Ao lado mora-me um visinho manco

Que faz dos sinos unico regallo...

E gosa da união d'um saltimbanco,

Que anda pintado de vermelho e branco,

E toda a noute canta como um gallo.

Defronte uma visinha costureira,

Doce lyrio que treme a um vento vario...

Que canta a manhã toda e a tarde inteira...

E tem deixado cá para a trapeira

Duas vezes fugir o seu canario!...

Toda a noute o sineiro tem secretos

Desejos de espreitar como é que eu passo!...

Imita o som dos sinos indescretos...

E canta, n'uma voz que abala os tectos,

Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só n'uma trapeira...

Onde as pennas das pombas deixam rastros...

Exposta todo o dia á soalheira,

E onde passo dormindo a vida inteira,

Nas visinhanças limpidas dos astros!

*BILHETE D'UM ESTUDANTE*

D'aquelle esguio telhado

--Onde tu sabes que eu moro,

Eu acho os astros d'um ouro

Já bastante mareado!

Nenhum d'elles val a trança

Dos teus cabellos compridos!

Por isso meu peito lança

Ao teu telhado gemidos!

Se eu fosse Deus, minha amada!

--Dar-te-hia Satan m'esfólle!--

Uma cartinha fechada,

Servindo de lacre o Sol.

Mas sou um predio em ruinas,

--Não tenho nada commigo,

Sou um deus feito mendigo,

Que tomo o sol ás esquinas.

Divago roto e contente!...

--Odeio um lente--e o Philyntho!

E sob este azul clemente,

Triumpho alegre e faminto!

Meus deuses são Vico e Dante!--

E gosto, no meu caminho,

Encontrar Minerva amante,

E as Musas cheias de vinho.

Como um barco sem amarra,

Navego, turgidas vellas,

E desafio as estrellas,

Á noute, sobre a guitarra!

E a cabello louro ou preto--

--Fragillidades do barro!

Envio sempre um soneto

Na mortalha d'um cigarro!

Erro sem norte e sem tino!

--Ninguem m'estende o seu braço!

Quer-me por força o destino

Comendador ou palhaço!

*Postscriptum.*

Desculpa-me, flor amada!

--Ó minha Musa divina!

Não fui hontem á escada,

Por que empenhei a batina!...

*A LADY*

Aquella que me tem agora, presa

Minha alma, meus sentidos, meus cuidados,

E me faz sonhar sonhos desmanchados,

É uma altiva, uma olympica ingleza.

Nunca typo ideal de mais pureza

Vi nos gothicos quadros mais presados,

Seus dôces olhos castos e velados

Tem um ar, infinito, de tristeza.

Tem uns gestos de deusa que caminha,

Fronte grega, e um ar grande de Rainha;

E umas mãos, como as ladys de Van Dick.

Segue-a sempre um lacaio, e tristemente,

É por ella que eu morro, lentamente...

E ponho no bigode _cósmétique_.

*DEDICATORIA D'UM LIVRO*

A Ti, a quem, eu, sempre, em meus idyllios,

Sublimo, em phrases ternas...

Te dedico, eu, vergonha dos Virgilios!

Estas rimas _modernas_.

Para que, minha fama, inda hoje escura,

A tua boca espalhe,

Ao lel-as, no intervallo da leitura

Das obras de _Terrail_.

E as guardes na gaveta, onde costumas

Guardar os teus velinos...

Entre os frascos, essencias, mais as plumas,

E os novos figurinos.

Que possam occupar teus pensamentos

Meus lyricos ensaios!...

E, ó meu bem! lhes concedas os momentos

Que dás aos teus lacaios

E vejas quanto em mim é aviltante

O amor das fórmas tuas...

Que me faz baixo, vil e semelhante

Aos histriões das ruas.

A Ti, que com teu rir sempre me animas

A sagrar-te em meus motes,

Dedico eu estas modernas rimas

Para os teus... _papelotes_.

*HUMORISMO MYSTICO*

(Ao Dr. Thomaz de Carvalho)

Quando eu morrer, se acaso inda presares

Aquellas nossas digressões antigas

Ao verde campo, e as joviaes cantigas

Da aldeia inda apagar os teus pezares...

