Cá fóra, nas ante-camaras do Paço, segredava-se o acontecimento.
Pode bem imaginar-se o alvoroço que levantou. Começavam a esboçar-se
partidos. Uns, a favor do Conde, lamentavam vel-o assim desconsiderado,
n’uma edade que não podia desforçar-se.
Outros, baixinho, accusavam-n’o de ambicioso, verdugo da filha,
sacrificando á sua ambição os sentimentos d’ella.
Na côrte, na cidade, em toda a parte, por onde a nova ia alastrando, os
commentarios ferviam ao sabôr das paixões. Cada qual interessava-se por
um dos personagens, e todos se interrogavam sobre a decisão d’El-Rei.
Este fôra prudente. Levou o pleito ao Conselho. Entretanto mandava
prender no Castello de Lisboa o Marquez de Torres Novas, e desterrava
para fóra da côrte o Duque de Coimbra, pae d’este.
A prisão não atemorizou o indomito Marquez, que depois já no Castello
barafustava, e que, proseguindo na demanda, mandou intimar o Conde de
Marialva a que lhe entregasse a filha.
O caso aggravava-se.
Os Infantes D. Luiz e D. Fernando mexiam-se proclamando a justiça do
Conde e verberando asperamente o procedimento do atrevido pretendente.
Por seu lado, já em Setubal, para onde se exilára, o Duque de Coimbra
punha em campo a sua influencia.
Ao Rei, seria licito, usando do poder absoluto, decidir a contenda
desde logo. Mas havia pontos duvidosos, e a consciencia não lhe
permittia n’uma coisa «tam secreta como esta antremetter-se em fazer
nem impedir casamentos».
Deixou correr no juizo ecclesiastico a demanda, que se foi arrastando
durante nove mezes. O tempo na sua acção esmoedora ia desfazendo
arestas. Morreu o Velho Conde. D. Guiomar interrogada por lettrados
canonistas e theologos sobre se era casada com o Marquez, negou
peremptoriamente.
O tribunal em vista de, pelo processo «não se provar bastantemente
o contrario», decidiu o litigio em favor do Infante que já andava
enfadado e desgostoso.
As bodas effectuaram-se. O Infante D. Fernando e sua mulher foram viver
para Abrantes.
Pairava, porém, não sei que sinistro e agourento destino sobre o
casal. Poucos annos depois de unidos, achando-se o Infante na villa de
Azinhaga, referiu a alguns fidalgos, seus intimos, que sonhára n’essa
noite ter visto sahir de sua casa em Abrantes, trez tumbas cobertas de
negro. Não fez caso. Mas no dia seguinte recebeu recado de ter morrido
n’aquella villa a filha unica que lhe restava. E partindo para alli a
consolar sua mulher, morreu em Novembro, e ella em Dezembro.
Estava cumprido o sonho. Os fados tinham vingado o Marquez de Torres
Novas.
Qual a verdade sobre os factos e sentimentos dos auctores d’este drama?
Qual o segredo do coração de D. Guiomar?
Um leve manto de mysterio ficou sempre entrecobrindo a romanesca
historia. E a phantasia, tão propria de cerebros peninsulares, foi
bordando sobre o assumpto lendas sentimentaes.
Ainda no meiado do seculo passado, Camillo Castello Branco n’um drama
ultra-romantico, intitulado o _Marquez de Torres Novas_, (por signal
bem inferior ao seu talento) architecta uma inverosimil acção eivada de
erros historicos e de aleijões nos caracteres.
A versão official, que os chronistas estamparam, dá a entender que o
Marquez, por ser muito novo e mal aconselhado urdiu aquelle enredo sem
que na realidade tivesse havido união clandestina.
Elle proprio alguns annos depois, movido talvez por um sentimento
cavalheiroso, escrevia á Rainha D. Catharina:
«Fui prezo e depois degredado da côrte por culpas que se offereceram, o
que eu não confesso, nem Deus tal queira, eram alheias e não minhas nem
de Sua Alteza por nossa edade, e d’isto porque não pareça que allego
com testemunhas mortas, ainda poderei mostrar papeis ou papel, em que
mostraria minha innocencia contra quem me culpasse.»
