frankos seus alliados. Então,

n'essa guerra d'exterminio, os dous mancebos viram saciada sua sede

de renome. Como os macissos de neve que se despenham das montanhas

escarpadas da Vasconia, as duas tiuphadias de Theodemiro e de Eurico

appareciam, ás vezes, subitamente, nos visos das serras e, apenas os

primeiros raios do sol faziam reluzir as armas, semelhantes no brilho

tremulo ao alvejar da geada, ei-las que pareciam rolar-se pela encosta,

e, dentro de pouco, os acampamentos dos frankos e cantabros ficavam

esmagados debaixo do impeto irresistivel dessas pinhas de soldados

que eram arremessados sobre os inimigos por duas vontades emulas de

gloria. Expulsos os estrangeiros e submettidos os rebellados, a hoste

real entrou victoriosa em Tárraco. O duque Favilla recebeu em triumpho

os pacificadores de Cantabria, e Theodemiro e Eurico obtiveram a

recompensa do que combateu pela patria, a gratidão dos seus naturaes.

Foi ahi que o destino preparou a separação dos dous guerreiros

que parecia só a morte poder dividir. Favilla tinha dous filhos,

Hermengarda e Pelagio. Pelagio saía apenas da infancia, mas para

Hermengarda despontavam já então os risonhos dias da juventude. A sua

formosura era celestial: Eurico viu-a e amou-a. Quando as tiuphadias

foram chamadas a Toletum, Eurico voltou triste á terra da sua infancia.

Dir-se-hia que eram os contentamentos da patria que elle trocava

pelas tristezas do desterro. Debalde buscou Theodemiro apagar aquella

paixão violenta no coração do seu amigo, lançando-se com elle nas

festas ruidosas de uma corte dissoluta. A embriaguez dos banquetes era

para Eurico tristonha; as caricias feminís, facilmente compradas e

profundamente mentidas, atrás das quaes correra loucamente outr'ora,

tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade

sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros

que o mundo offerece á sensualidade do homem. Theodemiro acreditara na

efficacia da bruteza para matar o mais formoso dos affectos humanos;

mas o amor devorou na mente de Eurico todos os outros sentimentos, como

a lava candente devora tudo o que encontra, quando o vulcão a vomita,

alagando a superficie da terra.

Favila veio á corte: Hermengarda acompanhava-o. Theodemiro

recordar-se-ha ainda de qual foi o desfecho do amor de Eurico, que

ousou dizer ao velho procer: «Dá-me por mulher tua filha.» A amizade de

Theodemiro salvou então o desprezado gardingo da morte do corpo, mas

não pôde salva-lo da morte da alma. Razões, rogos, lagrymas; quanto a

eloquencia de affeição mais que fraterna tem de vehemencia; quantas

cordas do coração sabe fazer vibrar a mão de um amigo, tudo elle tentou

debalde! Não ha palavras que possam erguer um espirito que deu em

terra; mão nenhuma tira sons de cordas que estalaram. Eurico ou, antes,

a sua sombra, fugiu do lado de Theodemiro, e da porta do sanctuario

disse-lhe um adeus eterno, como ao resto do mundo.

Mal sabía o desgraçado que n'esse adeus a sua consciencia mentia a

si propria! Theodemiro, tu hoje és duque de Corduba: entre os povos

sujeitos ao teu imperio; entre os que abençoam a tua justiça e bondade,

n'um angulo da vasta provincia da Betica, em Carteia, vive um pobre

presbytero que para ti pede ao Senhor tanto o renome e o poderio quanto

para si deseja a obscuridade e o esquecimento. Este presbytero é quem

te escreve; quem limitou a bem poucos annos a eternidade do adeus

que te dissera; é aquelle que se chamava no mundo o gardingo Eurico,

aquelle de quem foste amigo, e que foi teu rival de gloria.

Duque de Corduba, não creias que o meu espirito se volte hoje para as

miserias da terra, impellido por uma tardia saudade. Não! De que me

serviriam o ouro, o poder e a grandeza? Para tomar um punhado desse

lodo não se curvaria o Presbytero. O unico affecto eterno que, talvez,

resta a este coração depurado pelo fogo ardente da desdita, o amor

da patria, sentimento confuso e indefinido, mas indelevel, é quem

obriga Eurico a dizer-te o logar em que veio coar gota a gota as horas

aborridas da sua tormentosa existencia.

Theodemiro! Theodemiro! Um dia tremendo se approxima em que a Hespanha

deve ser o tumulo da raça goda. Em sonhos antevi esse dia, e, após

dos sonhos, a medonha realidade ahi se me alevanta diante dos olhos.

