e cavado ermita do mosteiro de Betlem, a influencia que tiveram nos seus
escríptos o estylo delicado de Cicero, Horacio, e os licenciosos poetas
pagãos? Nenhuma influencia se operou talvez visivel; mas talvez muitas
secretas e particulares.
É por isso que compete ao escriptor trabalhar a sua idea, lapidal-a,
polil-a, desenvolvel-a, facetal-a, de maneira que ella seja como que um
grande elo em que se vão encatenar um rosario luminoso d'outas novas, e
que ella saia transformada d'esse vasto laboratorio intellectual, por um
processo mysterioso semelhante ao do que faz a Natureza transformando da
lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.
O escriptor é um producto litterario do seu tempo, das suas leituras, do
seu temperamento, do seu estudo--e obedece mais que tudo ainda á sua
consciencia, e a influencia do Sol sob que nasceu.
O poeta que não obedece a nada d'isto--não é um poeta na grande accepção
da palavra: É um plagiario, um parasita que vive da imitação servil dos
outros, e que é tão digno de se agremiar a elles como o sapo de fazer
união com as borboletas.
É por isso, pois, que este primeiro livro é d'um meridional; mas d'um
meridional moderno, que celebra o Sol por que desperta o homem para a
Acção para a Vida e para o Trabalho, e que achou curioso,--no seu
tempo--fazer um livro de vida, d'imaginação, de ironia, de sol, e de
liberdade--o mais heroico dos ideaes.
Mau grado algumas affeições litterarias dos começos do auctor--entre as
duas escolas modernas de que tanto se tem discutido, o _satanismo_ e o
_realismo_, não preferiu nem uma nem outra.
O _satanismo_ por que tem uma philosophia absurda que consiste em querer
ao eterno equilibrio do Bem e do Mal, em que se baseia a harmonia da
Natureza que assombrava Rousseau e que lhe valeu de Voltaire a sangrenta
satyra do doutor _Pangloss_--antepor, pertinazmente, o predominio do
Mal.
E o _realismo_, reduzido ás condições de escola--isto é de
convenção--por que debaixo d'uma vã, rhectorica, apparencia d'analyse,
de critica e de experiencia, revela o sordido e o obsceno, ou cae como o
_satanismo_ na preoccupação do Mal em tudo, e a descrevel-o--o que é
mais desagradavel ainda.
Na pintura o _realismo_, com processos exagerados e abusando das
minuciosidades tem procurado impôr pela verdade, ora procurando o _feio_
com um furor, como nunca a Arte Antiga se lançou no Bello, ora abusando
dos pormenores, como se a pintura podesse retratar a Natureza, e se o
fim da Arte não fosse servir-se d'ella como meio.
Alguns pintores inglezes da escóla realista chegaram a fazer quadros
curiosissimos de serem analysados a microscopio; tal era a fidelidade e
o rigor das _menores_ cousas.
E, comtudo este exagero não póde nunca dar senão a consciencia ou a
medida d'um talento d'um artista, e não a vastidão d'um genio, que não
póde nunca restringir-se a pequenos effeitos visuaes, ou á fidelidade.
Alem d'isso, se a simples fidelidade fosse a maior aspiração da Arte, o
microscopio d'um observador inglez teria direito quasi a procurar n'um
copo d'agua os animalculos que a povôam.
Todas as extravagangias da escola bolonheza, de Paulo Veronezo e seus
seguidores, ostentando em todos os quadros as magnificencias da
architectura, d'entre os quaes um d'elles ficou mui celebre, as _Bodas
do Caná_, não teem nada d'exagerado em relação ao furor, e á preocupação
quasi comica do _feio_, que domina Courbet e os seus neóphitos.
Os poetas realistas, esses mais declamadores do que profundos, mais
horrivelmente minuciosos do que verdadeiros, teem feito um mundo de
mulheres perdidas, de Manfedos de crapula, de trufas, de velludos, e de
lepras, e teem-se posto n'uma tal gamma d'inspiração, simulando a
sciencia, e affectando chamarem ao diamante _vil carvão_, que teem
tirado a poesia a tudo,--á arvore, á flor, ao diamante, e até ao carvão.
Estes são os exageros em que ultimamente tem caido esta escóla, e dos
quaes já agora morrerá,--descrevendo ainda uma pustula.
