Os dois filhos de D. João II--Idyllio do Principe D. Affonso--O
bastardo D. Jorge--A posse dos mestrados--Projectos de seu
Pae--Morte de D. João II--Viagem de El-Rei D. Manoel a Castella--_A
Perigosa_--Enxame de poetas, e adoradores. Casamento do Senhor Dom
Jorge--O drama de D. Guiomar, filha do Conde de Marialva--Viuvez de D.
Jorge--Paixão senil--D. Maria Manoel.
Encontrámos já por vezes, no decurso d’estas palestras, ou seja nas
_Donas de tempos idos_ ou na _Gente d’Algo_, a figura curiosa, embora
apagada, do Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra, Mestre de Santiago e
de Aviz, nascido do idyllio de D. João II com D. Anna de Mendoça, nos
bosques de Sernache do Bomjardim.
Mas, se o leitor sentir o inexplicavel antojo de acompanhar-nos em mais
esta jornada, recordaremos juntos algumas occorrencias, e a aventura
amorosa d’esse personagem, que esteve para ser Rei de Portugal, pelo
desapparecimento do filho legitimo, o Principe D. Affonso, quando este,
no areal de Almeirim, depois de arrastado pelo cavallo, se deixou
morrer entre a noivazinha que a politica lhe dera, e a Rainha D.
Leonor, sua mãe, que com esse filho via sumir-se a maior affeição que
lhe tomava a alma.
D. Affonso e D. Jorge--os dois filhos do Principe Perfeito--tiveram
destinos oppostos na esphera sentimental.
Ao passo que o herdeiro, condemnado por mofina parca a uma morte
prematura, esboça precocemente com uma D. Branca o ephemero romance de
amor, que teve a passageira duração de um sorriso e de uma lagrima, o
Senhor D. Jorge só foi arpoado pela grande paixão da sua vida quando ia
no declinar.
Segundo suppõe, e com bons fundamentos, o Sr. Anselmo Braancamp Freire,
no seu livro «Critica e Historia», aquella Dona Branca, por quem se
sentiu preso o primogenito de D. João II, era filha de Vasco Fernandes
Coutinho, e portanto sobrinha do Conde de Marialva.
Captivou ella o coração do moço Principe, a ponto de ficar esse pequeno
episodio amoroso celebrado nos versos do Prior de Santa Cruz, de D.
João, camareiro-mór, de Pedr’Ome, de Nuno Pereira, e d’outros poetas
aulicos, que em trovas dolentes o consagraram.
O «Cancioneiro Geral», de Garcia de Resende, deixa adivinhar a
tristura dos dous namorados nas cantigas que têm como rubrica: «...
pelo principe D. Affonso, quando casou D. Branca, com quem elle andava
d’amores».
Começam assim:
«Lloran mys ojos
y my coraçon
Y con mucha razon.»
«Lloran my pena,
my mal non fengydo,
my dicha no buena,
tan lexos d’olvido
Morio my sentido
de biva passyon
con mucha razon.»
Depois Nuno Pereira accode, dizendo sobre o mesmo assumpto:
«Lloran dos vidas
con grande agonya,
la vuestra y la mya,
por seren partidas.»
Sente-se que houve uma mão de ferro a desunir os dous amantes, pois lá
o diz Dom Martinho da Silveira nas trovas que fez «quando casou dona
Branca Coutinho»:
«e pois vemos não poderdes
resistir ás opressões
com que casastes,
dó na côrte pelo serdes
tomaram mil corações,
que vós quebrastes.»
Entre esses mil corações enternecidos contava-se o do Principe D.
Affonso que, segundo o pintam as chronicas era «muito cheio de
branduras e prezava-se muito da sua gentileza.»
A rapariga, como era natural, tambem prezava a gentileza d’esse ephebo
real que:
«Por sua gran formusura
foi no mundo nomeado
angelica creatura.»
e que «se vestia sempre de tabardos com martas ao pescoço forradas de
setim e guarnecidas de ouro.»
Ora os requebros do Principe D. Affonso e de D. Branca desagradavam
de certo ao aspero D. João II, a quem não convinha nem uma ligação
clandestina, da qual podia provir um rebento indesejavel, nem um
casamento que lhe desmancharia o taboleiro politico. Agastava-se com a
indole branda e macia do filho, «mais inclinado ás cousas d’El-Rei D.
Affonso V, seu avô, que ás suas.»
