D. Maria voltára, ao cabo do renque d'alamos, recolhendo á caleche:

--Uma pontinha de genio, para animar a existencia. Mas muito boa

rapariga... E uma dona de casa admiravel! O primo não imagina como anda

a _Feitosa_. A ordem, o acceio, a regularidade, a disciplina... Ella

olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!

Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:

--Pois se d'aqui a um anno se realisar o grande acontecimento hei de

gritar por toda a parte que foi a prima Maria que salvou a casa de

Ramires!

--Por isso eu trabalho, para servir o brazão e o nome! exclamou ella,

saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada

aquella clara confissão.

O trintanario trepára á almofada. E em quanto os cavallos folgados

largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:

--Sabe quem encontrei em Villa Clara? O Titó!

--O Titó?...

--Chegou do Alemtejo, vem jantar comsigo. Eu não o trouxe na carruagem

por decencia, para o não comprometter...

E a caleche rolou--entre os risos e os doces acenos com que ambos se

afagavam, n'aquella nova concordancia mais calorosa d'uma conspiração

sentimental.

Gonçalo largou logo alegremente para Villa-Clara, ao encontro do Titó. E

já o alvoroçava a idéa de colher do Titó, intimo da _Feitosa_,

informações sobre a D. Anna, o seu genio, os seus modos. A prima Maria,

por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos Mendonças!),

idealisava a noiva. Mas o Titó, o homem mais veridico do Reino, amando a

Verdade com a antiga devoção de Epaminondas, apresentaria D. Anna sem um

enfeite nem um desenfeite. E o Titó... Ah! sob o seu vozeirão troante, a

sua indolencia bovina, o Titó possuia um espirito muito attento, muito

penetrante.

Logo á Portella os dous amigos s'encontraram. E, apesar de separação tão

curta, o abraço foi estrondoso.

--Oh sô Gonçalão!...

--Oh Titósinho querido! tens feito cá uma falta enorme!... E teu irmão?

O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapacio e muito fêmea para velho

de sessenta annos. E elle lá o avisára:--«Mano João, mano João! olhe que

assim sempre agarrado aos papeis velhos e ás cachopas novas, o mano

rebenta!»

--E por cá? Essa eleição?

--A eleição agora para outubro, nos começos d'outubro... De resto,

semsaboria universal. Gouveia na Costa, Manoel Duarte na vindima... Eu

seccadote, murchote, sem veia, até sem appetite.

--Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.

--Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre...

Ella está na _Feitosa_ com a D. Anna.

Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na

_Feitosa_, com a tentação de desabafar, logo alli na estrada, sobre o

inesperado romance que desabrochára. Mas não ousou! Era um angustiado

acanhamento, como a vergonha de cubiçar assim todos os restos do pobre

Lucena--o Circulo e a viuva.

Então, conversando do Alemtejo e do mano João (que contára muitas

antigualhas massadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da

Portella á Torre, com tenção de estirar o passeio até aos Bravaes. Mas,

na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dous convivas inesperados,

senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar onde um fio

lento d'agoa s'atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do Fidalgo

a Rosa accudio, limpando as mãos ao avental. O que! dous convidados!

Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus nosso Senhor o

jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprára a uma mulher da Costa um

cesto de sardinhas, graudas e gordas que regalavam!... O Titó reclamou

logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos

atravessavam o pateo--quando Gonçalo reparou no Bento, escarranchado no

banco da latada, deante d'uma tigella, e areando com enthusiasmo um

castão de prata lavrada, que emergia de dentro d'uma toalha enrolada

como d'uma bainha.

--Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?

O Bento lentamente saccou da toalha torcida um chicote, escuro e

comprido, com tres arestas afiadas como as d'um florete.

--Nem o Snr. Dr. sabia! Estava no sotão. Agora de tarde andava lá a

escarafunchar por causa d'uma ninhada de gatos, e detraz d'um bahu dou

com umas esporas de prateleira e com este arrôcho...

Gonçalo estudou o macisso castão de prata, sacudio a fina vara que

zinia:

--Explendido chicote... Oh Titó, hein?... Afiado como um cutello. E

antigo, muito antigo, com as minhas armas... De que diabo é feito?

baleia?

--De cavallo-marinho... Uma arma terrivel. Mata um homem... O mano João

tem um, mas com castão de metal... Mata um homem!

--Bem, rematou Gonçalo. Limpa e põe no meu quarto, Bento! Passa a ser o

meu chicote de guerra!

Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena de

cutim deitada aos hombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira

tomava emfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando ao Titó o

lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a

tornar a Torre uma fallada maravilha de ceára, vinha e horta! O Pereira

coçava a barba rala:

--E tambem a enterrar bom dinheiro! Emfim um gosto sempre valeu mais que

um vintem! E o Fidalgo, como patrão, merece terra em que os olhos se

esqueçam de regalados!...

--Oh, Snr. Pereira! rebombou o Titó. Então não se esqueça de cuidar dos

melões. É uma vergonha! Nunca na Torre se comeu um bom melão!

--Pois para o anno, assim Deus nos conserve, já V. Ex.^a comerá na Torre

um bom melão!

Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador--e apressou para a estrada,

decidido a desenrolar toda a confidencia ao Titó, na solidão favoravel

do arvoredo dos Bravaes. Mas, apenas recomeçaram a caminhada, o mesmo

enleio o travou--quasi temendo agora as informações do Titó, homem tão

sevéro, de Moral tão escarpada. E todo o demorado giro pelos Bravaes o

findaram sem que Gonçalo desafogasse. O crepusculo descera, molle e

quente, quando recolheram--conversando sobre a pesca do savel no

Guadiana.

Defronte do portão da Torre Videirinha esperava, dedilhando o violão na

penumbra dos alamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma aragem,

jantaram na varanda, com dous candieiros accesos. Logo ao desdobrar o

guardanapo o Titó, vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou «que

graças ao Senhor da Saude, a sede era boa!» Elle e Gonçalo praticaram as

usadas façanhas de garfo e de copo. Quando o Bento servio o café uma

immensa e lustrosa lua nova surgia, ao fundo da quinta escura, por traz

dos outeiros de Valverde. Gonçalo, enterrado n'uma cadeira de vime,

accendeu o charuto com beatitude. Todos os tedios e incertezas d'essas

semanas se despegavam da sua alma como cinza apagada, brevemente

varrida. E foi sentindo menos a doçura da noite, que um sabor melhor á

vida desanuviada, que exclamou:

--Pois, senhores, agora, está uma delicia!...

Videirinha, depois d'um curto cigarro, retomára o violão. Atravez da

quinta, pedaços de muros caiados, algum trilho de rua mais descoberto, a

agua do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros; e a

quietação do arvoredo, da claridade, da noite, penetravam n'alma com

adormecedora caricia. Titó e Gonçalo saboreavam o famoso cognac de

Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente enlevados no

Videirinha--que recuára para o fundo da varanda, se envolvera em sombra.

Nunca o bom cantador ferira as cordas com inspiração mais enternecida.

Até os campos, o ceu inclinado, a lua cheia sobre as collinas, escutavam

os queixumes do _fado_ da Ariosa. E no escuro, sob a varanda, o pigarro

da Rosa, os passos abafados dos creados, algum sumido riso de rapariga,

o bater das orelhas d'um perdigueiro--eram como a presença d'um povo

suavemente attrahido pelo descante formoso.

Assim a noite se alongou, a lua subio com solitario fulgor. Titó, pesado

do brodio, adormecêra. E como sempre, para findar, Videirinha atacou

ardentemente o _Fado dos Ramires_:

Quem te verá sem que estremeça,

Torre de Santa Ireneia,

Assim tão negra e callada

Por noites de lua cheia...

E lançou então uma quadra nova, que trabalhára n'essa semana com amor

sobre uma erudita nota do bom Padre Sueiro. Era a gloria magnifica de

Paio Ramires, Mestre do Templo--a quem o Papa Innocencio, e a Rainha

Branca de Castella, e todos os Principes da Christandade supplicam que

se arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luiz Rei de França,

captivo nas terras de Egypto...

Que só em Paio Ramires

Põe agora o mundo a esperança...

Que junte os seus Cavalleiros

E que salve o Rei de França!

E por este avô e tal façanha até Gonçalo se interessou--acompanhando o

canto, n'um tremulo esganiçado, de braço erguido:

Ai, que junte os seus cavalleiros

E que salve o Rei de França!...

Ao rolar mais forte do côro Titó descerrou as palpebras, arrancou do

canapé o corpansil immenso--e declarou que marchava para Villa Clara:

--Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde hontem ás quatro

da manhã que larguei de Cidadelhe... Caramba, dava agora, como aquelle

rei grego, um crusado por um burro!

Então Gonçalo, animado pelo cognac, tambem se ergueu com uma resolução

quasi alegre:

--Oh Titó, antes de sahires anda cá dentro que quero fallar comtigo a

respeito d'um caso!

Agarrára um dos candieiros, penetrou na sala de jantar onde errava o

cheiro de magnolias morrendo n'um vaso. E ahi, sem preparação, com os

olhos bem decididos, bem cravados no Titó--que o seguira arrastadamente,

ainda se espreguiçava:

--Oh Titó, ouve lá e sê franco. Tu ias muito á _Feitosa_... Que te

parece aquella D. Anna?

Titó, que despertára como ao rebentar d'um morteiro, considerou Gonçalo

com assombro:

--Ora essa! Mas a que proposito?...

Gonçalo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:

--Olha! Eu para ti não tenho segredos. N'estas ultimas semanas houveram

ahi umas conversas, uns encontros... Emfim, para resumir, se d'aqui a

tempos eu pensasse em casar com a D. Anna, creio que ella, por seu lado,

não recusava. Tu ias á _Feitosa_. Tu sabes... Que tal rapariga é ella?

Titó crusára os braços violentamente:

--Pois tu vaes casar com a D. Anna?

--Homem, não vou casar. Não sigo esta noite para a Egreja. Por ora quero

só informações... E de quem as posso ter, mais francas e mais seguras,

do que de ti, que és meu amigo e que a conheces?

Titó não descrusára os braços--levantando para o Fidalgo da Torre a face

honesta e sevéra:

--Pois tu pensas em casar com a D. Anna, tu, Gonçalo Mendes Ramires?...