O chronista-mór, Francisco de Andrade, que viveu poucos annos depois
dos acontecimentos acaba o capitulo em que os refere com estas palavras:
«A apressada morte de ambos (D. Guiomar e D. Fernando) e dos filhos que
d’elles nasceram e a ruina da casa Marialva que tambem se apagou de
todo foi occasião de haver no reino alguns juizos sobre este casamento
e não faltou quem houvesse n’este caso por justa a sentença do céo.»
Juizes do Deus!
* * * * *
E a Duqueza de Coimbra D. Brites de Vilhena?
Essa, que, emquanto rapariga moça, tantas paixões levantou, foi durante
os 30 annos de casamento a mais devotada companheira do mestre D.
Jorge. Com elle esteve sempre no desterro em Setubal, e, entregando-se
a obras piedosas, fundou juntamente com o marido o mosteiro de S. João
d’aquella villa, onde entraram trez filhas suas, e onde se mandou
sepultar.
Para a sua morte, que succedeu pelos annos de 1580, não contribuiram
pouco os desgostos causados pelo escandalo levantado pelo filho, e o
desterro d’este.
Nenhum dos Poetas que celebraram a sua formosura entoou endechas á sua
morte. A _Perigosa_ deixára de o ser e ia esquecendo...
O Duque que lhe sobreviveu muitos annos procurou consolações.
De uma, ou de mais que uma innominada (passageiros amores!) ficaram
trez filhos todos D. Jorges, e todos clerigos, e ainda uma filha D.
Joanna de Lancastre que foi recolhida no Mosteiro de Santos-o-Novo.
N’esse Mosteiro era commendadeira, já quasi octogenaria, e muito
envelhecida, D. Anna de Mendoça, antiga amante de D. João II, e mãe do
Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra.
Levava vida exemplar.
O Duque, ou por ver sua mãe, ou para tratar da administração da Ordem
de Santiago, a que o convento pertencia, vinha ás vezes de Setubal a
Lisboa, aposentando-se n’uns quartos junto ao real Mosteiro.
D’alli fazia repetidas visitas ao Paço, desde a reconciliação com os
Soberanos.
N’esse anno de mil quinhentos e quarenta e tantos, a estada em Lisboa
foi prolongando-se. As sahidas succediam-se cada vez mais a miudo,
comprazendo-se o mestre em frequentar principalmente a casa da Rainha
D. Catharina.
Em torno da Soberana enxameava por esse tempo um bando de damas,
algumas formosissimas, outras de graça encantadora, e quasi todas de
espirito scintillante.
D. Jorge, habil no galanteio, doneador e bom cortezão, embora já
serodio, deleitava-se na pratica do regio gyneceu, e deliciava com os
seus ditos aquelle esquadrão volante das _Donas e Donzellas da Camara_.
Entre estas ultimas havia uma de dezeseis annos, que lhe prendia mais
a attenção. Era D. Maria Manoel, filha de D. Francisco de Lima, já
fallecido, e de D. Francisca de Vilhena, que fôra dama da Rainha.
O Duque, em tempo, fizera á mãe uma pontinha de côrte.
Esboçára mesmo um idyllio, que pouco passára dos prolegomenos, e que,
tendo ephemera duração, deixou comtudo nos dois uma recordação amavel.
O chronista Francisco de Andrade, fallando ácerca d’este episodio, diz
assim: «com quem, andando no Paço o mestre travara outros amores».
Seriam _amores_. Mas não foi _amor_. Não passaria, talvez, de uma
_amizade amorosa_ que, por uma reacção exotica de chimica sentimental,
se transformou primeiramente n’um interesse accentuado pela
rapariguinha filha d’aquella com quem _flirtára_. E o interesse que
pouco a pouco foi crescendo em intensidade, e sempre n’um movimento
ascencional a pouco trecho desabrochou n’uma paixão violenta.
Um caso de transubstanciação psychica.
A Rainha, que ao principio, não fizera reparo maior nas assiduidades
de D. Jorge, cuja edade lhe parecia garantia para a seriedade da sua
Casa, quando se inteirou do encantamento de que fôra tomado o primo,
determinou dar providencias.
O mundo feminino do Paço agitou-se. D. Maria Manoel sentiu em volta de
si condensarem-se nuvens ameaçadoras de borrasca.
Mas... deixava-se adorar...
Não estava ainda inventada a palavra _snobismo_. Comtudo, o sentimento
que o vocabulo traduz na sua graduação variadissima, e nos infinitos
cambiantes não é só d’este ou d’aquelle tempo, é fundamentalmente
humano. Vaidade lisongeada, ambição de honrarias, ostentação de
intimidade com os poderosos da terra, seducção pelas grandezas, desejo
de brilhar com luz alheia, são modalidades da alma humana, que vem com
pequenas differenças _ab initio_.