Censurava-o muitas vezes por tentar transgredir a _ordenança_ que
prohibia sedas e brocados, chaparias e canotilhos, e increpava-o por
não trazer capas abertas nem espada. Vendo-o preferir a companhia
de homens delicados á dos rudes homens d’armas, reprehendia-o e
amoestava-o com mau modo. Mas... não podia tirar-lhe o seu natural.
A antithese entre os dous caracteres era tão profunda como fôra entre
a de seu pae cavalheiroso, idealista, sonhador, e a sua de homem de
Estado, intransigente, frio e positivo.
Agora á antinomia dos animos juntava-se a dos corações! O Principe D.
Affonso era um amoroso, D. João II um politico.
Aquelle deixára-se enfeitiçar pela rapariguinha namoradeira que era
o «Ai Jesus» da roda cortezã. Este sentia o perigo das frioleiras
sentimentaes. E, com a implacavel decisão com que sempre resolvia os
negocios de Estado, determinára desunir os dous pombos arrulhadores.
Assim, a encantadora sobrinha do Conde de Marialva, a seductora Branca
dos _Porquês de Setubal_, a Coutinha dos Serões do Paço, onde as
palavras _coutinhas_ eram equivalentes de galanteio, foi levada a casar
com Jorge de Mello por alcunha o _Lageo_, capitão, e anadel-mór de
besteiros.
O Principe, esse, pouco depois, e ainda todo enleiado nas recordações
do seu entretenimento amoroso, estava destinado a cumprir o estipulado
por seu pae com os Reis Catholicos, Fernando e Izabel, consorciando-se
com a Infanta sua prima filha d’estes.
Tinham os dous passado parte da infancia juntos, em Moura, quando foi
das _terçarias_, á guarda da Infanta D. Beatriz.
Conheciam-se. Estimavam-se. Attrahia-os mesmo uma reciproca sympathia.
E como ao tempo que a Infanta veiu de Castella, já D. Branca tinha sido
afastada da Côrte, havia mezes, com o seu Lageo, a primeira entrevista
começava a ser appetecida pelo Principe.
Ao encontro da noiva vieram a Extremoz o Pae e o Filho, incognitos,
trazidos pela curiosidade.
O Rei desejando saber se a promettida Nóra que vinha de Castella teria
as qualidades que as suas ambições requeriam. O Principe avaliar as
mudanças que o tempo, esse grande esculptor, operára na esthetica e
na plastica d’aquella creaturinha que, havia dous annos, elle deixára
franzina, pallida, esmaiada, nas fraguras da insalubre villa alemtejana.
Apparecia-lhe ella agora n’um scenario de sonho, entre as suas nove
Damas, cardeaes, nobreza de Castella, numerosos cavalleiros, ao som de
musicas festivas, entre bandeiras das suas cores e armas, que no alto
das torres e muros tremulavam, e acompanhada por folias de homens e
moças que, nas ruas armadas de tapeçarias, bailavam sobre os ramos de
espadanas. E vinha tão linda, que o proprio Duque de Beja (o futuro Rei
D. Manoel) que a fôra esperar, sentira subitamente a faísca, que havia
de incendiar-lhe no animo a paixão pela noiva de seu Primo.
Este chegára a Extremoz com o seu Pae., ambos «vestidos de caminho».
Dirigiram-se logo para a casa junto do Castello onde habitava a
Princeza, que n’esse momento jantava com a sua comitiva, e que tão
alvoroçada ficou que, interrompendo o banquete, veiu ao topo da escada
esperal-os, e alli ajoelhou commovida.
O Rei fez-lhe um discurso. O Principe, porém, ficou calado, suspenso,
encantado com a transformação. E é de crêr que n’essa hora se
desvanecesse por completo na sua memoria a imagem de D. Branca, que a
esse tempo déra já descendencia ao marido, Capitão-mór de Mazagão.
Dos sentimentos do Principe dá conta, e em termos expressivos, o
chronista Garcia de Resende no seguinte trecho que tem o sabor especial
da sua prosa:
«E á sexta-feira e ao sabbado esteve a Princeza no dito mosteiro (Nossa
Senhora do Espinheiro), onde d’El-Rei e do Principe por suas pessoas
foi sempre visitada. E segundo fama antes d’ella entrar na cidade, alli
nas casas do mosteiro, onde pousava, teve o Principe ajuntamento com
ella, o que de muitos foi estranhado por ser em casa de Nossa Senhora,
e de tanta devoção. E affirmou-se por mui certo que n’aquella noite
cahiu da parede da igreja uma ameia junto da camara d’onde jouveram, a
qual ameia até hoje não foi concertada, e está assim por memoria que os
frades d’isso fizeram.»