Gonçalo atirou um gesto de impaciencia e fartura:

--Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires...

O Titó quasi berrou, na sua indignação:

--Qual fidalguia! É que um homem de bem, como tu, não pensa em casar com

uma creatura como ella!... Fidalguia?... Sim! Mas fidalguia d'alma e de

coração!

Gonçalo emmudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a que se

forçára, argumentou, deduzio:

--Bem! tu então sabes outras cousas... Eu por mim sei que ella é bonita

e rica: sei tambem que é séria, por que nunca sobre ella se rosnou nem

aqui nem em Lisboa: são qualidades para se casar com uma mulher... Tu

agora affianças que se não pode casar com ella. Portanto sabes outras

cousas... Dize.

Foi então o Titó que emmudeceu, immovel deante do Fidalgo como se o laço

d'uma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando, com um esforço

enorme:

--Tu não me chamaste para eu depôr como testemunha... Em principio, sem

explicações, perguntas se podes casar com essa mulher. E eu, sem

explicações, em principio, declaro que não... Que diabo queres mais?

Gonçalo exclamou, revoltado:

--Que quero? Pelo amor de Deus, Titó!... Suppõe tu que estou doidamente

apaixonado pela D. Anna, ou que tenho um interesse immenso em casar com

ella... Que não estou, nem tenho: mas suppõe! N'esse caso não se desvia

um amigo d'um acto em que elle está tão fundamente empenhado, sem lhe

apresentar uma razão, uma prova...

Assim apertado Titó baixou a cabeça, que coçou com desespero. Depois

acobardadamente, para escapar, adiou a contenda:

--Olha, Gonçalo, eu estou muito estafado. Tu não vaes a esta hora para a

Egreja: e ella menos, que o outro marido ainda não arrefeceu na cova.

Então ámanhã conversamos.

Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando pelo

Videirinha:

--São que horas, Videira! Toca a abalar, que não dormi desde Cidadelhe.

Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvasiou

atabalhoadamente o copo, recolheu o violão precioso. E Gonçalo não os

deteve, esfregando silenciosamente as mãos, amuado com aquella recusa do

Titó tão desamiga e teimosa. Como sombras atravessaram uma sala onde

dormia, esquecida desde os Ramires do seculo XVIII, uma espineta de

charão. No patamar da escada que conduzia á portinha verde, Gonçalo,

para os allumiar, erguera um castiçal. Titó accendeu um cigarro á vela.

A sua mão cabelluda tremia.

--Então, entendido... Appareço ámanhã, Gonçalo.

--Quando quizeres, Titó.

E no secco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito--que Titó

hesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.

Videirinha, já na estrada, considerava o ceu, a luminosa serenidade:

--Que linda noite, snr. Doutor!

--Linda, Videirinha... E obrigado. Vossê hoje tocou divinamente!

Gonçalo entrára na sala dos retratos, pousára apenas o castiçal--quando,

por baixo da varanda aberta, o vozeirão do Titó retumbou:

--Oh Gonçalo, desce cá abaixo.

O Fidalgo rolou pelos degraus com soffreguidão. Para além dos alamos, no

luar da estrada, Videirinha afinava o violão. E apenas a face do Fidalgo

surdio na claridade da porta o Titó, que esperava com o chapéo para a

nuca, desabafou:

--Oh Gonçalo, tu ficaste amuado... É tolice! E entre nós não quero

sombras. Então lá vae! Tu não podes casar com essa mulher por que ella

teve um amante. Não sei se antes ou depois d'esse teve outro. Não ha

creatura mais manhosa, nem mais disfarçada. Não me venhas agora com

perguntas. Mas fica certo que ella teve um amante. Sou eu que t'o

affirmo: e tu sabes que eu nunca minto!

Bruscamente metteu á estrada, com os possantes hombros vergados. Gonçalo

não se movera de sobre os degraus de pedra, deante dos mudos alamos,

como elle immoveis. Uma palavra passára, irreparavel, no macio silencio

da noite e da lua--e eis o alto sonho que elle construira sobre a D.

Anna e a sua belleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo!

Lentamente subio, repenetrou na sala. Por cima da chamma alta da vela,

n'um painel fusco, uma face acordára, uma secca, amarellada face, de

altivos bigodes negros, que se inclinava, attenta como reparando. E

longe, Videirinha espalhava pelos campos adormecidos os ingenuos versos

celebrando a gloria tamanha da Casa illustre:

Que só em Paio Ramires

Põe agora o mundo esperança...

Que junte os seus cavalleiros

E que salve o Rei de França!...

X

Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza

de que sempre, atravez de toda a sua vida (quasi desde o collegio de S.

Fiel!), não cessára de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de

intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o vôo para

qualquer ave--só para elle constantemente rematados por dôr, vergonha ou

perda! Á entrada da vida escolhe com enthusiasmo um confidente, um

irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre--e logo esse homem se

apodéra ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona!

Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Politica--e

logo o Acaso o fórça a que se renda e se acolha á influencia d'esse

mesmo homem, agora Auctoridade poderosa, por elle durante todos esses

annos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo,

agora restabelecido na sua convivencia, a porta dos Cunhaes, confiado na

seriedade, no rigido orgulho da irmã--e logo a irmã s'abandona ao antigo

enganador, sem lucta, na primeira tarde em que se encontra com elle na

sombra favoravel d'um caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher

que lhe offerecia com uma grande belleza uma grande fortuna--e

immediatamente um companheiro de Villa-Clara passa e segreda:--«A mulher

que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia d'amantes!» De certo

essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira

accommodar nos formosos braços d'ella, muito confortavelmente, a sua

sorte insegura--e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a

humilhação costumada. Realmente o Destino malhava sobre elle com rancor

desmedido!

--E por quê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. Em

vida tão curta, tanta decepção... Porquê? Pobre de mim!

Cahio no vasto leito como n'uma sepultura--enterrou a face no

travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por

aquella sua sorte tão contrariada, tão sem soccorro. E recordava o

presumpçoso verso do Videirinha, ainda n'essa noite proclamado ao

violão:

Velha casa de Ramires

Honra e flor de Portugal!

Como a flor murchára! Que mesquinha honra! E que contraste o do

derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses

grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha--todos elles, se Historia

e Lenda não mentiam, de vidas tão triumphaes e sonoras! Não! nem sequer

d'elles herdára a qualidade por todos herdada atravez dos tempos--a

valentia facil. Seu pae ainda fora o bom Ramires destemido--que na

fallada desordem da romaria da Riosa avançava com um guardasol contra

tres clavinas engatilhadas. Mas elle... Alli, no segredo do quarto

apagado, bem o podia livremente gemer--elle nascera com a _falha_, a

falha de peor desdouro, essa irremediavel fraqueza da carne que,

irremediavelmente, deante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o

forçava a recuar, a fugir... A fugir d'um Casco. A fugir d'um malandro

de suissas louras que, n'uma estrada e depois n'uma venda o insulta sem

motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa

carne, tão espantadiça!

E a Alma... N'essa calada treva do quarto bem o podia reconhecer tambem,

gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o

abandonava a qualquer influencia, logo por ella levado como folha secca

por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os espertos

olhos e lhe aconselha por traz do leque que se interesse pela D.

Anna--logo elle, fumegando d'esperança, ergue sobre o dinheiro e a

belleza de D. Anna uma presumpçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição?

essa desgraçada Eleição? Quem o empurrára para a Eleição, e para a

reconciliação indecente com o Cavalleiro, e para os desgostos d'ahi

manados? O Gouveia, só com leves argucias, murmuradas por cima do

cache-nez desde a loja do Ramos até á esquina do Correio! Mas que! mesmo

dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe

impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas!--Homem de tal

natureza, por mais bem dotado na Intelligencia, é massa inerte a que o

Mundo constantemente imprime fórmas varias e contrarias. O João Gouveia

fizera d'elle um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer d'elle

um beberrão immundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao pescoço, em

vez d'uma gravata de seda, uma colleira de couro! Que miseria! E todavia

o Homem só vale pela Vontade--só no exercicio da Vontade reside o goso

da Vida. Por que se a Vontade bem exercida encontra em torno

submissão--então é a delicia do dominio sereno: se encontra em torno

resistencia--então é a delicia maior da lucta interessante. Só não sahe

goso forte e viril da inercia que se deixa arrastar mudamente, n'um

silencio e macieza de cera... Mas elle, elle, descendendo de tantos

varões famosos pelo Querer--não conservaria, escondida algures no seu

Ser, dormente e quente como uma braza sob cinza, uma parcella d'essa

energia hereditaria?... Talvez! nunca porém n'esse pêco e encafuado

viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, resaltaria em chamma

intensa e util. Não! pobre d'elle! Mesmo nos movimentos da Alma onde

todo o homem realisa a liberdade pura--elle soffreria sempre a oppressão

da Sorte inimiga!

Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu sob a roupa. Não

adormecia, a noite findava--já o relogio de charão, no corredor, batera

cavamente as quatro horas. E então, atravez das palpebras cerradas, no

confuso cançasso de tantas tristezas revolvidas, Gonçalo percebeu,

atravez da treva do quarto, destacando pallidamente da treva, faces

lentas que passavam...

Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestraes, com

cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flammejando como no fragor de

uma batalha, outras sorrindo magestosamente como na pompa d'uma

gala--todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gonçalo,

espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia n'essas faces as

veridicas feições de velhos Ramires, ou já assim comtempladas em

denegridos retratos, ou por elle assim concebidas, como concebera as de

Tructesindo, em concordancia com a rijeza e explendor dos seus feitos.

Vagarosas, mais vivas, ellas cresciam d'entre a sombra que latejava

espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam tambem, robustissimos

corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arnezes

d'aço lampejante, embuçados em fuscos mantos de revoltas prégas,

cingidos por faustosos gibões de brocado onde scintillavam as pedrarias

de collares e cintos;--e armados todos, com as armas todas da Historia,

desde e clava gôda de raiz de roble errissada de puas, até ao espadim de

sarau enlaçarotado de seda e ouro.

Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava da

realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os seus

formidaveis avós historicos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se

juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular--e formavam

em torno do seu leito, do leito em que elle nascera, como a Assembleia

magestosa da sua raça resurgida. E até mesmo reconhecia alguns dos mais

esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte

e o Videirinha gemendo fielmente o seu «fado», lhe andavam sempre na

imaginação...

