historia que o poder creador não é infinito, encerrado como está entre
os limites objectivos, a constancia dos materiaes, e os limites
subjectivos, a capacidade e a fórma de sentir de cada raça.
As artes exoticas, que são um dos muitos elementos que a sciencia e as
descobertas modernas deram á phantasia, despertarão sempre curiosidade
intellectual como revelações de civilisações estranhas, mas, passado
este primeiro deslumbramento, não entrarão nos museus, deixando no
adorno domestico só o que se conforma com as nossas concepções
estheticas?
* * * * *
_Oran, 6 de Outubro._
Despedi-me de Paris com saudades, digo-o com franqueza, por muito
incoherentes que pareçam estas sympathias com o que disse nas minhas
cartas anteriores; saudades aggravadas pela tristeza da cidade no dia da
partida, um domingo, quasi tão despovoado e silencioso como em Londres.
Todo o mundo emigra e vai dispersar-se pelos arrabaldes.
É ainda um pequenino facto a notar a differença do domingo entre Paris e
Stockolmo. Alli o domingo, na cidade, é animado, os passeios, os museus
e os espectaculos apinhados de povo; a vida dos dias de trabalho não é
tão absolutamente extenuante como em Paris e por isso não appareceu
ainda a necessidade de tão pleno repouso; nos prazeres e no trabalho
mantem-se a sabedoria da modestia, que nem carece de se esfalfar na
conquista de riquezas, nem demanda requintes de gozo. E, como nas
aldeias, o domingo é para a palestra e para vêr os amigos, que na
verdade o corpo não se sente fatigado, só o espirito necessita de
alimento e expansão.
Não continuemos n'este thema; já muito tenho dito do que em Paris me
magôa. É tempo de dar razão das minhas saudades.
Disse que Paris carecia de vida moral, nem outra coisa podia succeder a
uma terra que, entre muitas outras causas d'esse estado, tem uma
alluvião de estrangeiros em busca de prazeres, incessantemente renovada.
Mas, se o homem não vive só de pão, não vive tambem só do coração e do
amor divino; tem aspirações complexas e irreductiveis, e embora em sua
consciencia reconheça certa ordem dominante, nem ignora a existencia das
outras tendencias concorrentes nem, quando é sincero, nega o prazer de
as sentir satisfeitas.
Vem isto a dizer que, independentemente da vida intima social ha uma
outra vida social mais larga e menos profunda, que é uma necessidade e
um prazer, e em que a sympathia rege o que na primeira é regulado pela
amizade, e a urbanidade substitue a dedicação paciente. Ora a este
genero de vida, cuja actividade sentimos todos os dias e, póde dizer-se,
todas as horas, a este genero de vida Paris deu todo o encanto real e
attingivel, com as suas formulas de polidez e com uma comprehensão
instinctiva das pequeninas coisas que podem ferir ou magoar. Muito
francez--diz-se como significando falta de sinceridade, e é possivel que
um longo habito tornasse inconscientes actos e palavras que d'outro modo
teriam valor moral; mas é incontestavel que embora essas formulas, esse
modo de ser externo, não tenham valor moral positivo, não deixam por
isso de ter reduzido ao minimo os espinhos e asperezas da convivencia;
podem não ser virtude nem peccado, mas são em todo o caso uma arte com
todos os prazeres de tal natureza. E, quando alguem os sente,
abandona-os com a mesma tristeza com que os bons bebedores abandonam os
bons vinhedos, onde por baixo preço sorvem com delicia todos os dias o
precioso perfume a que mais querem.
Emquanto assim pensava, aproximavam-se as bocas do Rhodano, cuja
paizagem me deixou indifferente. Os campos são largos, vastos, e por
vezes viçosos e ferteis, e ao longe descobrem-se as ultimas ramificações
dos Alpes, mas os montes estão excessivamente distantes para que possam
entrar como valor importante, e a planicie, muito cultivada, tem uma
variedade de vegetação e regularidade de plantações que destroe toda a
harmonia natural. A paizagem carece pois de movimento.
