III

D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco pátio da sua casa, quando

de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um môço do campo, que tirou

de dentro do surrão uma carta, lha entregou, murmurando:

--Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me

mandou...

D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com

êle contra o peito, como para o enterrar no coração...

O moço do campo insistia, inquieto:

--Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um

sinal de vos ter vindo o recado...

Muito pálido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o

môço enrolou e sumiu no surrão. E já abalava na ponta das alpercatas

leves, quando, com um acêno, D. Rui ainda o deteve:

--Escuta. ¿Que caminho tomas tu para Cabril?

--O mais certo e sòzinho para gente afoita, que é pelo Cêrro dos

Enforcados.

--Bem.

D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o

sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que

D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, à posse inteira do seu ser.

E não o maravilhava esta oferta--depois de uma tam constante,

imperturbada indiferença. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto,

por ser muito forte, que com grande paciência se esconde ante os

estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de

contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o

amara, pois, desde a manhã bemdita em que os seus olhos se tinham

cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto êle rondava aqueles muros

do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos

frios muros, já ela lhe dera a sua alma, e cheia de constância, com

amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo

desconfianças, preparava a noite radiante em que lhe daria tambêm o seu

corpo.

Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam

mais bela e mais apetecida!

Com que impaciência olhava então o sol, tam desapressado nessa tarde em

descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias

cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava

amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas,

um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. Duas vezes desceu à

cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado.

Sôbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da

espada que levaria à cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para

Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em tôrno ao

mosteiro franciscano, e a vélha ponte romana com o seu Calvário, e

a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara. Ainda nesse

inverno por lá passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e

avistara a torre dos de Lara, e pensara:--«Eis a torre da minha

ingrata!» Como se enganava! As noites agora eram de lua, e êle saíria de

Segóvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no

Cêrro dos Enforcados... Bem o conhecia tambêm, êsse sítio de tristeza e

pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os

criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouçados da ventania,

ressequidos do sol, até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem,

brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trás do Cêrro era a

lagôa das Donas. A derradeira vez que por lá andara, fôra em dia do

apóstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e

paz, em procissão, iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão

negro, esbrugadas pelas aves. Daí o caminho, depois, corria liso e

direito a Cabril.

Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia

caíndo. Mas, quando escureceu, e em tôrno às tôrres da igreja começaram

a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das

Almas, o valente môço sentiu um medo estranho, o medo daquela

felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. ¿Era, pois,

certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais

inacessível que um astro, seria sua, toda sua, no silêncio e segurança

duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se não tivessem

apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? ¿E o que

fizera êle para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro,

esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois

olhos, que não se erguiam, indiferentes ou desatentos. Então, sem dor,

abandonara a sua esperança... E eis que de repente aqueles olhos

distraídos o procuram, e aqueles braços fechados se lhe abrem, largos e

nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:--«Oh! mal

avisado, que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!»

¿Houvera jàmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo

atrás dela, se não erra a lei humana, já devia caminhar a desventura! Já

na verdade caminhava;--pois quanta desventura em saber que depois de tal

ventura, quando de madrugada, saíndo dos divinos braços, êle recolhesse

a Segóvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente

adquirido por um instante, recaíria logo sob o poder de outro amo!

Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era

esplêndidamente sua, o mundo todo uma aparência vã e a única realidade

êsse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os

cabelos soltos! Foi com sofreguidão que desceu a escada, se arremessou

sôbre o seu cavalo. Depois, por prudência, atravessou o adro muito

lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como num passeio

natural, a procurar fóra dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro

o inquietou até à porta de S. Mauros. Aí, um mendigo, agachado na

escuridão dum arco, e que tocava monótonamente a sua sanfona, pediu, em

lamúria, à Virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil

cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma

esmola, quando se lembrou que nessa tarde não fôra à igreja, à hora de

vésperas, rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. Com um salto,

desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vélho arco,

tremeluzia uma lâmpada alumiando um retábulo. Era uma imagem da Virgem

com o peito traspassado por sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o

sombreiro nas lages, e com as mãos erguidas, muito zelosamente, rezou

uma Salve-Rainha. O clarão amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora,

que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se êles só déssem

inefáveis gozos, sorria com os lábios muito vermelhos. Emquanto êle

rezava, no convento de São Domingos, ao lado, a sineta começou a tocar a

agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo

murmurou:--«Lá está um frade a morrer!» D. Rui disse uma Ave-Maria pelo

frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente--o toque de

agonia não era, pois, de mau preságio! D. Rui cavalgou alegremente e

partiu.