Aquelle além, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o

peitoral, era certamente Gutierres Ramires o _d'Ultramar_, como quando

corria da sua tenda para a escalada de Jerusalem. No outro, tão velho e

formoso, que estendia o braço, elle adivinhava Egas Ramires, negando

acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e á adultera Leonor!

Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de

Castella, quem, senão Diogo Ramires, _o Trovador_, ainda na alegria da

radiosa manhã d'Aljubarrota? Deante da incerta claridade do espelho

tremiam as fôfas plumas escarlates do morrião de Paio Ramires, que

s'armava para salvar S. Luiz Rei de França. Levemente balançado, como

pelas ondas humildes d'um mar vencido, Ruy Ramires sorria ás naus

inglezas que ante a prôa da sua Capitanea submissamente amainavam por

Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do Guião

d'El-Rey nos campos fataes de Alcacer, sem elmo, rota a couraça,

inclinava para elle a sua face de donzel, com a doçura grave d'um avó

enternecido...

Então, por aquella ternura attenta do mais poetico dos Ramires, Gonçalo

sentio que a sua Ascendencia toda o amava--e da escuridão das tumbas

dispersas accudira para o velar e soccorrer na sua fraqueza. Com um

longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos

seus avós resurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua

vida, sem descanço, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que

subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado:--«Neto,

doce neto, toma a minha lança nunca partida!...» E logo o punho d'uma

clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o

animava:--«Neto, doce neto, toma espada pura que lidou em Ourique!...» E

depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, offertada com

altiva certeza:--«Que não derribará essa acha, que derribou as portas

d'Arzilla?...»

Como sombras levadas n'um vento transcendente todos os avós formidaveis

perpassavam--e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e

provadas armas, todas, atravez de toda a Historia, ennobrecidas nas

arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castellos e

Villas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno

do leito, um heroico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente

gritavam:--«Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga!...»

Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes,

volveu:--«Oh Avós, de que me servem as vossas armas--se me falta a vossa

alma?...»

Acordou, muito cedo, com a enredada lembrança d'um pesadello em que

fallára a mortos:--e, sem a preguiça, que sempre o amollecia nos

colchões, enfiou um roupão, escancarou as vidraças. Que formosa manhã!

uma manhã dos fins de Septembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem

lhe desmanchava o vasto, o immaculado azul; e o sol já pousava nos

arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outomnal. Mas, apesar

de lhe respirar allentamente o brilho e a pureza, Gonçalo permaneceu

toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espirito

opprimido, como nevoas em valle muito fundo. E foi ainda com um suspiro,

arrastando tristonhamente as chinellas, que puxou o cordão da campainha.

O Bento não tardou com a infusa da agoa quente para a barba. E

acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquelle

silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Snr.

Doutor passára mal a noite...

--Pessimamente!

Bento declarou logo, com vivacidade e reprovação--que certamente fizera

mal ao Snr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado,

muito excitante... Bom para o Snr. D. Antonio, homemzarrão pesado. Mas o

Snr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar n'aquelle cognac. Ou

então, meio calice escasso.

Gonçalo ergueu a cabeça, na surpreza de encontrar logo ao começo do seu

dia e tão flagrante, aquelle dominio que todos sobre elle se

arrogavam--e de que tanto se lastimava, atravez de toda a amarga noite!

Eis ahi o Bento mandando--marcando a sua ração de cognac! E justamente o

Bento insistia:

--O Snr. Doutor bebeu mais de tres calices. Assim não convém... Eu

tambem tive culpa em não tirar a garrafa...

Então, perante despotismo tão declarado, o Fidalgo da Torre teve uma

brusca revolta:

--Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!

Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a agua na infusa:

--Esta agua está morna! exclamou logo. Já me tenho fartado de dizer!

Para a barba, preciso sempre agua a ferver.

O Bento, gravemente, mergulhou tambem o dedo na agua:

--Pois esta agua está quasi a ferver... Nem para a barba se necessita

agua mais quente.

Gonçalo encarou o Bento com furor. O que! mais objecções, mais leis!

--Pois vá immediatamente buscar outra agua! Quando eu peço agua quente,

pretendo que venha em cachão. Irra! tanta sentença!... Eu não quero

moral, quero obediencia!

O Bento considerou Gonçalo atravez d'um espanto que lhe inchára a face.

Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando a

infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violencia. Coitado, não era

culpa do Bento se a vida lhe andava a elle tão estragada e sacudida!

Depois, em casa tão antiga, não destoava a tradição dos antigos aios. E

o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas

ascendencia, e livre fallar bem lhe cabiam--bem os merecia por tão

longa, tão provada dedicação...

O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E

Gonçalo logo docemente, para o adoçar:

--Dia muito bonito, hein, Bento?

O velho rosnou, ainda amuado:

--Muito bonito.

Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciencia de reatar com o

Bento, de lhe restabelecer a supremacia amoravel. E por fim mais doce,

quasi humilde:

--Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavallo antes

d'almoço. Que te parece? Talvez me faça bem aos nervos... Com effeito,

aquelle cognac não me convém... Então, Bento, faze o favor, grita ahi ao

Joaquim que me tenha a egoa prompta immediatamente. Com certeza me

acalma, uma galopada... E no banho agora a agua bem esperta, bem quente.

Tambem me acalma a agua quente. Por isso necessito sempre agua bem

quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idéas... Pois todos os

medicos o declaram. Para a saude agua quente, bem quente, a sessenta

graus!

E depois do rapido banho, em quanto se vestia, abriu mais familiarmente

ao velho aio a intimidade das suas tristezas:

--Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar,

não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada,

homem! Depois estou farto d'esta eterna Villa-Clara, da eterna Oliveira.

Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distracção

grande.

O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Snr. Doutor

brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distracção, nas Côrtes.

--Eu sei lá se vou ás Côrtes, homem! Não sei nada, tudo falha... Qual

Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem immensa, á Hungria, á Russia,

a terras onde haja aventuras.

O Bento sorriu superiormente d'aquella imaginação. E apresentando ao

Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:

--Com effeito, na Russia parece que não faltam aventuras. Anda tudo a

chicote, diz o _Seculo_... Mas aventuras, Snr. Doutor, até a gente as

encontra na estrada... Olhe! o paesinho de V. Ex.^a, que Deus haja, foi

lá em baixo deante do portão que teve a bulha com o Dr. Avelino da

Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no

braço...

Gonçalo calçava as luvas d'anta, mirando o espelho:

--Pobre papá, coitado, tambem teve pouca sorte... E por chicote, ó

Bento, dá cá aquelle chicote de cavallo marinho que tu hontem areaste.

Parece que é uma boa arma.

* * * * *

Ao sahir o portão, o Fidalgo da Torre metteu a egoa, sem destino, n'um

passo indolente, pela estrada costumada dos Bravaes. Mas no Casal Novo,

onde dous pequenos jogavam á bola debaixo das carvalheiras, pensou em

visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe concertaria os nervos a

companhia de tão sereno e generoso velho. E, se elle o convidasse a

almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa fallada quinta da

_Varandinha_ e cortejando «o botão de Rosa».

Gonçalo recordava apenas confusamente que o terraço da _Varandinha_

dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o logar da

Cerda e a espalhada aldêa de Canta-Pedra, E tomou o caminho velho que

desce das carvalheiras do Casal Novo, e penetra no valle, entre o cabeço

d'Avellan e as ruinas do Mosteiro de Ribadaes, no solo historico onde

Lopo de Bayão derrotára a mesnada de Lourenço Ramires... Ora enterrada

entre vallados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia

sem belleza, e cansativa: mas as madresilvas nas sebes, por entre as

amoras maduras, rescendiam: o fresco silencio recebia mais frescura e

graça dos fremitos d'aza que o roçavam; e tanto era o radiante azul nos

ceus serenos que um pouco do seu rebrilho e serenidade s'instillava

n'alma. Gonçalo, mais desannuviado, não se apressava: na Egreja dos

Bravaes, quando elle passára ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas:

e depois de costear um lameiro d'herva magra parou a accender

pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o

riacho das Donas. Quasi secca pela estiagem, a agoa escura mal corria,

sob as folhas largas dos nenufares, por entre os juncaes que a

atulhavam. Adiante, á orla d'um hervaçal, no abrigo d'uma moita

d'alamos, relusiam as pedras d'um lavadouro. Na outra margem, dentro

d'um velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam

profundamente, com dous molhos d'alfazema esquecidos nos regaços.

Gonçalo sorriu do idyllio--depois teve uma surpreza descobrindo, no

cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brazão-d'Armas, um Açor

enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquellas terras outr'ora

pertencessem á Casa:--ou algum dos seus avós beneficos construira a

ponte, sobre torrente então mais funda, para segurança dos homens e dos

gados. Quem sabe se o avô Tructesindo, em memoria piedosa de Lourenço

Ramires, vencido e captivo nas margens d'aquella Ribeira!

O caminho, para além da ponte, alteava entre campos ceifados. As mêdas

lourejavam, pesadas e cheias, por aquelle anno de fartura. Ao longe, dos

telhados baixos d'um logarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no

radiante ceu. E lentamente, como aquelles fumos distantes, Gonçalo

sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam

tambem no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o vôo d'entre

o restolho. Gonçalo galopou sobre ellas, gritando, sacudindo o seu forte

chicote de cavallo-marinho, que zenia como uma fina lamina.

Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois

cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira;--e ao

fundo o sol faiscava sobre a cal fresca d'uma parede. Era uma casa

terrea, com porta baixa entre duas janellas envidraçadas, remendos novos

no telhado e um quinteiro que uma escura e immensa figueira assombreava.

N'uma esquina pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma

sebe, onde adiante uma velha cancella abria para a sombra d'uma ramada.

Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma pilha

de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a Gonçalo a

de Ramilde. Para além, até a um distante pinheiral, desciam chãs e

lameiros.

Sentado n'um banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao

muro, um rapaz grosso, de barrete de lã verde, acariciava pensativamente

o focinho d'um perdigueiro. Gonçalo parou:

--Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para a quinta do

Snr. Visconde de Rio-Manso, a _Varandinha_?