Parecerá absurda esta expressão--movimento da paizagem--mas, observando
e reflectindo, veremos que a repetição de uma mesma curva acompanhada da
repetição simultanea dos mesmos tons de colorido e dos mesmos reflexos
dá na realidade a impressão de uma determinada ondulação, um mesmo
movimento, como acontece nas montanhas ou planicies povoadas de uma só
especie vegetal, ou, pelo menos, de uma só especie dominante. Ora este
effeito perde-se nas terras em que a cultura obriga á variedade.
Voltando ao Rhodano--não quero dizer que não tenha quadros encantadores,
para o que lhe basta a abundancia de luz. São todavia limitados e sem
relação entre si; são para a grande paizagem o mesmo que os innumeros
quadros da vida domestica são para a grande pintura historica que
condensa a epopêa d'um povo, lançando n'uma tela estreita seculos de
vida.
Caminhemos. Adiante encontramos Marselha, e á paizagem vem juntar-se a
cidade para nos lembrar a distancia a que estamos de Paris e um pouco
tambem para nos avivar as saudades. Marselha é um prenuncio da Hespanha:
reappareceu o penteado tão cuidado que não tornára a vêr desde
Salamanca, os cabellos pretos e a desenvoltura. Esta gente é irrequieta,
o que é uma coisa bem differente da vivacidade franceza. A vivacidade,
para mim, é constituida por gestos e movimentos da physionomia, breves
em intensidade e duração mas repetidos e revelando uma actividade de
espirito simultanea e semelhante; a desenvoltura é prodiga de movimentos
que nada dizem das suas relações psychologicas. A vivacidade, quando ri,
scintilla de sympathia; a desenvoltura, rindo, é egoista se não encerra
um sarcasmo. Os francezes são mais vivos, a gente de Marselha mais
desenvolta, como os hespanhoes.
Estamos á beira-mar; mais vinte e quatro horas e bateremos ás portas do
mundo arabe.
Pela manhã trovejou, e das bandas de Africa sopra um vento asphyxiante e
morno.
A um canto do vapor uma criança ao collo repete com o olhar fixo de
mysterioso scismar que as crianças têm ás vezes: Pa... pá, pa... pá...
Ao lado, uma mulher nova e galante conversa com o capitão, brandamente,
n'um tom meigo de saudade.
--Vamos, disse elle.
--_Bon voyage._
--_Au revoir._ E abraçaram-se, silenciosos, mudos, sem uma lagrima.
Ella seguiu pelo caes, voltou-se e olhou quando o vapor partia e
perdeu-se no borborinho da rua, caminhando ao lado do filho, lenta,
tranquillamente, o coração envolto na dôr, na esperança a na virtude.
Vi ainda uns vagalhões titanicos e cambaleando deixei-me rolar como um
fardo no canto de um divan. Na ancia e na fraqueza semi-febril
obscurecem-se os limites do sonho e do pensamento consciente.
Via o enterro d'um amigo; um enterro civil. A porta desconjuntada e
carunchosa d'um quintalejo, n'um sitio ermo, veio uma carroça empoeirada
de cal, puxada por um macho escuro, somnolento, orelha derrubada, uns
arreios sujos, de pregos amarellos, resequidos e gretados do sol. O
caixão appareceu sobre a carroça, não sei como, e sobre elle, o
carroceiro, um soldado francez, de largas calças vermelhas e jaqueta
azul, sentou-se, perna bamboleante, costas para o macho. Fallou-lhe e
partiu. Ao lado da carroça pendia uma lanterna; no limiar da porta
ficára uma mulher da Beira, morena, espadaúda e baixa, o cabello
empastado na testa e as mãos cruzadas debaixo do avental.
--Não quer a lanterna accesa, tio Manoel?
--Não é preciso, a noite está clara.
E n'aquelle silencio sentiu-se só o estremecer da carroça sacudida no
macadam da estrada á beira d'um juncal, caminho do cemiterio.
--_Monsieur, nous sommes à Alger_, disse alguem perto de mim.
Levantei-me e subi. Na noite escura, mais escuro ainda um grande panno
negro, uma montanha semeada de luzes; e em baixo sob um rosario de bicos
de gaz, pernas e faces negras e nuas entre gorros vermelhos e farrapos
brancos enxovalhados--foi o meu despertar no mundo arabe.
