Mas, se os que o acatavam como um predestinado soubessem quã

*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste

texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso

de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final

deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Junho 2014)

[Figura]

EURICO O PRESBYTERO

QUINTA EDIÇÃO

LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1864

Para as almas, não sei se diga demasiadamente positivas, se

demasiadamente grosseiras, o celibato do sacerdocio não passa

de uma condição, de uma formula social applicada a certa classe

d'individuos cuja existencia ella modifica vantajosamente por um lado

e desfavoravelmente por outro. A philosophia do celibato para os

espiritos vulgares acaba aqui. Aos olhos dos que avaliam as cousas

e os homens só pela sua utilidade social, essa especie d'insulação

domestica do sacerdote, essa indirecta abjuração dos affectos mais

puros e sanctos, os da familia, é condemnada por uns como contraria ao

interesse das nações, como damnosa em moral e em politica, e defendida

por outros como util e moral. Deus me livre de debater materia tantas

vezes disputada, tantas vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do

mundo e pelos que sabem a sciencia do céu! Eu, por minha parte, fraco

argumentador, só tenho pensado no celibato á luz do sentimento e sob a

influencia da impressão singular que desde verdes annos fez em mim a

idéa da irremediavel solidão d'alma a que a igreja condemnou os seus

ministros, especie de amputação espiritual, em que para o sacerdote

morre a esperança de completar a sua existencia na terra. Supponde

todos os contentamentos, todas as consolações que as imagens celestiaes

e a crença viva podem gerar, e achareis que estas não supprem o triste

vacuo da soledade do coração. Dae ás paixões todo o ardor que poderdes,

aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a maxima energia

e convertei o mundo em paraizo, mas tirae delle a mulher, e o mundo

será um ermo melancholico, os deleites serão apenas o preludio do

tedio. Muitas vezes, na verdade, ella desce, arrastada por nós, ao

charco immundo da extrema depravação moral; muitissimas mais, porém,

nos salva de nós mesmos e, pelo affecto e enthusiasmo, nos impelle

a quanto ha bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na

existencia dos anjos revelada nos profundos vestigios dessa existencia

impressos n'um coração de mulher? E porque não sería ella na escala da

creação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, á humanidade

pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espiritos puros pelo amor e

pelo mysterio? Porque não sería a mulher o intermedio entre o céu e a

terra?

Mas, se isto assim é, ao sacerdote não foi dado comprehendê-lo; não

lhe foi dado julgá-lo pelos mil factos que no-lo tem dicto, a nós

os que não jurámos juncto do altar repellir metade da nossa alma,

quando a providencia no-la fizesse encontrar na vida. Ao sacerdote

cumpre acceitar esta por verdadeiro desterro: para elle o mundo deve

passar desconsolado e triste, como se nos apresenta ao despovoarmo-lo

daquellas por quem e para quem vivemos.

A historia das agonias íntimas geradas pela lucta desta situação

excepcional do clero com as tendencias naturaes do homem sería bem

dolorosa e variada, se as phases do coração tivessem os seus annaes

como os tem as gerações e os povos. A obra da logica potente da

imaginação que cria o romance sería bem grosseira e fria comparada com

a terrivel realidade historica de uma alma devorada pela solidão do

sacerdocio.

Essa chronica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros quando elles

desabavam no meio das nossas transformações politicas. Era um buscar

insensato. Nem nos codices illúminados da idade média, nem nos pallidos

pergaminhos dos archivos monasticos estava ella. Debaixo das lageas

que cubriam os sepulchros claustraes havia, por certo, muitos que a

sabiam; mas as sepulturas dos monges achei-as mudas. Alguns fragmentos

avulsos que nas minhas indagações encontrei eram apenas phrases soltas

e obscuras da historia que eu buscava debalde; debalde, porque á pobre

victima, quer voluntaria, quer forçada ao sacrificio, não era lícito o

gemer, nem dizer aos vindouros:--«sabei quanto eu padeci!»

E, por isso mesmo que sobre ella pesava o mysterio, a imaginação vinha

ahi para supprir a historia. Da idéa do celibato religioso, das suas

consequencias forçosas e dos raros vestigios que destas achei nas

tradições monasticas nasceu o presente livro.

Desde o palacio até a taberna e o prostibulo; desde o mais esplendido

viver até o vejetar do vulgacho mais rude, todos os logares e todas as

condições tem tido o seu romancista. Deixae que o mais obscuro de todos

seja o do clero. Pouco perdereis com isso.

O _Monasticon_ é uma intuição quasi prophetica do passado, ás vezes

intuição mais difficultosa que a do futuro.

Sabeis qual seja o valor da palavra monge na sua origem remota, na sua

fórma primitiva? É o de--_só e triste_.

Por isso na minha concepção complexa, cujos limites não sei de antemão

assignalar, dei cabida á chronica-poema, lenda ou o que quer que seja

do Presbytero godo: dei-lh'a, tambem, porque o pensamento della foi

despertado pela narrativa de certo manuscripto gothico, affumado e

gasto do roçar dos seculos que outr'ora pertenceu a um antigo mosteiro

do Minho.

O _Monge de Cister_, que deve seguir-se a _Eurico_, teve, proximamente,

a mesma origem.

AJUDA--NOVEMBRO DE 1843.

EURICO O PRESBYTERO

I

OS WISIGODOS

A um tempo toda a raça goda, soltas as redeas do governo, começou

a inclinar o animo para a lascivia e suberba.

Monge de Silos: _Chronicon. c. 2._

A raça dos wisigodos conquistadora das Hespanhas subjugara toda a

Peninsula havia mais de um seculo. Nenhuma das tribus germanicas

que, dividindo entre si as provincias do imperio dos cesares, tinham

tentado vestir sua barbara nudez com os trajos despedaçados, mas

esplendidos, da civilisação romana soubera como os godos ajunctar

esses fragmentos de purpura e ouro para se compôr a exemplo de povo

civilisado. Leuwighild expulsara da Hespanha os derradeiros soldados

dos imperadores gregos, reprimira a audacia dos frankos, que em suas

correrias assolavam as provincias wisigothicas d'além dos Pyreneus,

acabara com a especie de monarchia que os suevos tinham instituido

na Gallecia e expirara em Toletum, depois de ter estabelecido leis

politicas e civis e a paz e ordem publicas nos seus vastos dominios,

que se estendiam de mar a mar e, ainda, transpondo as montanhas da

Vasconia, abrangiam uma grande porção da antiga Gallia narbonense.