O rapasote ergueu a face morena, de buço leve, remechendo vagamente no

carapuço.

--Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até á pedreira, depois

á esquerda a seguir, sempre rente da varzea...

Mas n'esse instante assomava á porta um latagão de suissas louras em

mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com um

sobresalto, reconheceu logo o caçador que o injuriára na estrada de

Nacejas, o assobiára na venda do Pintainho. O homem relanceou

superiormente o Fidalgo. Depois, com a mão encostada á humbreira,

chasqueou o rapasote:

--Oh Manoel, que estás tu ahi a ensinar o caminho, homem! Este caminho

por aqui não é para asnos!

Gonçalo sentiu a pallidez que o cobriu--e todo o sangue no coração, n'um

tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo

homem, sem provocação! Apertou os joelhos no sellim para galopar. E a

tremer, n'um esforço que o engasgava:

--Vossê é muito atrevido! É já pela terceira vez! Eu não sou homem para

levantar desordens n'uma estrada... Mas fique certo que o conheço, e que

não escapa sem lição.

Immediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou á estrada,

affrontando a egoa, com as suissas erguidas, um riso de immenso desafio:

--Então cá estou! Venha agora a lição... E para diante é que Vossê já

não passa, seu Ramires de merd...

Uma nevoa turvou os olhos esgaseados do Fidalgo. E de repente, n'um

inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e

força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina

egoa n'um galão terrivel! E nem comprehendeu! O cajado sarilhára! A egoa

empinava, n'uma cabeçada furiosa! E Gonçalo entreviu a mão do homem,

escura, immensa, que empolgava a camba do freio.

Então, erguido nos estribos, por sobre a immensa mão, despediu uma

vergastada do chicote silvante de cavallo-marinho, colhendo o latagão na

face, de lado, n'um golpe tão vivo da aresta aguda que a orelha pendeu,

despegada, n'um borbutar de sangue. Com um berro o homem recuou,

cambaleando. Gonçalo galgou sobre elle, n'outro arremesso, com outra

fulgurante chicotada, que o apanhou pela bôca, lhe rasgou a bôca,

decerto lhe espedaçou dentes, o atirou, urrando, para o chão. As patas

da egoa machucavam as grossas coxas estendidas,--e, debruçado, Gonçalo

ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoço, até que o corpo

jazeu molle e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a

camisa.

Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim, avistou o

rapasote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas já

hesitando aterrado.

--Ah, cão!

Lançou a egoa, com o chicote alto:--o rapaz, espavorido, corria

lentamente através do terreiro, para saltar o vallado, escapar para as

varzeas ceifadas!

--Ah cão, ah cão! berrava Gonçalo. Estonteado, o rapaz tropeçára n'uma

viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando o Fidalgo o alcançou

com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alagado de sangue.

Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou, abateu, estalou contra a

aresta d'um pilar, a cabeça mais sangue jorrou. Então Gonçalo, a

arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam immoveis! Santo Deus!

Mortos? D'ambos corria o sangue sobre a terra secca. O Fidalgo da Torre

sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do

quinteiro.

--Ai que mataram o meu rapaz!

Era um velho que corria da cancella, n'uma carreira agachada, rente com

a sebe, para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo arremessou a

egoa, para o deter--que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava

coberto de suor e d'espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e

Gonçalo alçado nos estribos, com a face chammejante, o chicote a

descer--o velho, n'um terror, desabou sobre os joelhos, gritou

anciadamente:

--Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de seu pae Ramires.

Gonçalo ainda o manteve assim um momento, supplicante, a tremer, sob o

justiceiro faiscar dos seus olhos:--e gosava soberbamente aquellas

callosas mãos que se erguiam para a sua misericordia, invocavam o nome

de Ramires, de novo temido, repossuido do seu prestigio heroico. Depois,

recuando a egoa:

--Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!... Vossê tambem não

tem boa cara! Que ia vossê correndo para casa? Buscar outra espingarda?

O velho alargou desesperadamente os braços, offerecia o peito, em

testemunho da sua verdade:

--Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!... Assim Deus me

ajude e me salve o rapaz!

Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde,

bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra caçadeira,

desfechar traiçoeiramente. E então com a presteza d'espirito que a lucta

afiára concebeu contra qualquer emboscada, um ardil seguro. E até n'um

relance sorrio recordando «traças de guerra», de D. Garcia Viegas, o

_Sabedor_.

--Marche lá deante de mim, sempre a direito, pela estrada!

O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas mãos nas

coxas, n'uma ancia que o engasgava:

--Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem

acordo?...

--O rapaz está só atordoado, já se mecheu... E o outro malandro

tambem... Marche vossê!

E ao irresistivel mando de Gonçalo, o velho, depois de sacudir

demoradamente as joalheiras, começou a avançar pela estrada, vergado

deante da egoa, como um captivo, com os longos braços a bambolear,

rosnando, n'um rouco assombro:--Ai como ellas se armam! Ai Santo nome de

Deus, que desgraça! A espaços estacava, esgaseando para Gonçalo um olhar

torvo onde negrejava medo e odio... Mas logo o commando forte o

empurrava: «Marche!...» E marchava. Adiante, onde se erguia um cruseiro

em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gonçalo reconheceu um largo

atalho para a estrada dos Bravaes que chamavam o _Caminho da Moleira_. E

para ahi enfiou o velho, que no pavor d'aquella asinhaga solitaria,

pensando que Gonçalo o afastava de caminhos trilhados para o matar

commodamente, rompeu a gemer. «Ai que isto é o fim da minha vida! Ai

Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!» E não cessou de gemer,

emmaranhando os passos tropegos, até que desembocaram na estrada alta

entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então de repente,

com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as mãos ao

barrete:

--Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva preso?...

--Marche! Corra! Que agora a egoa trota!

A egoa trotou--o velho correu, desengonçado, arquejando como um folle de

forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do captivo, da lenta

marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse

uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar--entraria elle, n'um

galope solto, o portão da Torre! Então bradou, com o sobr'olho duro:

--Alto! Agora pode voltar para traz... Mas, antes: Como se chama aquelle

seu logar?

--A Grainha, meu fidalgo.

--E vossê como se chama, e o rapaz?

O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:

--Eu sou João, o meu rapaz Manoel... Manoel Domingues, meu Fidalgo.

--Vossê naturalmente mente. E o outro malandro, de suissas louras?

D'um folego, o velho gritou:

--Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de Nacejas, que chamam o

_Caça-abraços_, e que tanto me desencaminhou o rapaz...

--Bem! Pois diga lá a esses dous marotos que me atacaram a pau e a tiro,

que não ficam quites sómente com a sova, e que agora têm de se entender

com a Justiça... Ella lá irá! Largue!

Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho que abalára, forçando

as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela

conhecida estrada, galopou para a Torre.

E ia levado, galopando n'uma alegria tão fumegante, que o lançava em

sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de galopar pelas alturas,

n'um corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando as nuvens

lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam n'elle um

verdadeiro Ramires, dos antigos na Historia, dos que derrubavam torres,

dos que mudavam a configuração dos Reinos,--e erguiam esse maravilhado

murmurio que é o sulco dos fortes passando! Com razão! com razão! Que

ainda de manhã, ao sahir da Torre, não ousaria marchar para um rapazola

decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na solidão

d'aquella casa terrea, quando o bruto das suissas louras lhe atira a

suja injuria--eis um _não sei quê_ que se desprende dentro do seu ser, e

transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe enrija cada

nervo de força destra, e lhe espalha na pelle o desprezo e a dôr, e lhe

repassa fundamente a alma de fortaleza indomavel... E agora alli

voltava, como um varão novo, soberbamente virilisado, liberto emfim da

sombra que tão dolorosamente assombreára a sua vida, a sombra molle e

torpe do seu mêdo! Por que sentia que, agora se todos os valentões de

Nacejas o affrontassem n'um rijo erguer de cajados--esse _não sei quê_,

lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada

veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga!

Emfim era _um homem_! Quando em Villa Clara o Manuel Duarte, o Titó com

o peito alto, contassem façanhas, já elle não enrolaria encolhidamente o

cigarro--encolhido, mudo não sómente pela ausencia desconsoladora das

valentias, mas sobretudo pela humilhante recordação das fraquezas. E

galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para

investidas mais bellas. Para além dos Bravaes, mais galopou, ao avistar

a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora

_mais sua_, e que uma affinidade nova fundada em gloria e força, o

tornava mais senhor da sua Torre!

* * * * *

Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o portão grande, sempre

cerrado, offerecia uma entrada triumphal com os dous pesados batentes

escancarados. Elle atirou a egoa para o meio do pateo, bradando:

--Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh lá! um de vossês!

O Joaquim surdiu da cavallariça, de mangas arregaçadas, com uma esponja

na mão.

--Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada

de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma grande desordem!

Creio que dei cabo de dous homens... Ficaram n'uma poça de sangue! Não

digas que vaes da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que succedeu,

se estão mortos... Depressa, depressa!

O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavallariça escura. E de cima

d'uma das varandas do corredor, partiram exclamações assombradas:

--Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!

Era o Barrôlo. Sem desmontar, sem surpresa ante a apparição do Barrôlo,

Gonçalo atirou logo para a varanda a historia da bulha, tumultuosamente.

Um malandro que o insultára... Depois outro, que desfechou a

caçadeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, n'uma poça de

sangue...

O Barrôlo despegou da varanda--e n'outro relance, investia pelo pateo,

com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E

Gonçalo, desmontando, tremulo agora do cançasso e da emoção, esmiuçou

mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o injuriou! A esse

rasgára a bôca, decepára a orelha... Depois o outro, um rapasola,

desfecha uma carabina... Elle corre, tão vivamente o colhe com uma

cutilada que o estira, para cima d'uma pedra, como morto...

--Uma cutilada?

--Com este chicote, Barrôlo! Arma terrivel!... Bem dizia o Titó!...

Estou perdido se não levo este chicote.

Esgaseado, Barrôlo remirava o chicote. Sim, com effeito ainda manchado

de sangue.--Então Gonçalo attentou no chicote, no sangue... Sangue de

gente! sangue fresco, que elle arrancára!... E por entre o seu orgulho,

uma piedade passou que o empallideceu:

--Que desgraça, vejam que desgraça!

Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue,

que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E

immediatamente anciou por se despir, se lavar,--galgou a escada, com o

Barrôlo que enxugava o suor, balbuciava:--«Ora uma d'essas! E de

repente! Assim na estrada!...» Mas no corredor, subindo n'uma carreira

da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a Rosa atraz, que enterrava

os dedos entre o lenço e o cabello n'um pavor mudo.

--Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!

Então, encontrando Gracinha junto d'elle, na Torre, n'esse momento

magnifico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo

esqueceu o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no abraço em que

a colheu, nos fortes beijos que atirou á face querida, todo o seu amuo

se fundio em ternura. Com ella ainda chegada ao coração, suspirou de

leve, como uma creança cançada. Depois apertando as duas pobres mãos

tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe

humedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:

--Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrivel, eu que sou tão pacato!

imagina tu...

E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa,

estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que

falhára e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um

captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, n'um

desmaio, Gracinha murmurou:

--Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!

O Barrôlo, mais vermelho que uma pionia, berrou logo que taes malandros

mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo

tremendo d'Africa! O Gouveia! era necessario mandar a Villa-Clara,

avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho--e foi

o Bento, que se ergueu deante de Gonçalo, bracejando n'uma ancia:

--Então, Snr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...

E á porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente attentos, a

historia recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia, n'um lento

riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir,

como se tambem triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:

--Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao Snr. Doutor, foi o chicote

que eu lhe dei!

Era verdade. E Gonçalo, commovido, abraçou o velho aio, que n'uma

excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrôlo:

--O Snr. Doutor deu cabo d'elles!... Aquelle chicote mata um homem!...

Os malvados estão mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei

ao Snr. Doutor!

Mas Gonçalo reclamava agua quente para se lavar da poeira, do suor, do

sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas

escadas da cosinha--«que fôra o chicote! o chicote, que elle déra ao

Snr. Doutor!» Gonçalo entrára no quarto, acompanhado pelo Barrôlo. E

pousou o chapeu sobre o marmore da commoda, com um immenso _ah_

consolado! Era o consolo immenso de se encontrar, depois de tão violenta

manhã, entre as doces cousas costumadas, pisando o seu velho tapete

azul, roçando o leito de pau preto em que nascera, respirando pelas

vidraças abertas, onde as ramagens familiares das faias s'empurravam na

aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas

douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e tão melhorado,

que nos hombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear

mais crespo.

E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrôlo, que subitamente

despertou n'uma curiosidade immensa:

--Mas, oh Barrôlo, como é que vos encontro esta manhã na Torre?

Resolução da vespera, ao chá. Gonçalo não apparecia, não escrevia...

Gracinha a matutar, inquieta. Elle tambem espantado d'aquelle sumiço

depois do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá, pensando tambem que a

parelha necessitava uma trotada, lembrára a Gracinha:--«Vamos nós amanhã

á Torre? no phaeton?»

--Além disso precisava fallar comtigo, Gonçalo... Tenho andado

aborrecido.

O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:

--Como aborrecido?... Aborrecido por que?...

Barrôlo, com as mãos nos bolsos da rabona de flanella, que lhe cingia as

ancas gordas, considerou as flôres do tapete, melancolicamente:

--É uma grande secca! A gente não póde confiar em ninguem... Nem ter

familiaridades!...

N'um lampejo Gonçalo imaginou o Cavalleiro e Gracinha mostrando

estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre, o

sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa

triste do pobre Barrôlo, amargurado por suspeitas, talvez por

intimidades que espreitára. Mas a emoção suprema da sua batalha, sumira

para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na vespera, o opprimiam:

todas as difficuldades da vida lhe appareciam agora, de repente,

n'aquelle frescor da sua coragem nova, tão faceis d'abater como os

desafios dos valentões; e não se assustou com as confidencias do

cunhado, bem seguro d'impôr áquella alma submissa de bacôco a confiança

e a quietação. Até sorriu, com indolencia:

--Então, Barrolinho? Succedeu alguma peripecia?

--Recebi uma carta.

--Ah!

Gravemente Barrôlo desabotoou o jaquetão, puxou do bolso interior uma

larga carteira, de couro verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi

a carteira que elle mostrou a Gonçalo, com satisfação.

--Bonita, hein? Presente do André, coitado... Creio que até a mandou vir

de Paris. O monogramma tem muito chic.

Gonçalo esperava, espantado. Emfim o bom Barrôlo tirou da carteira uma

carta--já amarrotada, depois alisada. Era, n'um papel pautado, uma

lettra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com

segurança:

--É das Louzadas.

E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovello enterrado na

almofada: «Ex.^{mo} Snr. José Barrôlo.--V. Ex.^a apesar de todos os seus

amigos o alcunharem de _Zé bacôco_, mostrou agora muita espertesa,

chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil

André Cavalleiro, nosso Governador Civil. Com effeito a esposa de V.

Ex.^a, a linda Gracinha, que n'estes ultimos tempos andava tão murcha e

até desbotada (o que a todos nos inquietava) immediatamente reflorio, e

ganhou côres, desde que possue a valiosa companhia da primeira

auctoridade do districto. Portou-se pois V. Ex.^a como marido zeloso, e

desejoso da felicidade e boa saude de sua interessante esposa. Nem

parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira considera como o seu mais

illustre pateta! Os nossos sinceros parabens!»

Gonçalo guardou muito socegadamente na algibeira aquella carta que, dias

antes, o lançaria em infinita amargura e furia:

--É das Louzadas... E tu déste importancia a semelhante babuseira?

O Barrôlo repontou, com as bochechas abrazadas:

--Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anonymos... E depois

essa insolencia a respeito dos amigos me chamarem BACÔCO... Grande

infamia, hein? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas lança sizania entre

mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacôco! Porquê? Por que eu sou

simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! se os rapazes no

Club me chamam bacôco pelas costas, caramba, mostram ingratidão! Mas eu

não acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mãos cruzadas

sobre as gordas nadegas. Depois, estacando deante do divan, d'onde

Gonçalo o considerava, com piedade:

--Em quanto ao resto da carta é tão estupido, tão atrapalhado que ao

principio nem comprehendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha

e o Cavalleiro teem namoro... É o que me parece que querem dizer! Ora vê

tu que disparate! Até a intimidade do Cavalleiro é mentira. O pobre

rapaz, desde que lá jantou, só appareceu tres ou quatro vezes, á noite,

para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.

Então o Fidalgo pulou, de surpresa.

--O quê! o Cavalleiro foi para Lisboa?

--Pois partiu ha tres dias!

--Com demora?

--Com demora, com grande demora... Só volta no meado d'outubro para a

Eleição.

--Ah!

Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'agua quente, duas toalhas

de rendas, ainda n'uma excitação que o azafamava. Deante do espelho,

lentamente Barrôlo reabotoava o jaquetão:

--Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço á cavallariça, visitar a parelha.

Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada explendida. E

nem um pello suado! Tu guardas a carta?

--Guardo, para estudar a lettra.

Apenas Barrôlo cerrára a porta--o Fidalgo recomeçou com o Bento a

deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos,

simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar

as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente,

em ceroulas:

--Oh Bento, traze o meu chapeu... Estou desconfiado que a bala roçou

pelo chapeu.

Ambos remiraram, esquadrinharam o chapeu. O Bento, no seu encarecimento

da façanha, achava a copa amolgada--até chamuscada.

--A bala passou de raspão, Snr. Doutor!

O Fidalgo negou, com a modestia grave d'um forte:

--Não! Nem de raspão!... Quando o malandro desfechou já o braço lhe

tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente não corri

grande perigo!

Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim,

certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicencia, soprada com tão

sordida maldade sobre as pobres bochechas do Barrôlo, não causava

damno--antes servia, quasi beneficamente, como a braza d'um ferro, para

sarar um damno. O pobre Barrôlo apenas se impressionára com a revelação

da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em

galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuação

terrivel, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavalleiro, essa mal

a comprehendera, escassamente a attendera n'um desdem distrahido e

candido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrôlo como

flecha errada--acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no

seu impressional pudor, mostrando á pobre tonta como o seu nome e mesmo

o seu coração, já arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira mexeriquice

das Lousadas!... Certesa tão humilhadora não apagaria um sentimento--que

se não apagava com humilhações mais intimas, tanto mais dolorosas. Mas

estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:--e agora que André

se afastára para Lisboa, operaria n'ella, surdamente, solitariamente,

sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influencia socegadora e

salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso

temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas femeas

para desencadear nos Cunhaes escandalo e dôr--talvez restabelecesse, na

ameaçada casa, quietação e gravidade.--Gonçalo esfregou as mãos

pensando--que em tão ditosa manhã talvez até esse mal redundasse em bem!

--Oh Bento, onde está a Snr.^a D. Graça?

--A menina subiu agora ha pouco para o seu quarto, Snr. Doutor.

Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda

se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador

illustre que pertencera á Rainha D. Maria Francisca de Saboya, e o

sophá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordára, n'um

arrastado labor d'annos, o Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava

á Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto, as horas de solteira,

remexendo as gavetas, folheando velhos romances inglezes na estantesinha

envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta

estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, tão misturada á

sua vida que cada arvore lhe susurrava, cada recanto de verdura era como

um recanto do seu pensamento.

Gonçalo subiu--bateu á porta cerrada com o antigo aviso:--«Licença para

o mano!» Ella correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos

vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E

desabafando logo do pensamento que a enchia:

--Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos á Torre, justamente hoje,

que te succedeu cousa tamanha!

--É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me admirei nada de te vêr...

Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem

estranhei foi o Barrôlo! E no primeiro momento depois de desmontar,

pensava assim, vagamente: «mas que diabo faz aqui o Barrôlo? como diabo

se acha aqui o Barrôlo?...» Curioso, hein? Foi talvez que, depois da

desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo

em que desejavamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre, sob

o nosso pendão, o _nosso terço_ atirando bombardas aos hespanhoes...

Ella ria, lembrada dessas imaginações heroicas. E com o vestido entalado

entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos--em quanto

Gonçalo, encostado á varanda, considerando a Torre, retomado pela ideia

d'uma concordancia mais intima, que desde essa manhã se estabelecera

entre elle e aquelle heroico resto da Honra de Santa Ireneia, como se a

sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse emfim firmemente á força

secular da sua raça.

