D. Maria Mendonça considerava o Governador Civil com um espanto amavel:

--Pois se o Snr. Cavalleiro não admira a Rosinha Alcoforado, não sei

então que rapariga admire dentro do seu Districto...

Elle, logo, com galante rasgo:

--Mas, além de V. Ex.^{as}, não admiro ninguem! Realmente eu governo, em

Portugal, o Districto mais daprovido de belleza...

Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a

Mellosinho Alboim, com aquelles olhos?... Mas o Cavalleiro não

consentia, a todas demolia com um sarcasmo leve, ou pela pelle sem

frescura, ou pelo pisar desairoso, ou pelo provincianismo de gosto e

modos, sempre pela carencia das bellezas e graças que ornavam

Gracinha--lançando assim disfarçadamente, aos pés de Gracinha, um rôlo

de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ella percebera a subtil adulação,

os seus olhos allumiaram com um fulgor mais enternecido o rubor que a

afogueava. Desejou repartir incenso tão accumulado--lembrou timidamente

outra belleza de que se orgulhava o Districto:

--A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso... É linda!

O Cavalleiro triumphou com facilidade:

--Mas tem doze annos, minha senhora! Nem é rosinha, é botãosinho de

rosa!...

Quasi humildemente, Gracinha recordou a Luiza Moreira, filha d'um

lojista, muito admirada aos domingos na missa da Sé e no Terreiro da

Louça:

--É uma bella rapariga... Sobretudo a figura...

Cavalleiro triumphou ainda, com requebrada segurança:

--Sim, mas os dentes tortos, Snr.^a D. Graça! Os dentes acavallados! V.

Ex.^a nunca reparou... Oh! uma bôca muito desagradavel! E, além dos

dentes, o irmão, o Evaristo, com aquella cara mais chata que a alma, e a

caspa, e a porcaria, e o jacobinismo... Não ha mulher bonita com irmão

tão feio!

Mendonça estendera o braço, com outra curiosidade que occupava Oliveira:

--E por Evaristo!... Elle sempre funda o novo jornal republicano, o

_Rebate_?

O Snr. Governador Civil encolheu os hombros com uma ignorancia superior

e risonha. Mas João Gouveia, vermelho e luzidio depois da sua garrafa de

Corvello e da sua garrafa de Douro, affiançou que o _Rebate_ apparecia

em Novembro. Até elle conhecia o patriota que esportulava a «massa.» E a

campanha do _Rebate_ começava com cinco artigos esmagadores sobre a

Tomada da Bastilha.

O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo alastrára em

Portugal--até na velhota, na devota Oliveira...

--Quando eu andava em preparatorios existiam simplesmente dois

republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Rhetorica, e eu.

Agora ha partido, ha comité, ha dous jornaes... E ha mesmo o Barão das

Marges com a _Voz Publica_ na mão, debaixo da Arcada...

Mendonça não receava a Republica, gracejava:

--Ainda vem longe, muito longe... Ainda nos dá tempo de comermos estes

bellos ovos queimados.

--Deliciosos, murmurou o Cavalleiro.

--Sim, concordou Gonçalo, ainda temos tempo para os ovos... Mas que

rebente uma revolução em Hespanha, ou que morra o Reisinho na sua

menoridade, que naturalmente morre...

--Credo! Coitadinho! Pobre mãe! murmurou Gracinha sensibilisada.

Immediatamente o Cavalleiro a tranquillisou. Porquê, morrer o Reisinho

d'Hespanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males da

excellente creança. Mas elle conhecia a realidade--assegurava á Snr.^a

D. Graça que, felizmente para a Hespanha, ainda reinaria um Affonso XIII

e mesmo um Affonso XIV. Em quanto aos nossos republicanos, esses... Meu

Deus! mera questão de guarda municipal! Portugal, nas suas massas

profundas, permanecia monarchico, de raiz. Apenas ao de cima, na

burguezia e nas escolas, fluctuava uma escuma ligeira, e bastante suja,

que se limpava facilmente com um sabre...

--V. Ex.^a, Snr.^a D. Graça, que é uma dona de casa perfeita, conhece

esta operação que se faz á panella do caldo... Escumar a panella. É com

uma colher. Aqui é com um sabre. Pois assim, com toda a simplicidade, se

clarifica Portugal. E foi isto que ainda ultimamente eu declarei a

El-rei.