Os bons dos monges resmungaram, ao que se vê, pela supposta
irreverencia, mas os dois Principes amorosos já haviam a esse tempo, um
pouco prematuramente, mas com legitimo direito, saccado uma somma de
caricias, que ambicionavam, por essa innocente lettra de cambio, talvez
presentindo que o futuro lhe reservava pouca duração na felicidade.
Effectivamente logo oito mezes depois das pomposas festas d’Evora
rebentava a tragedia de Almeirim.
Na cabana do pescador do Alfange, junto ao Tejo, o Principe ia
agonizando. O silencio pavido da Rainha e da Princeza recem-casada,
contrastava com o alarido dos prantos e com as desvairadas
manifestações da assistencia afflicta «dando todos em si muitas
bofetadas, depenando muitas e honradas barbas e cabellos e as mulheres
desfazendo com suas unhas e mãos a formosura dos seus rostos que lhes
corriam em sangue.»
* * * * *
Acompanhando a Rainha e a Princeza, primeiro a pé desatinadamente,
e depois em mulas emprestadas, viera tambem, e agora assistia
recolhidamente ao passamento do irmão, o Senhor D. Jorge, mocito de
pouco mais de nove annos que, havia pouco andava na Côrte.
Perante a certeza da morte do herdeiro do throno, logo alli se
levantaram em muitas imaginações, entre lamentos e queixumes
extravagantes, as duvidas sobre a futura successão.
A Rainha em 1483 estivera á morte com um movito que a inhabilitara a
dar ao Rei outro herdeiro.
Restavam dois: D. Manoel Duque de Beja, irmão da Rainha, que a essa
hora fôra já chamado de Thomar; e o Senhor Dom Jorge a quem D. João
II, seu pae, queria tanto ou mais que ao moribundo.
É que o bastardo, aquelle pequenote que agora estava alli junto ao
catre, mal ageitado n’uma aljubeta, saccudido por soluços, fôra o filho
dos seus amores. Sentia correr n’elle o proprio sangue. Achava-lhe
(talvez com illusões de pae), qualidades que lhe lisongeiavam o
orgulho, emquanto que ao Duque seu primo e cunhado, todo affecto aos
Braganças, se não o odiava nem perseguia, repugnava-lhe comtudo pensar
que por elle essa familia, inimiga e rebelde, havia de apossar-se do
seu espolio politico, usufruir as vantagens da faina rude em que se
empenhara para engrandecer o poder real.
O Sr. D. Jorge, que nascera em 1481, ia breve entrar na puberdade.
Fôra educado em Aveiro por sua tia a Princeza D. Joanna, filha de D.
Affonso V, até que, por morte d’ella viera para a Côrte, trazido por
seu pae, a quem a Rainha D. Leonor nobremente, e com uma dignidade que
o orgulho nativo fazia realçar, prometteu ao marido que d’elle cuidaria
ella propria como se fosse seu.
Cumpriu-o... até á morte do herdeiro.
Durante os treze mezes que esteve no Paço, D. Jorge foi tratado como um
segundo filho.
Depois... Depois seguiu-se o drama violento que as chronicas
deixam claramente entrever, e a que D. Antonio Caetano de Sousa
chama na Historia Genealogica--_domesticos dissabores_--e que nós
a mais de quatrocentos annos de distancia concebemos, recompomos,
e scenographamos conforme a nossa imaginativa e os elementos que
conhecemos.
Esses elementos, nascidos da humana condição de cada um dos
personagens, e gerados na profundeza dos seus animos, são, conforme as
indoles e caracteres dos figurantes: em D. Leonor um mixto de ciumes
retrospectivos, agora assanhados com a ferida aberta no seu coração de
mãe, a repugnancia em ver o lugar do seu proprio filho occupado pelo
bastardo, o amor proprio de Rainha, que não podia resignar-se a ver
que D. Anna de Mendoça, havia tempo commendadeira era Santos-o-Novo,
viesse a ser mãe do Rei; em D. João II era a voz do sangue clamando em
favor do proprio filho, era a razão de Estado que se afigurava lucrar
mais collocando D. Jorge no throno, era a sua phobia brigantina, era a
sua alma tempestuosa exarcebada pela desgraça; em D. Manoel, simples
Duque de Beja, era a natural ambição, era a visão das grandezas, a
corôa de Rei, o interesse da familia e, já no fundo, bem no fundo do
coração, a miragem da posse da Princeza, agora viuva, que desde a
primeira vista o seduzira, e que d’ahi a poucos annos veiu a ser a
primeira das suas trez mulheres.