--Oh Gonçalo! tu deves estar muito cançado! Depois d'essa verdadeira

batalha...

--Não, cançado não... Mas com fome. Com fome, e com uma sêde explendida!

Ella pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:

--Pois o almoço não tarda!... Já andei a trabalhar na cosinha, com a

Rosa, n'uma pescada á hespanhola... É uma receita nova do Barão das

Marges.

--Então insonsa, como elle.

--Não! até picante: foi o Snr. Vigario Geral que lh'a ensinou.

E como, deante do toucador da Rainha Maria Francisca, ella arranjava á

pressa os ganchos do cabello, para aproveitar a solidão favoravel,

apressou com um esforço, a confidencia que o commovia:

--E em Oliveira? Lá por Oliveira!

--Em Oliveira, nada... Muito calor!

Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino

entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:

--Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em

plena actividade...

Gracinha negou candidamente:

--As Lousadas? Não! Nem teem apparecido.

--Mas teem tecido!

E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem comprehender,

Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardára, que agora

lhe pesava, como uma chapa de ferro:

--Olha, Gracinha! Mais vale desabafarmos! Ahi tens o que ellas ha dias

escreveram a teu marido...

N'um relance, Gracinha devorou as linhas terriveis. E com ondas de

sangue nas faces, apertando as mãos n'uma afflicção, um desespero, em

que o papel amarfanhou:

--Oh Gonçalo! pois...

Gonçalo accudio:

--Não! o Barrôlo não se importou! Até se rio! E eu tambem, quando elle

me entregou esse papelucho... E a prova que ambos o consideramos uma

mexeriquice insensata, é que eu t'o mostro tão francamente.

Ella esmagava a carta nas mãos juntas e tremulas, pallida agora e

emmudecida pelo espanto, retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E

Gonçalo commovido, com gravidade, com ternura:

--Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobre tudo

Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim vem

a culpa. Reatei relações que nunca se deviam reatar... Bem me tenho

arrependido! E acredita! por causa d'essa situação tão falsa e tão

perigosa, que eu creei, levianamente, por ambição tola, passei aqui na

Torre dias amargurados... Até nem m'atrevia voltar a Oliveira. Hoje, não

sei porquê, depois d'esta aventura, parece que tudo se esbateu,

s'afundou para uma grande sombra... Emfim já não me arde tão em braza no

coração... Por isso desabafo assim, serenamente.

Ella desatou n'um solto, doloroso choro em que a sua fraca alma se

desfazia. Com redobrada ternura Gonçalo abraçou os pobres hombros

vergados que os soluços espedaçavam. E foi com ella toda refugiada no

seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:

--Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos,

que continue morto. Pelo menos que por fóra, em cada gesto teu, pareça

bem morto! Sou eu que t'o peço, pelo nosso nome!...

D'entre os braços do irmão, ella gemeu com infinita humildade:

--Mas elle até foi embora!... Nem quiz estar mais em Oliveira!

Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de novo se escondera contra o

seu peito, contra elle se apertava, como procurando a fresca

misericordiosa que dentro sentia brotar:

--Bem sei. E isso me mostra que tens sido forte... Mas precisas muita

reserva, muita vigilancia, Gracinha!... E agora socega. Não fallemos

mais, nunca mais, n'este incidente... Por que foi apenas um _incidente_.

E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por illusão. Passou, está

esquecido! Socega, descança. E quando desceres traze os olhos bem

seccos.

Lentamente a desprendera dos braços, onde ella se arraigava como ao

abrigo mais certo e á consolação mais desejada. E sahia, engasgado pela

emoção, recalcando tambem as lagrimas... Um gemido timido, supplicante,

ainda o reteve.

--Gonçalo! mas tu pensas...

Elle voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:

--Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vaes mostrar

muita dignidade, muita firmeza.

Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente

allumiada por uma claraboia baça, limpava as palpebras, quando esbarrou

com o Barrôlo, que procurava Gracinha, para apressar o almoço.

--A Gracinha já desce! atabalhoou o Fidalgo. Está a lavar as mãos! Já

desce!... Mas antes do almoço vamos á cavallariça. Devemos uma visita á

egoa, a essa querida egoa que me salvou!

--É verdade, caramba! concordou logo Barrôlo revirando nos degraus, com

enthusiasmo. Precisamos visitar a egoa... Grande, briosa, hein! Mas

aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada

d'aquellas, desde Oliveira, e nem um pello molhado! Grandes egoas!

Tambem, o que eu as ólho, o que as trato!

Na cavallariça, ambos affagaram a egoa. Barrôlo lembrou que se

mimoseasse com uma ração larga de cenoura. Depois--para que Gracinha,

com vagar se calmasse,--o Fidalgo arrastou o Barrôlo ao pomar e á

horta...

--Tu não vens á Torre ha perto de seis mezes, Barrolinho! Precisas vêr,

admirar progressos. Anda agora por aqui a mão forte do Pereira da

Riosa...

--Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gonçalinho!

--Tambem eu!

Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida

e em festa--e Gracinha, á beira do divan, percorria pensativamente a

velha _Gazeta do Porto_. Apesar de muito banhados, os seus bellos olhos

conservavam um ardor: e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se

lastimou, córando, d'uma enxaqueca. Eram as emoções, o perigo de

Gonçalo...

--Tambem eu tenho dôr de cabeça! declarou o Barrôlo, rondando a mesa.

Mas a minha vem da fome... Oh filhos, é que estou desde as sete da manhã

com uma chavena de café e um ovo quente!

Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidraçada,

esbaforido, escancarando a bocca n'um riso immenso, foi o Joaquim, o

moço da cavallariça que voltava da Grainha.

Gonçalo atirou os braços, soffrego:

--Então?! então?!

--Pois lá estive, meu Fidalgo! exclamou o Joaquim com o peito a estalar

d'importancia. E vae por lá um povoleu, todos já sabem! Uma rapariga dos

Bravaes espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu,

badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora na casa, e o filho,

abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se cahio, sem

sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome de

Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa d'um compadre alli ao

pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem bocca!...

Pois por todos aquelles sitios era o ai-jesus das moças!... E logo lá o

carregam para o Hospital de Villa Clara, que na casa do Compadre não

pode sarar. Um povoleu, e todos dão a rasão ao Fidalgo. O tal Domingues

era malandro. E o Ernesto, esse ninguem o podia enxergar! Mas todos lhe

tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!

Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não passára damno mais forte,

que belleza perdida do D. Juan de Nacejas!

--E então o povo por lá, a fallar, a olhar para o sitio?

--Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no chão, e as pedras

por onde se atirou a egoa do Fidalgo... E agora até contam que foi uma

espera, e que desfecharam tres tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no

pinhal ainda saltaram tres homens mascarados que o Fidalgo

escangalhou...

--Eis a lenda que se forma! declarou Gonçalo.

O Bento apparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo affagou

risonhamente o hombro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse, para o

almoço da familia, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a

mão nas costas da cadeira murmurou gravemente:--Pensemos um momento em

Deus, que me tirou hoje d'um grande perigo!

Barrôlo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, atravez d'um leve suspiro,

pensou uma leve oração. E desdobravam os guardanapos; Gonçalo acclamava

a travessa de pescada á hespanhola--quando o pequeno da Crispola

empurrou ainda a porta envidraçada «com um telegramma, que viera da

Villa!» Uma inquietação deteve os garfos. A manhã correra com tantas

agitações e espantos! Mas já um sorriso de gosto, de triumpho, se

espalhára na fina face de Gonçalo:

--Não é nada... É do Castanheiro, por causa dos capitulos do Romance que

eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!

E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegramma, que os seus

olhos affagavam:--«Capitulos romance recebidos. Leitura feita amigos.

Enthusiasmo! Verdadeira obra prima! Abraço!...»

Barrôlo, com a bocca cheia, bateu as palmas. E Gonçalo, sem reparar na

travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de

vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não se

dissipava:

--Emfim, boa manhã... Grande manhã!

Gonçalo, apesar das insistencias de Gracinha e do Barrôlo, não os

acompanhou para Oliveira--no desejo de acabar, durante essa semana, o

derradeiro Capitulo da Novella, e depois cerrar o preguiçoso giro de

visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo. Assim rematava a Obra

d'Arte e a obra de Politica,--e cumpria, Deus louvado, a tarefa d'esse

verão fecundo!

Logo n'essa noite retomou o manuscripto da Novella--e na margem larga

lançou a data, uma nota:--«_Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma

briga terrivel com dous homens que me assaltaram a pau e tiro, e que

castiguei severamente..._» Depois, com facilidade atacou o lance de

tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do

Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos archotes, no

arraial de D. Pedro de Castro.

Com grave amisade acolhia o velho homem de guerra aquelle seu primo de

Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Ireneia, quando

os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornin.

Depois, na vasta tenda, reluzente d'armas, tapizada de pelles de leão e

d'urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dôr represa, a morte de

seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado á punhalada

pelo Bastardo de Bayão, deante das muralhas de Santa Ireneia, com o sol

no ceu alto a olhar a traição! Indignado, o velho Castro esmurraçou a

mesa, onde um rosario d'ouro se misturava a grossas peças de xadrez;

jurou pela vida de Christo, que, em sessenta annos d'armas e surpresas

nunca soubera de feito mais vil! E agarrando a mão do senhor de Santa

Ireneia, ardentemente lhe offereceu, para a empreza da santa vingança, a

sua hoste inteira--tresentas e trinta lanças, vasta e rija peonagem.

--Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou Mendo de Briteiros com as

vermelhas barbas a flammejar de gosto.

Mas D. Garcia Viegas, o _Sabedor_, entendia que para colherem o Bastardo

vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gosada, mais utilmente

serviria uma calada e curta fila de cavalleiros, com alguns homens de

pé...

--Porquê, D. Garcia?

--Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da

pionada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher á

força da Hoste Real. N'essa noite, com o seu esfalfado bando de lanças,

pernoitára certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para

encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Miradães,

que trepa e foge atravez das lombas do Caramulo. Ora elle, Garcia

Viegas, conhecia para deante do _Poço da Esquecida_, certo passo, onde

poucos cavalleiros, e alguns bésteiros, bem postados por entre o bravio,

apanhariam Lopo de Bayão como lobo em fojo...