Desde essa epocha a distincção das duas raças, a conquistadora ou goda

e a romana ou conquistada, quasi desapparecera, e os homens do norte

haviam-se confundido com os do meio-dia em uma só nação, para cuja

grandeza contribuira aquella com as virtudes asperas da Germania, esta

com as tradições da cultura e policia romanas. As leis dos cesares,

pelas quaes se regiam os vencidos, misturaram-se com as singelas

e rudes instituições wisigothicas, e já um codigo unico, escripto

na lingua latina, regulava os direitos e deveres communs quando o

arianismo, que os godos tinham abraçado abraçando o evangelho, se

declarou vencido pelo catholicismo, a que pertencia a raça romana. Esta

conversão dos vencedores á crença dos subjugados foi o complemento

da fusão social dos dous povos. A civilisação, porém, que suavisou a

rudeza dos barbaros era uma civilisação velha e corrupta. Por alguns

bens que produziu para aquelles homens primitivos trouxe-lhes o peior

dos males, a perversão moral. A monarchia wisigothica procurou imitar

o luxo do imperio que morrera e que ella substituira. Toletum quiz ser

a imagem de Roma ou de Constantinopola. Esta causa principal, ajudada

por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a

dissolução politica por via da dissolução moral.

Debalde muitos homens de genio revestidos da auctoridade suprema

tentaram evitar a ruina que viam no futuro: debalde o clero hespanhol,

incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquellas eras tenebrosas

e cuja influencia nos negocios publicos era maior que a de todas as

outras classes junctas, procurou nas severas leis dos concilios,

que eram verdadeiros parlamentos politicos, reter a nação que se

despenhava. A podridão tinha chegado ao amago da arvore, e ella devia

seccar: o proprio clero se corrompeu por fim. O vicio e a degeneração

corriam soltamente, rota a ultima barreira.

Foi então que o celebre Ruderico se apossou da coroa. Os filhos do

seu predecessor Witiza, os mancebos Sisebuto e Ebbas, disputaram-lh'a

largo tempo; mas, segundo parece dos escaços monumentos historicos

dessa escura epocha, cederam por fim, não á usurpação, porque o throno

gothico não era legalmente hereditario, mas á fortuna e ousadia do

ambicioso soldado, que os deixou viver em paz na propria corte e os

revestiu de dignidades militares. D'ahi, se dermos credito a antigos

historiadores, lhe veiu a ultima ruina na batalha do rio Chryssus ou

Guadalete, em que o imperio gothico foi anniquilado.

No meio, porém, da decadencia dos godos algumas almas conservavam

ainda a tempera robusta dos antigos homens da Germania. Da civilisação

romana ellas não haviam acceitado senão a cultura intellectual e

as sublimes theorias moraes do christianismo. As virtudes civís e,

sobretudo, o amor da patria tinham nascido para os godos logo que,

fixando o seu domicilio nas Hespanhas, possuiram de paes a filhos o

campo agricultado, o lar domestico, o templo da oração e o cemiterio

do repouso e da saudade. Nestes corações, onde reinavam affectos ao

mesmo tempo ardentes e profundos, porque nelles a indole meridional se

misturava com o caracter tenaz dos povos do norte, a moral evangelica

revestia esses affectos d'uma poesia divina, e a civilisação ornava-os

de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia. Mas no fim do

seculo septimo eram já bem raros aquelles em quem as tradições da

cultura romana não haviam subjugado os instinctos generosos da barbaria

germanica e a quem o christianismo fazia ainda escutar o seu verbo

intimo, esquecido no meio do luxo profano do clero e da pompa insensata

do culto exterior. Uma longa paz com as outras nações tinha convertido

a antiga energia dos godos em alimento das dissensões intestinas, e

a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em logar della o

habito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos

infames e das abjecções ambiciosas. O povo, esmagado debaixo do peso

dos tributos, dilacerado pelas luctas dos bandos civis, prostituido ás

paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras

de seus avós. As leis de Wamba e as expressões de Erwig no duodecimo

concilio de Toletum revelam quão fundo ía nesta parte o cancro da

degeneração moral das Hespanhas. No meio de tantos e tão duros vexames

e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de todos elles para os

afeminados descendentes dos soldados de Theoderik, de Thorsmund, de

Theudes e de Leuwighild era o vestir as armas em defensão daquella

mesma patria que os heroes wisigodos tinham conquistado para a legarem

a seus filhos, e a maioria do povo preferia a infamia que a lei impunha

aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos

combates e á vida fadigosa da guerra.

Tal era, em resumo, o estado politico e moral da Hespanha na epocha em

que aconteceram os sucessos que vamos narrar.

II

O PRESBYTERO

Sublimado ao grau de presbytero.... quanta brandura, qual

caridade fosse a sua o amor de todos lh'o demonstrava.

Alvaro de Cordova: _Vida de S. Eulogio c._ 1.

No reconcavo da bahia que se encurva ao oeste do Calpe, Carteia, a

filha dos phenicios, mira ao longe as correntes rapidas do estreito que

divide a Europa da Africa. Opulenta outr'ora, os seus estaleiros tinham

sido famosos antes da conquista romana, mas apenas restam vestigios

delles; as suas muralhas haviam sido extensas e solidas, mas jazem

desmoronadas; os seus edificios foram cheios de magnificencia, mas

cahiram em ruinas; a sua povoação era numerosa e activa, mas rareiou

e tornou-se indolente. Passaram por lá as revoluções, as conquistas,

todas as vicissitudes da Iberia durante doze seculos, e cada

vicissitude dessas deixou ahi uma pégada de decadencia. Os curtos annos

d'explendor da monarchia wisigothica tinham sido para ella como um dia

formoso d'inverno, em que os raios do sol resvalam pela face da terra

sem a aquecerem, para depois vir a noite, humida e fria como as que a

precederam. Debaixo do governo de Witiza e de Ruderico a antiga Carteia

é uma povoação decrepita e mesquinha, á roda da qual estão espalhados

os fragmentos da passada opulencia e que, talvez, na sua miseria,

apenas nas recordações que lhe suggerem esses farrapos de louçainhas

juvenis acha algum refrigerio ás amarguras da malfadada velhice.

