Quinta epocha: restauração das lettras em Portugal.--Meio do seculo
XVIII até o fim
A civilisação e as luzes que a geram, tinham-se estendido do sul para o
norte. A corrupção que após ellas vem em seu marcado periodo, as fôra
apagando, ou ennevoando ao menos, na mesma direcção. De sorte que pelos
fins do XVII seculo o meio-dia, que havia sido berço da illustração da
Europa, quasi se ennoitava das trevas da ignorancia, as quaes pareciam
voltar como em _reacção_ para o ponto d’onde partíra a primeira _acção_
da luz que as dissipára.
O norte, que mais tarde se havia allumiado, progredia no emtanto: as
boas letras, as artes, as sciencias floreciam na Inglaterra e por quasi
toda a Allemanha. Milton, Descartes, Newton e Linneu brilharam ao
septentrião da Europa; e nós meridionaes estudavamos as _cathegorias_
e as _summas_, aguçavamos distincções, alambicavamos conceitos,
retorciamos a phrase no discurso, torciamos a razão no pensamento.
Porem a face do mundo estava começada a mudar: as antigas barreiras
que a politica e os preconceitos erguiam entre povo e povo quasi
desappareciam; as mutuas necessidades, e até o mesmo luxo, faziam quasi
indispensavel precisão as permutações do commércio; e o commércio
fraternizou as nações.
Reciprocamente se estudaram as linguas, generalizou-se esse estudo:
então é que exactamente os sabios começaram a ser de todos os paizes:
os bons livros pertenceram a todas as linguas; e verdadeiramente se
formou dentro de todos os estados um estado que (sem os inconvenientes
do _status in statu_ dos ultramontanos) com justiça e exacção obteve e
mereceu o nome de republica das lettras, a qual é uma, universal, e sem
perigo de schisma.
Os effeitos d’esta alteração no modo de existir do universo foram
sensiveis: as luzes não so reverteram (sem retrogradar) do norte para
o sul, mas se diffundiram geraes. A França viu então o seculo de Luiz
XIV; Italia deixou sancto Thomaz e os _concetti_ por melhor philosophia
e melhor gosto; Hespanha teve o seu Carlos III; e Portugal no reinado
d’el-rei D. José subiu á altura dos outros povos, senão é que em muitas
cousas acima.
E ainda na reforma da universidade não tinham apparecido
Monteiros-da-Rocha e os outros portuguezes que d’alli expulsaram a
barbaridade entrincheirada em Coimbra como em sua ultima cidadella da
Europa, e ja a razão e o gosto recobravam seu imperio na litteratura;
ja as odes do Garção, as obras do padre Freire e de outros illustres
philologos haviam afugentado as _silvas_, os _acrosticos_, e os
campanudos periodos do conde da Ericeira, regenerado a poesia e
restituído a lingua.
Outravez ainda o limitado d’este bosquejo me impede de mencionar outros
ingenhos que tanto mereceram da patria e da litteratura e remoçaram a
perdida lingua de Camões. Exige o meu assumpto e o meu espaço que me
estreite no círculo poetico.
Garção foi o poeta de mais gosto e (por aventurar uma expressão que não
é legitima, mas póde ser legitimada portugueza) de mais _fino tacto_
que entre nós appareceu até agora. Haverá n’outros mais fogo, outros
ferverão em mais enthusiasmo, crearão acaso mais; porem a delicadeza
de Garção so tem rival na antiguidade. A musa pura, casta, ingenua,
nunca lhe desvairou: em suas composições ha d’ellas onde a mais aguçada
crítica não esmiunçará um defeito. Tal é a cantata de Dido, uma das
mais sublimes concepções do ingenho humano, uma das mais perfeitas
obras executadas da mão do homem. Todo se deu ao genero lyrico,
especialmente ao Horaciano; e n’esse ninguem o excedeu, antes ninguem
o igualou. A ode á virtude, a que se intitula o Suicidio (que pela
primeira vez sai a lume n’esta collecção) outras muitas que longo fôra
enumerar, são de uma belleza, d’uma correcção, d’um _acabado_ (como
dizem os pintores) que difficilmente se imitará, tarde se chegará a
igualar.