Carteia está deserta, como as demais povoações vizinhas. Apenas eu

ouso demorar-me nas immediações do Calpe; porque sei, passo a passo,

todas as veredas que guiam ao topo dos desfiladeiros, tendo-as regado

muitas vezes com lagrymas, tendo-lhes muitas mais confiado a historia

das minhas agonias. As cidades despovoam-se, e, como ellas, os campos

convertem-se em ermos. Embora ainda sorriam no vecejar das searas,

no florescer dos pomares, no murmurar das fontes: semelhante sorrir

consterna; porque o homem desappareceu do meio desta scena formosa, e

o ruido da vida converteu-se em silencio de morte.--Os arabes!--eis o

unico grito que o interrompe; e esta palavra maldicta é como a peste

quando passa: seguem-na o susto e o desacordo. A vileza do coração

humano surge após ella em toda a hediondez do seu aspecto. O terror

acabou com os mais sanctos affectos e, até, com o amor filial e

paterno. Cada qual busca salvar-se a si proprio. Os netos dos nobres

godos converteram-se n'um bando desprezivel de covardes egoistas.

Ha tres dias, ao romper da manhan, um grande numero de velas

branquejava sobre as aguas do Estreito; vinham do lado de Septum.

Corremos á praia. Dentro de poucas horas entraram na bahia de Carteia,

e algumas entestaram com a Ilha-Verde. Via-se distinctamente o reluzir

das armas, e varios soldados que tinham ajudado a repellir os primeiros

saltos dos africanos nas costas d'Hespanha reconheceram logo os trajos

e as armas dos arabes. Entre estes, porém, divisavam-se muitos godos,

pelas armaduras pesadas, pelos largos ferros dos frankisks e pelas

stringes mais curtas que as amplas vestiduras dos filhos do Oriente.

D'ahi a pouco toda a frota velejou para o lado do Calpe, e, quando

anoiteceu, as faldas da montanha appareceram alumiadas por muitos

fachos. Os arabes tinham desembarcado.

A anciedade era indizivel. Demudadas as faces, olhavamos uns para os

outros. Elles tremiam por si: eu pela sorte da Hespanha. Mas porque

entre esses que pareciam inimigos se achava tão avultado numero de

godos? Esta pergunta significava a nossa derradeira esperança.

Ao entenebrecer, alguns barqueiros saíram ao largo e, vogando

surdamente, foram espiar a frota. Tomando os atalhos mais curtos, eu

encaminhei-me sósinho para o Calpe, cujo vulto gigante, rodeiado de

fachos ao sopé, negrejava no topo sobre o fundo alvacento do céu limpo

de nuvens, onde a lua passava tranquilla, embargando com o seu clarão

pallido o scintillar das estrellas.

Era alta noite quando cheguei á montanha. Subindo pelas quebradas,

salvando precipicios, cozendo-me com as fragas tortuosas, descendo

pelos leitos das torrentes, cheguei a um rochedo contiguo á planicie

que das raizes da serrania vai morrer no rolo do mar, na costa oriental

da bahia. Era ahi que os arabes, desamparando a frota, se haviam

acampado. Comprimindo o alento, approximei-me insensivelmente de uma

tenda mais vasta, alevantada juncto do penhasco a que eu chegara sem

ser percebido. Por uma fenda que deixavam as telas mal unidas do

pavilhão descortinei o que se passava no interior á luz das tochas que

tinham nas mãos dous ethiopes, cujos rostos negros contrastavam com a

brancura das suas roupas. Assentado no chão, com os braços cruzados,

um arabe mancebo parecia escutar attentamente um guerreiro godo que,

em pé no meio de outros dous, tinha as costas voltadas para mim. Com

espanto e ao mesmo tempo com alegria, percebi que se exprimia em romano

rustico, o qual, d'ahi a pouco, vi que o moço arabe falava como se

fosse a propria linguagem. Comecei então a escutar attentamente.

«Tarik--dizia o godo--ámanhan ao romper d'alva é necessario que todos

estes penhascos empinados sobre nossas cabeças se coroem de teus

soldados e que não tardes em fortificar essa estreita passagem que une

o promontorio do Calpe com o resto do continente. É aqui, nestas serras

inaccessiveis, que deves esperar o resto dos libertadores da Hespanha:

é d'aqui que deves saír com os teus irmãos do deserto para quebrar o

sceptro do tyranno Ruderico. Se a sorte das armas nos for contraria,

esperaremos neste logar novos soccorros d'Africa. Septum nos fica

fronteiro, e Septum entreguei-t'o eu...»

Tarik não o deixou continuar. Como o leão, pulando subitamente dos

juncaes da Mauritania, o moço arabe pôs-se em pé, com o gesto colerico,

e exclamou:

«Wali dos christãos! quem te fez crer que Tarik podia ser vencido? Vi

em sonhos o propheta de Deus que me disse:--a Hespanha curvar-se-ha ao

koran:--e Mohammed não mente! Ainda sem ti, eu me teria arrojado sobre

o imperio godo, e a minha lança o faria cahir a meus pés moribundo,

quando Sebta me tivesse fechado as portas; quando todos vós os godos

estivesseis unidos contra mim. Deus é grande, e Mohammed o seu

propheta!»

