surprehendido em flagrante delicto de admiração diante da entrada de um
casino de Sevilha. Que singeleza! Um vestibulo rectangular, ladrilhado
de marmore, as paredes com uma cercadura de um metro de azulejo e depois
gobelinos até ao tecto de madeira, apainelado; ao centro tres arcos
sobre quatro columnas de marmore branco dando entrada para o pateo,
quadrado, com uma ornamentação semelhante á do vestibulo. Não ha n'isto
grandes reminiscencias dos mouros? Ha, decerto; toda a differença
consiste não em desconhecermos a belleza da sua arte mas em a tornarmos
como subordinada a uma concepção mais alta. De fim ultimo e principal,
os seus mais bellos elementos transformam-se ás nossas mãos em accidente
e complemento.
É tempo de passarmos á formosa Andaluzia, formosa nas suas mulheres, no
pittoresco dos costumes, retardatarios da desnacionalisação, porque a
formosura dos seus campos soffre grandes reservas.
Pelos montes e outeiros predominam os olivaes, e a palmeira (_chamærops
humilis_), as agaves, o esparto, a giesta, e as lavouras de trigo
preenchem os intervallos; as terras baixas são mimosas, onde têm agua,
mas com esta indecifravel confusão de plantas dos terrenos bem
cultivados, perdem toda a fôrça e caracter como paizagem. Para esta
ficam só as terras altas e que pouco dizem porque as oliveiras estão
muito distantes entre si e as outras plantas muito dispersas para darem
qualquer fórma ou colorido definido. Ainda assim, onde o olival é basto
accentua-se certo caracter de calor e suavidade; a folha da oliveira,
leve de colorido e pouco brilhante, semelhando cobre velho oxydado,
desenrola sobre a terra um tapete que se sente profundo e leve, sem a
dureza polida e fria das vastas superficies luzentes. Caracter que as
restantes plantas partilham: o brilho é proprio das plantas viçosas e
aqui não as ha, têm falta d'agua. A propria palmeira é bem differente
d'aquillo que parece nos nossos jardins, mais coriacea, não se expande
nesse viço que é uma phase brilhante de estiolamento.
E todavia não faltará quem se extasie diante do Guadalquivir e do Genil
em que se reflecte a alvura da Serra Nevada. Se me não illudo, é o caso
tão frequente da confuzão do bem-estar physico com a belleza da
paizagem. Para os que vêm dos montes abrazados, o valle humido e tepido
dá uma sensação balsamica que nos induz a chamar bello a quanto nos
rodeia. Esta sensação associada á cubiça de riquezas, foi talvez uma das
grandes forças da conquista arabe; por aquellas veigas sorria um prazer
que para lá do mar era bem raro e o mouro vinha buscal-o, impetuoso,
como uma onda negra espumando sangue.
N'estes climas tão ricos, a vegetação vai desde o trigo até á vinha, a
oliveira, a laranjeira e a tamara; nos poucos metros d'um jardim
percorrem-se quasi completamente as zonas de todo o mundo.
D'aqui a belleza da gente, creada na abundancia, com os frios moderados
que avigoram, sem a molleza lymphatica dos calores excessivos. O clima
tudo lhes deu: uma alimentação variada, abundante e sã, e as
alternativas e graduações de temperatura convenientes para dar ao corpo
plena expansão de vigor.
Vigor indomavel, latejante e transparente: a belleza das raparigas do
norte palpita apenas; na andaluza, os olhos e os cabellos negros, a
pelle mimosa e branca, têm relampagos de sensualidade.
Mas a mocidade é breve, segue-se uma vida mais sedentaria, e quando na
casa a mesa é farta e a doença e o trabalho não castigam, um corpo tão
são tem comsigo um inimigo invencivel da belleza--a obesidade. É ahi que
vai naufragar o melhor da formosura da Andaluzia; nas ruas, nos passeios
e nos caminhos de ferro encontra-se esta phylloxera em todos os estados,
desde a mulher de trinta annos de uma redondeza acabada, até á
sexagenaria informe.