Um sonho mau entre um quadro de amor domestico e um quadro de
miseria--são todas as minhas impressões d'esse Mediterraneo azul,
limpido, sereno, dissolução filtrada de anilina que em tempos que já la
vão faria a delicia dos janotas e a fortuna das engommadeiras de Lisboa,
vendido a retalho.
* * * * *
_Granada, 9 de Outubro._
Argel, vista de noite, nas sombras da luz escassa, dá-nos a impressão de
uma grande miseria; mas, vindo a manhã, no movimento das ruas e dos
mercados, essa miseria conver-te-se n'uma grande mascarada para os olhos
surprehendidos do viajante europeu, pouco habituado ao contacto das
civilisações mescladas e exoticas. Rimos d'essa confusão de arabes, de
turcos, de francezes e marroquinos e rimos ainda mais do albornoz e do
turbante; associados ao chapéo de sol e ás botas de elastico, vivendo em
santa paz na mesma pessoa. Ao lado da franceza toda encalmada, de manga
curta e collo descoberto, vêm as mulheres da terra, embiocadas em leves
roupas brancas que a imaginação do nosso povo escolheria para trajo das
almas do outro mundo; entre os mercadores de blusa azul, de pé, lestos
em attender o freguez, como os vemos pelas nossas praças, está o arabe,
sentado, de pernas cruzadas, indifferente e moroso, com um lento
pestanejar de ruminante.
Rimos emquanto o pensamento não nos inicia em caminho differente; porque
logo, reflectindo, entre o grotesco e o comico de associações disparates
descobrimos o orgulho do vencedor, dominando imperioso e inflexivel, e,
em baixo, a seus pés, a babugem de uma onda outr'ora forte e temerosa,
agora fraca e quasi extincta, agitando-se semi-morta nas prisões de
ferro em que a Europa a lançou. N'uma cidade, como Argel, em que
passeiam hombro a hombro vencedor e vencido, a derrota é patente todo o
dia como na hora do combate. Quando a Allemanha venceu a França, cada um
recolheu ás suas terras e ahi recobrou altivez; mas Argel vencida foi
tambem conquistada e o povo arrasta as algemas de uma escravidão mais ou
menos real e mais ou menos consciente. Por aquellas ruas anda uma
população que se agita e move, livre, risonha, altiva, calcando uma
terra que lhe pertence, e rasteja tambem um denso rebanho que o pastor
conduz, mas a que não falla senão para ordenar. N'uma hospedaria, um
criado europeu manda vir o _arabe_ para acarretar as bagagens com a
mesma entonação com que mandaria vir um jumento.
Respondem-me que essa gente vive livre e feliz, sómente sob as leis e
regulamentos que foi necessario dar-lhes. Nem tanto mereciam.
Não derramarei lagrimas sob a sua sorte nem mesmo direi que seja má a
sua condição material e que tivessem merecimentos para melhor. Apenas
aponto um facto; é que no momento actual Argel nos da o espectaculo
altamente interessante e instructivo do aviltamento moral de uma raça
conquistada em frente dos seus senhores.
Uma outra coisa nos offerece Argel, não menos interessante. É um bairro
arabe, quasi uma cidade, que o camartello europeu ainda não alcançou e
em que os costumes, a gente, e as habitações indigenas são ainda de
grande pureza.
Nada direi d'essas viellas ingremes em que as casas quasi se tocam de um
ao outro lado, especie de fortalezas com uma pequenina porta e raras
frestas nos muros. Tudo está minuciosamente descripto em muitos livros
e, de resto, esses recintos são vedados aos simples viajantes.
Deixaram-me uma pequena impressão--pequenez e frescura. Tudo me pareceu
acanhado e pequenino, fresco e humido como os logares profundos onde o
sol não penetra.
O arabe vem descendo até aos bairros europeus, e ahi abundam as lojas e
officinas. Bordam, tecem, costuram, têm as suas cozinhas e cafés e tudo
aquillo se assemelha tanto á nossa regularidade que naturalmente
perguntamos como tende a aniquilar-se uma raça que chegou a organisar o
trabalho, a arte, a familia, a religião, a politica, que creou uma
civilisação, uma ordem social, funccionando e correspondendo na sua
organisação á capacidade ethnica. Parece que um povo que chegou a este
estado não deveria ser tão facilmente destruido e dominado dentro do seu
proprio _habitat_.
