VII

Gonçalo recolhia para o almoço depois d'um passeio no pomar percorrendo

a _Gazeta do Porto_, quando avistou no banco de pedra, rente á porta da

cosinha, onde a Rosa mudava o painço na gaiola do seu canario, o Casco,

o José Casco dos Bravaes, que esperava, pensativo e abatido, com o

chapeu sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou no

jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra

da latada, avançava na claridade faiscante do pateo, hesitando, como

assustada... E, animado pela visinhança da Rosa, parou, forçando um

sorriso--em quanto o Casco enrolava nas mãos tremulas a aba dura do

chapeu, balbuciava:

--Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra...

--Ah! é vossê, Casco! Homem, não o conheci... E então?

Dobrou o jornal, tranquillisado--gozando mesmo a submissão d'aquelle

valente que tanto o apavorára, erguido e negro como um pinheiro, na

solidão do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuchava, esticava o

pescoço de dentro dos grossos collarinhos bordados--até que atirou toda

a alma n'uma supplica soluçada, retendo as lagrimas que marejavam:

--Ai, meu Fidalgo, perdôe por quem é! Perdôe, que eu nem lhe sei pedir

perdão!...

Gonçalo atalhou o homem, com generosidade e doçura. Elle bem o avisára!

Nada se emenda, a gritar, com o pau alçado...

--E olhe, Casco! Quando vossê me sahiu ao pinhal eu levava um revólver

na algibeira... Trago sempre um revólver. Desde que uma noite em

Coimbra, no Choupal, dous bebados me assaltaram, ando sempre á cautella

com o revólver... Pense você agora que desgraça se tiro o revólver, se

desfecho!... Que desgraça, hein?... Felizmente, n'um relance, pensei que

me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que fugi, para não

desfechar o revólver... Emfim tudo passou. E eu não sou homem de

rancores, já esqueci. Comtanto que vossê, agora socegado e no seu juizo,

esqueça tambem.

O Casco amassava as abas do chapeu, com a cabeça derrubada. E sem a

erguer, sem ousar, rouco dos soluços que o entalavam:

--Pois agora é que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora é que me ralo por

aquella doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e pelo

pequeno!...

Gonçalo sorriu, encolheu os hombros:

--Que tolice, Casco!... Pois a sua mulher apparece ahi n'uma noite

d'agua... E o pequenito doente, coitadito, com febre... Como vae elle, o

Manelsinho?

O Casco murmurou do fundo da sua humildade:

--Louvado seja Deus, meu senhor, muito sãosinho, muito rijinho.

--Ainda bem... Ponha o chapeu. Ponha o chapeu, homem! E adeus!... Vossê

não tem que agradecer, Casco... E olhe! Traga cá um dia o pequeno. Eu

gostei do pequeno. É espertinho.

Mas o Casco não se arredava, pregado ás lages. Por fim, n'um soluço que

rebentou:

--É que eu não sei como hei-de dizer, meu Fidalgo... Lá o dia de cadeia,

acabou! Tenho genio, fiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco

paguei, graças ao Fidalgo... Mas depois quando sahi, quando soube que a

mulher viera de noite á Torre, e que o Fidalgo até a embrulhára n'uma

capa, e que não deixára sahir o pequeno...

Estacou, afogado pela emoção. E como Gonçalo, tambem commovido, lhe

batia risonhamente no hombro, «para acabar, não se fallar mais n'essas

bagatellas...»--o Casco rompeu, n'uma grande voz dolorosa e quebrada:

--Mas é que o Fidalgo não sabe o que é para mim aquelle pequeno!...

Desde que Deus m'o mandou tem sido uma paixão cá por dentro que até

parece mentira!... Olhe que na noite que passei na cadeia da villa não

dormi... E Deus me perdôe, não pensei na mulher, nem na pobre da velha,

nem na pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo. Toda a noite se foi

a gemer:--«ai o meu querido filhinho! ai o meu querido filhinho!...»

Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo ficára

com elle na Torre, e o deitára na melhor cama, e mandára recado ao

medico... E depois quando soube pelo snr. Bento que o Fidalgo de noite

subia a vêr se elle estava bem coberto, e lhe entalava a roupa,

coitadinho...

E arrebatadamente, n'um choro solto, gritando:--«Ai meu Fidalgo! meu

Fidalgo!...»--o Casco agarrou as mãos de Gonçalo, que beijava,

rebeijava, alagava de grossas lagrimas.

--Então, Casco! Que tolice!... Deixe homem!

Pallido, Gonçalo saccudia aquella gratidão furiosa--até que ambos se

encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e tremulas, o lavrador dos

Bravaes soluçando, n'uma confusão. E foi elle por fim que, recalcando um

derradeiro soluço, se recobrou, desafogou da idéa que o trouxera, que de

certo fundamente o trabalhára, e que agora lhe enrijava a face e o gesto

n'uma determinação que nunca vergaria:

--Meu Fidalgo, eu não sei fallar, não sei dizer... Mas se d'hoje em

deante, seja para que fôr, o Fidalgo necessitar da vida d'um homem, tem

aqui a minha!

Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito simplesmente--como um Ramires

d'outr'ora recebendo a preitezia d'um vassallo:

--Obrigado, José Casco.

--Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o abençôe!

Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da varanda--emquanto o Casco

atravessava o páteo vagarosamente, com a cabeça bem erguida, como homem

que devêra e que pagára.

E em cima, na livraria, Gonçalo pensava com espanto:--«Ahi está como

n'este mundo sentimental se ganham dedicações gratuitamente!...» Por que

emfim! quem não impediria que uma criancinha com febre affrontasse de

noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval? Quem a não deitaria,

não lhe adoçaria um grog, não lhe entalaria os cobertores para a

conservar bem abafada? E por esse grog e por essa cama--corre o pae,

tremendo e chorando, a offerecer a sua vida! Ah! como era facil ser

Rei--e ser Rei popular!

E esta certeza mais o animava a obedecer ás recommendacões do

Cavalleiro--a começar immediatamente as suas visitas aos Influentes

eleitoraes, essas aduladoras visitas que assegurariam á Eleição uma

unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoço, mesmo sobre a toalha,

arredando os pratos, copiou a lista d'esses Magnates--por um rascunho

annotado que lhe fornecera o João Gouveia. Era o Dr. Alexandrino; o

velho Gramilde, de Ramilde; o Padre José Vicente, da Finta; outros

menores:--e o Gouveia marcára com uma cruz, como o mais poderoso e mais

difficil, o Visconde de Rio-Manso, que dispunha da immensa freguezia de

Canta-Pedra. Gonçalo conhecia esses senhores, homens de propriedade e de

dinheiro (com todos outr'ora o papá andára endividado)--mas nunca

encontrára o Visconde de Rio-Manso, um velho brazileiro, dono da quinta

da _Varandinha_, onde vivia solitariamente com uma neta de onze annos,

essa linda Rosinha que chamavam «o botão de Rosa», a herdeira mais rica

de toda a Provincia. E logo n'essa tarde, em Villa-Clara, reclamou ao

João Gouveia uma carta d'apresentação para o Rio-Manso:

O Administrador hesitou:

--Vossê não precisa carta... Que diabo! Vossê é o Fidalgo da Torre!

Chega, entra, conversa... Além d'isso na Eleição passada o Rio-Manso

ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco sêccos. O

Rio-Manso é um casmurro... Mas com effeito, Gonçalinho, convem começar

essa caça á popularidade!

N'essa noite, na Assembleia, o Fidalgo, encetando a «caça á

popularidade», acceitou um convite do Commendador Romão Barros (do

massador, do burlesco Barros) para o brodio faustoso com que elle

celebrava, na sua quinta da _Roqueira_, a festa de S. Romão. E essa

semana inteira, depois outra, as gastou assim por Villa-Clara, amimando

eleitores--a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do

Ramos, de encommendar um sacco de café na mercearia do Tello, de

offerecer o braço no largo do Chafariz á nojenta mulher do bebedissimo

Marques Rosendo, e de frequentar, de chapeu para a nuca, o bilhar da rua

das Pretas. João Gouveia não approvava estes excessos--aconselhando

antes «boas visitas, com todo o _chic_, aos influentes sérios.» Mas

Gonçalo bocejava, adiava, na insuperavel preguiça de affrontar a

maledicencia rabujenta do velho Gramilde ou a solemnidade forense do Dr.

Alexandrino.

Agosto findava:--e por vezes, na livraria, Gonçalo, coçando

desconsoladamente a cabeça, considerava as brancas tiras d'almaço, o

Capitulo III da _Torre de D. Ramires_ encalhado... Mas quê! não podia,

com aquelle calor, com o afan da Eleição, remergulhar nas eras

Affonsinas!

Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas

freguezias, não se descuidando das recommendações do

Cavalleiro--enchendo sempre o bolso de rebuçados d'avenca para atirar ás

creanças. Mas, n'uma carta ao querido André, já confessára que «a sua

popularidade não crescia, não enfunava...»--«Não! positivamente, velho

amigo, não tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente com os

homens, comprimentar pelo seu nome as velhas ás soleiras das portas,

gracejar com a pequenada, e se encontro uma boeirinha de saiasita rota

dar cinco tostões á boeirinha para uma saiasita nova... Ora todas estas

cousas tão naturaes sempre as fiz naturalmente, desde rapaz, sem que me

conquistassem influencia sensivel... Necessito portanto que essa querida

Authoridade m'empurre com o seu braço possante e destro...»

Todavia já uma tarde, encontrando junto da Torre o velho Cosme de

Nacejas, e depois, n'um domingo, crusando ás _Ave-Marias_ na Bica-Santa

o Adrião Pinto do logar da Levada, ambos lavradores considerados e

remexedores d'eleições--lhes pedira os votos, desprendidamente e rindo.

E quasi se assombrára da promptidão, do fervor, com que ambos se

offereceram.--«Para o Fidalgo? Pois isso está entendido! Ainda que se

votasse contra o Governo, que é pae!»--E em Villa-Clara, com o Gouveia,

Gonçalo deduzia d'estas offertas tão acaloradas «a intelligencia

politica da gente do campo»:

--Está claro que não é pelos meus lindos olhos! Mas sabem que eu sou

homem para fallar, para luctar pelos interesses da terra... O Sanches

Lucena não passava d'um Conselheiro muito rico e muito mudo! Esta gente

quer deputado que grite, que lide, que imponha... Votam por mim por que

sou uma intelligencia.

E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:

--Homem! quem sabe? Vossê nunca experimentou, Gonçalo Mendes Ramires.

Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!

* * * * *

N'um d'esses passeios, n'uma abrazada sexta-feira, com o sol ainda alto,

Gonçalo atravessava o logarejo da Velleda, no caminho de Canta-Pedra. Ao

fim dos casebres que se apertam á orla da estrada alveja, muito caiada,

n'um terreiro defronte da Egreja, a taverna famosa "do Pintainho", onde

os caramanchões do quintal e a nomeada do coelho guizado attrahem vasto

povo nos dias da feira da Velleda. N'essa manhã o Titó, depois d'uma

madrugada ás perdizes, em Valverde, apparecera na Torre para almoçar,

urrando, d'esfomeado. Era sexta-feira--a Rosa preparára uma pescada com

tomates, depois um bacalhau assado, formidaveis. E Gonçalo, toda a tarde

torturado com sêde, mais resequido pela poeira da estrada, parou

avidamente deante do portão da venda, gritou pelo Pintainho.

--Oh meu Fidalgo!...

--Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca,

que morro...

O Pintainho, velhote roliço de cabello amarello, não tardou com o copo

appetitoso e fundo onde boiava, na espumasinha do assucar, uma rodella

de limão. E Gonçalo saboreava a sangria com ineffavel delicia--quando da

janella terrea da venda partiu um assobio lento, fino e trinado, como os

dos arrieiros que animam as bestas a beber nos riachos. Gonçalo deteve o

copo, varado. Á janella assomára um latagão airoso, de face clara e

suissas louras, que, com os punhos sobre o peitoril e a cabeça

levantada, n'um descarado modo de pimponice e desafio, o fitava

atrevidamente. E n'um lampejo o Fidalgo reconheceu aquelle caçador que

já uma tarde, no logar de Nacejas, ao pé da Fabrica de vidros, o mirára

com arrogancia, lhe raspára a espingarda pela perna, e ainda depois,

parado sob a varanda d'uma rapariga de jaqué azul, lhe acenára

chasqueando emquanto elle descia a ladeira... Era esse! Como se não

percebesse o ultraje--Gonçalo bebeu apressadamente a sangria, atirou uma

placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina egoa. Mas então da

janella rolou uma risadinha, cacarejada e troçante, que o colheu pelas

costas como o estalo d'uma vergasta. Gonçalo soltou a galope. E adiante,

sopeando a egoa no refugio d'uma azinhaga, pensava, ainda

tremulo:--«Quem será o desavergonhado?... E que lhe fiz eu, Santo Deus?

que lhe fiz eu?...» Ao mesmo tempo todo o seu ser se desesperava contra

aquelle desgraçado _mêdo_, encolhimento da carne, arrepio da pelle, que

sempre, ante um perigo, uma ameaça, um vulto surdindo d'uma sombra, o

estonteava, o impellia furiosamente a abalar, a escapar! Por que á sua

alma, Deus louvado, não faltava arrojo! Mas era o corpo, o traiçoeiro

corpo, que n'um arrepio, n'um espanto, fugia, se safava, arrastando a

alma--emquanto dentro a alma bravejava!

Entrou na Torre, mortificado, invejando a afouteza dos seus moços da

quinta, remoendo um rancor soturno contra aquelle bruto de suissas

louras, que certamente denunciaria ao Cavalleiro e enterraria n'uma

enxovia!--Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos,

apparecendo com uma carta «que trouxera um moço da _Feitosa_...»

--Da _Feitosa_?

--Sim senhor, da quinta do snr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que

vinha de mandado das senhoras...

--Das senhoras!... Que senhoras?

Sem tarja de luto, a carta não era da bella D. Anna... Mas era de D.

Maria Mendonça, que assignava--«prima muito amiga, Maria Severim.» N'um

relance a leu, colhido logo por esta surpreza nova, distrahido da venda

do Pintainho e da affronta:--«Meu querido Primo. Estou ha tres dias aqui

com a minha amiga Annica, e como passou o mez inteiro do nojo e ella já

póde sahir (e até precisa porque tem andado fraca) eu aproveito a

occasião para percorrer estes arredores que dizem tão bonitos, e pouco

conheço. Tencionamos no Domingo visitar Santa Maria de Craquêde, onde

estão os tumulos dos antigos tios Ramires. Que impressão me vae

fazer!... Mas, ao que parece, além dos tumulos do claustro, ha outros,

ainda mais antigos, que foram arrombados no tempo dos Francezes, e que

ficam n'um subterraneo, onde se não póde entrar sem licença e sem que

tragam a chave. Peço pois, querido Primo, que dê as suas ordens para que

no Domingo possamos descer ao subterraneo, que todos affiançam muito

interessante, por que ainda lá restam ossos e armas. Se na Torre

houvesse uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este pedido... Mas

não se póde visitar um solteirão tão perigoso. Case depressa!...

D'Oliveira boas noticias. Creia-me sempre, etc.»

Gonçalo encarou o Bento--que esperava, interessado com aquelle assombro

do Snr. Doutor:

--Tu sabes se em Santa Maria de Craquêde ha outros tumulos, n'um

subterraneo?

O assombro então saltou para o Bento:

--N'um subterraneo?... Tumulos?

--Sim, homem! Além dos que estão no claustro parece que ha outros, mais

antigos, debaixo da terra... Eu nunca vi, não me lembro. Tambem ha que

annos não entro em Santa Maria de Craquêde! Desde pequeno!... Tu não

sabes?