Não nos occuparemos agora das peripecias d’esse drama, nem da lucta de
sentimentos entre essas trez principaes figuras.
Olhemos para a causa das divergencias--_o Senhor D. Jorge_,--assim
chamado por não ter ainda o titulo de Duque, que depois recebeu, e não
poder usar o de Principe.
O mesmo tratamento se dava ao irmão do justiçado Duque de Bragança, que
foi chamado o Senhor D. Alvaro.
O filho illegitimo foi logo, desde que o Principe morreu, afastado
do Paço por El-Rei, no intuito de «tirar paixão á Rainha sua mulher
com a vista da Senhor D. Jorge». Entregou-o aos cuidados do Conde
de Abrantes, em casa de quem esteve alguns mezes, emquanto tentava
desfazer as repugnancias de sua mulher á legitimação do bastardo, e
emquanto ia pedindo ao Papa Innocencio VIII Bullas que o investissem no
Mestrado da Ordem de Santiago e no governo e administração da Ordem de
Aviz.
Chegaram essas Bullas.
Então, no proposito de engrandecer o filho, e talvez com o designio de
ir preparando o que hoje chamariamos a opinião publica, acostumando-a á
ideia da sua supremacia, determinou dar toda a solemnidade á cerimonia
da posse dos mestrados.
Convocou numerosa e selecta assistencia á egreja do convento de S.
Domingos e alli, a 12 de Abril de 1492, com a sua presença, o que mais
avolumava a pompa e magestade do acto, foi celebrada missa solemne, em
seguida á qual, todos os commendadores e cavalleiros das duas Ordens
deram obediencia ao novo mestre.
Novo e moço. Tinha apenas onze annos, quando n’aquelle vasto templo
dominicano passaram em sua frente, prestando-lhe homenagem, guerreiros
de Toro, e nobres cavalleiros, cortezãos e fidalgos, ostentando nos
magnificos mantos brancos a verde cruz floreteada de Aviz, e a vermelha
de Santiago.
Pequenino pela edade e por ser miudo de estatura, o Mestre D. Jorge,
com uma tunica de brocado sob o manto, acceitava como devidos á sua
hierarchia os preitos dos cavalleiros das Ordens, ao passo que El Rei
D. João II, remirando-se no filho, ruminava no modo de o legitimar para
o deixar como successor. Bastardo? Que importava?
Bastardo fôra tambem o mestre de Aviz, D. João I, seu bisavô. E João
das Regras com a sabedoria que trouxera de Bolonha, demonstrara a
validade dos seus direitos.
Onde se encontraria um João das Regras para D. Jorge? Á falta d’elle
nomeou-lhe para aio D. Diogo Fernandes de Almeida, que logo depois foi
Prior do Crato, sendo já cavalleiro da Ordem de S. João de Rhodes.
Heróe d’Africa, os seus feitos gloriosos tornavam-n’o indicado para
formar um homem.
O pequeno, porém, era de natureza brando, _frimatico_ (como então se
dizia).
D. Diogo não soube ou não poude fazer fermentar na sua alma quieta a
levadura da ambição. Adolescente, deixou-se levar emballado na corrente
da vida, fluctuando como uma flôr rara sobre as ondas movediças, que
agitavam a Côrte.
Assistiu, primeiramente, impassivel (talvez até ignorando-o) ao drama
que se desenrolava e de que elle era o fulcro innocente.
Acceitou depois, com boa feição e de animo complacente, a chuva de
graças que sobre elle foi cahindo durante a longa mocidade.
O Pae, disistindo de proposito de fazer d’elle Rei de Portugal,
recommenda no testamento a D. Manoel, a quem deixa o Reino, que «se não
tiver filhos o nomeie seu successor e sempre se queira haver com elle.»
Por esse testamento assignado na Villa das Alcaçovas a 29 de Setembro
de 1495, faz doação ao filho, da cidade de Coimbra em Ducado, e de tudo
mais que tivera o Infante D. Pedro.
Recommenda-lhe tambem que supplique para elle ao Papa o mestrado
de Christo, pelo que D. Jorge ficava mestre das trez Ordens, o que
significava uma situação florescente em honras, em influencia e em
riquezas.
Não contente com isto, insta no mesmo testamento, com D. Manoel, para
que conceda ao novo Duque de Coimbra a mão da primeira filha que vier a
ter.