Se, acaso, inda a giesta, o rosmaninho,

A larangeira e o grande muro branco...

Te lembram... e te vaes sentar no banco

Ás tardes... junto ás tilias do caminho!...

Se, acaso, aquelle nome solitario

Que eu fui gravar um dia no pinheiro,

Vinha descendo o sol... como um guerreiro

Cheio de sangue... atraz do campanhário...

Se, acaso, aquelle nome o tronco duro

Inda o guardou fiel!... e a larangeira!...

E eu não passei por este val escuro

Como uma ave lugubre e estrangeira!...

Se acaso inda te lembra d'esse, a quem

Tanta vez tu vestiste com as tranças!...

E á cova em que eu jazer vier _alguem_...

Sem ser as meigas pombas e as creanças!...

Se acaso aquelle fogo em que te abrasas

Inda não se apagou!... nem o encanto!...

--Mais que a ideal palpitação das azas,

Ser-me-ha doce, meu bem! ouvir teu pranto!

E n'essa cova então bella e dourada,

--Como a nossa união antiga e calma!

Colhe tu uma flor branca e raiada...

--Que n'essa flor te enviarei minha alma!

Toma cuidado n'ella... Ali se encerra

O que amaste!... e, ah! não vás como as mulheres

Curiosas d'amor, lançando á terra

As folhas virginaes dos _malmequeres_!...

Planta-a dentro d'um vaso predilecto...

Entre os outros, á luz... sobre a sacada...

E eu gosarei como um praser secreto,

Sentindo a tua mão pequena e amada!...

Será esse o meu goso derradeiro!...

O meu sol, meu azul, o meu espaço!...

E ao sentir-me regar pelo teu braço...

Lembrar-me-ha o teu osculo primeiro...

Lembrar-me-ha a giesta, o rosmaninho,

A larangeira e o grade muro branco...

--E quando iamos fallar no velho banco,

Ás tardes... junto ás tilias do caminho!

*O CANNIBAL*

(A C. Verde)

Tenho, defronte, uma visinha loura

Cuja carne alva, fina e setinosa,

Faz lembrar, quando á tarde o sol descóra,

A côr humana pallida da rosa.--

Não é fragil, nem debil, vaporosa,

Como as virgens mortaes que a luz não doura,

Antes é forte, esbelta e a voz sonora,

--Tranquilla e altivamente magestosa!

Nasceu formada assim para os amores;

E o modo com que rega as suas flores,

Na varanda, a sorrir, não tem rival!...

Ao vel-a os D. Juans baixam a falla!...

--Mas quanto a mim... quisera _devoral-a_...

Com a fome imbecil d'um cannibal!

*ROMANTISMO*

Quando ergue o transparente da janella,

Ou que o seu quarto se innundou de luz,

Eu amo vel-a seductora e bella

--Longos cabellos sobre os hombros nus!

Oh como é bella! e como fico a olhar

Dos seus cabellos desatando a fita!...

Lembram-me as virgens que do austero ermita

Vinham as noutes d'orações tentar!

Oh como é bella! Tem na luz do olhar

Quaes violetas quando as fecha o somno,

Não sei que doce ou languido abandono,

Não sei que triste que nos faz scismar!

Como eu a espreito, palpitante o seio,

Como eu a sigo nos seu gestos vários...

N'aquelle quarto, aquelle ninho cheio

Da doce voz dos joviaes canarios!...

Como eu quisera ser nos sonhos d'ella

Um rei das lendas, o fatal _D. Juan_,

Pirata mouro em galeões á vella,

Com minaretes sob o ceu do Iran!

Como eu quizera--e que vontade intensa!--

Só pelo brilho d'essa longa trança!

Ser cavalleiro d'invencivel lança,

Ou rei normando d'uma ilha immensa!

Como eu quizera, no seu pensamento,

Ser o rei bardo no rochedo duro,

E ambos fugindo, recortar o vento,

Sobre a garupa d'um cavallo escuro!

Se me morresse, que comprido choro!...

Como vergára sob a cruz da Malta!

Como eu deitara a minha taça d'ouro

Por causa d'ella d'uma torre alta!...

..........................................