O Bento encolheu os hombros.

--E a Rosa não saberá?

O Bento abanou a cabeça, duvidando.

--Tambem vossês nunca sabem nada! Bem! Amanhã cêdo corre a Santa Maria

de Craquêde e pergunta na Egreja, ao sachristão, se existe esse

subterraneo. Se existir que o mostre no Domingo a umas senhoras, á

snr.^a D. Anna Lucena, e á snr.^a D. Maria Mendonça, minha prima

Maria... E que tenha tudo varrido, tudo decente!

Mas, repassando a carta, reparou n'um _Post-Scriptum_ em lettra mais

miudinha, ao canto da folha:--«No Domingo, não se esqueça, a visita será

_entre as cinco e cinco e meia da tarde_!»

Gonçalo pensou:--«Será uma entrevista?» E na livraria, atirando para uma

cadeira o chapeu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem

clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterraneo--e Maria

Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como natural

motivo de lhe escrever, de lhe annunciar que no Domingo, ás cinco e

meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos o esperavam em Santa

Maria de Craquêde. Mas então a prima Maria não gracejára, em Oliveira?

Gostava d'elle, realmente, essa D. Anna?... E uma emoção, uma

curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo á idéa de que tão formosa

mulher o desejava.--Ah! mas certamente o desejava para marido, por que

se o appetecesse para amante não se soccorria dos serviços da D. Maria

Mendonça--nem a prima Maria, apesar de tão sabuja com as amigas ricas,

os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comedia! E

caramba! casar com a D. Anna--não!

E subitamente anciou por conhecer a vida da D. Anna! Aturára ella tantos

annos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na _Feitosa_,

na solidão dos grandes muros da _Feitosa_--por que nunca sobre ella

esvoaçára um rumor, em terriolas tão gulosas de rumores malignos. Mas em

Lisboa?... Esses «amigos estimabilissimos» de que se ufanava o pobre

Sanches, o D. João não sei quê, o pomposo Arronches Manrique, o Philippe

Lourençal com o seu cornetim?... Algum de certo a attacára--talvez o D.

João, por dever tradicional do nome. E ella?... Quem o informaria sobre

a historia sentimental da D. Anna?

Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irmã do Gouveia,

casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Magicas e empregado

na Misericordia) costumava mandar ao mano Administrador relatorios

intimos sobre todas as pessoas conhecidas d'Oliveira, de Villa-Clara,

que se demoravam em Lisboa--e que interessavam o mano ou por Politica,

ou por mexeriquice. E de certo, pela irmã Cerqueira, o querido Gouveia

conhecia miudamente os annaes da D. Anna, durante os seus invernos de

Lisboa, nas delicias da sua «roda fina».

N'essa noite, porém, o Administrador não apparecera na Assembleia. E

Gonçalo, desconsolado, recolhia á Torre--quando no Largo do Chafariz o

encontrou com o Videirinha, ambos sentados n'um banco, sob as olaias

escuras.

--Chegou lindamente! exclamou o Gouveia. Estavamos mesmo a marchar para

minha casa, tomar chá. Quer vossê, tambem?... Vossê costuma gostar das

minhas torradinhas.

O Fidalgo acceitou--apezar de cançado. E logo pela Calçadinha, enlaçando

o braço do Administrador, contou que recebera uma carta de Lisboa, d'um

amigo, com uma nova estupenda... O que?--O casamento da D. Anna Lucena.

O Gouveia parou, assombrado, atirando o côco para a nuca:

--Com quem?!

Gonçalo que inventára a carta--inventou o noivo:

--Com um vago parente meu, ao que parece, um D. João Pedroso ou da

Pedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me fallou n'elle... Conviviam

muito em Lisboa...

Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:

--Não póde ser!... Que disparate! A D. Anna não ajustava casamento sete

semanas depois de lhe morrer o marido... Olhe que o Lucena morreu no

meado de Julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar á sepultura!

--Sim, com effeito! murmurou Gonçalo.

E sorria, sob uma doce baforada de vaidade--pensando que, sete semanas

depois de viuva, ella, sem resistir, calcando decencia e luto, lhe

offerecia a elle uma entrevista nas ruinas de Craquêde.

A mentira de resto, apesar de disparatada, aproveitára--porque, depois

de subirem á saleta verde do Administrador, o espanto recomeçou.

Videirinha esfregava as mãos, divertido:

--Oh snr. Dr., olhe que tinha graça!... Se a snr.^a D. Anna, depois

d'apanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas, zás, se

engancha com um rapazote novo...

Não, não!... Gonçalo agora, reparando, tambem considerava despropositada

a noticia do casamento, assim com o pobre Sanches ainda môrno...

--Naturalmente entre ella e esse D. João havia namorico, olhadella...

Por isso imaginaram. Com effeito, alguem me contou, ha tempos, que o tal

D. João se atirava valentemente, como cumpre a um D. João, e que ella...

--Mentira! atalhou o Administrador, debruçado sobre a chaminé do

candieiro para accender o cigarro. Mentira! Sei perfeitamente, e por

excellente canal... Em fim, sei por minha irmã! Nunca, em Lisboa, a D.