Tructesindo, incerto e pensativo, mettia os dedos lentos pelos fios da

barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pozessse batalha ao

Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lanças já

aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de

Bayão. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos d'Hespanha e de

Portugal que sahissem ao terreiro, deante da tenda, com fartura de

tochas para bem se allumiarem. E ahi, no meio dos cavalleiros curiosos,

á claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou

sobre a terra, com a ponta d'uma adaga, o roteiro da _sua caçada_ para

lhe comprovar a belleza... D'além castello Landim, largaria com a alva o

Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam elles, com vinte

cavalleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores d'ambas as

mesnadas gosassem a lide. Além, se postariam, alapados no mattagal,

besteiros e peões de frecha. Por traz, d'este lado, para entaipar o

Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa ajuda elle

honrasse o Senhor de Santa Ireneia. Adiante, acolá, para colher pela

gorja o villão, o Snr. D. Tructesindo que era o pae e Deus mandava fosse

o vingador. E alli, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um

porco--e como o sangue era vil, a um tiro de bésta encontrariam agua

farta para lavar as mãos, a agoa do _pégo das Bichas_!...

--Famosa traça! murmurou Tructesindo convencido.

E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavalleiros

d'Hespanha:

--Vida de Christo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por Coudel aqui o

snr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei

Menino, na grande carreira, para Santo Estevam de Gurivaz!... Entendido

pois, primo e amigo! E a cavallo, para a monteria, mal reponte a lua!

E recolheram as tendas--que já nas fogueiras lourejavam os cabritos da

ceia, e os uchões acarretavam, d'entre os carros da sarga, os pesados

odres de vinho de Tordesillas.

Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por que um luto velava o

coração dos hospedes) Gonçalo terminou, n'essa noute, o seu capitulo IV,

lançando á margem outra nota:--«Meia noite... Dia cheio. Batalhei,

trabalhei.--». Depois no seu quarto, em quanto se despia, traçou todo o

alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria

captivo, á mercê vingadora dos de Santa Ireneia... Mas de manhã, antes

d'almoço, ao abancar com gosto para o trabalho--recebeu dous

telegrammas, que o desviaram deliciosamente da correria contra o

Bastardo de Bayão.

Eram dois telegrammas d'Oliveira, um do Barão das Marges, outro do

capitão Mendonça--ambos com parabens ao Fidalgo «por assim escapar de

tão terrivel espera, destroçando os valentões de Nacejas.» O Barão das

Marges accrescentava:--«_Bravissimo! É d'heroe!_»

Gonçalo, enternecido, mostrou os telegrammas ao Bento. A nova da sua

façanha, pois, já se espalhára, impressionára Oliveira,

--Foi o Snr. José Barrôlo que contou! acudiu o Bento. E o Snr. Dr. verá!

o Snr. Dr. verá... Até no Porto se vão assombrar!

Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o immenso Titó,

acompanhado pelo João Gouveia que chegára na vespera á tarde da Costa,

soubera da aventura na Assembleia, corria á Torre, como amigo para o

abraço, antes de comparecer, como Auctoridade, para o auto. Então

Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu generosamente, «que se não

procedesse contra os bandidos...» O Administrador recusou, decidido e

secco, proclamando o principio da Ordem, e necessidade d'um escarmento

rijo, para que Portugal não recuasse aos tempos barbaros do João Brandão

de Midões. Elle e Titó almoçaram na torre:--e Titó, á sobremesa, lembrou

galhofeiramente a conveniencia d'um brinde, e bramou elle o brinde,

comparando Gonçalo ao elefante, «sempre bom, que tanto aguenta, e de

repente, zás, esmaga o mundo!»

Depois João Gouveia accendendo um grande charuto reclamou a

representação veridica da desordem, com os pulos, os gritos, para elle

se compenetrar como auctoridade. Então atravez da varanda, reviveu a

historia heroica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou

por esgaçar) os golpes que arremessára imitando os tombos meio

desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O

Administrador e o Titó visitaram na cavallariça a egoa historica; e no

pateo, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro seccando ao

sol, lavadas do sangue que as salpicára.

Deante do portão João Gouveia bateu gravemente no hombro do Fidalgo:

--Gonçalo, vossê deve apparecer esta noite na Assembleia...

Appareceu--e foi acolhido como o vencedor d'uma batalha illustre. No

bilhar, por proposta do velho Ribas, flammejou um grande punche---e o

Commendador Barros, afogueado, teimava que no domingo se celebrasse em

S. Francisco um Te-Deum de graças, de que elle costearia as despezas,

com orgulho, caramba! Á sahida, acompanhado pelo Titó, pelo Gouveia,

pelo Manoel Duarte, por outros socios, encontraram o Videirinha--que não

pertencia á Assembleia, mas rondava, esperando o Fidalgo para lhe lançar

duas trovas do _Fado_, improvisadas n'essa tarde, em que o exaltava

acima dos outros Ramires, da Historia e da Lenda!

O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o cantar do

Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:

Os Ramires d'outras eras

Venciam com grandes lanças,

Este vence com um chicote,

Vêde que estranhas mudanças!

É que os Ramires famosos,

Da passada geração,

Tinham a força nas armas

E este a tem no coração!

A tão requebrado conceito--os amigos romperam em vivas a Gonçalo, á Casa

de Ramires. E o Fidalgo recolhendo á Torre, commovido, pensava:

--É curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...

Mas que emoção quando, de manhã cedo, o Bento o acordou com um

telegramma de Lisboa! Era do Cavalleiro--que «soubera pelos jornaes

attentado, lhe mandava enthusiastico abraço pela felicidade e pela

valentia!» Gonçalo berrou, sentado na cama:

--Caramba! então os jornaes em Lisboa já fallam, Bento! o caso anda

celebrado!

Certamente celebrado!--por que durante o delicioso dia, o moço do

Telegrapho, esbaforido sobre a perna manca, não cessou d'empurrar o

portão da Torre, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da Condessa de

Chellas; de Duarte Lourençal; dos Marquezes de Cója _felicitando_; da

tia Louredo com «parabens ao destemido sobrinho»; da marqueza

d'Esposende «esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!»... E

o ultimo do Castanheiro, com exclamações:--_Magnifico! Digno de

Tructesindo!_--Gonçalo, pela livraria, erguia os braços, estonteado:

--Santo nome de Deus! mas que terão dito os jornaes?

E, por entre os Telegrammas, accudiam os cavalheiros dos arredores, os

influentes,--o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao

Cabralismo; o velho Pacheco Valladares de Sá, que não se espantára do

seu nobre primo, por que sangue de Ramires, como sangue de Sás, sempre

ferve; o padre Vicente da Finta, que com os seus parabens, offereceu um

cestinho de cachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de

Rio-Manso, que agarrado a Gonçalo, soluçou, no enternecimento quasi

ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando «o querido

amigo, o amigo da sua Rosa» se encaminhava para a _Varandinha_. Gonçalo,

afogueado, banhado de riso, abraçava, recontava pacientemente a façanha,

acompanhava até ao portão aquelles cavalheiros, que ao montar as egoas,

ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rigida, na

doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do heroe, o

secular fundamento do seu heroismo.

E o Fidalgo, galgando as escadas para a livraria, de novo murmurava,

estonteado:

--Que terão dito os jornaes de Lisboa?

Nem dormiu, na anciedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoroço,

rompeu pelo quarto com o correio--Gonçalo saltou, arrojou o lençol, como

se abafasse. E logo no _Seculo_, soffregamente percorrido, encontrou o

telegramma d'Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a

immensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O

Bento quasi arrebatou o _Seculo_ das mãos tremulas do Fidalgo, para

correr á cosinha, bramar á Rosa a noticia gloriosa!

De tarde, Gonçalo correu a Villa-Clara, á Assembleia, para devorar os

outros jornaes de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos celebravam!

A _Gazeta do Porto_, attribuindo o attentado a Politica, ultrajava

furiosamente o Governo. O _Liberal Portuense_, porém, relacionava «com

certas vinganças dos republicanos d'Oliveira, o pavoroso attentado que

quasi causára a morte d'um dos maiores fidalgos de Portugal e d'Hespanha

e d'um dos mais pujantes talentos da nova geração!» Os jornaes de

Lisboa, glorificavam sobre tudo «a coragem explendida do Snr. Gonçalo

Ramires.» E o mais ardente era a _Manhã_, n'um verboso artigo (de certo

escripto pelo Castanheiro), recordando as heroicas tradições da Casa

illustre, esboçando as bellezas do Castello de Santa Ireneia e

terminando por affirmar que «agora, se esperava com redobrada anciedade

a apparição da novella de Gonçalo Ramires, fundada sobre um feito de seu

avô Tructesindo no seculo XII, e promettida para o primeiro numero dos

*Annaes de Litteratura e de Historia*, a nova Revista do nosso querido

amigo Lucio Castanheiro, esse benemerito restaurador da Consciencia

heroica de Portugal!»--As mãos de Gonçalo, ao desdobrar os jornaes,

tremiam. E o João Gouveia, tambem soffrego, devorando tambem os artigos,

por sobre o hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

--Vossê, Gonçalinho, vae ter uma votação tremenda!

Depois n'essa noute, recolhendo á Torre, Gonçalo encontrou uma carta que

o perturbou. Era de Maria de Mendonça, n'um papel perfumado, com o mesmo

perfume que tão docemente espalhava D. Anna, pelo adro de Santa Maria de

Craquêde:--«Só esta manhã soubemos o grande perigo que passou, e ficamos

_ambas_ muito commovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e não só eu) muito

vaidosa da magnifica coragem do primo. É d'um verdadeiro Ramires! Eu não

vou ahi abraçal-o (com risco de me comprometter e _fazer invejas_) por

que um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente não

é cousa de cuidado... Mas aqui todos, até os pequenos, anciamos por vêr

o heroe, e não creio que houvesse nada d'extraordinario, nem _d'um lado_

nem _d'outro_, em que o primo por aqui apparecesse além d'amanhã (quinta

feira) pelas tres horas. Davamos um passeio na quinta, e até se

merendava, á boa e velha moda dos nossos avós. Está dito? Muitos

comprimentos, _muitos_, da Annica, e o primo creia-me, etc.»--Gonçalo

sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a

prima Maria lhe empurrára, tão claramente, a D. Anna para os braços... E

como D. Anna se deixava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados... Ah, se

fosse somente para a alcova! Mas ai! era tambem para a Egreja. E de novo

sentia aquelle vozeirão do Titó, nos degraus da portinha verde com a lua

cheia por cima dos olmos negros: «Essa creatura teve um amante, e tu

sabes que eu nunca minto?»

