D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando
de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou
de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:
--Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me
mandou...
D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com
êle contra o peito, como para o enterrar no coração...
O moço do campo insistia, inquieto:
--Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um
sinal de vos ter vindo o recado...
Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o
môço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas
leves, quando, com um acêno, D. Rui ainda o deteve:
--Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?
--O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos
Enforcados.
--Bem.
D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o
sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que
D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser.
E não o maravilhava esta oferta--depois de uma tam constante,
imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto,
por ser muito forte, que com grande paciência se esconde ante os
estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de
contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o
amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham
cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros
do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos
frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com
amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo
desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tambêm o seu
corpo.
Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam
mais bela e mais apetecida!
Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em
descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias
cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava
amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas,
um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à
cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado.
Sôbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da
espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para
Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em tôrno ao
mosteiro franciscano, e a vélha ponte romana com o seu Calvário, e
a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nesse
inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e
avistara a torre dos de Lara, e pensara:--«Eis a torre da minha
ingrata!» Como se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de
Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no
Cêrro dos Enforcados... Bem o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e
pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os
criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouçados da ventania,
ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem,
brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do Cêrro era a
lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do
apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e
paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão
negro, esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e
direito a Cabril.
Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia
caíndo. Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram
a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das
Almas, o valente môço sentiu um medo estranho, o medo daquela
felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois,
certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais
inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança
duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem
apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? ¿E o que
fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro,
esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois
olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor,
abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos
distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e
nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:--«Oh! mal
avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!»
¿Houvera jàmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo
atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já
na verdade caminhava;--pois quanta desventura em saber que depois de tal
ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos braços, êle recolhesse
a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente
adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro amo!
Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era
esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade
êsse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os
cabelos soltos! Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou
sôbre o seu cavalo. Depois, por prudência, atravessou o adro muito
lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como num passeio
natural, a procurar fóra dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro
o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um mendigo, agachado na
escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua sanfona, pediu, em
lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil
cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma
esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de
vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto,
desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco,
tremeluzia uma lâmpada alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem
com o peito traspassado por sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o
sombreiro nas lages, e com as mãos erguidas, muito zelosamente, rezou
uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora,
que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se êles só déssem
inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. Emquanto êle
rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a tocar a
agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo
murmurou:--«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo
frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente--o toque de
agonia não era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e
partiu.
Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o
caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das
colinas, ao fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e
lânguido, da lua cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo,
receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os moços
findassem o serão e o rosário. ¿Porque não lhe marcara D. Leonor a hora,
naquela carta tam clara e tam pensada? Então a sua imaginação corria
adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada
prometida--e êle largava tambêm atrás, numa carreira sôfrega, que
arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo
ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o
coração contra o peito, como ave presa que bate às grades.
Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, mais
juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de
pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um
instante de angústia, pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro
dos Enforcados. Já se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os
pinheiros calados, uma luz surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em
farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sôbre um bordão e
levando uma candeia.
--¿Para onde vai este caminho?--gritou Rui.
A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.
--Para Xarama.
E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali
tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho
errado... Já êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou
pela outra estrada mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os
pilares negros, os madeiros negros do Cêrro dos Enforcados. Então
estacou, direito nos estribos. Num cômoro alto, sêco, sem erva ou urze,
ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se erguiam, negros,
enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de granito
semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita. Sôbre os pilares
pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados
negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como
êles.
Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm,
rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua
ia grande e cheia.
D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas
culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava--quando, no imenso silêncio
e na imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava,
suplicante e lenta:
--Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...
D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou
os olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero,
a água rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra
ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante. E, serenamente,
picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia.
Mas, por trás, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási
aflita:
--Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...
De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os
quatro corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava a voz,
que, sendo humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados,
pois, o chamara, com tanta pressa e ânsia.
¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou
seria que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o
detinha para lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz
rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar,
espavoridamente, sem a atender e a ouvir.
Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando,
direito e calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os
quatro corpos suspensos, gritou:
--¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?
Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da
corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua
janela para a rua:
--Senhor, fui eu.
D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face,
enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes.
Só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os
pés nus, já ressequidos e da côr do betume.
--Que me queres?
O enforcado, suspirando, murmurou:
--Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou
pendurado.
D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio
apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no
chão, onde jazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou
sôbre os pés mal seguros e ainda dormentes--e ergueu para D. Rui uma
face morta, que era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela
que a lua que nela batia. Os olhos não tinham movimento nem brilho.
Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os
dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua muito negra.