A nossa Mãe Eva, tal como a descrevem na famosa scena, seduzida
pela serpente, que lhe accena com grandezas e lhe desvenda mundos
desconhecidos, é já rudimentarmente _snob_ e profundamente feminina.
Como não o seria D. Maria Manoel, Dama da Rainha D. Catharina, perante
a miragem d’uma corôa de Duqueza, promettida por um homem que, para
attenuar as devastações da edade, tinha ainda attractivos proprios, e
um grande prestigio pessoal?
Deixava-se adorar...
Mas a Rainha, cuja austeridade em materia de amores chegou a tocar
no desabrimento e aspereza, inspirando até, ao que parece, a Camões
desterrado a celebre ode que diz:
«Oh crua esquiva e fera
Duro peito cruel e empedernido;»
a Rainha, que os amores do Senhor Dom Jorge contrariavam, interveiu
severa, impedindo a continuação das entrevistas.
Então o Duque, como se fosse namorado imberbe, entrou a escrever
bilhetes e a mandar recados á Dama da Rainha, por creados ou terceiras
pessoas, com pouca cautela e recato.
Amigos e parentes censuravam-n’o inutilmente.
A paixão desenfreada do Duque não conhecia barreiras. Queria
forçosamente casar com a rapariguinha, désse por onde désse.
E ella ia-se deixando adorar...
Então o filho do Senhor D. Jorge, o Marquez de Torres Novas, agora já
Duque de Aveiro, que tão contrariado fôra nas suas pretensões á mão de
D. Guiomar Coutinho, foi quem se levantou com mais sanha, oppondo-se
ao casamento do pae. Ajudava-o n’essa empreza D. Jayme, seu irmão,
Bispo de Ceuta, que, por ser creatura muito affecta á Rainha, que o fez
Capellão-mór, contribuia para crear todos os obstaculos ao casamento
do Duque, dando-se então a estranha situação de se ver um Prelado, um
Bispo, um Principe da Egreja oppor embaraços ás amorosas pretensões do
seu progenitor.
Elle e o Duque de Aveiro dirigiram-se ao pae, expondo-lhe
respeitosamente, mas com firmeza, os inconvenientes do casamento.
Não negavam virtude a D. Maria Manoel. Mas a rapariga tinha dezasseis
annos e o Duque quasi setenta...!
(Corvisart havia de dizer trezentos annos depois: «Aos setenta ha
sempre filhos». Os dois Lancastres, menos cynicamente e com mais
respeito, apropriavam-se do espirito d’esta formula.)
Com este enlace, diziam, corriam risco a saude e a vida do pae; era
ameaçada a fazenda da sua Casa; e não seria decoroso dar-lhes por mãe
quem podia ser filha de qualquer d’elles.
O Duque repelliu bruscamente a monitoria dos filhos. Havia de casar por
força. Era uma paixão indomita, devastadora.
Disse-se então á bocca pequena que, de uma vez que D. Maria sahiu do
Paço para ir a casa da mãe, o Duque a recebêra por mulher e lhe mandára
depois ao Paço um escripto confirmando este acto.
E D. Maria ia-se sempre deixando adorar...
Mas agora já sentia tambem o amor proprio golpeado pelos enredos contra
ella preparados.
Além d’isso a sua propria familia incitava-a a concluir o casamento.
Estavam as coisas n’este estado, e a intriga continuava fervilhando
quando surgiu uma circumstancia que até ahi não occorrera á mente
de ninguem--os dois noivos eram parentes em terceiro grau! Grande
satisfação no partido do Duque de Aveiro que a esse tempo já estava
casado com D. Juliana de Lara, filha do Marquez de Villa Real.
Enorme desprazer na familia da noiva que via assim retardado o almejado
enlace.
O Duque porém não esmoreceu. Pelo contrario! Mostrou-se mais tenaz em
proseguir no intento.
Então, pelos fins de Março, D. João III, que via o caso ir ganhando
importancia e avinagrando-se, chamou-o á sua presença. Fallou-lhe como
parente que prezava a dignidade da familia, e como Rei a quem cumpria
zelar a boa ordem da Côrte, e o decoro nos seus principaes. Terminando,
emprazou o mestre de Santiago a que desistisse da sua louca pretenção.