E assim por ella fico preso, em quanto

O sol s'esconde no occidente triste,

Um cravo murcha n'uma jarra, a um canto,

--E as aves vôam debicando o alpiste!

*AVENTURAS*

Tenho bem fundo, ainda, a sua imagem

Gravada na minha alma. Era alta e bella;

Tomei _cognac_ muita vez com ella,

E aos circos a levei de carruagem.

Era nervosa e lyrica. De pagem

Não faltavam _Destins_ áquella Estrella,

Lembra-me ainda a scena da janella,

E aquella em que morria na estalagem.

Depois viajou muito. Foi a Hespanha,

A França; Italia; Londres; a Allemanha;

Teve um naufragio, junto de Delhi.

Um corsario vendeu-a na Turquia;

--E hoje, ahi, vive, emfim, e leva o dia

A enxotar as moscas d'um _kadi_.

*O INCONVENIENTE DE MATAR A MULHER*

(A Alexandre Dumas Filho)[3]

Matei-a!... Sobre o leito desmanchado

Morreu!... Mas o remorso me povôa!

E, agora, vago solitario e á tôa,

N'uma tristeza immensa despenhado!

Quando o punhal no arminho immaculado

Enterrei... Sempre a mágoa me corrôa!

Ella chorou, gritando-me... _Perdôa_!

_Morro_!... e morreu!... Ó lyrio ensanguentado!

E agora aonde irei! Horror! Tortura!...

O ceo é o seu olhar! A noute escura

Lembra-me sempre o seu cabello preto!...

E, ó supplicio dos crimes verdadeiros!

--Ouço, em chusma, gritarem-me os livreiros:

_Quando é que sae agora o seu folheto_?...

*UM BLASÉ*

(A S. Nazareth)

Olhando o mundo assim com ar d'enfado,

Casaco abotoado e de luneta,

Caminha com ar grave no Chiado,

Com ar de quem achou algum planeta.

Dizem que nutre uma paixão secreta

Este Musset dos homens ignorado,

E pulsa um coração esphacelado,

Ali debaixo da casaca preta.

A todos diz ha muito andar _blasé_...

E falla em vasar copos d'absyntho,

Como quem bebe orchata ou capilé!...

Mas, Bacho! ó ceus! perdoem-me se minto!

Referem que uma noute, n'um café,

Acharam-o a libar do... _vinho tinto_!

*O VELHO*

D'entre os males crueis da Humanidade,

A que os vis animaes estão sujeitos,

Nenhum mais triste e cheio de defeitos...

Do que a dura e imbecil senilidade!

N'esta quadra de prantos e saudade,

Ha velhos d'alvas barbas sobre os peitos,

Que nos fazem lembrar, pelos seus geitos,

Orang-otangos de provecta edade.

E eu vi um velho assim!... Seus fortes braços...

Tinham como a rijesa dos bons aços...

E os seus gestos seriam d'um guerreiro...

Se não fossem seus labios já sem dentes,

Fazendo uns gestos comicos, ridentes...

--Como um macaco em cima d'um coqueiro!...

SEXTA PARTE

RUINAS

*FARRAPOS*

(A Oliveira Martins)

A ALMA

Estou lassa de ti, mundo em ruinas!--

Velho mundo cruel! nada m'ensinas!

De grande ao coração!

Acaso estás tão gasto e gangrenado?!

A CARNE

--Ah como é bom, sob este azul arcado,

Fazer a digestão!

A ALMA

Prefiro antes cerrar-me solitaria

A sós e o ideal--ó visionaria

Grande ambição do bem!

Como é que o vicio affronta as violetas?!...

A CARNE

Que olhos tão sensuaes! que tranças pretas

Que a quella mulher tem?--

A ALMA

Cansada de soffrer, em vão anceio

O Justo, o Bello!--Ó terra, abre-me o seio!

Bastante, emfim soffri!

Estou lassa do Vicio, e da Impostura!

A CARNE

Dizem que a terra é fria, a cova escura,

E tudo acaba ahi!

A ALMA

Estes tempos são vis, e sem virtude!

Os corpos sem valor e sem saude,

Os peitos sem amor!

A CARNE

Mas ha _corpos_ mui brancos e perfeitos!

