--¿Tu estás morto ou vivo?--perguntou. O homem encolheu os ombros com
lentidão:
--Senhor, não sei... ¿Quem sabe o que é a vida? ¿Quem sabe o que é a
morte?...
--¿Mas que queres de mim?
O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o nó da corda que
ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente:
--Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vós ides.
O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rédeas, que
o seu bom cavalo se empinou como assombrado tambêm.
--Comigo a Cabril?!...
O homem curvou o espinhaço, a que se viam os ossos todos, mais agudos
que os dentes de uma serra, através de um longo rasgão da camisa de
estamenha:
--Senhor--suplicou--não mo negueis. Que eu tenho a receber grande
salário se vos fizer grande serviço!
Então D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça
formidável do Demónio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta
que para êle se erguia, ansiosa, à espera do seu consentimento--fez um
lento e largo Sinal da Cruz.
O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência:
--¿Senhor, para que me experimentais com êsse sinal? Só por êle
alcançamos remissão, e eu só dêle espero misericórdia.
Então D. Rui pensou que, se êsse homem não era mandado pelo Demónio, bem
podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em
que tudo entregava ao céu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:
--Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus te manda! Mas eu nada te
pergunto e tu nada me perguntes.
Desceu logo o cavalo à estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia
ao seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava
êle se conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.
Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o nó da corda que lhe
enroscava o pescoço. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma
de flores silvestres, o homem murmurava com infinito alívio e delícia:
--Como é bom correr!
D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora
que era aquele um cadáver reanimado por Deus, para um estranho e
encoberto serviço. ¿Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro?
¿Para o proteger? ¿Para impedir que D. Leonor, amada do céu pela sua
piedade, caísse em culpa mortal? ¿E, para tam divina incumbência de tam
alta mercê, já não tinha o Senhor anjos no céu, que necessitasse
empregar um supliciado?... Ah! como êle voltaria alegremente a rédea
para Segóvia, se não fôra a galante lealdade de cavaleiro, o orgulho de
nunca recuar, e a submissão às ordens de Deus, que sentia sôbre si
pesarem...
Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento
franciscano alvejando ao luar, os casais adormecidos entre as
hortas. Muito silenciosamente, sem que um cão ladrasse detrás das
cancelas ou de cima dos muros, desceram a vélha ponte romana. Diante do
Calvário, o enforcado caíu de joelhos nas lages, ergueu os lívidos ossos
das mãos, ficou longamente rezando, entre longos suspiros. Depois ao
entrar na azinhaga, bebeu muito tempo, e consoladamente, de uma fonte
que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro. Como a azinhaga era
muito estreita, êle caminhava adiante do cavaleiro, todo curvado, os
braços cruzados fortemente sôbre o peito, sem um rumor.
A lua ia alta no céu. D. Rui considerava com amargura aquele disco,
cheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sôbre
o seu segredo. Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma
enorme lua surdia de entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado
descia da forca para o seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas
que tristeza chegar à doce porta docemente prometida, com tal intruso ao
seu lado, sob aquele céu todo claro!
Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o braço, de onde a manga
pendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho
mais largo e mais batido:--e diante dêles alvejava o comprido muro da
quinta do senhor de Lara, tendo aí um mirante, com varandins de
pedra, e todo revestido de hera.
--Senhor--murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D.
Rui--logo a poucos passos dêste mirante é a porta por onde deveis
penetrar no jardim. Convêm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma
árvore, se o tendes por seguro e fiel. Que na emprêsa em que vamos, já é
de mais o rumor dos nossos pés!...
Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro,
ao tronco dum álamo sêco.
E tam submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus, que sem
outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.
Com vagarosa cautela, e na ponta dos pés nus, avançava agora o
enforcado, vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando
a escutar rumores que só para êle eram percebíveis--porque nunca D. Rui
conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.
E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi
lentamente enchendo tambêm o valoroso cavaleiro de tam viva
desconfiança, que tirava o punhal da baínha, enrodilhava a capa no
braço, e marchava em defesa, com o olhar faiscando, como num
caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma porta baixa, que o
enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. Penetraram numa
rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água, onde
boiavam fôlhas de nenúfares, e que toscos bancos de pedra circundavam,
cobertos pela rama de arbustos em flor.
--Por ali--murmurou o enforcado, estendendo o braço mirrado.
Era alêm do tanque, uma avenida que densas e vélhas árvores abobadavam e
escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado
adiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem roçar um ramo, mal
pisando a areia. Um leve fio de água sussurrava entre relvas. Pelos
troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O coração de
D. Rui recomeçou a bater numa esperança de amor.
--Chut!--fez o enforcado.
E D. Rui quási tropeçou no sinistro homem que estacava, com os braços
abertos como as traves de uma cancela. Diante dêles quatro degraus de
pedra subiam a um terraço, onde a claridade era larga e livre.
Agachados, treparam os degraus--e ao fundo dum jardim sem árvores, todo
em canteiros de flores bem recortados, orlados de buxo curto,
avistaram um lado da casa batido pela lua cheia. Ao meio, entre as
janelas de peitoril fechadas, um balcão de pedra, com manjericões aos
cantos, conservava as vidraças abertas largamente. O quarto, dentro,
apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar
banhava. E arrimada contra o balcão, estava uma escada com degraus de
corda.
Então o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escuridão
da avenida. E aí, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:
--Senhor! Convêm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós
quedais aqui na escuridão destas árvores. Eu vou trepar àquela escada e
espreitar para aquele quarto... E se fôr como desejais, aqui voltarei, e
com Deus sêde feliz...