Era ainda uma ancora feita de esperança, lançada no futuro a favor do
filho.
Feito o testamento, D. João II, muito doente, hydropico,
_malenconizado_, e sentindo retalhadas as entranhas pela peçonha que
bebêra, havia annos, n’um pucaro junto á Fonte Coberta, partiu das
Alcaçovas para Monchique, no Algarve, onde esperava encontrar allivios.
O filho acompanhou-o. Mas nem a presença d’elle o distrahia, nem as
danças e luctas dos vaqueiros da Serra o alegravam, nem a corrida aos
porcos lhe desenferrujava as articulações.
Tomou dois banhos com pouca cautella, bebeu agua das Caldas mais do que
devêra e, peorando, resolveu regressar, indo dormir a Alvor.
D. Jorge apresentou-se em Villa Nova de Portimão, d’onde foi ver o Pae
duas vezes.
Ruy de Pina dá a entender que essas visitas rapidas deram azo a
conjecturas ácerca da successão.
A verdade, porém, é que já a esse tempo o Rei temia «rebates de
carne», que, dias depois, quando se sentia morrer, mais ainda quiz
evitar, afastando de si o filho, cuja presença lhe trazia ao espirito
lembranças das faltas commettidas no passado.
A sua morte, nas casas de Alvaro de Ataide, em Alvor, remata com
singella belleza o drama impressivo que foi a vida desse homem tamanho.
Emquanto transportavam o corpo de D. João II para a Sé de Silves, o
filho, que completára em Agosto quatorze annos, ficou em Portimão.
Alli, recebeu todos os Senhores e Fidalgos, que então estavam no
Algarve, e d’alli voltava, quando encontrou Henrique Correia (meio
irmão de sua Mãe), que lhe trazia uma carta de pezames de D. Manoel,
então já Rei, que se achava em Monte-mór-o-Novo.
O aio Diogo Fernandes d’Almeida levou-o logo a saudar o Soberano.
Já então D. Manoel estava seguro no throno e descançado ácerca
d’aquellas «duvidosas alterações» que, nos ultimos dias de vida do
primo e cunhado, lhe assaltavam o animo.
Recebeu, por isso, com boa avença o rapazelho, que agora
definitivamente deixava de ser um temivel obstaculo ás suas ambições,
e escutou com favoravel disposição o discurso em que o velho aio o
recommendava á sua generosidade.
Não era necessaria tanta eloquencia. O Rei D. Manoel logo satisfez o
pedido, outorgando fartos beneficios ao pequeno primo.
O Bispo D. Jeronymo Osorio no seu livro «De rebus Emmanuelis»,
transpõe em linguagem de Tacito a falla do ancião. Alli se vê que a
grandiloquencia de D. Diogo arrancou lagrimas ao benigno Soberano
(_adeo fuit Emmanuellis maeror excitatus_). A ventura (e elle foi o Rei
_venturoso_) dispõe o animo para a magnanimidade.
* * * * *
Passaram annos.
A vida corria serena para o moço Duque. De indole bonachã, torna-se bem
acceito do Rei e da Rainha, que já fôra sua cunhada durante aquelles
mezes em que estivera casada com seu meio irmão, o Principe D. Affonso.
Encontravam-se agora como primos, e ella renovava ao Duque de Coimbra,
já quasi um homem, a amizade um tudo nada protectora, que havia annos
concedera ao pequeno Senhor D. Jorge.
Em 1498, quando foi da viagem solemne dos Reis de Portugal a Castella,
para serem jurados herdeiros d’aquella Corôa, foi resolvido que o
Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra, os acompanhasse n’esse passeio
triumphal.
Com D. Manoel--o _Sátrapa do occidente_--que já sonhava collocar na
cabeça a corôa imperial da Peninsula--Portugal, Castella, Aragão,
Leão--e tambem a da Sicilia, iam os nomes mais illustres: Dom Diniz
irmão do Duque de Bragança, o Senhor D. Alvaro, D. Francisco de
Almeida, Tristão da Cunha, João Fogaça e muitos outros.
Ao chegarem a meia legua de Toledo, El-Rei D. Manoel destacou D. Jorge,
Duque de Coimbra, com alguns do sequito, para irem áquella cidade
saudar os Reis Catholicos, seus sogros.
Caminhava a vistosa cavalgada, levando á frente D. Jorge, de figura
menineira, mas de porte airoso e nobre, e seguia pela estrada arida
e amarellenta, que leva á antiga capital wisigothica, quando, quasi
ás portas da cidade, o veiu receber, com todas as honras, Fernando, o
Catholico.