Não da mesma sorte Antonio Diniz, que mais arrojado, mais pomposo,
menos correcto e elegante, assim correu mais caudalosa, porém menos
pura torrente. Em quanto lyrico, tem rasgos pindaricos verdadeiramente
sublimes; mas o todo de suas odes é em demasia ornamentado; e ellas
entre si peccam amiudo de monotonias e repetições. Talvez o jugo dos
consoantes, que tão desnecessariamente se impôz, o acanhou a isso. Mas
nas anacreonticas é elle sem disputa o primeiro poeta portuguez, e
digno rival do ancião de Teios. No genero bucolico tambem nos deixou
mui bonitas cousas, nenhuma perfeita. Porém a verdadeira corôa poetica
do Diniz Thalia lh’a teceu, que não outra musa. O Hyssope é o mais
perfeito poema heroicomico de seu genero[38] que ainda se compoz
em lingua nenhuma: se no castigado da dicção o excede o Lutrin; no
desenho da obra, na regularidade do edificio, na imaginação, foi
o discipulo de Boileau muito além de seu grande mestre: e com mais
exacção se diria de um e outro o que de Camões e Tasso presumpçosamente
disse Voltaire: que se a imitação d’aquelle fizera este, a sua melhor
obra era essa. O palacio do genio das Bagatellas, a conversa do deão
na cerca dos capuchos, a ressurreição e vaticinio _do gallo assado_,
a caverna d’Abracadabro serão, em quanto houver gosto, estudados como
exemplar pelos litteratos, lidos e relidos sempre com prazer per todos
os amigos das artes.
Após estes vem o virtuoso e honrado Quita, a quem pagou a patria com
miseria e fome as immensas riquezas que para a lingua e litteratura de
seus versos herdou. Um pobre cabelleireiro, a quem as musas que serviu,
os grandes que com ellas honrou nunca tiraram do triste officio, pôde
de sua baixa condição social alevantar-se do primeiro grau litterario,
que acaso lhe disputam ignorantes ou presumpçosos, nenhum homem de
gosto deixará de lh’o dar.
Este é em meu humilde conceito o nosso melhor bucolico: tómo a
liberdade de contrastar a opinião commum, porque o meu dever de
crítico me obriga a ennunciar lealmente o meu pensamento. Tenho para
mim (e fico que acharei quem me siga se de boa fé quizerem entrar no
exame) que a immensa cópia de composições pastoris, as quaes não são
riqueza, mas desperdicio de nossas musas, ou peccam por empoladas, por
inverosimeis, por baixas, por demasiado naturaes, por sobejo elevadas.
Um meio termo difficilimo de tocar, de n’elle permanecer, um stylo
singelo como o campo, mas não rustico como as brenhas, são dos mais
difficeis requisitos que d’um poeta se podem exigir. Se tem ingenho,
custa-lhe a moldar-se e a rete-lo que não suba mais alto que a difficil
medida, e raro deixa de a exceder, de perder-se do bosque e acabar em
jardins cidadãos e conversas de damas e cavalheiros o que começára no
monte ou na varzea entre pastores e serranas.
Nem Virgilio d’ahi escapou, nem Sannazaro, nem Camões; Gessner sim,
e depois de Gessner, o nosso Quita. Não digo que não tenha defeitos,
ainda em seu genero pastoril; mas a boa e honrada crítica falla em
geral, louva o bom, nota o mau, porém não faz timbre em achar defeitos
e erros na menor falta para se regosijar da censura. Grandes homens,
grandes erros: a natureza da mediocridade é cingir-se a tristes
preceitos para esconder sua mesquinhez: porém de taes nunca fallou
posteridade. Horacio e Boileau foram atrevidos quando lhes cumpriu, e
desprezaram regras e arte quando os chamou a natureza, e lhes mostrou
o sublime. Philinto, que os sabia de cór, tambem se levantou acima das
regras, e nunca foi tamanho. E todavia foi elle o maior poeta de seu
seculo: mas os grandes ingenhos não contraveem a lei, são superiores a
ella, e são elles viva lei.
Mui distincto logar obteve entre os poetas portuguezes d’esta epocha
Claudio Manoel da Costa: o Brazil o deve contar seu primeiro poeta,[39]
e Portugal entre um dos melhores.
Deixou-nos alguns sonetos excellentes, e rivalizou no genero de
Metastasio, com as melhores cançonetas do delicado poeta italiano. A
que dirige á lyra com sua palidonia imitando a tão conhecida do mesmo
Metastasio a Nice, _Grazie all’ ingani tuoi_, póde-se apontar como
excellente modêlo. Nota-se em muitas partes dos outros versos d’elle
varios resquicios de _gongorismo_ e affectação _seiscentista_.
E agora começa a litteratura portugueza a avultar e enriquecer-se com
as producções dos ingenhos brazileiros. Certo é que as magestosas e
novas scenas da natureza n’aquella vasta região deviam ter dado a
seus poetas mais originalidade, mais differentes imagens, expressões
e stylo, do que n’elles apparece: a educação europeia apagou-lhes o
espirito nacional: parece que receiam de se mostrar americanos; e d’ahi
lhes vem uma affectação e impropriedade que dá quebra em suas melhores
qualidades.