Não soube defender-se--é a resposta que mais immediatamente encontramos
no nosso espirito; se tivessem inventado os canhões de Krupp talvez os
seus destinos fossem outros. E vamos a dar razão á Allemanha: Pois a
primeira necessidade de um povo não é ser forte? Virtude, grandeza
d'alma, um ideal, para que? Se não tem musculos sãos, armados d'aço e
lançando fogo, esse povo será devorado pelos lobos sempre á espreita das
ovelhas.
Mas lançados n'esta ordem de cogitações encontramos a Allemanha receiosa
e timida diante do cossaco esfarrapado que vi nos acampamentos da
Polonia. Já não vale a força; tudo ameaça dissolver-se n'essa infinita
vastidão em que já um dia se perderam setecentos mil homens. «Vive em
paz com a Russia», recommendára, diz-se, o velho Guilherme moribundo a
Frederico, seu filho; no seu espirito fluctuava já o desanimo com que
Napoleão voltou de Moscow ás margens do Niemen e antecipadamente se
entregava a essa amizade obrigada.
E o espirito perde-se buscando em vão uma base de força duradoura,
eterna, indestructivel! Não pensará assim o arabe, que tudo aceita sem
espanto, como derivado da ordem logica e natural das coisas, se é que
podemos aventurar-nos a penetrar tão intimamente no espirito de uma raça
estranha. Duvido.
Muitas vezes na Argelia, pensando no arabe mysterioso, surgiu no meu
espirito esta duvida. Podemos comprehender inteiramente a psychologia de
uma raça estranha? Modos de vêr e de sentir differentes devem conduzir a
differentes ordens de pensamento e, embora vejamos as suas conclusões
externas e praticas, no modo de funccionar intimo poderá existir
qualquer coisa mysteriosa que nos escapa. Comprehendemos claramente a
psychologia da criança; não ha entre ella e nós senão graus de
desenvolvimento e de actividade sendo iguaes a tendencia evolutiva e o
modo de funccionar, tendencia e modos que devem variar de raça para
raça. É verdade que o nosso espirito não concebe duas logicas, mas fóra
d'esse estreito terreno commum que margem não fica para variantes
incomprehensiveis? Pasmamos muitas vezes da logica excentrica de certos
espiritos, da maneira por que n'elles se prendem e ligam as idéas, e
este facto, combinado com uma reconhecida differença de base physica,
não basta para nos levar a qualquer conclusão mas deixa no espirito
certa desconfiança quanto a affirmações positivas sobre a psychologia
das differentes raças.
Talvez que sobre o espirito arabe o juizo mais acertado seja o de uma
senhora americana muito instruida com quem conversei largamente sobre
essa gente. «Só gostava de saber o que elles pensam...»--«Creio que
pensam muito pouco», respondeu-me.
É possivel que n'estas palavras se resuma toda a sua psychologia. Um
clima ardente congestiona e opprime, como o frio entorpece; em qualquer
caso ha uma paralysação de vida. A indifferença arabe não seria como a
do russo uma conclusão final do cogitar sobre a inanidade de todas as
previsões, seria uma abdicação por indolencia, seria a aceitação das
coisas sobre o que o pensamento se nega a reflectir. Mata e morre
friamente, n'um torpor de somnolencia invencivel. Sabe lavrar e conduzir
os rebanhos na pastagem, caminha arrastadamente, e apto para o trabalho
lento; não sabe cavar, repugna-lhe o trabalho activo e diligente.
Este mesmo clima que produziu uma raça avassallada pelo ardor do sol,
movendo-se sob impulsos mysteriosos, creou a paizagem que deslumbra e
cega os olhos do artista europeu educados na luz coada pelas nevoas do
norte. Deu á sensualidade tudo o que ella podia exigir de mais intenso e
vivo; e por isso se comprehende que a paizagem da Argelia tenha na
pintura um culto reservado e distincto. Para a poder sentir é necessario
ter olhos insaciavelmente cubiçosos e nem todos attingem tamanho vigor
de Sensualidade visual. Para os que ficam áquem, esses prazeres
perdem-se despercebidos, quando não repugnam, ferindo e maguando. Uma
luz abundantissima n'uma atmosphera sêcca; e todas as impressões virão
aos nossos olhos nitidas, precisas, distinctas, vibrando rijamente,
soltas e desvendadas da humidade attenuante que modera, corrige e
confunde, mostrando-nos toda a natureza através d'uma atmosphera
transparente sim, mas uniformemente colorida.