Promptamente se apearam o Duque de Coimbra e os seus para lhe beijarem
a mão. Mas era tal a multidão curiosa, e tão miudinha a estatura do
Duque, apezar dos seus dezesete annos, que se sumiria no aperto se não
o erguessem, tomando-o nos braços, D. João de Menezes, mordomo-mór, e
o esforçado D. Fernando Martins Mascarenhas, capitão de ginetes. O Rei
D. Fernando, ao ver assim levantada aos hombros de dois cortezãos, a
figurinha delicada de um rapaz imberbe, perguntou surpreso, quem era,
que assim lhe apresentavam.
Apenas ouviu nomear o filho de D. João II, descobriu-se reverente,
com uma grande cortezia e mandou-o montar a cavallo, levando-o á sua
direita, e dispensando-lhe d’ahi em diante as maiores deferencias.
* * * * *
Sobre a cabeça do feliz Duque iam sempre cahindo honrarias e benesses.
Pouco tempo depois de voltarem ao Reino, fez-lhe El-Rei doação das
Villas de Montemor-o-Velho, de Penella, de Torres Novas com seus termos
e o Reguengo de Campores, com muitas terras e Padroados.
E como a esse tempo ainda não tinha filha casadoira com que o juntasse,
cumprindo o que em testamento lhe recommendára D. João II, procurou nos
circulos de escol quem pela categoria, situação e belleza pudesse vir
a dar uma duquezinha de Coimbra capaz de figurar no esplendor da Côrte
manoelina.
Andava então na roda do Paço, e fazia as delicias dos Serões, uma
senhora, parenta proxima de El-Rei, cortejada por todos os poetas e
versejadores, e de formusura tão rara que em trovas e motes a cantavam,
dando-lhe o sobrenome significativo de a _Perigosa_.
E perigosa era decerto D. Brites ou Beatriz de Vilhena, pois que, se
facilmente se apaixonavam por ella todos os homens, difficilmente podia
pertencer a algum, visto que era filha do Sr. D. Alvaro, irmão do Duque
de Bragança, e portanto muito chegada ao throno.
Este Sr. D. Alvaro era alguem. Sem appellido, pois o não tinham
os filhos dos Duques de Bragança, batalhara valentemente em Toro,
achara-se no cerco de Samora, e fôra perseguido, como todos os
Braganças, por D. João II que, primeiramente, o empurrou para fóra do
Reino e depois lhe confiscou a casa e bens.
Recolhido com carinho por Fernando e Izabel de Castella, para alli
mandou ir a mulher e os filhos. D. João II, porém, fizera constar ao
Conde de Olivença, sogro do Sr. D. Alvaro, que desejava ficasse no
Reino uma filha do desterrado a quem daria toda a casa e fazenda do pae.
Entregue á rainha D. Leonor, ficou vivendo no Paço, D. Beatriz, que
tomou o appellido de Vilhena.
Tornando-se assim senhora de uma grande fortuna, e brilhando na Côrte
com uma rara formosura, era deveras perigosa a altiva Beatriz, em torno
da qual enxameavam, chamuscando as azas, numerosos poetas e adoradores.
Foi D. Diogo, filho do Marquez de Villa Real, quem lhe deu a alcunha
com o celebre rifão:
«Nam s’espera outro rremedio
de quem vyr _a periguosa_
se nam vida douidosa.»
Accorreram á chamada numerosos versejadores e poetas palacianos que, em
_cantigas de louvor_ com mais ou menos metro, lhe exaltavam a belleza,
lhe censuravam a altivez, ou se queixavam do seu rigor.
D. Nuno da Cunha referindo-se aos signaes que lhe apimentavam o rosto
diz com intenção:
As duuidas, que nos days
cada ora em nossas vidas
eu as tinha bem sabidas,
senhora, em vossos ssynaes
Em vossos sinaes mortaes,
em que nam vi douidosa
minha vida periguosa.
Ao passo que D. Nuno, como vemos, era inspirado pelos provocantes
lunares do rosto da _Perigosa_, João Fogaça, Védor da Casa d’El-Rei,
exclamava com mais enthusiasmo que estro e que grammatica:
«Quem loouar e quem disser
muy grande verdade dys,
y nam se enguana,
que nam a hy ygoal molher
a senhora dona Briatys
de Vylhana
Polo qual nam ha rremedio
a cousa tam _periguosa_
nem ha molher tam fermosa.»