Não!--Resta-lhe ainda outro: a religião do Christo.

O presbyterio, situado no meio da povoação, era um edificio humilde,

como todos os que ainda subsistem alevantados pelos godos sobre o sólo

da Hespanha. Cantos enormes sem cimento alteiam-lhe os muros, cobre-lhe

o ambito tecto achatado, tecido de grossas traves de carvalho sobpostas

ao ténue colmo: o seu portal profundo e estreito presagia de certo modo

a mysteriosa portada da cathedral da idade-média: as suas janellas, por

onde a claridade, passando para o interior, se transforma em tristonho

crepusculo, são como um typo indeciso e rude das frestas que, depois,

alumiaram os templos edificados no decimo quarto seculo, através das

quaes, coada por vidros de mil cores, a luz ia bater melancholica

nos alvos pannos dos muros gigantes e estampar nelles as sombras das

columnas e arcos enredados das naves. Mas se o presbyterio wisigothico,

no escaço da claridade, se approxima do typo christão d'architectura,

no resto revela que ainda as idéas grosseiras do culto de Odin não se

tem apagado de todo nos filhos e netos dos barbaros, convertidos ha

tres ou quatro seculos á crença do crucificado.

O presbytero Eurico era o pastor da pobre parochia de Carteia.

Descendente de uma antiga familia barbara, gardingo na corte de Witiza,

tiuphado ou millenario do exercito wisigothico, vivera os ligeiros dias

da mocidade no meio dos deleites da opulenta Toletum. Rico, poderoso,

gentil, o amor viera, apesar disso, quebrar a cadeia brilhante da

sua felicidade. Namorado d'Hermengarda, filha de Favila, duque de

Cantabria, e irman do valoroso e depois tão celebre Pelagio, o seu

amor fora infeliz. O orgulhoso Favila não consentira que o menos nobre

gardingo pusesse tão alto a mira dos seus desejos. Depois de mil provas

de um affecto immenso, de uma paixão ardente, o moço guerreiro vira

submergir todas as suas esperanças. Eurico era uma destas almas ricas

de sublime poesia a que o mundo deu o nome d'imaginações desregradas,

porque não é para o mundo entendê-las. Desventurado, o seu coração de

fogo queimou-lhe o viço da existencia ao despertar dos sonhos do amor

que o tinham embalado. A ingratidão d'Hermengarda, que parecera ceder

sem resistencia á vontade de seu pae, e o orgulho insultuoso do velho

procer deram em terra com aquelle animo, que o aspecto da morte não

sería capaz de abater. A melancholia que o devorava, consumindo-lhe

as forças, fe-lo cahir em longa e perigosa enfermidade, e, quando a

energia de uma constituição vigorosa o arrancou das bordas do tumulo,

semelhante ao anjo rebelde, os toques bellos e puros do seu gesto

formoso e varonil transpareciam-lhe a custo através do véu de muda

tristeza que lhe entenebrecia a fronte. O cedro pendia fulminado pelo

fogo do céu.

Uma destas revoluções moraes que as grandes crises produzem no

espirito humano se operou então no moço Eurico. Educado na crença viva

daquelles tempos; naturalmente religioso porque poeta, foi procurar

abrigo e consolações aos pés d'Aquelle cujos braços estão sempre

abertos para receber o desgraçado que nelles vai buscar o derradeiro

refugio. Ao cabo das grandezas cortesans o pobre gardingo encontrara

a morte do espirito, o desengano do mundo. Ao cabo da estreita senda

da cruz acharia elle, porventura, a vida e o repouso intimos? Era este

problema, no qual se resumia todo o seu futuro, que tentava resolver o

pastor do pobre presbyterio da velha cidade do Calpe.

Depois de passar pelos differentes gráus do sacerdocio, Eurico recebera

ainda de Siseberto, o predecessor de Oppas na sé de Hispalis, o encargo

de pastoreiar esse diminuto rebanho da povoação phenicia. O moço

presbytero, legando á cathedral uma porção dos dominios que herdara

junctamente com a espada conquistadora de seus avós, havia reservado

apenas uma parte das proprias riquezas. Era esta a herança dos

miseraveis, que elle sabia não escaceiarem na quasi solitaria e meia

arruinada Carteia.

A nova existencia d'Eurico tinha modificado, porém não destruido o

seu brilhante caracter. A maior das humanas desventuras, a viuvez

do espirito, abrandara, pela melancholia, as impetuosas paixões do

mancebo e apagara nos seus labios o riso do contentamento, mas não

podera desvanecer no coração do sacerdote os generosos affectos do

guerreiro, nem as inspirações do poeta. O templo havia sanctificado

aquelles, moldando-os pelo evangelho, e tornado estas mais solemnes,

alimentando-as com as imagens e sentimentos sublimes estampados nas

paginas sacrosanctas da Biblia. O enthusiasmo e o amor tinham resurgido

naquelle coração que parecera morto, mas transformados; o enthusiasmo

em enthusiasmo pela virtude; o amor em amor dos homens. E a esperança?

Oh, a esperança, essa é que não renascera!

III

O POETA

Nenhum de vós ouse reprovar os hymnos compostos em louvor de

Deus.

_Concilio de Toledo IV. can._ 13.