A atmosphera tem portanto côr? Pela primeira vez surgiu no meu espirito
este pensamento quando em Copenhague encontrei na exposição pinturas
japonezas em sêda, esboços grosseiros de paizagens sobre um fundo sem
nuvens, unicolor. E todavia transmittiam-me a impressão de uma paizagem
por muito que me repugnasse crêr na realidade do céo e do ar amarello ou
verde. Parece que da terra e do céo, de todos os reflexos fundidos
resulta um prisma distincto para cada paizagem, através do qual a vemos
e conhecemos.
Talvez resultado d'este scismar, uma noite, em Argel,--ainda outro
sonho!--vi essa terra como as ruinas do Coliseu de Roma. Era uma enorme
bacia formada de montanhas escalvadas, de uma argilla vermelha que
descia em degraus até ao fundo e sobre a terra, immoveis, equidistantes,
os albornós brancos dos arabes; um espaço vermelho e cavado, maculado de
pontos brancos. Assim toda a paizagem da Argelia estaria envolvida
n'essa atmosphera vermelha.
Não contradiz este sonho o que acima disse relativamente á intensidade
de impressão resultante da seccura atmospherica. Uma coisa é o colorido
ligeiro que provém da fusão dos reflexos ambientes, outra a decomposição
da paizagem através da nevoa mais ou menos densa; essa attenua e
confunde profundamente, a outra dá apenas um ligeiro colorido sem
prejudicar a predominancia das impressões primitivas; uma sente-se
principalmente nos espaços vazios, a outra actua com igual força sobre
toda a natureza terrestre.
A paizagem da Argelia, pois, com a sua atmosphera propria, como as
demais paizagens, e a sensualidade requintada da riqueza e intensidade
de impressões visuaes que resultam da seccura do ar associada á
abundancia de luz. Explica-se d'esta fórma como nos quadros dos pintores
que têm estudado essas regiões apparecem com tão grande frequencia as
montanhas, as ruinas e o mar; são aquelles elementos em que este
caracter de nitidez, de transparencia e de variedade consequente
apparece mais distinctamente.
Para nós, porém, a paizagem da Argelia não tem o valor que lhe dá a
gente do norte. Estes crepusculos em braza que se prolongam n'um
esmorecer lento, a luz que á tarde doura o arvoredo, como com tanta
saudade a vi nas mattas de pinheiros de Alepo, em Orleansville, nada
d'isso é novo para nós com quem a natureza foi tão prodiga.
* * * * *
_Sevilha, 13 de Outubro._
Duas coisas bem differentes temos que vêr no sul da Hespanha, os
monumentos arabes e a Andaluzia, os vestigios d'uma raça e d'uma
civilisação extinctas n'esta parte do mundo e os povos e a civilisação
agora existentes na mesma região. Ambas igualmente interessantes; a
primeira porque encerra documentos de primeira ordem no seu genero, e a
segunda pela importancia de todo o elemento activo contemporaneo.
Nem a Alhambra nem a mesquita de Cordova nem o alcaçar de Sevilha
destruiram a impressão que a Argelia me tinha deixado da arte arabe;
antes confirmaram o que ahi tinha pensado e que em certo modo se
relaciona com o que em Moscow julguei de todo o Oriente. Aqui tambem
como alli, encontrei uma concepção esthetica que não é da nossa raça e
não se conforma com o nosso modo de sentir. N'este ponto as duas
impressões são identicas. Differem porém: emquanto no moscovita domina a
imaginação insaciavel, um enredar infindo, parecendo que o seu
pensamento não consegue definir-se em certa ordem de linhas geraes, o
arabe alcançou esse ultimo estado, definiu o seu conceito em fórmas
precisas e determinadas. Depois de termos visitado os monumentos arabes,
por longo tempo nos ficam diante dos olhos certas proporções e direi
mesmo certos angulos, embora tenha a certeza de que os seus angulos
variam de grandeza em numero infinito. Ha manifestamente uma tendencia,
um movimento n'uma direcção fixa.