D. Affonso de Ataide, Senhor d’Atouguia, esse então, indo-se-lhe os
sentidos só de encaral-a, dizia:
«Mas olhos y coraçam,
nesta vida duvidosa,
escolhem a mays periguosa!»
Tambem não faltou Garcia de Resende que lhe diz:
Quem na vyr, nam pode ver
se nam de ssy maao pesar,
poys tem çerto o padeçer,
y a pagua do perder
soo com ve-la se paguar.
Mas goay de quem ss’afastar
de ver cousa tam fremosa,
que seja tam periguosa!
D. Joanna de Mendoça, que supponho ser a futura Duqueza de Bragança,
celebre pela formosura, entrou tambem com a sua cantiga:
«Por acudir ao rrifam
nam sey cousa que nam faça,
até confessar na praça
tudo o que nele vos dam.
E pareçe-me rrezam,
que poys soys tam periguosa,
nam sejays despiadosa.»
Fizeram tambem versos á perturbadora creatura Jorge Barreto, o Conde de
Alcoutim, o Conde de Portalegre, o Barão d’Avito, D. Luiz de Menezes,
etc.
Mas o que parece mais exaltadamente apaixonado é D. Diogo, filho do
Marquez de Villa Real. Este tem no Cancioneiro uma longa poesia em
oitavas na qual «se aqueixa comsigo mesmo» e que termina assim:
«meu tormento tam estranho,
que nam ha hy mal tamanho
que não s’acabe ou m’acabe.»
Logo a seguir n’umas trovas «A huma guedelha de cabellos que viu ha
Senhora D. Beatriz de Vilhena» exclama:
«Cabelos de fremosura,
que me tanto namoraram,
ditosa minha ventura,
que sereys a sepultura
dos olhos que vos olharam.»
* * * * *
Foi esta rapariga, que á força de encantos se tornava perigosa, quem
El-Rei D. Manoel e sua irmã a Rainha D. Leonor destinaram ao Duque de
Coimbra.
Irão os leitores talvez conjecturar que, assim casada, ella veiu a dar
n’uma das muitas malmaridadas de que rezam as chronicas coscuvilheiras.
E imaginarão talvez que teve uma vida matrimonial tormentosa o consorte
d’esta Duqueza tão rodeada de galanteios e paixões.
Mas, porque a natural altivez a defendesse, ou porque não fosse
facilmente accessivel o seu coração, ou porque sinceramente gostou do
marido que, embora de pequena estatura, era bem talhado, a verdade é
que o Duque, que não lhe fizera versos, apesar de ter sido discipulo
de Cataldo Siculo, e que não a assediára com declamações sentimentaes
teve a sorte inesperada de ser querido pela appetecida de tantos, pela
admirada de todos.
E a vida continuou a correr desannuviada para o Mestre de Santiago.
Administrava com cuidado a sua grande casa, e governava com tino
as ordens militares o que não era uma _sinecura_, pois reunia com
frequencia Capitulos, fazia ordenar Estados e definitorias (que
ficaram conhecidos com o titulo de Estatutos do Mestre D. Jorge) e
correspondia-se com a Curia para obter privilegios e regalias em favor
dos Freires.
Ora em Lisboa, ora em Setubal, ora em Palmella, os Duques de Coimbra
ostentavam grande estado, e gozavam de poderosa influencia.
Em 1508, quando El-Rei D. Manoel determinou ir soccorrer Arzilla,
achava-se o Duque em Setubal. Apenas soube da intenção do soberano,
aprestou numerosos navios, e, levando gente sua, correu a Tavira a
juntar-se ás tropas reaes.
Não se realizou a expedição. Mas d’este caso resultou uma vistosa
parada das forças de que dispunha o Duque.
Não foi maninha a formosa D. Beatriz. Deu ao marido oito filhos dos
quaes o primogenito foi D. João de Lancastre, 1.º Duque de Aveiro
e Marquez de Torres Novas de romantica memoria, que mais adiante
encontraremos.
Foi tambem seu filho D. Affonso de Lancastre que veiu a ser pae do 3.º
Duque de Aveiro.
E outros teve, entre os quaes D. Jayme Bispo de Ceuta que vieram a
representar um papel curioso na opposição aos amores de seu pae.
Emquanto viveu El-Rei D. Manoel foi o Duque de Coimbra amimado
constantemente com provas de affavel generosidade, e carinho.