Muitas vezes, pela tarde, quando o sol, transpondo a bahia de Carteia,

descia affogueiado para a banda de Mellaria, dourando com os ultimos

resplendores os cimos da montanha pyramidal do Calpe, via-se ao

longo da praia vestido com a fluctuante stringe o presbytero Eurico,

encaminhando-se para os alcantis aprumados á beira-mar. Os pastores

que o encontravam, voltando ao povoado, diziam que, ao passarem por

elle e ao saudarem-no, nem sequer os escutava e que dos seus labios

semi-abertos e tremulos rompia um sussurro de palavras inarticuladas,

semelhante ao ciciar da aragem pelas ramas da selva. Os que lhe

espreitavam os passos, nestes largos passeios da tarde, viam-no

chegar ás raizes do Calpe, trepar aos precipicios, sumir-se entre os

rochedos e apparecer, por fim, lá ao longe, immovel sobre algum pincaro

requeimado pelos soes do estio e poido pelas tempestades do inverno.

Ao lusco-fusco, as amplas pregas da stringe d'Eurico, branquejando

movediças á mercê do vento, eram o signal de que elle estava lá, e,

quando a lua subia ás alturas do céu, esse alvejar de roupas tremulas

durava, quasi sempre, até que o planeta da saudade se atufava nas aguas

do Estreito. D'ahi a poucas horas, os habitantes de Carteia que se

erguiam para os seus trabalhos ruraes antes do alvorecer, olhando para

o presbyterio, viam, através dos vidros corados da solitaria morada de

Eurico, a luz da lampada nocturna que esmorecia, desvanecendo-se na

claridade matutina. Cada qual tecia então sua novella ajudado pelas

crenças da superstição popular: artes criminosas, tracto com o espirito

mau, penitencia de uma abominavel vida passada e, até, a loucura,

tudo serviu successivamente para explicar o proceder mysterioso do

presbytero. O povo rude de Carteia não podia entender esta vida

d'excepção, porque não percebia que a intelligencia do poeta precisa de

viver n'um mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão

mesquinhos limites.

Mas Eurico era como um anjo tutelar dos amargurados. Nunca a sua mão

benefica deixou de estender-se para o logar em que a afflicção se

assentava; nunca os seus olhos recusaram lagrymas que se misturassem

com lagrymas d'alheias desventuras. Servo ou homem livre, liberto ou

patrono, para elle todos eram filhos. Todas as condições se livelavam

onde elle apparecia; porque, pae commum daquelles que a providencia

lhe confiara, todos para elle eram irmãos. Sacerdote do Christo,

ensinado pelas largas horas de intima agonia, esmagado o seu coração

pela suberba dos homens, Eurico percebera, emfim, claramente que o

christianismo se resume em uma palavra--fraternidade. Sabía que o

evangelho é um protesto dictado por Deus, para os seculos, contra as

vans distincções que a força e o orgulho radicaram neste mundo de lodo,

d'oppressão e de sangue; sabía que a unica nobreza é a dos corações e

dos entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do céu, mas que

essa superioridade real é exteriormente humilde e singela.

Pouco a pouco, a severidade dos costumes do pastor de Carteia e a sua

beneficencia, tão meiga, tão despida das insolencias que costumam

acompanhar e encher d'amargor para os miseraveis a piedade hypocrita

dos felizes da terra; essa beneficencia que a religião chamou caridade,

porque a linguagem dos homens não tinha palavra que exprimisse

rigorosamente um affecto revelado á terra pela victima do Calvario;

essa beneficencia que a gratidão geral recompensava com amor sincero

tinha desvanecido gradualmente as suspeitas odiosas que o proceder

extraordinario do presbytero suscitara a principio. Emfim, certo

domingo em que, tendo aberto as portas do templo, e havendo já o

psalmista entoado os canticos matutinos, o ostiario buscava cuidadoso o

sacerdote, que parecia ter-se esquecido da hora em que devia sacrificar

a hostia do cordeiro e abençoar o povo, foi encontrá-lo adormecido

juncto á sua lampada ainda accesa e com o braço firmado sobre um

pergaminho cuberto de linhas desiguaes. Antes de despertar Eurico,

o ostiario correu com os olhos a parte da escriptura que o braço do

presbytero não encobria. Era um novo hymno no genero daquelles que

Isidoro, o celebre bispo de Hispalis, introduzira nas solemnidades

da igreja goda. Então o ostiario entendeu o mysterio da vida errante

do pastor de Carteia e as suas vigilias nocturnas. Não tardou em

espalhar-se na povoação e nos logares circumvizinhos que Eurico era

o auctor de alguns canticos religiosos transcriptos nos hymnarios de

varias dioceses, e uma parte dos quaes brevemente foi admittida na

propria cathedral d'Hispalis. O caracter de poeta tornou-o ainda mais

respeitado. A poesia, dedicada quasi exclusivamente entre os wisigodos

ás solemnidades da igreja, sanctificava a arte e augmentava a veneração

publica para quem a exercitava. O nome do presbytero começou a soar por

toda a Hespanha, como o de um successor de Draconio, de Merobaude e de

Orencio.

Desde então ninguem mais lhe seguiu os passos. Assentado nos alcantis

do Calpe, vagabundo pelas campinas vizinhas ou embrenhado pelas selvas

sertanejas, deixaram-no tranquillo embalar-se nos seus pensamentos.

Na conta de inspirado por Deus, quasi na de propheta, o tinham as

multidões. Não gastava elle as horas que lhe sobejavam do exercicio

de seu laborioso ministerio n'uma obra do Senhor? Não deviam esses

hymnos da soledade e da noite derramar-se como um perfume ao pé dos

altares? Não completava Eurico a sua missão sacerdotal, revestindo a

oração das harmonias do céu, estudadas e colhidas por elle no silencio

e na meditação? Mancebo, o numeroso clero das parochias vizinhas

considerava-o como o mais veneravel entre os seus irmãos no sacerdocio,

e os velhos procuravam na sua fronte, quasi sempre carregada e triste,

e nas suas breves mas eloquentes palavras o segredo das inspirações e o

ensino da sabedoria.