Muito havia que a tuba epica estava entre nós silenciosa, quando
Fr. José Durão a embocou para cantar as romanescas aventuras de
Caramurú. O assumpto não era verdadeiramente heroico, mas abundava
em riquissimos e variados quadros, era vastissimo campo sôbre tudo
para a poesia descriptiva. O auctor atinou com muitos dos tons que
deviam naturalmente combinar-se para formar a harmonia de seu canto;
mas de leve o fez: só se estendeu em os menos poeticos objectos; e
d’ahi esfriou muito do grande interesse que a novidade do assumpto e
a variedade das scenas promettia. Notarei por exemplo o episodio de
Moêma, que é um dos mais gabados, para demonstração do que assevero.
Que bellissimas cousas da situação da amante brazileira, da do heroe,
do logar, do tempo não podéra tirar o auctor, se tam de leve não
houvera desenhado este, assim como outros paineis?
O stylo é ainda por vezes affectado: la surdem aqui alli seus
_gongorismos_; mas onde o poeta se contentou com a natureza e com a
simples expressão da verdade, ha oitavas bellissimas, ainda sublimes.
Depois de Diniz o logar immediato nos anacreonticos pertence a outro
Brazileiro.
Gonzaga mais conhecido pelo nome pastoril de Dirceu, e pela sua
Marilia, cuja belleza e amores tam célebres fez n’aquellas nomeadas
lyras. Tenho para mim que ha d’essas lyras algumas de perfeita e
incomparavel belleza: em geral a Marilia de Dirceu é um dos livros a
quem o publico fez immediata e boa justiça. Se houvesse por minha parte
de lhe fazer alguma censura, só me queixaria, não do que fez, mas do
que deixou de fazer. Explico-me: quizera eu que em vez de nos debuxar
no Brazil scenas da arcadia, quadros inteiramente europeus, pintasse
os seus paineis com as côres do paiz onde os situou. Oh! e quanto não
perdeu a poesia n’esse fatal êrro! se essa amavel, se essa ingenua
Marilia fosse, como a Virgínia de Saint-Pierre, sentar-se á sombra das
palmeiras, e em quanto lhe revoavam em tôrno o cardeal suberbo com a
purpura dos reis, o sabiá terno e melodioso,--que saltasse pelos montes
espessos a cotia fugaz como a lebre da Europa, ou grave passeasse pela
orla da ribeira o tatu esquamoso,--ella se entretivesse em tecer para o
seu amigo e seu cantor uma grinalda não de rosas, não de jasmins, porém
dos roixos martyrios, das alvas flores dos vermelhos bagos do lustroso
cafezeiro; que pintura, se a desenhára com sua natural graça o ingenuo
pincel de Gonzaga!
Justo elogio merece o sensivel cantor da infeliz Lindoya que mais
nacional foi que nenhum de seus compatriotas brazileiros. O Uraguay
de José Bazilio da Gama é o moderno poema que mais merito tem na
minha opinião. Scenas naturaes mui bem pintadas, de grande e bella
execução descriptiva; phrase pura e sem affectação, versos naturaes
sem ser prosaicos, e quando cumpre sublimes sem ser guindados; não são
qualidades communs. Os Brazileiros principalmente lhe devem a melhor
corôa de sua poesia, que n’elle é verdadeiramente nacional, e legítima
americana. Mágoa é que tam distincto poeta não limasse mais o seu
poema, lhe não désse mais amplidão, e quadro tão magnifico o acanhasse
tanto. Se houvera tomado esse trabalho, desappareceriam algumas
incorrecções de stylo, algumas repetições, e um certo desalinho geral,
que muitas vezes é belleza, mas continuado e constante em um poema
longo, é defeito.
Muito ha que os nossos auctores desempararam o theatro: eis ahi
o faceto Antonio José, a quem muitos quizeram appellidar Plauto
portuguez e que sem duvida alguns serviços tem a esse titulo, porém
não tantos como apaixonadamente lhe decretaram. Em seus informes
dramas algumas scenas ha verdadeiramente comicas, alguns dictos de
summa graça; porém essa degenera amiudo em baixa e vulgar. Talvez que
o _Alecrim e Mangerona_ seja a melhor de todas; e de certo o assumpto
é eminentemente comico e portuguez: hoje teria todo o merito de uma
comedia historica: e se fôra tractada no genero de Beaumarchais,
produziria uma excellente peça.