Olhos cheios de luz--formosos peitos,

Tranças de negra côr!...

Ha noutes de prazer pelo caminho!

E abunda muito velho e forte vinho

Sem ser falsificado!

Nem tudo é luto e dôr!--Ha muito riso!

--E é mais quente que o antigo Paraiso

O seio do Peccado!

A ALMA

A Morte, a Morte, é o termo das tristezas!

É ali que emfim livres das torpezas!

Se pode ser feliz!

A CARNE

Mas, mau grado essas nobres _theorias_,

--O que passar por mim, findos dous dias,

Tapará o nariz!

A ALMA

O que importa!--Melhor é que pereças!...

Antes na terra ali tu apodreças...

Do que eu, n'estas paixões!...

A CARNE

Assim será talvez! Santas doutrinas!

Mas as pernas gentis das dançarinas

Teem grandes tentações!

A ALMA

Calculos vãos! Contemplações pequenas!

--Seculo vil d'aspirações terrenas,

Cain do Pensamento!

Matas as creanças e bons sonhos puros!

A CARNE

Vou vêr se ponho um capital a juros,

Que dê _cento_ por cento!

A ALMA

Hontem, foram levar á sepultura

Uma santa mulher formosa e pura,

Celeste, livre d'erros!...

Tão virginal!... Ninguem lhe orou na cova!

A CARNE

Mandei fazer uma casaca nova

Para os grandes enterros!--

A ALMA

Nada é mais triumphante que o Egoismo,

A ambição de brilhar, o vil cynismo,

--E, n'este carnaval...

Custa a encontrar um peito bom, sincero!..

A CARNE

Foram-se os castellões, o negro clero!

--Saude ao _Capital_!...

A ALMA

O Capital, bem sei!--A eterna historia

Do assassinio das honras e da gloria,

Do talento e da Idea!...

Vil raça de tyranos e bandidos!...

A CARNE

Silencio! que as paredes tem ouvidos!...

--Cuidado na Cadeia!

A ALMA

Tem quebrantado as almas, as mais fortes!

--Tyrano algum já mais fez tantas mortes,

Nem mais vis proscripções!

A CARNE

Talvez! Talvez! Mas fez, na Sociedade,

Guardar a Lei... firmou a _Propriedade_,

_O juro_ e as _inscripções_!

A ALMA

É elle o protector dos seus _direitos_!

--Ó nobres corações, sem fel nos peitos,

Simples castos e bons!

Deixae-vos fuzillar por essas ruas...

Que vos afoguem as creanças nuas,

Sem sangue e sem _coupons_!

Deixae que o _senhor_ goze--Ó Natureza!

Curvae-vos, passa agora Sua Altesa

Que o mundo assim dispôz!

Callae-vos rouxinoes melodiosos!...

A CARNE

Não sei por que!--São muito saborosos

Cosidos com arroz!

A ALMA

Velho bezerro d'ouro sobe ao throno!

--Ó alma escura, ó terra, ó abandono!...

A vil devassidão...

Roe-vos mais que o bolor, mundo em farrapos!...

A CARNE

Se as meigas andorinhas mais os sapos

Fizeram união!

A ALMA

É isso! O Capital faz maravilhas!

Elle bem sabe ás Mães comprar as filhas,

Dal-as ao lupanar!

Roubar as crenças, honras e a saude!...

A CARNE

Não fazem mais, amantes da Virtude,

Que dar-lhes de jantar!

A ALMA

Quantas tristes que a tysica asphixia...

Sem pão, sem ar, cosendo noute e dia,

Vão nas garras do açôr...

Cair cheias d'opprobrios e martyrios!...

A CARNE

--Obedecem os sapos mais os lyrios

Á lei do eterno amor!

A ALMA

Isto está desabando!... Homens cruentos!

Lançae ao mundo novos fundamentos!...

Venha o Direito e a Lei!

Venha armada, a Justiça vingadora,

E que na grande ceifa... a espiga loura...

A CARNE

Que horror!... bem sei! bem sei!...

A ALMA

Visões, visões talvez! Mas preso e adoro

Estes sonhos vermelhos e côr do ouro

De luta, vida e Acção...

Se não fosse inda a crença santa e ardente!...