Mas, se os que o acatavam como um predestinado soubessem quão negra era

a predestinação do poeta, porventura que essa especie de culto de que

o cercavam se converteria em compaixão ou antes em terror. Os hymnos

tão suaves, tão cheios d'uncção, tão intimos, que os psalmistas das

cathedraes de Hespanha repetiam com enthusiasmo eram como o respirar

tranquillo do somno da madrugada que vem depois de arquejar e gemer

de pesadello nocturno. Rapido e raro passava o sorrir nas faces de

Eurico; profundas e indeleveis eram as rugas da sua fronte. No sorriso

reverberava o hymno pio, harmonioso, sancto dessa alma, quando,

alevantando-se da terra, se entranhava nos sonhos de um mundo melhor.

Ás rugas, porém, da fronte do presbytero, semelhantes ás vagas varridas

pelo noroeste, respondia um canto lugubre de colera ou desalento, que

rebramia lá dentro, quando a sua imaginação, cahindo, como a aguia

ferida, das alturas do espaço, se rojava pela morada dos homens. Era

este canto doloroso e tetrico, o qual lhe transsudava do coração em

noites não dormidas, na montanha ou na selva, na campina ou no estreito

aposento, que elle derramava em torrentes de amargura ou de fel sobre

pergaminhos que nem o ostiario nem ninguem tinha visto. Estes poemas,

em que palpitava a indignação e a dor de um animo generoso, eram o

Gethsemani do poeta. Todavia, os virtuosos nem sequer o imaginavam,

porque não perceberiam como, tranquilla a consciencia e repousada a

vida, um coração póde devorar-se a si proprio, e os maus não criam

que o sacerdote, embebido unicamente em suas esperanças credulas, em

suas cogitações d'além do tumulo, curasse dos males e crimes que roíam

o imperio moribundo dos wisigodos; não criam que tivesse um verbo de

colera para amaldicçoar os homens aquelle que ensinava o perdão e o

amor. Era por isto que o poeta escondia as suas terriveis inspirações.

Monstruosas para uns, objecto de ludibrio para outros, n'uma sociedade

corrupta, em que a virtude era egoista e o vicio incredulo, ninguem o

escutara ou, antes, ninguem o entenderia.

Levado á existencia tranquilla do sacerdocio pela desesperança,

Eurico sentira a principio uma suave melancholia refrigerar-lhe a

alma requeimada ao fogo da desdita. A especie de torpor moral em que

uma rapida transição de habitos e pensamentos o lançara pareceu-lhe

paz e repouso. A ferida affizera-se ao ferro que estava dentro della,

e Eurico suppunha-a sarada. Quando um novo affecto veio espremê-la

é que sentiu que não se havia cerrado e que o sangue manava ainda,

porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a

tinha aberto: o amor da patria, despertado pelos acontecimentos que

rapidamente succediam uns aos outros na Hespanha despedaçada pelos

bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores

recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco os

severos principios do christianismo em flagello e martyrio daquella

alma, que, a um tempo, o mundo repellia e chamava e que nos seus

transes d'angustia sentia escripta na consciencia com a penna do

destino esta sentença cruel:--nem a todos dá o tumulo a bonança das

tempestades do espirito.

As scenas de dissolução social que naquelle tempo se representavam na

Peninsula eram capazes de despertar a indignação mais vehemente em

todos os animos que ainda conservavam um diminuto vestigio do antigo

caracter godo. Desde que Eurico trocara o gardingato pelo sacerdocio,

os odios civís, as ambições, a ousadia dos bandos e a corrupção dos

costumes haviam feito incriveis progressos. Nas solidões do Calpe

tinha reboado a desastrada morte de Witiza, a enthronisação violenta

de Ruderico e as conspirações que ameaçavam rebentar por toda a parte

e que a muito custo o novo monarcha ía affogando em sangue. Ebbas e

Sisebuto, filhos de Witiza, Oppas, seu tio, successor de Siseberto na

sé de Hispalis, e Juliano, conde dos dominios hespanhoes nas costas

d'Africa, do outro lado do Estreito, eram os cabeças dos conspiradores.

Unicamente o povo conservava aínda alguma virtude, a qual, semelhante

ao liquido transvasado por cendal delgado e gasto, escoara inteiramente

atravez das classes superiores. Opprimido, todavia, por muitos generos

de violencias, esmagado debaixo dos pés dos grandes que luctavam,

descrera por fim da patria, tornando-se indifferente e covarde,

prestes a sacrificar a sua existencia collectiva á paz individual e

domestica. A força moral da nação tinha, portanto, desapparecido, e a

força material era apenas um phantasma; porque, debaixo das lorigas dos

cavalleiros e dos saios dos peões das hostes não havia senão animos

gelados, que não podiam aquecer-se ao fogo do sancto amor da terra

natal.

Com a profunda intelligencia de poeta, o Presbytero contemplava este

horrivel espectaculo de uma nação cadaver e, longe do bafo empestado

das paixões mesquinhas e torpes daquella geração degenerada, ou

derramava sobre o pergaminho em torrentes de fel, d'ironia e de colera

a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando-se dos tempos

em que era feliz porque tinha esperança, escrevia com lagrymas os

hymnos de amor e de saudade. Das elegias tremendas do Presbytero alguns

fragmentos que duraram até hoje diziam assim:

IV

RECORDAÇÕES

Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?

S. Eulogio: _Memorial dos Sanct. liv._ 3.^o

_Presbyterio de Carteia. Á meia noite

dos Idos de Dezembro de 748._

1

Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu

sem lua é vivo e tremulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo;

em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e

tetrica.

Era a hora em que o homem está recolhido nas suas mesquinhas moradas;

em que pelos cemiterios o orvalho se pendura do topo das cruzes

e, sósinho, goteja das bordas das campas; em que só elle chora os

mortos. As larvas da imaginação e o gear nocturno affastam do campo

sancto a saudade da viuva e do orpham, a desesperação da amante, o

coração despedaçado do amigo. Para se consolarem, os infelizes dormiam

tranquillos em seus leitos macios!... em quanto os vérmes íam roendo

esses cadaveres amarrados pelos grilhões da morte. Hypocritas dos

affectos humanos, o somno enxugou-lhes as lagrymas!