Se adoecia, logo o Rei o visitava pessoalmente, o que era testemunho de
grande consideração. E tão alta era reputada essa honra que a primeira
vez que o Duque adoeceu depois da morte de D. Manoel, seu filho El-Rei
D. João III reuniu Conselho para resolver se o devia visitar.
Os do Conselho approvaram, mas o Duque resentiu-se com a idéa da
consulta.
No dia em que D. João III se apeiou á porta do palacio do Senhor D.
Jorge estava este convalescente. El-Rei sem demonstrar apressurado
zelo, atravessou as salas de espera, as do estado e deixando de lado a
sala do Throno, dirigiu-se directamente aos aposentos particulares do
Duque. Estava este ennovelado n’um ferragoulo de velludo escuro, quasi
sumido entre os braços de uma cadeira de couro com pregaria amarella, e
assistia interessado a uma partida de xadrez, que dois creados jogavam,
para o divertirem, quando El-Rei entrou. Este, vendo retirar a mesa e
taboleiro, perguntou ao Duque se gostava de vêr jogar. Respondeu este
logo, sublinhando as phrases:
--«Senhor! Quando El-Rei vosso pae, que santa gloria haja me honrava
com sua presença, por me divertir nas doenças, elle mesmo com summa
benignidade se punha a jogar por me divertir.»
Este remoque levava a intenção de mostrar o desgosto que tivera com
o saber que El-Rei, consultara o conselho para o visitar, o que
contrastava com as intimidades recebidas de El-Rei D. Manoel.
Os Reis desadoram que lhes joguem biscas. D. João III, mais arguto do
que muitos julgam, sentiu o alcance da picuinha e enguliu em secco.
Abreviada a visita retirou-se carrancudo.
Este caso não os desuniu. Mas o que é certo é que nunca houve d’este
Rei para com D. Jorge aquelle carinho que elle merecera aos dois
predecessores.
Bem se mostrou quando foi do conhecido escandalo provocado pelo Marquez
de Torres Novas.
Recordemol-o de passagem, visto que d’elle foi protagonista um filho do
Senhor Dom Jorge.
* * * * *
D. Francisco Coutinho, 4.º Conde de Marialva, e Meirinho-mór do Reino,
era, no primeiro quartel do seculo XVI, um dos mais notaveis fidalgos
da Peninsula. Os seus annos (andava pelos setenta quando a tempestade
estalou), os seus serviços (já fôra Alferes-mór de El-Rei D. Affonso
V, e batalhára em Castella e em Africa), a sua fortuna (pois a casa
Marialva era reputada das mais ricas) tornavam-n’o respeitado por
todos, gozando de uma grande reputação e auctoridade.
Tinha uma filha unica, D. Guiomar, que «pela pessoa e riqueza era
considerada o maior casamento que então havia em Hespanha».
O velho Conde, embora nobre e rico, ambicionava para a cabeça da filha
uma corôa fechada, e não lhe desagradava a idéa de que ella trocasse
as suas armas por um escudo com banco de pinchar. Queria vel-a Infanta
de Portugal. Não se atreveu a aspirar ao herdeiro do throno. Mas como
El-Rei D. Manoel tinha mais filhos pretendera que este a acceitasse
para o Infante D. Fernando então ainda creança.
O Rei Venturoso não era indifferente á seducção do oiro. Accedeu aos
desejos do Conde, por lhe parecer (escreveu elle) cousa proveitosa para
o Infante e para o Reino.
Morrendo entrementes D. Manoel, seu filho, D. João III, não se demorou
em dar cumprimento ao ajustado e, na casa do Conde de Marialva, em
Março de 1522, fizeram-se as capitulações para se effectuar o casamento
logo que o Infante chegasse aos dezesete annos.
Estavam as cousas n’este ponto, quando um dia surje no Paço o velho
Conde de Marialva, allucinado, afflicto, fóra de si, e deita-se aos pés
d’El-Rei clamando justiça.
Era o caso que D. João de Lancastre, Marquez de Torres Novas, filho da
Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra, com um atrevimento inaudito, viera
oppôr-se ao matrimonio de D. Guiomar, allegando «que muito antes do
contracto com o Infante Dom Fernando era elle casado clandestinamente
com a filha do Conde, e determinára pôr este caso em juizo».
--«Era uma affronta á sua velhice (gritava o velho), era uma injuria
ás suas cãs. Era tambem para El-Rei um insulto, pois que, fiado na
pouca edade do soberano, o Marquez esperára a morte d’El-Rei D. Manoel,
julgando que a inexperiencia do successor lhe facilitaria a empresa.»