Então tomou lentamente a penna, respondeu a D. Maria Mendonça:--«Querida

prima--Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus

enthusiasmos. Não exaggeremos! Eu não fiz mais que correr a chicote uns

valentões que me assaltaram a tiro. É façanha facil para quem tenha,

como eu, um chicote excellente. Emquanto á visita á _Feitosa_, que me

seria tão agradavel, não a posso realisar com fundo pezar meu, nem na

quinta-feira, nem mesmo por todo este mez... Ando occupadissimo com o

meu livro, a minha Eleição, a minha mudança para Lisboa. A era dos

cuidados sérios soou severamente para mim,--cerrando a doce era dos

passeios e dos sonhos. Peço que apresente á Snr.^a D. Anna os meus

profundos respeitos. E com muitas amisades para si, e bons desejos pelo

restabelecimento d'esse querido Neco, espero me creia sempre seu

dedicado e grato primo, etc.»

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete d'armas sobre o

lacre verde, pensava:

--Assim aquelle maroto do Titó me rouba dusentos contos!...

* * * * *

Durante toda essa macia semana dos fins de Setembro, Gonçalo trabalhou

no Capitulo final da sua Novella.

Era emfim a madrugada vingadora em que os Cavalleiros de Santa Ireneia,

reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada dos Castros,

surprehendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o

_Sabedor_, o bando de Bayão, na sua açodada corrida sobre Coimbra...

Briga curta e falsa, sem destro e brioso terçar d'armas, mais semelhante

a montaria contra um lobo do que a arremettida contra um Filho-de-Algo.

E assim a desejára Tructesindo, com ruidosa approvação de D. Pedro de

Castro, por que não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um

matador.

Antes do luzir d'alva, o Bastardo abalára do castello de Landim, em dura

pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogavar nem coudel lhe

atalayavam os trilhos. As cotovias cantavam quando elle, em aspero

trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e

urze, que chamam a _Racha do Moiro_, desde que Mafoma a fendeu para que

escapassem as adagas christans de El-Rei Fernando, o _Magno_, o Alcaide

moiro de Coimbra e a monja que elle arrebatára á garupa. E apenas pela

esguia greta enfiára a derradeira lança da fila--eis que da outra

embocadura do valle surde o cerrado troço dos cavalleiros de Santa

Ireneia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel,

sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em

caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por traz as lanças dos

Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas d'uma

levadiça. Do recosto dos cerros róla, como reprêsa solta, uma rude e

escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrivel! Ainda arranca

furiosamente a espada, que redomoinhando o corôa de coriscos. Ainda com

um fero grito arremette contra Tructesindo... Mas bruscamente, d'entre

um escuro magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de

canave, que o laça pela gargalheira, o arranca n'um brusco sacão da sela

mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se

entala e se parte rente ao punho dourado. E emquanto os cavalleiros de

Bayão aguentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os

envolvera--um rôlo de peões, em dura grita, como mastins sobre um cerdo,

arrastam o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e

adaga, lhe despedaçam o brial de lã rôxa, lhe quebram os fechos do elmo,

para lhe cuspirem na face, nas barbas côr de ouro, tão bellas e de tanto

orgulho!

Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, para sobre o dorso d'uma

possante mula de carga, o estende entre dous esguios caixotes de

virotões, como rez apanhada ao recolher da montaria. E servos da

carriagem ficam guardando o Cavalleiro soberbo, o _Claro-Sol_ que

allumiava a casa de Bayão, agora entaipado entre dois caixotes de pau,

com cordas nos pés, e cordas nas mãos, e n'ellas espetado um triste ramo

de cardo--emblema da sua traição.

No emtanto os seus quinze Cavalleiros juncavam o chão, esmagados sob o

furioso cerco de lanças que os investira--uns hirtos, como adormecidos,

dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes

retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigaes. Os

escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuço para a boca d'uma

barroca, sem resgate ou mercê, como alcateia immunda de roubadores de

gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leonezes.

Todo o valle cheirava a sangue como um pateo de magarefes. Para

reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de cavalleiros

desafivelava os gorjaes, as viseiras, arrancando furtivamente as

medalhas de prata, os bentos, saquinhos de reliquias, que todos traziam

como bem-tementes. N'uma face, de fina barba negra, que uma espuma

sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Sueiro de

Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, folgára tão docemente e

bailára no castello de Unhello,--e vergado sobre a alta sella rezou,

pela pobre alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas

nuvens, abafavam a manhã d'Agosto. E afastados á entrada do valle, sob a

ramagem d'um velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia

Viegas, o _Sabedor_, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa,

se daria ao Bastardo, villão de tão negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforço de quem empurra

um arado por terra pedreira--gastára Gonçalo essa doce semana de

Setembro. E no sabbado, cedo, na livraria, com os cabellos ainda

molhados do banho de chuva, esfregava as mãos deante da banca--porque

certamente com duas horas de attento trabalho, findaria antes d'almoço a

sua Novella, a sua Obra! E todavia esse final, quasi o repellia, com o

seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o esboçára, com

esquiva indecisão, como nobre Lyrico que ante uma visão de bruta

ferocidade solta um lamento, resguarda a Lyra, e desvia para sendas mais

doces. E, ao tomar a penna, Gonçalo tambem, realmente lamentava que seu

avô Tructesindo não matasse outr'ora o Bastardo, no fragor da briga, com

uma d'essas cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar, que racham

o cavalleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na

Historia.

Mas não! Sob a folhagem do azinheiro, os tres cavalleiros combinavam com

lentidão uma vingança terrifica. Tructesindo desejára logo recolher a

Santa Ireneia, alçar uma forca deante das barbacans, no chão em que seu

filho rolára morto, e n'ella enforcar, depois de bem açoitado, como

villão, o villão que o matára. O velho D. Pedro de Castro, porém,

aconselhava despacho mais curto, e tambem gostoso. Para que rodear por

Santa-Ireneia, desbaratar esse dia d'Agosto na arrancada que os levava a

Montemór, a soccorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o

Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. Tructesindo, como porco

pelo Natal, e que um cavallariço lhe chamuscasse as barbas, e depois

outro, com facalhão de ucharia, o sangrasse no pescoço,

pachorrentamente.

--Que vos parece, Snr. D. Garcia?

O _Sabedor_ desafivelára o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a

poeira da lide:

--Senhores e amigos! Temos melhor, e perto tambem, sem delongas de

cavalgada, logo adiante destes cerros, no _Pego das Bichas_... E nem

torcemos caminho, que de lá, por Tordezello e Santa Maria da Varge,

endireitamos a Montemór, tão direitos como vôa o corvo... Confiae em

mim, Tructesindo! Confiae em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal

morte e tão vil, que d'outra egual se não possa contar desde que

Portugal foi condado.

--Mais vil que forca, para cavalleiro, meu velho Garcia?

--Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!

--Seja! Mandae dar ás bozinas.

Ao commando d'Affonso Gomes, o Alferes, as bozinas soaram. Um troço de

besteiros e de estafeiros Leoneses rodearam a mula que carregava o

Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E acaudilhada por D.

Garcia, a curta hoste metteu para o _Pego das Bichas_, em desbando, com

os senhores de lança espalhados, como em marcha de folgança e paz, (?) e

todos n'uma rija fallada recordando, entre gabos e risos, as proezas da

lide.

A duas leguas de Tordezello e do seu castello formoso, se escondia entre

os cerros o _Pego das Bichas_. Era um lugar de eterno silencio e de

eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcára o tio Duarte a desolada

asperidão:

Nem trillo d'ave em balançado ramo!

Nem fresca flôr junto de fresco arroio!

Só rocha, mattagal, ribas soturnas,

E em meio o _Pego_, tenebroso e morto!...

E quando os primeiros cavalleiros, galgada a lomba d'um cerro, o

avistaram, na melancholia da manhã nevoenta, emmudeceram da larga

fallada, repucharam os freios, assustados ante tão aspero ermo, tão

propicio a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Deante do escalavrado

barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira,

aberta com charcos lamacentos, quasi chupados pela estiagem, luzindo

pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a

meio tiro de bésta, negrejava o _Pego_, lagoa estreita, lisa, sem uma

ruga n'agua, duramente negra, com manchas mais negras, como lamina

d'estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno

subiam os cerros, eriçados de matto bravio e alto, sulcados por trilhos

de saibro vermelho como por fios de sangue que escoresse, e rasgados no

alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão pesado era o

silencio, tão pesada a soledade, que o velho D. Pedro de Castro, homem

de tanta jornada, se espantou:

--Feia paragem! E voto a Christo, a Santa Maria, que nunca antes de nós,

n'ella entrou homem remido pelo baptismo.

--Pois, Snr. D. Pedro de Castro! accudiu o _Sabedor_, já por aqui se

moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Sueiro, e de

vosso rei D. Fernando, se erguia n'aquella beira d'agua, uma castellania

famosa! Vêde além!--E mostrava na ponta do pego, fronteira ao barranco,

dous rijos pilares de pedra, que emergiam da agua negra, e que chuva e

vento polira como marmores finos. Um passadiço de traves, sobre estacas

limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E

a meio d'esse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No emtanto já o tropel da peonagem se espalhára pela ribanceira. D.

Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos

bésteiros de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho

e gozando a surpreza, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens

descessem o Bastardo da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo

nú, como sua mãe barregã o soltára á negra vida...

Tructesindo encarou o _Sabedor_, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

--Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o villão, e sujar

essa agua innocente!...

E alguns Cavalleiros, em redor, murmuraram tambem contra morte tão

quieta e sem malicia. Mas os miudos olhos de D. Garcia giravam,

lampejavam de triumpho e gosto:

--Socegae, socegae! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me

consente algumas traças. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem

afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e de vagar, pelas

grandes sanguesugas que enchem toda essa agua negra!

A Illustre Casa de Ramires · 第 20 / 25 题