As palavras violentas do arabe revelaram-me quem era o guerreiro godo.

Juliano capitaneiou, como nós, uma tiuphadia na guerra cantabrica e

foi valente soldado. Sabía que elle fora elevado á dignidade de conde

de Septum e que ahi se cubrira de gloria, repellindo os inimigos do

imperio, que já tinham tentado conquistar aquella provincia. Como e

porque atraiçoou a terra natal? Odios civís o levaram a tanta infamia,

segundo entendi das suas palavras. Parricida e fratricida a um tempo,

busca vingar-se, talvez de bem poucos de seus irmãos, esmagando-os

debaixo das ruinas da patria. A memoria deste malaventurado será

reproba e maldicta das gerações remotas!

Juliano parecia querer responder ao mancebo, quando um soldado entrou

com um rolo de pergaminho na mão e, entregando-o a Tarik, proferiu

algumas palavras em arabe. Tarik olhou então para Juliano com um

sorriso e, estendendo-lhe a dextra, disse-lhe em voz baixa:

«Wali de Sebta! perdoa-me este impeto, como me tens perdoado tantos

outros. Bem sei que não podes comprehender o que é a fé viva de um

mosselemano na protecção de Deus: mas eu sería réu do inferno, se

duvidasse um instante das promessas do Propheta. O judeu Zabulon acaba

de chegar com essa carta do que vós chamaes bispo de Hispalis. Lê-a e

dize-me que novas ha de Ruderico.»

Juliano desdeu o nó da carta e leu. Batia-me o coração de furor; mas

procurei tranquillisar-me. Importava-me assás conhecer o que ella

continha para dever prestar toda a attenção possivel ás palavras do

conde Juliano.

«Ruderico--disse este, acabando de correr com os olhos o rolo de

pergaminho--entregue aos banquetes e festas, não acredita que o dia

da vingança amanhecesse para a Hespanha: todavia, logo que a noticia

indubitavel da nossa vinda retumbar sob os tectos dourados dos paços de

Toletum, elle convocará os seus numerosos soldados, as suas tiuphadias

veteranas, e arremessar-se-ha contra nós; porque Ruderico é dissoluto e

perverso, mas nunca foi covarde. O prudente Oppas pensa, como eu, que

importa fortificar-nos no Calpe. Aconselha-o a sciencia da guerra, e,

se, como crente, confias no teu propheta para contar com a victoria,

como capitão deves seguir os conselhos da prudencia humana. Tambem

eu espero no Deus das batalhas--proseguiu o conde em tom de mofa,

batendo no punho da espada;--tambem eu tenho a minha providencia; mas

a aguia, quando se arroja sobre a prêa, tem já construido o seu ninho

no penhasco da montanha, e as penedias do Calpe devem ser o ninho das

aguias que pairam sobre o throno de Ruderico.»

Tarik ficou por alguns momentos calado e pensativo:

«Seja como te aprouver:--disse por fim.--Busca no exercito os melhores

artifices arabes e com elles e com os teus godos alevanta esses vallos

em que põe sua confiança o teu coração descrido.»

«Houve um tempo em que não o foi:--replicou Juliano com o accento da

colera misturada de indignação e tristeza:--mas Witiza dorme debaixo

d'uma lousa o somno da eternidade, e o seu assassino chama-se o rei dos

godos. Elle folga e ri assentado no throno que lhe deu a traição e o

perjurio. Tarik, o teu propheta inspira-te em sonhos; mas a vingança

é mais segura inspiração, porque é o sonho perenne do homem desperto,

quando vê, assim, falhar a justiça do céu, se é que nelle ha justiça.»

Proferindo estas palavras blasphemas, Juliano saíu da tenda. Tarik

bateu as palmas, e um guerreiro ethiope, cujos olhos lhe reluziam

sanguineos na pretidão do rosto, entrou com os braços cruzados e ficou

immovel e curvado diante de Tarik. Pareceu-me que este lhe ordenava o

que quer que fosse; mas falava na sua linguagem barbara, e não o pude

entender.

Sabía assás qual era a situação e quaes os accidentes do solo de

todos os desvios do Calpe para perceber que a minha demora naquelles

sitios podia tornar-me impossivel a saída. A defensa do promontorio

consistia unicamente em cortar com vallos e cavas o isthmo que o liga

ao continente. Juliano começaria, talvez, a alevantar as tranqueiras

nessa mesma noite; era, portanto, necessario partir.

Eurico, o presbytero · 第 2 / 14 段