Anna deu azo a que se rosnasse. Muito séria, muitissimo séria. Está

claro, não faltou por lá maganão que lhe arrastasse a aza languida...

Talvez esse D. João, ou outro amigo do marido, segundo a boa lei

natural. Mas ella, nada! Nem ôlho de lado! Esposa romana, meu amigo, e

dos bons tempos romanos!

Gonçalo, enterrado no camapé, torcia lentamente o bigode, regalado,

recolhendo as revelações. E o Gouveia, no meio da sala, com um gesto

convencido e superior:

--Nem admira! Estas mulheres muito formosas são insensiveis. Bellos

marmores, mas frios marmores... Não, Gonçalinho, lá para o sentimento, e

para a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres pequeninas,

magrinhas, escurinhas! Essas sim!... Mas os grandes mulherões brancos,

do genero Venus, só para vista, só para museo.

Videirinha arriscou uma duvida:

--Uma senhora tão bonita como a snr.^a D. Anna, e com aquelle sangue,

assim casada com um velhote...

--Ha mulheres que gostam de velhotes por que ellas mesmas teem

sentimentos velhotes!--declarou o Gouveia, de dedo erguido, com immensa

auctoridade e immensa philosophia.

Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava. E na _Feitosa_? Nunca se

rosnára d'alguma aventura escondida? Parece que com o Dr. Julio...

De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia, repelliu a «mentira»:

--Nem na _Feitosa_, nem em Oliveira, nem em Lisboa... De resto, é o que

lhe digo, Gonçalo Mendes. Mulher de marmore!

Depois, saudando, em submissa admiração:

--Mas, como marmore... Vossês, meninos, não imaginam a belleza d'aquella

mulher decotada!

Gonçalo pasmou:

--E onde a viu vossê decotada?

--Onde a vi decotada? Em Lisboa, n'um baile do Paço... Até foi

justamente o Lucena que me arranjou o convite para o Paço. Lá me

espanejei, de calção... Uma semsaboria. E mesmo uma vergonha, toda

aquella turba acavallada por cima dos buffetes, aos berros, a agarrar

furiosamente pedaços de perú...

--Mas então, a D. Anna?

--Pois a D. Anna uma belleza! Vossês não imaginam!... Santo nome de

Deus! que hombros! que braços! que peito! E a brancura, a perfeição...

De endoidecer! Ao principio, como havia muita gente, e ella estava para

um canto, acanhadota, não fez sensação. Mas depois lá a descobriram. E

eram correrias, magotes embasbacados... E «quem será?» E «que encanto!»

Todo o mundo perdidinho, até o Rei!

E um momento os tres homens emmudeceram na impressão do formoso corpo

evocado, que entre elles surgia, quasi despido, inundando com o

explendor da sua brancura a modesta sala mal alumiada. Por fim

Videirinha acercou a cadeira, em confidencia, para fornecer tambem a sua

informação:

--Pois, por mim, o que posso affirmar é que a snr.^a D. Anna é uma

mulher muito aceada, muito lavada...

E como os outros s'espantavam, rindo, de uma certeza tão

intima--Videirinha contou que todas as semanas apparecia um moço da

_Feitosa_, na botica do Pires, a comprar tres e quatro garrafas de agua

de Colonia portugueza, da receita do Pires.

--Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos, que na Feitosa regavam

as terras com agua de Colonia. Depois é que soubemos pela creada... A

snr.^a D. Anna toma todos os dias um grande banho, que não é só para

lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina. Até lê o jornal

dentro da tina. E em cada banho, zás, meia garrafa d'agua de Colonia...

Já é luxo!

Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de todas aquellas revelações

do Administrador, do ajudante da Pharmacia, sobre os decotes e as

lavagens da linda mulher que o esperava entre os tumulos dos Ramires

seculares. Saccudiu o jornal com que se abanava, exclamou:

--Bem! E passando a cantiga mais séria... Oh Gouveia, vossê que tem

sabido do Dr. Julio? O homem trabalha na eleição?

A creada entrára com a bandeja do chá. E em torno da mesa, trincando as

torradas famosas, conversaram sobre a Eleição, sobre os informes dos

Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso--e sobre o Dr. Julio, que

Videirinha encontrára nos Bravaes pedinchando votos pelas portas,

acompanhado por um môço com a machina photographica ás costas.

Depois do chá Gonçalo, cançado e já provido «de revelações», accendeu o

charuto para recolher á Torre.

--Vossê não acompanha, Videirinha?

--Hoje, Snr. Dr., não posso. Parto de madrugada para Oliveira, na

diligencia.

--Que diabo vae vossê fazer a Oliveira?

--Por causa d'uns sapatos de praia e d'um fato de banho lá da minha

patrôa, da D. Josepha Pires... Tenho de os trocar nos Emilios, levar as

medidas.

Gonçalo ergueu os braços, desolado:

--Ora vejam este paiz! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar

para Oliveira com os sapatos de banho da patrôa Pires!... Oh Gouveia!

quando eu fôr deputado precisamos arranjar um bom logar para o

Videirinha, no Governo Civil. Um logar facil e com vagares, para elle

não esquecer o violão!

Videirinha córou de gôsto e de esperança--correndo a despendurar do

cabide o chapéo do Fidalgo.

Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonçalo esvoaçaram logo, com

irresistida tentação, para D. Anna--para os seus decotes, para os

languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que

diabo!... Essa D. Anna assim tão honesta, tão perfumada, tão

explendidamente bella, só apresentava, mesmo como esposa, um feio

_senão_--o papá carniceiro. E a voz tambem--a voz que tanto o arripiára

na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquelle timbre rolante e

gordo, na intimidade, se abatia, liso e quasi doce... Depois, mezes de

convivencia habituam ás vozes mais desagradaveis--e elle mesmo, agora,

nem percebia quanto o Manoel Duarte era fanhoso! Não! mancha teimosa,

realmente, só o pae carniceiro. Mas n'esta Humanidade nascida toda d'um

só homem, quem, entre os seus milhares d'avós até Adão, não tem algum

avô carniceiro? Elle, bom fidalgo, d'uma casa de Reis d'onde Dynastias

irradiavam, certamente, escarafunchando o Passado, toparia com o Ramires

carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira geração, n'um

talho ainda afreguezado, ou que apenas s'esfumasse, atravez d'espessos

seculos, entre os trigesimos avós--lá estava, com a faca, e o cepo, e as

postas de carne, e as nodoas de sangue no braço suado!...

E este pensamento não o abandonou até á Torre--nem ainda depois, á

janella do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos ralos. Já

mesmo se deitára, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que os

seus passos impacientes se embrenhavam para traz, para o escuro passado

da sua Casa, por entre a emmaranhada Historia, procurando o

carniceiro... Era já para além dos confins do Imperio Visigodo, onde

reinava com um globo d'ouro na mão o seu barbudo avô Recesvinto.

Esfalfado, arquejando, transpozera as cidades cultas, povoadas de homens

cultos--penetrára nas florestas que o mastodonte ainda sulcava. Entre a

humida espessura já crusára vagos Ramires, que carregavam, grunhindo,

rezes mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas,

arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava.

Depois por tristes ermos, sob tristes silencios, chegára a uma lagôa

ennevoada. E á beira da agoa limosa, entre os canaviaes, um homem

monstruoso, pelludo como uma féra, agachado no lodo, partia a rijos

golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires.

No ceu cinzento voava o Açor negro. E logo, d'entre a neblina da lagôa,

elle acenava para Santa Maria de Craquêde, para a formosa e perfumada D.

Anna, bradando por cima dos Imperios e dos Tempos:--«Achei o meu avô

carniceiro!»

* * * * *

No Domingo, Gonçalo acordou com uma «esperta ideia!» Não correria a

Santa Maria de Craquêde com uma pontualidade sofrega, ás cinco horas (as

cinco horas marcadas no _Post-Scriptum_ da prima Maria)--mostrando o seu

alvoroço em encontrar a tão bella e tão rica D. Anna Lucena! Mas ás seis

horas, quando findasse a romaria das senhoras aos tumulos, appareceria

elle indolentemente, como se, recolhendo d'um passeio pelas frescas

cercanias, se recordasse, parasse nas ruinas para conversar com a prima

Maria.

Logo ás quatro horas porém se começou a vestir com tantos esmeros, que o

Bento, cançado das gravatas que o Snr. Dr. experimentava e arremessava

amarfanhadas para o divan, não se conteve:

--Ponha a de sedinha branca, Snr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica

melhor! E refresca mais, com este calor.

Na escolha d'um ramo para o casaco ainda requintou, juntando as côres

heraldicas dos Ramires, um cravo amarello com um cravo branco. Ao

portão, apenas montára na egoa, temeu que as senhoras (não o encontrando

no Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da

Portella. Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real, soltou

n'um galope impaciente que o branqueou de poeira.

Só retomou um passo indifferente, ao acercar da linha do Caminho de

Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam deante da

cancella, que se fechára para a lenta passagem d'um trem carregado de

pipas. Um d'esses homens, d'alforge aos hombros, era o Mendigo--o

vistoso Mendigo que passeava por aquellas aldeias a rendosa magestade

das suas barbaças de Deus fluvial. Erguendo gravemente o chapéo de

vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia de Nosso Senhor.

--Então hoje a ganhar a rica vida por Craquêde?...

--Cá me arrasto ás vezes para a passagem do comboio d'Oliveira, meu

Fidalgo. Os passageiros gostam de me vêr de pé no talude, correm sempre

ás janellas...

Gonçalo, rindo, recordou que o encontro d'aquelle ancião precedia sempre

um encontro seu com a bella D. Anna.--«Quem sabe? pensou. É talvez o

Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e longas

guedelhas, e o alforge ás costas contendo as sortes humanas...»--E com

effeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas resteas de sol

docemente douravam--avistou a caleche da _Feitosa_, parada sob uma

carvalha, com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A

estrada real de Oliveira costeia ahi o antigo adro do mosteiro de

Craquêde, queimado pelo fogo do céo, n'aquella irada tempestade que

chamam _de S. Sebastião_, e que aterrou Portugal em 1616. Uma herva

agora alfombra o chão, crescida e verde, entre os poderosos troncos dos

castanheiros velhissimos. A Egrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo

da ramaria: e, ligada a ella por um muro esbrechado que densa hera

veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro--sobe, enche ainda

magnificamente o céo lustroso, a fachada da Egreja do vetusto Mosteiro,

suavemente amarellecida e brunida pelos tempos, com o seu immenso portal

sem portas, a rosacea desmantelada, e esvasiados os nichos

d'enterramento onde outr'ora se estiraçavam as imagens dos fundadores,

Froylas Ramires e sua mulher Estevaninha, condessa d'Orgaz, por alcunha

a _Queixa-perra_. Duas casas terreas povoam o lado fronteiro do

adro--uma limpa, com as hombreiras das janellas pintadas d'azul

estridente, a outra deserta, quasi sem telhado, afogada na verdura d'um

quinteiro bravo onde gira-soes resplandecem. Um pensativo silencio

envolvia o arvoredo, as altivas ruinas. E nem o quebrava, antes

serenamente o emballava, o susurro d'uma fonte, que a estiagem

adelgaçára em fio lento, e mal enchia o seu tanque de pedra, toldado

pela pallida e rala folhagem d'um chorão muito alto.