Alteára a cabeça--o seu peitilho resplandecia, mais largo, como couraça

bastante rija para defender toda a Monarchia. E, no compenetrado

silencio que se alargou, duas rolhas de Champagne estalaram, por traz do

biombo, na copa.

Apenas o escudeiro, apressado, enchêra as taças--o Fidalgo da Torre com

uma gravidade que o sorriso adoçava:

--André, á tua saude. Não é ao Governador Civil, é ao amigo!

Todos os copos se ergueram n'um susuro acariciador. João Gouveia agitou

o seu, com especial effusão, gritando:--«Andrésinho, meu velho!» S.

Ex.^a apenas tocou de leve no calice de Gracinha. Padre Sueiro murmurou

as «graças.» E Barrôlo, atirando o guardanapo:

--Café aqui ou na sala?... Na sala estamos mais frescos.

Na sala grande, a sala dos velludos vermelhos, o lustre rebrilhava

solitariamente; pelas tres janellas abertas penetrava a serenidade da

noite quente, o recolhido silencio d'Oliveira; e em baixo, no Largo,

alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã branca pela cabeça,

pasmavam para aquella claridade de festa que jorrava dos Cunhaes. O

Cavalleiro e Gonçalo accenderam os charutos na varanda, respirando a

frescura escassa. E o Cavalleiro, com beatitude:

--Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta sublimemente em casa de

teu cunhado!...

Gonçalo desejou que, no domingo, elle jantasse na Torre. Ainda restavam

umas garrafas de Madeira do tempo do avô Damião--a que se daria, com

soccorro do Gouveia e do Titó, um assalto heroico.

O Cavalleiro prometteu, já deliciado--tomando da pesada bandeja de

prata, que derreava o escudeiro, a sua chavena de café, sem assucar.

--E tu, com effeito, Gonçalo, agora não deves arredar da Torre. O teu

papel é todo de presença na localidade. O Fidalgo da Torre está no meio

das suas terras, por onde vae ser eleito para as Côrtes. É o teu

papel...

O Barrôlo com um riso enlevado, surdiu entre os dous amigos que enlaçou

ternamente pela cinta:

--E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o Cavalleiro e eu!...

Mas D. Maria, do canapé onde se enterrára, reclamou o primo Gonçalo

«para negocios.» Junto d'uma console, João Gouveia e Padre Sueiro,

remexendo o seu café, concordavam na necessidade d'um Governo forte. E

Gracinha, com o primo Mendonça, revolvia as musicas sobre a tampa do

piano, procurando o _Fado dos Ramires_. Mendonça tocava com corredio

brilho, composera valsas, um hymno ao Coronel Trancoso, o heroe de

Machumba--e mesmo o primeiro acto d'uma opera, _A Pegureira_. E como não

descortinavam o _Fado_ com as quadras do Videirinha--foi justamente uma

das suas valsas, a _Perola_, d'uma cadencia amorosa e cançada lembrando

a valsa do Fausto, que elle atacou, sem largar o charuto.

Então André Cavalleiro, que repenetrára vagarosamente na sala, repuxou o

collete, afagou o bigode, e avançando para Gracinha, com um modo meio

grave, meio folgazão:

--Se V. Ex.^a me quer dar a grande honra?...

Offerecia, abria os braços. E Gracinha, toda escarlate, cedeu, levada

logo nos largos passos deslisados que o Cavalleiro lançou sobre o

tapete. Barrôlo e João Gouveia correram a afastar as poltronas,

clareando um espaço, onde a valsa se desenrolou com o suave sulco branco

do vestido de Gracinha. Pequenina e leve, toda ella se perdia, como se

fundia, na força mascula do Cavalleiro, que a arrebatava em giros

lentos, com a face pendida, respirando os seus cabellos magnificos.

Da borda do canapé, com os finos olhos a fusilar, D. Maria Mendonça

pasmava:

--Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Snr. Governador Civil!...

Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode, na surpreza d'aquella

familiaridade, assim renovada pelo Cavalleiro com tão serena confiança,

por Gracinha com tanto abandono... Elles torneavam, enlaçados. Dos

labios do Cavalleiro escorregava um sorriso, um murmurio. Gracinha

arfava, os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava

nas calças do Cavalleiro. E Barrôlo, em extasi, quando elles o roçavam,

atirava palmas carinhosas, bradava:

--Bravo! Bravo! Lindamente!... Bravissimo!

A Illustre Casa de Ramires · 第 11 / 25 题