E depois, as lousas eram já tão frias! Nos seios de um torrão humido o

sudario do cadaver tinha apodrecido com elle.

Haverá paz no tumulo? Deus sabe o destino de cada homem. Para o que ahi

repousa sei eu que ha na terra o esquecimento!

Os mares pareciam naquella hora recordar-se ainda do rugido harmonioso

do estio, e a vaga arqueiava-se, rolava e, espreguiçando-se pela praia,

reflectia a espaços nas golfadas de escuma a luz indecisa dos céus.

E o animal que ri e chora, o rei da creação, a imagem da divindade,

onde é que se escondera?

Tremia de frio em aposento cerrado, e sentia confrangido a brisa

fresca do norte que passava nas trevas e sibilava contente nas sarças

rasteiras dos maninhos desertos.

Sem dúvida, o homem é forte e a mais excellente obra da creação. Gloria

ao rei da natureza que tiritando geme!

Orgulho humano, qual és tu mais?--feroz, estupido ou ridiculo?

2

Não eram assim os godos do oeste quando, ora arrastando por terra as

aguias romanas, ora segurando com o seu braço de ferro o imperio que

desabava, imperavam na Italia, nas Gallias e nas Hespanhas, moderadores

e arbitros entre o Septemtrião e o Meio-dia:

Não era assim, quando o velho Theoderik, semelhante ao urso feroz da

montanha, combatia nos campos catalaunicos rodeiado de tres filhos

contra o terrivel Attila e ganhava no seu ultimo dia a sua ultima

victoria:

Quando a larga e curta espada de dous gumes se convertera em fouce de

morte nas mãos dos godos, e diante della retrocedia a cavallaria dos

gépidas, e os esquadrões dos hunos vacillavam, dando roucos gritos

d'espanto e terror.

Quando as trevas eram mais cerradas e profundas viam-se á claridade

das estrellas relampagueiar as armas dos hunos, volteiando em roda dos

seus carros, que lhes serviam de vallos. Como o caçador espreita o

leão tomado no fojo, os wisigodos os vigiavam, esperando o romper da

alvorada.

Lá, o sopro gelado da noite não fazia confranger nossos avós debaixo

das armaduras. Lá, a neve era um leito como outro qualquer, e o rugir

do bosque, debatendo-se nas azas da tempestade, era uma cantilena de

repouso.

O velho Theoderik cahira atravessado por uma frecha despedida pelo

ostrogodo Handags, que com os da sua tribu combatia pelos hunos.

Os wisigodos viram-no, passaram ávante e vingaram-no. Ao pôr do sol,

gépidas, ostrogodos, scyros, burgundos, thuringios, hunos, misturados

uns com outros, tinham mordido a terra catalaunica, e os restos da

innumeravel hoste d'Attila, encerrados no seu acampamento fortificado,

preparavam-se para morrer; porque Theoderik jazia para sempre, e o

frankisk dos wisigodos era vingador e inexoravel.

O romano Aecio teve, porém, piedade d'Attila e disse aos filhos de

Theoderik:--ide-vos, porque o imperio está salvo.

E Thorsmund, o mais velho, perguntou a seus dous irmãos Theoderik e

Friederik:--está acaso vingado o sangue de nosso pae?

De sobejo o estava elle! Ao apparecer do dia, por quanto os olhos

podiam alcançar, não se viam senão cadaveres.

E os wisigodos deixaram entregues a si os romanos, que, desde então,

não souberam senão fugir diante d'Attila.

Quem contará, porém, as victorias de nossos avós durante tres seculos

de gloria? Quem poderá celebrar o esforço d'Eurik, de Theudes, de

Leuwighild; quem saberá todas as virtudes de Rekkáred e de Wamba?

Mas, em qual coração resta hoje virtude e esforço no vasto imperio

d'Hespanha?

3

Era, pois, n'uma destas noites como a que desceu do céu depois do

desbarato dos hunos; era n'uma destas noites em que a terra, envolta

no seu manto d'escuridade, se povôa de terrores incertos; em que o

sussurro do pinhal é como um coro de finados, o despenho da torrente

como um ameaçar d'assassino, o grito da ave nocturna como uma

blasphemia do que não crê em Deus.

Nessa noite fria e humida, arrastado por agonia intima, vagava eu ás

horas mortas pelos alcantis escalvados das ribas do mar e enxergava ao

longe o vulto negro das aguas balouçando-se no abysmo que o Senhor lhes

deu para perpetua morada.

Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do

vento, como o rugido do mar.

Porque o vento e o oceano são as duas unicas expressões sublimes do

verbo de Deus, escriptas na face da terra quando ainda ella se chamava

o cahos.

Depois é que surgiu o homem e a podridão, a arvore e o verme, a bonina

e o emmurchecer.

E o vento e o mar viram nascer o genero-humano, crescer a selva,

crescer a primavera;--e passaram, e sorriram-se.

E, depois, viram as gerações reclinadas nos campos do sepulchro,

as arvores derribadas no fundo dos valles seccas e carcomidas, as

flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio;--e passaram, e

sorriram-se.

Que tinham elles, de feito, com essas existencias, mais passageiras e

incertas que as correntezas de um e que as ondas buliçosas do outro?

4

O mundo actual nunca poderá entender plenamente o affecto que,

vibrando-me dolorosamente as fibras do coração, me arrastava para as

solidões marinhas do promontorio, quando os outros homens nos povoados

se apinhavam á roda do lar acceso e falavam das suas mágoas infantis e

dos seus contentamentos de um instante.

E que m'importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra d'Hespanha

gerações que comprehendam as palavras do Presbytero.

Arrastava-me para o ermo um sentimento intimo, o sentimento de haver

acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida e de que hoje

ninguem acorda, senão depois de morrer.

Sabeis o que é esse despertar de poeta?