O trintanario da _Feitosa_, ao enxergar o Fidalgo, saltou risonhamente

da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a egoa. E Gonçalo,

que desde pequeno não penetrava nas ruinas de Craquêde, seguia por um

carreirinho cortado na relva, attentamente, encantado com aquella

romantica solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do portal,

appareceram as duas senhoras voltando do velho Claustro. D. Maria

Mendonça, com a sua sacudida vivacidade, agitou logo o guarda-sol de

xadrezinho, semelhante ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente

nos hombros, lhe vincavam mais a elegancia esgalgada. E ao lado, na

claridade, D. Anna era uma silenciosa e esvelta fórma negra, de lã negra

e d'escumilha negra, onde apenas transparecia, suavisada sob o véo

negro, a brancura explendida da sua face sensual e séria.

Gonçalo correra, erguendo o chapéo de palha, balbuciando o seu «prazer

por aquelle encontro...» Mas já D. Maria o reprehendia, sem lhe

consentir a fabula do «encontro»:

--O primo não é nada amavel, nada amavel...

--Oh prima!...

--Pois sabia que vinhamos, pela minha carta! E nem está á hora aprazada,

para fazer as honras, como devia...

Elle, rindo, com o seu desembaraço airoso, negou esse dever! Aquella

casa não era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia «fazer as

honras»--acolher tão doces romeiras com algum milagre amavel...

--E então, gostaram? V. Ex.^a, Snr.^a D. Anna, gostou das ruinas?...

Muito interessantes, não é verdade?

Através do véo, com uma lentidão que a espessa renda negra tornava mais

grave, ella murmurou:

--Eu já conhecia... Vim cá uma tarde, com o pobre Sanches que Deus haja.

--Ah...

Áquella evocação do pobre morto, Gonçalo sumira todo o sorriso, com

polida tristeza. Mas D. Maria Mendonça acudio, atirando um dos seus

magros gestos, como para arredar a sombra importuna:

--Ai! não imagina o que gostei, primo! É d'appetite todo o claustro...

Logo aquella espada enferrujada, chumbada por cima do tumulo... Não ha

nada que impressione como estas cousas antigas... Oh primo, e pensar que

estão alli antepassados nossos!

O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e acolhedor, como sempre

que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de

Ramires. E gracejou, affavelmente. Oh, antepassados... Simples punhados

de cinsa vã!--Pois não era verdade, Snr.^a D. Anna?... Realmente! quem

conceberia que a prima Maria, tão viva, tão sociavel, tão engraçada,

descendesse d'uma poeira tristonha guardada dentro d'uma pia de pedra?

Não! não se podia ligar tanto _ser_ a tanto _não-ser_...--E como D. Anna

sorria, n'uma vaga concordancia, encostando as duas mãos fortes e muito

apertadas na pellica negra ao alto cabo d'aljofar da sombrinha, elle

atalhou com interesse:

--V. Ex.^a está talvez cançada, Snr.^a D. Anna?

--Não, não estou cançada... Ainda vamos mesmo entrar na capella, um

bocadinho... Eu nunca me canço.

E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa creatura não rolava do papo,

tão grossa e gorda--mas que se afinára, adoçada e velada pelo luto

d'escomilha e lã, como esses grossos e rolantes rumores que a noite e o

arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confessou o seu immenso cançasso! Nada

a esfalfava como visitar curiosidades... E além d'isso a emoção, a ideia

de heroes tão antigos!

--Se nos sentassemos n'aquelle banco, hein? É muito cedo para

recolhermos, não é verdade, Annica? E está tão agradavel n'este socego,

n'esta frescura...

Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em

torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros

malmequeres e botões d'ouro que o sol d'Agosto poupára. Um aromasinho

fino, d'algum jasmineiro emmaranhado na hera, errava, adocicava a serena

tarde. E na rama d'um alamo, defronte do portão da Capella, duas vezes

um melro cantára. Gonçalo sacudiu todo o banco cuidadosamente, com o

lenço. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou tambem a frescura,

o recolhimento d'aquelle cantinho de Craquêde... E elle que nunca se

aproveitára de refugio tão santo, e quasi seu, nem mesmo para um almoço

bucolico! Pois agora certamente voltaria fumar um charuto, revolver

ideias de paz sob a paz das carvalheiras, na visinhança dos vovós

mortos... Depois, com uma curiosidade:

--É verdade, prima! E o subterraneo?

Oh! não existia subterraneo!... Sim, existia--mas entulhado, sem

sepulturas, sem antiguidades. E o sachristão logo lhes affiançára que

«não valia a pena sujarem as saias...»