A CARNE

--Deixa-me louca em paz--e emfim consente

Que faça a digestão!...

*AOS VENCIDOS*

Quando é que emfim virá o claro dia,

--O dia glorioso e suspirado!--

Que não corra mais sangue, esperdiçado

Á luz do Sol que os mundos alumia?!--

Que os _vencidos_ não vejam a agonia

Do seu tecto de colmo incendiado,

E se ouça retumbar o monte e o prado,

Ao tropel da velloz cavallaria?!

Quando é que isto será?--Quando na vida,

Virá ella, a doce hora promettida,

Hora cheia d'amor, e desejada!...

Em que fataes Cains, fartos da guerra,

Nosso sangue não beba mais a terra...

--E nem mesmo a Justiça use d'Espada?!

*O MUNDO VELHO*

Nas crises d'este tempo desgraçado,

Quando nos pomos tristes a espalhar

Os olhos pela historia do passado...

Quem não verá, contente ou consternado,

--Mundo velho que estás a desabar--?!...

Sim tu estás a morrer, vil socio antigo...

E Pae de nossos vicios e paixões!

Camarada dos crimes, torpe amigo...

--Morre, emfim, correrá no teu jazigo,

Em vez de vinho, o sangue das nações!

Deves morrer, provecto criminoso!

Tens vivido de mais, vil sensual!

Tu estás velho, cansado e desgostoso,

E, como um velho principe gotoso,

Ris, cruelmente, ás sensações do mal.

--Que é feito do teu Deus, do teu Direito?

--Onde estão as visões dos teus prophetas?

--Quem te deu esse orgulho satisfeito?

Muribundo Caiphaz, junto ao teu leito,

Morrem, debalde, os gritos dos poetas!

No tempo em que eras forte, foi teu braço

Que apunhalou os grandes ideaes!...

Hoje estás gordo, sensural, devasso,

E andas, torpe a rir, como um palhaço,

N'um circulo lusente de punhaes.

Tu tens vendido os justos no mercado!

Crucificado o nobre, o bello e o bom!

Vaes cahir templo pôdre e abandonado,

Não á voz de Jesus ensanguentado,

--Mas ao verbo sinistro de Proudhon.

É elle que te arrasta ao teu jasigo,

Andas vergado á sua maldição!

Cambalêas ao funebre castigo,

E passas corcovado como o antigo,

Escravo, sob o lenho da paixão!

O seu grande clarão inda t'innunda,

Fulminou-te, morcêgo, á sua luz!

Marcou-te a consciençia rôta e immunda,

E a chaga que te abriu é mais profunda

Que a do lado direito de Jesus!

Nenhum deus, já ninguem póde cural-a!

Has-de morrer, caido amphytrião;

É essa a dôr eterna que te rala,

--Manda erguer o caixão na tua salla,

Prepara o funerario cantochão!

Tu tens quebrado os peitos mais robustos,

Tens dado aos santos o vinagre e o fel...

--Bom conviva de Nero e dos Procustos,

Andas ebrio do sangue de mil justos,

De mil sabios... de Christo e de Rossel!

Tens talhado a teu modo a Sociedade!

E por isso o infeliz que te condemne;

Ensanguentaste as mãos da Mocidade,

Nunca amaste o Direito ou a Equidade,

Matas Vallès...... Deixas viver Bazaine.

Tu viveste contente e agasalhado

Entre os brilhantes, e as visões do gaz!

--Bem te importava a neve... e o ar gelado,

O Frio e a Fome... É tepido o Peccado!

Calvo amigo!... Venceu-te Satanaz!

Tornaste o Templo casa de penhores,

--Mas ninguem ora a Deus nas cathedraes!

E já cheios de lastimas e dôres,

Nós lemos mais nas petalas das flores

Do que em todas as folhas dos missaes!

Morre, morre, venal, sem um gemido!

--Nem podes, levantar as mãos aos ceus!

Ha muito que ris d'isso, aborrecido?

Em nada crêste, em nada!--Adeus vencido!

Morre ahi como um cão!--Vencido, adeus!

Morre, morre, na lucta, pois, soldado!

Corpo cheio de tedio e de bolor!

--Adeus, velho navio destroçado!