Entre pois estas hesitações e absurdos d'escólas, o auctor achou melhor
não preferir nenhuma, reservando todas as suas affeições para uma poesia
mais sadia, forte e verdadeira, e que não desprese nem o amor, nem a
imaginação, nem a liberdade.
Esta poesia nova, que procura o seu caminho tão gloriosamente no meio
d'estes tempos tão turbados, já certa de triumphos verdadeiros, e a que
alguns teem chamado Humanismo, é a que comprehendendo o homem com todas
as suas paixões e as suas virtudes, nem deprimindo-o scepticamente, nem
fazendo-o perder chimericamente nos astros, ha de estebelecer o
verdadeiro equilibrio entre o _ideal_ e o _real_, e mirando como a
philosophia a melhorar a humanidade e a alargar o ideal humano, ser
digna da nobre missão que n'estes tempos lhe está confiada.
Mau grado as vãs declamações ultimas contra o _lyrismo_, por alguns
pregoeiros d'uma theoria de que não ouviram senão a primeira palavra, o
auctor está convencido de que a verdade, a pureza e o sentimento são e
foram sempre os distinctivos d'um verdadeiro artista, e que aquelle
poeta que jámais cantou a Mulher e o Amor, é um ente tão duhio na
Sociedade, como um sacerdote da deusa _Tani_ em Carthago.
Alem d'isso recorda-se e recorda aos declamadores levianos que Lucrecio
no mais bello e admiravel poema philosophico sobre a Natureza, que se
tem escrito no mundo, _De natura rerum_, começou por uma elevada
invocação a Venus--que é a mulher na Antiguidade feita deusa.
Hoje um poeta moderno que tem um ideal da mulher muito mais nobre, mais
puro, mais casto, devido á philosophia christã, por que não ha de tratar
de a engrandecer, de a elevar e distinguir, dando-lhe--como Philosophia
e como Arte--o papel que ella tem direito a representar na
sociedade--banindo dos seus livros a poesia da cortezã?!
O auctor no seu livro apenas duas ou tres vezes alludiu a ellas, e foi
para as lamentar, e, talvez, injustamente, para as condemnar.
Injustamente; porque a bondade é tambem uma justiça superior; e uma das
grandes missões do poeta é a d'alem de ser justo, ser bom.
E em nenhuns tempos a missão do poeta foi tão grande de cumprir como
hoje.
Uma pretenciosa e depravadora lepra lavra na sociedade; uma enorme
corrupção de gosto e de ideal nas letras. O jornalísmo, a parte mais
deficiente da litteratura portugueza, toma sobre a desgraçada ignorancia
geral um ascendente que seria comico se não fosse para lamentar, e
invade como uma grande corrente, sem dique, a opinião publica, reduzindo
a Economia, a Arte, a Politica e a Philosophia a questões de visinhas
despeitadas.
A Mocidade, de quem ha tanto a esperar, explora avidamente o _bel
esprit_ que tanta indignação causava a Rousseau, todo forjado segundo os
moldes mais deploraveis do espirito sem ideal francez, e que está para a
verdadeira ironia austera e demolidora, como Proudhon está para uma
_cocotte_ e o sentimento de Chénier está para o sentimentalismo de salla
de Feuillet.
Tendo-se o auctor feito conhecer por algumas poesias liberaes, muitos
perguntarão talvez a rasão por que não deu no seu livro mais latitude á
ultima parte.
Essa razão foi unicamente a de não querer fazer um livro exclusivamente
didactico, e por que as poesias que publicou e que entravam no plano do
seu livro lhes restringiram o espaço.
Alem d'isso porque tambem, as luctas religiosas da Allemanha, os eternos
combates entre a Egreja e o Estado lhe haviam feito conceber o plano do
_Antichristo_, onde mais latamente poderia desenvolver algumas theorias
e tratar questões do mundo politico e religioso.
Quanto a esta obra, seja qual fôr o logar que a Critica lhe faça
occupar, ella não é mais do que a primeira pedra d'um edificio que
existe todo construido na imaginação do auctor.
Mas por muito insignificante que ella seja, elle recorda a todos que se
teem visto n'uma sociedade esterelisadora, em lucta continua com um
ideal novo e grande, como Jacob toda a noute com o anjo, que o seu
desejo constante foi sempre fugir do _exagero_ e do _mau gosto_.
Se nem sempre o conseguiu, ainda assim os justos, e os fortes, pela sua
vontade, o saberão apreciar.