D'esse conceito, d'essa visão ultima e final, producto de series de
impressões successivas, resultam para mim duas idéas--a ausencia de
grandeza e a preferencia do adorno sobre a estructura.
Sobre esta creio não haver duvida. _Dentelle_--foi a palavra que mais
vezes ouvi do guarda da Alhambra que me acompanhava; rendas são na
verdade todos esses minusculos trabalhos em gesso de que os seus muros
estão cobertos. Para lhes dar todo o relevo estenderam-se sobre o ouro e
as côres mais vivas, um azul intenso e um vermelho rutilante, e não se
pouparam as perspectivas que os projectassem sobre a grandeza do espaço
e da luz; e, depois de os ter despendido com uma prodigalidade
infatigavel, cobriram-se os intervallos que restavam com azulejos e
couros de Cordova, rendas ainda, posto que d'outra materia. Não se
levantaram palacios, atapetaram-se alcovas de sultana.
É de crer que me neguem a falta de grandeza nos monumentos arabes,
adduzindo como primeira prova de contestação a mesquita de Cordova. Ao
que responderei que é d'esse mesmo documento que pretendo tirar a melhor
prova do meu pensamento.
Quando lá entrei, lembrou-me um pomar de macieiras frondosas e bem
alinhadas, d'esses que os brazileiros da minha terra têm alli pela Villa
da Feira. Li depois que Theophilo Gautier a comparára a uma floresta,
mas as florestas bracejam á vontade, erguem-se ao sol e desconhecem a
linha recta, errando gigantes por onde a luz e a terra mysteriosamente
as conduzem. Transcrevo as proporções d'esse edificio e o leitor dirá se
n'ellas cabe grandeza.
Supprimamos a capella-mór e vejamos só as proporções da mesquita no seu
estado primitivo. Um quadrilatero, cento e sessenta e sete metros de
comprimento, cento e dezenove de largura, dez d'altura; dezenove naves
n'uma direcção e trinta e seis na outra, arcos mouriscos assentes em
columnas de cerca de tres metros. É facil de imaginar o aspecto de tanta
galeria tão baixa, tão estreita e tão longa.
A isto chamou-se grandeza, sendo aliás a sua negação. A grandeza está
nas proporções d'um só conceito, e o arabe, não podendo alcançal-a,
vingou-se na extensão, repetindo n'um vasto campo o mesmo conceito.
Incapacidade de espirito ou consequencia de um mau ponto de partida? Foi
o espirito arabe que carecia de grandeza ou a grandeza era incompativel
com a fórma d'arco que adoptára e que mais amava? E questão que por
certo os homens do officio terão resolvido ha muito, e elles saberão
dizer-nos se com o arco arabe poderemos ir muito longe; para os meus
olhos desprevenidos e ignorantissimos aquelle arco parece concluir
sempre o edificio, tornando impossivel uma sobreposição equilibrada
apparentemente, já se vê, porque quanto á realidade não ha duvida.
Perdôem-me os expertos se n'isto vai grande barbaridade, mas em tempos
de suffragio universal é permittido ouvir-se a voz do vulgo. De resto,
questão incidente; prosigamos. Ausencia de grandeza e abuso do adorno
não são qualidades de gente guerreira, e por isso comprehendo Carlos V
mandando arrasar parte da Alhambra e construindo no seu logar um palacio
da mais bella renascença; foi ingenuamente o homem da sua raça. Quem dos
jardins do Generalife vir os telhados da Alhambra, baixos como cabanas
ao lado do palacio sumptuoso e altivo, comprehenderá porque razão _isto_
venceu _aquillo_. Estão alli duas architecturas e duas almas.
Lamentamos e com razão que se houvessem destruido tão boas fontes de
saber. Penetrar o espirito alheio, abranger na extensão do nosso
pensamento a vida de toda a terra e de todo o universo, se possivel, é
para nós um tão grande prazer como a contemplação de quanto nos deleita
a vista: e n'este sentido são justas as lamentações de todo o monumento
perdido. Mas não é menos justa a sympathia pela expansão forte, viril e
inconsciente dos instinctos de uma raça, ainda não pervertida pela
largueza intellectual que conduz ao scepticismo, pondo o _cant_ no logar
da admiração sincera: e então os actos barbaros como o de Carlos V têm
seus laivos de grandeza.