Para alêm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o

caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trás das

colinas, ao fundo da planície escura, subia o primeiro clarão, amarelo e

lânguido, da lua cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo,

receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os moços

findassem o serão e o rosário. ¿Porque não lhe marcara D. Leonor a hora,

naquela carta tam clara e tam pensada? Então a sua imaginação corria

adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada

prometida--e êle largava tambêm atrás, numa carreira sôfrega, que

arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo

ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o

coração contra o peito, como ave presa que bate às grades.

Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, mais

juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando através de

pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um

instante de angústia, pois não se recordava qual delas levava ao Cêrro

dos Enforcados. Já se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os

pinheiros calados, uma luz surgiu, dansando no escuro. Era uma vélha em

farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sôbre um bordão e

levando uma candeia.

--¿Para onde vai este caminho?--gritou Rui.

A vélha balançou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.

--Para Xarama.

E luz e vélha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali

tivessem surgindo sómente para avisar o cavaleiro do seu caminho

errado... Já êle virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvário, galopou

pela outra estrada mais larga, até avistar sôbre a claridade do céu os

pilares negros, os madeiros negros do Cêrro dos Enforcados. Então

estacou, direito nos estribos. Num cômoro alto, sêco, sem erva ou urze,

ligados por um muro baixo, todo esbrechado, lá se erguiam, negros,

enormes, sôbre a amarelidão do luar, os quatro pilares de granito

semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita. Sôbre os pilares

pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados

negros e rígidos, no ar parado e mudo. Tudo em tôrno parecia morto como

êles.

Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sôbre os madeiros. Para alêm,

rebrilhava lívidamente a água morta da lagôa das Donas. E, no céu, a lua

ia grande e cheia.

D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristão àquelas almas

culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava--quando, no imenso silêncio

e na imensa solidão, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava,

suplicante e lenta:

--Cavaleiro, detende-vos, vinde cá!...

D. Rui colheu bruscamente as rédeas e erguido sôbre os estribos, atirou

os olhos espantados por todo o sinistro ermo. Só avistou o cêrro áspero,

a água rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fôra

ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante. E, serenamente,

picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Segóvia.

Mas, por trás, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa, quási

aflita:

--Cavaleiro, esperai, não vos vades, voltai, chegai aqui!...

De novo D. Rui estacou e, virado sôbre a sela, encarou afoitamente os

quatro corpos pendurados das traves. Do lado dêles soava a voz,

que, sendo humana, só podia saír de forma humana! Um dêsses enforcados,

pois, o chamara, com tanta pressa e ânsia.

¿Restaria nalguns, por maravilhosa mercê de Deus, alento e vida? ¿Ou

seria que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o

detinha para lhe transmitir avisos de Alêm-da-Campa?... Mas, que a voz

rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar,

espavoridamente, sem a atender e a ouvir.

Atirou logo para dentro do cêrro o cavalo, que tremia; e, parando,

direito e calmo, com a mão na ilharga, depois de fitar, um por um, os

quatro corpos suspensos, gritou:

--¿Qual de vós, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?

Então aquele que voltava as costas à lua cheia respondeu, do alto da

corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua

janela para a rua:

--Senhor, fui eu.

D. Rui fez avançar para diante dêle o cavalo. Não lhe distinguia a face,

enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes.

Só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas, e tambêm soltos os

pés nus, já ressequidos e da côr do betume.

--Que me queres?

O enforcado, suspirando, murmurou:

--Senhor, fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou

pendurado.

D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio

apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caíu no

chão, onde jazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou

sôbre os pés mal seguros e ainda dormentes--e ergueu para D. Rui uma

face morta, que era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela

que a lua que nela batia. Os olhos não tinham movimento nem brilho.

Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os

dentes, muito brancos, surdia uma ponta de língua muito negra.

Contos(#31347) · 第 28 / 52 题