Mudou a physionomia mas o caracter é sempre o mesmo, é em toda a idade a
desenvoltura de que já em Marselha tivemos prenuncios. Dar exercicio aos
musculos, palrando com grandes gestos, saracoteando-se e cantando,
constitue a primeira necessidade d'esta gente. É sabido como os
hespanhoes adoram a rua e os cafés. Pois não é porque bebam muito; o que
precisam é fallar e agitar-se, ruido e movimento.
A mesma musica tem este caracter de agilidade; as depressões alternadas
de andamento rapido e lento são manifestas como na musica italiana a
predilecção pela cadencia prolongada. Parece que só a Allemanha tirou da
musica a expressão d'uma paixão intima e moral; os outros povos
contentam-se em reduzil-a á simples traducção do seu modo de ser
sensual.
Para que tudo esteja d'harmonia--e esta harmonia é para mim o mais bello
da Andaluzia--a habitação é tambem o que melhor se podia conformar com o
clima. O pateo, com a fonte de marmore ao centro, rodeado por uma
galeria em arcos ou sobre columnas é quasi geral nas casas da Andaluzia;
adornado com plantas dá um canto de frescura para passar no verão as
horas de calma, ao mesmo tempo que é um elemento de belleza. Não foi a
Andaluzia que o inventou, é romano ou arabe, é talvez de todos os povos.
Adoptal-o, porém, foi o grande impulso de bom-senso.
Porque não fizemos o mesmo em Lisboa, preferindo a imitação parisiense,
tão pouco justificada? Porque não teremos o pateo alumiado, fresco e
aceiado em logar da escada sombria, abafada e negra? Porque não fizemos
uma avenida ladeada de casas peninsulares em logar d'um _boulevard_?
Descuidadamente, fui a fallar das coisas de casa. Pois não voltarei
atraz. Recolho ao ninho, que já não é sem saudade.
Ao abeirar-me d'essa natureza que encerra o vidoeiro e a palmeira, com
tanto amor bafejada da fertilidade e belleza, ao contacto d'essa alma
tão nobre que na corrupção e na miseria tem ainda scintillações de
heroismo, esmorece a sympathia pela gente que deixei para além dos
Pyrenéos e dos Alpes.
A sua alegria é um sorriso frouxo na sombra tremula e fria do vidoeiro e
do abeto, e a alegria da minha terra vai desde a alvorada de primavera
rutilante e fresca até á gargalhada estridente e pagã, entre o perfume
do louro e o vigor do pampano. A sua melancolia é o brando palpitar d'um
crepusculo de outono, e a melancolia da minha terra é ardente e ampla,
um clamor de bronze vibrado nas labaredas do estio.
Bem vindo seja pois esse ninho tecido de miserias e de grandeza!
INDICE
Pag.
Dedicatoria V
Advertencia VII
Modos de viajar 2
O Minho 4
O Douro 6
Entrada em Hespanha 7
Salamanca 9
Miranda do Ebro 12
Os Pyrenéos 13
Paris 14
Liège 23
Lavoura por cavallos 24
Campos de Liège 25
O Hanover 26
Prados e florestas 27
O snr. G. Saunders 28
Berlim 29
De Berlim a Varsovia; a alfandega russa 33
A paisagem da Polonia 34
Varsovia 36
A paizagem do norte da Russia 38
A aldeia da Russia 39
Moscow 40
Visita a Tolstoï 44
S. Petersburgo 53
A Finlandia 55
A paizagem 56
A Scandinavia 59
Copenhague 64
A industria moderna 67
O domingo em Paris 72
Seducções de Paris 73
Paizagem do Rhodano 75
Marselha 76
Caminho d'Argel 77
Argel 80
Paizagens 87
Os monumentos arabes 91
A Andaluzia 97
DO MESMO AUCTOR:
_Estudos sobre litteratura contemporanea_ 1 vol.
_O Snr. Oliveira Martins e o seu projecto de lei sobre o fomento
rural_ Folh.
_A arte d'estudar_ (versão do inglez) 1 vol.
_A Democracia_ Folh.
End of Project Gutenberg's Cidades e Paisagens, by Jaime de Magalhães Lima