O arguido curvou a cabeça; agradeceu os conselhos e chegou mesmo a
fazer promessas. Promessas com restricções mentaes (entenda-se) que
depois havia de invocar para não obedecer. Tinha a attitude de um
rapaz leviano na presença minaz de um pae severo. Mas... passados
dias esquecia promessas e protestos e, levado pela impetuosidade do
sentimento, declarava publicamente que já era casado com D. Maria
por palavras de presente, e que mandára pedir ao Nuncio dispensa da
affinidade.
Novo sobresalto do Duque filho.
Indignado El-Rei mandou chamar outra vez o Senhor D. Jorge.
Reprehendeu-o severamente. E como as respostas d’este fossem confusas,
ordenou-lhe que se retirasse para Setubal.
O velho apaixonado, roendo o freio, teve que ceder.
De lá, vencido, mas não convencido mandou, em Outubro, um recado a
El-Rei.
Da linguagem embuçada d’esse papel, que se encontra nas «Provas da
Historia Genealogica», e não póde deixar de ser authentico, de tal modo
n’elle transparece o sentir do Duque, deduz-se que houvera realmente
casamento.
Affirma mesmo esse papel que fôra em Janeiro.
N’elle se queixa do filho, que, com a opposição que fazia lhe ia
encurtando a vida. E então, melhor seria, (dizia elle), morrer por ter
casado, do que por motivo dos desgostos causados pelo Duque seu filho.
Casuistica amorosa!
Todo este documento, aliás curioso, e feito com raciocinio de
apaixonado, é digno de figurar n’um curso de psychiatria.
Á Rainha escreveu o Senhor D. Jorge tambem, implorando que interviesse
junto de El-Rei D. João III. E no paroxismo da paixão chegava a dizer,
que quanto mais o contrariassem, mais esbanjaria a fazenda de sua Casa.
(Esta ameaça era dirigida contra os dois filhos que sabia patrocinados
pela Rainha.)
O Rei mandou responder-lhe em Novembro. Entre outras coisas dizia-lhe
que «não póde chamar-se casado quem não tem faculdade para isso pelo
gráo de parentesco sem dispensa.»
Para terminar dava-lhe o golpe de misericordia.
Annunciava-lhe que o Papa e o Nuncio tinham negado a licença!!!
Era o desmoronar de todos os castellos que a sua imaginação romanesca
construira! Os dois annos que lhe restaram de vida levou-os a
consumir-se... e a distillar illusões.
Quando em 1550, pouco antes de morrer, fez testamento, a paixão estava
já como que volatilizada pela temperatura elevadissima que lhe abrazára
o coração durante o periodo em que viveu caminhando no seu sonho
exaltado.
N’uma verba d’esse testamento diz em palavras que, embora frias na
apparencia, encerram ainda uma prova de affecto:
«Deixo a D. Maria Manoel, pela obrigação que lhe tenho em lhe prometter
de casar com ella se o Santo Padre dispensar, mil cruzados da terça
do dote que minha filha D. Elena me ha de levar e assim lhe deixo um
Alvará do Duque meu filho em que me promette a valia de cem mil réis
de renda para minhas obrigações em vida de sua pessoa para assim e na
maneira que se no dito alvará contém que quero que haja _non cazando
ella_, e casando, se distribuir em obras como acima digo.»
D. Antonio Caetano de Sousa na «Historia Genealogica» entende que este
dizer é uma prova de que o Duque não tinha casado.
Salvo melhor interpretação, parece-nos que o Duque escreveria assim,
prevendo que, se lhe chamasse sua mulher, os herdeiros se prevaleceriam
da nullidade por não ter havido dispensa, e lhe negariam o legado.
* * * * *
«Que quero que haja _non cazando ella_.» Dizia o Duque no testamento.
Ella, porém, poucos annos passados, ajustou-se a casar com um parente
viuvo, D. Manoel de Sousa e Silva, aposentador-mór da Casa de El-Rei D.
Sebastião.
O parentesco entre os dois era apertado e tornava-se necessaria uma
dispensa de Roma.
Eram demorados n’esse tempo os tramites para resolução d’estes
negocios. E os noivos impacientavam-se com as longuras.
Que fazer?
D. Manoel de Sousa resolveu partir para Roma na empreza de facilitar a
concessão. Obtida a desejada licença, regressou triumphante a Lisboa.