--Morre! antigo conviva do peccado!

--Faltou-te sempre Deus, a Lei e o Amor!

*AOS VENCEDORES*

Visto que tudo passa e as épicas memorias

Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais,

Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes

Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!

Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos,

Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;

E não façaes jámais pastar vossos cavallos

Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!

Não celebreis jámais as festas dos noivados,

Não encontreis na volta os lugubres cortejos!

--E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos

Não respondam da praça os ais dos fusilados!

Sim!--se venceste emfim, folgae todas as horas,

Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes,

Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes,

Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã!--

--E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,

Regámos já demais a terra--ó gloriosos

Vencedores! talvez,--_vencidos d'amanhã_!

*A CANALHA*

Eu vejo-a vir ao longe perseguida,

Como d'um vento livido varrida,

Cheia de febre, rota... muito além...

--Pelos caminhos asperos da Historia--

Emquanto os Reis e os Deuses entre a gloria

Não ouvem a ninguem!

Ella vem triste, só, silenciosa,

Tinta de sangue... pallida, orgulhosa,

Em farrapos, na fria escuridão...

Buscando o grande dia da batalha,

--É ella! É ella! A livida Canalha!

--Cain, é vosso irmão!

Elles lá vem famintos e sombrios,

Rotos, selvagens, abanando aos frios,

Sem leito e pão, descalços, semi-nus...

--Nada, jámais, sua carreira abranda!

Fizeram Roma, a Inglaterra e a Hollanda,

E andaram cum Jesus!

São os tristes, os vis, os opprimidos,

--Em Roma são marcados e batidos,

Passam cheios de vastas afflicções!...

Nem das mesas lhes deitam as migalhas!

Morrem sem nome, ás vezes, nas batalhas,

E andam nas sedições.

Veem varridos do lugubre destino!

Em Roma e a velha Grecia erram, sem tino,

Nos tumultos, enterros, bachanaes...

Nas praças e nos porticos profundos...

E disputam, famintos e immundos,

O lixo aos animaes!

São os parias, os servos, os _illotas_,

Vivem nas covas humidas, ignotas,

Sem luz e ar; arrancam-lhes as mães,

--Passam curvados nas manhãs geladas,

E, depois de já mortos, nas calçadas,

Devoram-os os cães.

Elles veem de mui longe... veem da Historia,

Frios, sinistros, maus, como a memoria,

Dos pesadellos tragicos e maus...

--Eu oiço os reis cantando em suas festas!

E _elles_, _elles_--maiores do que as florestas--

Chorarem nos degraus!

É uma antiga e lugubre legenda!

--Vão, sempre, sempre sós, na sua senda,

Sublimes, quasi heroicos, rotos, vis...

Cheios de fome, ás luzes das lanternas,

Cantando sujas farças, nas tabernas,

Chorando nos covis.

Alguns dormem em covas quaes serpentes!

Viveram, entre os povos, e entre as gentes,

Vergados d'um remorso solitario...

--Sabem, de cór, os reinos desvastados!

E, vieram, talvez, ensanguentados

Da noite do Calvario!

Teem trabalhado, occultos, noite e dia,

Ó reis! ó reis! as luzes d'esta orgia,

De subito, que vento apagará!

--Corre no ar um echo subitaneo...

E escuta-se, feroz, no subterraneo,

O riso de Marat!

Chega, talvez, a hora das contendas!

Ó legionarios! desertae as tendas,

Já demolem os porticos reaes...

Os que teem esgotado a negra taça,

--Cantam, ao vento, os psalmos da _Desgraça_,

E a historia dos punhaes!

Vão, ha muito, na sombra, foragidos,

Pelas neves, curvados e transidos,

Em quanto Deus se aquece nos seus Ceus!

Vem do Sul uma lugubre toada,

E escuta-se Rousseau, na agua furtada,

Gritar--_Que me quer Deus_!?

Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças,--

Assoma lá ao longe um mar de lanças,

Resoam sobre os thronos os machados...

E a Europa vê passar, cheia de assombros,

Ferozes, em triumphos, aos seus hombros,

--Seus reis esguedelhados.

Á voz das legiões rotas, sombrias,

Desabam pelo mundo as monarchias...