É o ter entrado na existencia com um coração que trasborda d'amor

sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajunctarem-se os homens e

lançarem-lhe dentro do seu vaso d'innocencia lodo, fel e peçonha e,

depois, rirem-se d'elle:

É o ter dado ás palavras--virtude, amor patrio e gloria--uma

significação profunda e, depois de haver buscado por annos a realidade

dellas neste mundo, só encontrar ahi hypocrisia, egoismo e infamia:

É o perceber á custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar

descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da

terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tenue que ondeia em

horisonte áquem do qual está assentada a sepultura.

Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abysmos da sua alma só ha

para mandar aos labios um sorriso de desprezo em resposta ás palavras

mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldicção desabridamente

sincera para julgar as acções dos homens.

É então que para elle ha unicamente uma vida real--a intima; unicamente

uma linguagem intelligivel--a do bramido do mar e do rugido dos ventos;

unicamente uma convivencia não travada de perfidia--a da solidão.

5

Tal era eu quando me assentei sobre as fragas; e a minha alma via

passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e

forte, porque sem horror derrama em luctas civis o sangue de seus

irmãos.

E o meu espirito atirava-se para as trévas do passado.

E o sopro rijo do norte affagava-me a fronte requeimada pela amargura,

e a memoria consolava-me das dissoluções presentes com a aspiração

suave do formoso e energico viver d'outr'ora.

E o meu meditar era profundo como o céu, que se arqueia immovel sobre

nossas cabeças; como o oceano, que, firmando-se em pé no seu leito

insondavel, braceja pelas bahias e enseadas, tentando esmigalhar e

desfazer os continentes.

E eu pude, emfim, chorar.

6

Que fora a vida, se nella não houvera lagrymas?

O Senhor estende o seu braço pesado de maldicções sobre um povo

criminoso: o pae que perdoara mil vezes converte-se em juiz inexoravel;

mas, ainda assim, a Piedade não deixa de orar juncto dos degráus do seu

throno.

Porque sua irman é a Esperança, e a esperança nunca morre nos céus. De

lá ella desce ao seio dos máus antes que sejam precítos:

E os desgraçados na sua miseria conservam sempre olhos que saibam

chorar.

A dor mais tremenda do espirito quebrantam-na e entorpecem-na as

lagrymas.

O Sempiterno as creou quando nossa primeira mãe nos converteu em

réprobos: ellas servem, porventura, ainda de algum refrigerio lá nas

trévas exteriores, onde ha o ranger dos dentes.

Meu Deus, meu Deus!--Bemdicto seja o teu nome, porque nos déste o

chorar.

V

A MEDITAÇÃO

Então os godos cahirão na guerra;

Então fero inimigo ha-de opprimi-los

Com ruinas sem conto, e o susto e a fome.

_Hymno de_ S. Isidoro _em_ Lucas de Tui. Chronicon liv. 3.^o

_No templo--Ao romper d'alva--Dia de Natal da era de 748._

1

Mais de sete seculos são passados depois que tu, oh Christo, vieste

visitar a terra.

E as tuas palavras foram escutadas pelos indomaveis filhos da Gothia, e

elles ajoelharam aos pés da cruz.

Era que nessas palavras divinas havia uma poesia celeste, a qual as

almas rudes mas virgens do septemtrião sentiam casar-se com as suas

primitivas virtudes.

Tu evangelisavas a liberdade e condemnavas todo o genero de tyrannia:

tu restituias ao valor a sua generosidade, á generosidade a sua

modestia; tu revelavas inauditos mysterios no esforço do morrer: a

constancia dos teus martyres escurecia a dos nossos guerreiros quando,

debaixo do punhal de inimigo victorioso, recusavam confessar-se

vencidos.

Tu convertias o amor, esse sentimento delicioso, até então limitado

ao goso material da mulher, em um grande e sublime affecto: alargavas

o ambito do coração por toda a terra, por tudo quanto nella vive e

respira, e davas-lhe para conquistar todas as existencias dos céus.

A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua

sublimidade: só nas almas dos barbaros estavam elles em germen. Não

para os romanos corrompidos, mas para nós, os selvagens septemtrionaes,

era o christianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se ao sol

que rompe d'além das serras e que illumina, aquece e alegra; para os

escravos abjectos dos cesares assemelhava-se ao sol mergulhando-se no

mar, que só deixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.

Por isso, emquanto elles voltavam as costas á tua cruz ou a lançavam

d'envolta com os idolos nos seus mesquinhos lararios, nós quebravamos

no fundo das selvas ou no topo das montanhas as imagens d'Odin, de Thor

e de Freda e corriamos a abraçarmo-nos com ella.

Tem compaixão de nós, oh Christo: lembra-te de que os ossos dos que

assim o fizeram ainda não são inteiramente cinzas debaixo das lousas;

porque só quatro seculos tem passado por cima delles.

2

Quem é hoje christão e godo nesta nossa terra d'Hespanha?

Uma geração degenerada pisa os restos d'heroes: homens sem crença,

blasphemos ou hypocritas, succederam aos que criam na grandeza moral do

genero-humano e na providencia de Deus.

D'antes, os principes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos

reis a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da patria.

D'antes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se

para beijar a fimbria da sua stringe; porque a paz e a esperança

entravam em todas as moradas sobre que desciam as bençams delle.

D'antes, o juiz era o pae do opprimido, o tribunal o abrigo do

innocente, a justiça o nervo do imperio gothico.

D'antes, nos concelhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres as

leis íam buscar a sancção da sabedoria e afferir-se pela utilidade

commum. Lá, o rei sabía que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos

godos, que o sceptro era cajado de pastor, não cutello d'algoz, e a

coroa uma carga pesada, não uma aureola de vangloria.

Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruido das festas, os frankos e

os vasconios talam as provincias do norte, e a espada dos guerreiros só

reluz nas luctas civís.

Hoje, os principes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das

tradições d'avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da

Germania que os romanos imbelles davam o nome de reis.

Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado: os claustros das

cathedraes velam com o seu manto de pedra as abominações da torpeza, e

as mãos do sacerdote deixam muitas vezes humedecida a tela que veste os

altares com vestigios do sangue derramado covarde e vilmente.

Hoje, a cubiça assentou-se no logar da equidade: o juiz vende a

consciencia no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babylonia

vendiam a pudicicia nas praças publicas aos que passavam, diante da luz

do dia.

Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos

homens livres: a coroa é uma conquista, a lei uma vontade do deshonrado

vencedor de pelejas domesticas, a liberdade uma palavra mentida.

Imperio d'Hespanha, imperio d'Hespanha! porque foram os teus dias

contados?

3

O sol oriental que ora bate ridente no pavimento da igreja afflige a

minha alma, porque me parece que, alumiando esta terra condemnada, se

assemelha a homem cruel que viesse dar uma risada juncto ao leito do

moribundo.

Porque te havia eu de amar, oh sol, se tu és o inimigo dos sonhos do

imaginar; se tu nos chamas á realidade, e a realidade é tão triste?

Pela escuridão da noite, nos logares ermos e ás horas mortas do alto

silencio a phantasia do homem é mais ardente e robusta.

É então que elle dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento

ás selvas que se meneiam e gemem á mercê da brisa nocturna.

É então que elle collige as suas recordações; une, parte, transmuda as

imagens das existencias que viu passar ante si e estampa nas sombras

que o rodeiam um universo transitorio, mas para elle real.

E é bello esse mundo de phantasmas aereos, por entre cujos labios

descorados não transpiram nem perjurio nem dobrez e a cujos olhos sem

brilho não assoma o reflexo de animos pervertidos.

Ahi ha o repouso, a paz e a esperança que desappareceram da terra;

porque o mundo das visões cria-o a mente pura do poeta: ella dá corpo

e vulto ao que já só é ideal, e o passado, deixando cahir o seu

immenso sudario, ergue-se em pé e, pondo-se diante do que medita,

diz-lhe:--aqui estou eu!

E este o compara com o presente e recúa d'involuntario terror:

Porque o cadaver que se alevanta do pó é formoso e sancto, e o presente

que vive e passa e sorri é horrendo e maldicto.

E o poeta atira-se chorando ao seio do cadaver e

responde-lhe:--esconde-me tu!

É lá que esta alma, arida como a urze, sente, quando ahi se abriga,

refrescá-la um como orvalho do céu.

VI

SAUDADE

Christo!--dá-me o perdão; dá-me remedio;

Que entre tão vario mal fraqueia a mente!

Eugenio Toledano: _Opusculos--XI._

_Na Ilha-verde. Ao pôr do sol das

kalendas de abril da era de 749._

1

O mar estava tranquillo, e o ar puro e diaphano. As costas d'Africa

fronteiras, lá na extremidade do horisonte, pareciam uma orla escura

bordada no manto azul do firmamento.

A aragem do norte encrespava suavemente a superficie das aguas: as

ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areial da bahia.

O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmonio.

Uma saudade indizivel attrahia-me para o mar.

Saltei na barca; o ruido que fiz despertou Ranimiro.--«Ao

largo»--disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos.

«Para onde, Presbytero?»--perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns

momentos em silencio.

«Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais

nada:--repliquei.--Leva-me para onde te approuver.»

--Se vos parece--tornou Ranimiro--rodeiaremos a Ilha Verde, entraremos

no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ella estará agora

esmaltada de verdura e boninas.»

Calei-me: o barqueiro tomou por approvação o meu silencio. Voltando a

proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeiando a sua margem

occidental, abicámos em terra pelo lado da enseada que a separa do

continente.

Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria riquissima lançada ao som

das aguas, a superficie da ilha agitava-se trémula com a aragem da

terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da

relva.

Assentado á sombra de uma rocha que formava um promontoriosinho do lado

do sul, lancei os olhos em volta até onde se descubria o horisonte.

Lá, no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na

ponta da Africa os cimos das torres de Septum fronteiras aos cerros

escalvados do Calpe. De Septum para o occidente as costas africanas

contrastavam nas suas ondulações suaves com a penedia aspera das

ribas hispanicas, e, confrangido entre os dous continentes, o mar

balouçava-se resplandecente com os raios já inclinados do sol.

De roda de mim a atmosphera estava impregnada de um halito perfumado:

era a natureza que sorria affagada pela primavera. As aves aquaticas

redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as aguas e pareciam, nos seus

vôos incertos, ora vagarosos, ora rapidos, folgarem com os primeiros

dias da estação dos amores.

Uma melancholia suave se me erguia lentamente no coração, debaixo

daquelle céu puro, n'aquella atmosphera balsamica, ante aquelles

horisontes saudosos. As lagrymas rebentaram-me involuntariamente dos

olhos.

Era feliz neste momento, porque repousava d'amarguras. Olhei para a

barca: Ranimiro adormecera de novo á proa. Repousavam bem perto um do

outro a materia e o espirito.

Bemaventurado, pensei eu comigo, aquelle em quem os affagos de uma

tarde serena de primavera no silencio da solidão produzem o torpor dos

membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do

ruido da vida!

E este pensamento trouxe-me pouco e pouco á memoria as tempestades do

passado. Ai de mim! Logo se me enchugaram as lagrymas, porque eram de

consolação, e essa lembrança as estancou!

2

Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmurio das vagas

somnolentas, ao sussurro da brisa do norte?

Porque mulher barbara não entendeu o que valia o amor d'Eurico; porque

velho orgulhoso e avaro sabía mais um nome de avós do que eu, e porque

nos seus cofres havia mais alguns punhados d'ouro do que nos meus.

As mãos imbelles de uma donzella e de um velho esmagaram e despedaçaram

o coração de um homem, como os caçadores covardes assassinam no fojo o

leão indomavel e generoso.

E, todavia, este coração sentia a voz da consciencia pregoar-lhe largos

destinos! Porque não emmudeceu essa voz quando do portico do templo

lancei ao mundo a maldicção da despedida?

Porque me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas

esperanças?

É porque o viver é o éculeo do espirito: a alma estorce-se como

agonisante no meio dos mais incomportaveis tormentos, sem nunca poder

expirar, e os seus affectos profundos são com ella; não lhes é dado o

morrer.

Paz e esquecimento, oh meu Deus!

3

Eurico, o presbytero · 第 1 / 14 段