*ERRATAS NECESSARIAS*[5]
O leitor curioso póde, para mais facilidade na leitura, fazer estas
emendas na margem do livro.
Na poesia _Lisboa_, 5.^a estrophe, 3.^o verso, leia-se em vez de
_prisões_, _procissões_.
_N'aquelle Sabio_, 2.^a estrophe, 1.^o verso, leia-se: _Tem assim ares
d'empyrico_.
Na _Joven Miss_, 2.^a quadra, 2.^o verso, leia-se: _Cria em nós todo um
mundo de moral_; e A _Uma voz celeste_, 9.^a quadra, 3.^o verso: _Eu que
nos astros leio_.
Em _Junto do Mar_ dever-se-ha lêr: _O mar cheio de medos e soluços_,
9.^a quadra 4.^o verso; _O sangue dos nossos males_, em _Tristissima_,
5.^a quadra, 4.^o verso.
Não citamos aqui suppressões de lettras e virgulas, que o leitor póde
corrigir facilmente.
INDICE
*INSPIRAÇÕES DO SOL*
Hymno ao Sol
Á Janella do Occidente
Os Santos
D. Quixote
O Publicano
A Lyra de Nero
Mysticismo Humano
Monges de Zurbaran
A Bella Flor Azul
Hora do meio dia
Cantiga do Campo
A Aguia
Accusação á Cruz
Luthero
A Terra
O Ouro
O Budha
No Calvario
Héli! Héli!
As Aldeias
Beneficios e Philosophia do Sol
Disputa
As Cathedraes
Lycanthropia
O Peccado
Soneto d'um poeta morto
A uma Judia
A Visita
Palacios antigos
Cain
A Primavera
*REALIDADES*
Accusação a Christo
De noute
Aquelle sabio
Na Taberna
Os Lobos
Miseria occulta
Lisboa
A sesta do senhor Gloria
Farça triste
Madrigal da rua
*CARTEIRA D'UM PHANTASISTA*
Antes d'abrir a carteira
A noute de noivado
A tortura das chimeras
Tarde de verão
Na cabeceira d'um leito
Madrigal excentrico
Aquella orgia
O Visionario ou Som e Côr
Madrigal funebre
Debaixo d'uma janella
A Selvagem
A Lanterna
Ultima phase da vida de D. Juan
Ultima ceia de Falstaff
Falstaff moderno
Na rua
Phantasias da lua
O Selvagem
O amor do vermelho
A um corpo perfeito
Carta ao Mar
A lenda das rosas
No enterro d'um coração
A Joven Miss
O doente romantico
Quadra d'um desconhecido
Em viagem
Noutes de chuva
Idylio meridional
Duas quadras de Diogenes no album de Lais
A Camelia negra
A ultima serenada do Diabo
A Musa verde
Idyllio d'aldeia
Carta ás estrellas
Na folha d'um livro
Os Brilhantes
O Astrologo
*MYSTICISMO*
Dedicatoria
Os deuses mortos
Debaixo das hervas
A uma voz celeste
Á pomba que voou
Tristissima
Idyllio triste
A um lyrio
A uma andorinha
Entre os arvoredos
Confissão a uma violeta
A sua camara
Hora mystica
Junto do Mar
Doente
N'um cemiterio
Despedida ao Sol
*HUMORISMO*
A Aranha
Nova ballada do rei de Thule
Phantasias d'um aborrecido
El Desdichado
A Valentina de Lucena
Phantasias
A Biographia de Satan
Agua furtada d'um Original
Bilhete d'um estudante
A lady
Dedicatoria d'um livro
Humorismo mystico
O Cannibal
Romantismo
Aventuras
O inconveniente de matar a mulher
Um Blasé
O Velho
*RUINAS*
Farrapos
Aos vencidos
O Mundo velho
Aos vencedores
A Canalha
O Novo Livro
Algumas palavras
Notas:
[1] Esta poesia só tem referencia ao estrangeiro; Hespanha, Italia, e
principalmente França. Em Portugal o absynto não faz estragos.
[2] Esta poesia já foi publicada sob um pseudonymo.
[3] Este soneto foi dedicado a Dumas filho, pela occasião da celebre
questão do Homen-Mulher, que deu origem a um diluvio de folhetos e
publicações.
[4] O Antichristo.
[5] Nota de pós-processador do DP: todos os erros apontados foram
corrigidos.