Tremem os graves bispos... e depois...

Que mais farão? perguntam, desolados,

--Vão ser, inda, depois, crucificados

Os deuses e os heroes!

..........................................

........................................

......................................

Vae prolongada a vil, barbara orgia!...

No silencio da noite intensa e fria,

Vem uns echos perdidos de batalha...

Como uns ventos do norte impetuosos,

--São uns passos, nas trevas, vagarosos,

Os passos da _Canalha_!

Elles veem de mui longe... mui distantes

Como sonoros bathalhões gigantes,

Como ondas negras d'um sinistro mar...

N'uma viagem tragica e sem gloria,

--Ha muito, pela noite da Historia,

Que os oiço caminhar!

Quem sabe se virão... é longa a estrada,

D'esta comprida e aspera jornada

Quem sabe quando, emfim, descançarão?

As pedras atapetem-lhes com flores!...

Lá veem queimados, rotos, vencedores,

Altivos e sem pão!

Não raiou inda o dia da Justiça!...

Mas, breve, talvez, se oiça a nova missa,

E a Liberdade emfim junte os seus filhos...

Vão talvez vir os tempos desejados!

--E, então, por vossa vez, ó reis sagrados!

--_Saude aos maltrapilhos_!

*O NOVO LIVRO*[4]

Vou cantar novos casos dolorosos...

E navegar n'outro épico Oceano,

Novas vellas soltar!--O ouvido humano,

Que se preste a meus cantos vigorosos!

Por que eu fulminarei os crapulosos,

O fanatico, o Escriba, o Publicano,

E arrastarei á luz--como um tyranno,

O santo d'olhos doces e amorosos.

E, por tanto, homens cheios de vaidades!...

Preparai-vos a ouvir rubras verdades

Que vos hão de queimar como carvões...

E se não receaes ver morto o Erro,

--Vinde á janella a ver o grande Enterro...

E o desfilar das lividas visões!

*ALGUMAS PALAVRAS*

Achámos sempre de supremo mau gosto ver o auctor, na sua propria obra,

demorar-se complacentemente n'um prologo, como que fabricando uma

auréola.

Por isso, isto não é a demorada profissão de fé d'um poeta novo, nem a

rhetorica pomposa e esteril de quem intenta dar realce a um livro.--É

apenas uma explicação.

Este livro, producto d'uma inspiração meridional e algumas verdades

heroicas, não se filia, exclusivamente, em nenhuma escola conhecida.

É uma obra na qual influiram muitas e varias correntes do espirito

humano, e muitas impressões, muitas nobres ideas do seu tempo.

No entanto, o auctor conhece que fez uma obra sua, com horisontes

particulares e pontos de vista seus, e não apenas uma synthese das ideas

dominantes de qualquer escola aplaudida.

Na mysteriosa, singular, e complicada elaboração intelectual do espirito

humano, qual será o auctor assás sincero que possa sempre assí*gnalar

com segurança a origem d'uma idea, ainda que essa idea seja tão luminosa

como a rotação da terra, a descoberta da alavanca, ou a creação de João

Valjean?

Quem poderá dizer á borboleta, ao lyrio, ao monstro marinho, e áquellas

aves singulares da America que teem todo um arco celeste de tintas nas

plumas, a parte que elles devem na vida, nas côres, no aroma, nas

plumagens, ao Sol, ás nuvens, aos ventos--e a todas as forças chimicas

da Natureza?

Do mesmo modo tambem as grandes sementes que espalharam os espiritos que

nos precederam, ou as d'aquelles que ainda hoje arroteiam o campo, fasem

desabrochar uma infinidade de pomos intellectuaes na grande planicie dos

seculos, por aquelle mesmo trabalho lento e maravilhoso, pelo qual o Sol

vae preparar ao mais fundo da terra o diamante.

E assim é facil, por um contraste notavel, n'um dado espirito poderem

ter operado as influencias da leitura de Proudhon, de Cicero, de Vico,

de Dante, de Baudelaire, de Renan, Voltaire e de S. Agostinho, e d'ahi

depois crear-se uma entidade tão diversa d'estas entidades em

particular, que nenhum d'elles o teria por discipulo.

Claridades do sul · 第 5 / 6 段