--É verdade, oh Annica, déste alguma cousa ao sachristão?

--Oh filha, dei cinco tostões... Não sei se foi bastante.

Gonçalo assegurou que se pagára sumptuosamente ao sachristão. E, se

prevesse tamanha generosidade da Snr.^a D. Anna, agarrava elle um mólho

de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar--e para embolsar...

--Pois é o que devia ter feito! exclamou D. Maria, com um corisco nos

espertos olhos. E decerto se lhe davam os cinco tostões! Porque sempre

sería mais instructivo que o homemsinho, que mascava, não sabia nada!...

Semelhante morcão! E eu com tanta curiosidade por aquelle tumulo aberto,

com a tampa rachada... O môno só soube resmungar que «eram historias

muito antigas lá do Fidalgo da Torre...»

Gonçalo ria:

--Pois essa historia por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo _Fado

dos Ramires_, o fado do Videirinha...

D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos aos céos, revoltada com

aquella indifferença pelas tradições heroicas da Casa. Conhecer sómente

os seus Annaes desde que elles andavam repicados n'um fado!... O primo

Gonçalo não se envergonhava?

--Mas por quê, prima, porquê? O fado do Videirinha está fundado em

documentos authenticos que o Padre Sueiro estudou. Todo o recheio

historico foi fornecido pelo Padre Sueiro. O Videirinha só poz as rimas.

Além d'isso antigamente, prima, a Historia era perpetuada em verso e

cantada ao som da lyra... Em fim quer saber esse caso do tumulo aberto,

segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre conto! Mas só para a Snr.^a

D. Anna, que não soffre d'esses escrupulos...

--Não! acudiu D. Maria. Se o Videirinha tem essa auctoridade historica

então conte tambem para mim, que sou da Casa!

Gonçalo, por gracejo, tossio, passou o lenço pelos beiços:

--Pois eis o caso! N'esse tumulo habitava, naturalmente morto, um dos

meus avós... Não me lembro o nome, Gutierres ou Lopo. Creio que

Gutierres... Emfim, lá jazia quando foi da batalha das Navas de

Tolosa... A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco reis

mouros, etc... Como o tal Gutierres soube da batalha não contam os

versos do Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a carnificina,

arromba o tumulo, sahe por este pateo como um desesperado, desenterra o

seu cavallo que fôra enterrado no adro onde agora crescem estes

carvalhos, monta n'elle todo armado, e, Cavalleiro morto sobre cavallo

morto, larga a galope através da Hespanha, chega ás Navas, arranca a

espada, e destroça os mouros... Que lhe parece, Snr.^a D. Anna?

Dedicára a historia a D. Anna, procurando nos seus bellos olhos a

attenção e o interesse. E ella, que a furto, através do decôro

melancolico a que se esforçava, adoçára o sorriso, attrahida e levada,

murmurou apenas:--«Tem graça!»--D. Maria, porém, quasi esvoaçou sobre o

banco de pedra, n'um extasis:--«Lindo! Lindo! Que poesia!... Oh! uma

lenda de todo o appetite!»--E, para que Gonçalo desenrolasse ainda a

graça do seu dizer, outras maravilhas da sua Chronica:

--Conte, primo, conte... E voltou para Craquêde esse tio Ramires?

--Quem, prima, o Gutierres?... Ou fosse elle tolo! Apenas se apanhou

livre da massada da sepultura não appareceu mais em Santa Maria de

Craquêde. O tumulo vasio, como está, e elle por Hespanha n'uma pandega

heroica!... Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo,

d'aquella postura eterna, tão apertada, tão esticada!...

Subitamente emmudeceu, lembrando o Sanches Lucena, tambem esticado no

seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo d'Oliveira...--D. Anna

baixára a face, mais sumida no véo, esfuracando a herva com a ponta da

sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente que

de novo os roçára, rompeu n'outra curiosidade, que ainda se encadeava na

nobreza dos Ramires:

--É verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar. O primo ainda tem

muitos parentes em França... Talvez tambem não saiba?

Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa historia dos seus parentes de

França--apezar de que o Videirinha os não cantára no Fado!

--Então conte! Mas que seja historia alegre!

Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô Ramires, Garcia Ramires,

acompanhára nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o filho

d'El-Rei D. João I... A Prima Maria sabia--o Infante D. Pedro, o que

correu as Sete Partidas do mundo... Pois o Infante D. Pedro e os seus

fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um anno inteiro na Flandres,

com o Duque de Borgonha. Até se celebraram então festas maravilhosas,

com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compendios da

Historia de França. Onde ha danças ha amores. A avô Ramires sobejava

imaginação e arrojo... Fôra elle que deante de Jerusalem, no Valle de

Josaphat, lembrára que se erguesse um _signal_ para que o Infante e os

seus companheiros de romagem se reconhecessem no grande Dia de Juizo.

Depois, naturalmente, bello mocetão, de barba negra e cerrada á

Portugueza... Emfim casára com uma irmã do Duque de Clèves, uma tremenda

Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e Brabante. Mais tarde, através

d'essas ligações, uma avó Ramires, já viuva, casou tambem em França com

o conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gran-Mestres de França,

possuiam o mais formidavel castello da Europa, e...

A Illustre Casa de Ramires · 第 12 / 25 题