Terceira epocha litteraria; principia a corromper-se o gosto e a
declinar a lingua.--Começo, até o fim do XVII sec.
Porem os symptomas do _Gongorismo_ e _Marinismo_ se manifestavam já em
Italia e Castella; não perfeitos ainda, não no auge a que os levaram
os dous poetas, aliás ingenhosos, cujo nome vieram a tomar; mas já
assim mesmo a poesia moderna estava toda gafa d’essa lepra de suberba
requintada.
Vasco Mousinho de Quevedo, que sem disputar é depois de Camões, nosso
primeiro epico, ahi tem já em toda a nobreza de seus versos a quebra
de bastardia d’esse defeito, que todavia é n’elle ainda raro. Mas que
bellezas tem esse tão mal avaliado Affonso Africano, a que a cegueira e
o mau gosto tem querido preferir a _quixotica_ e sesquipedal Ulyssea,
a hyperborea e campanuda Malaca! Não é regular o poema, não é um todo
perfeito; o maravilhoso é frio, e a acção toda não mui bem deduzida;
mas que riquissimos episodios a enfeitam! A descripção de Zara, o
jardim incantado onde aporta o principe D. João, e alguns outros
trechos são cunhados com o sêllo da verdadeira poesia, e animados da
luz que só dá o ingenho. Quanto ao stylo, é com poucas excepções fluido
e elegante; custa a achar em tão longo poema uma rhyma forçada ou má:
e a mesma linguagem, supposto decline um tanto da primeira pureza, é
ainda de boa lei e valiosos quilates.
D’ésta epocha é tambem Rodrigues Lobo, cujo grande logar como prosista
não é aqui proprio de examinar: de seu merecimento poetico a commum
opinião tem com justiça decidido dando-lhe um dos primeiros (eu quizera
o primeiro) logar entre os bucolicos antigos; e outro mui differente e
inferior entre os epicos. E certo, o Condestabre, apezar de muitos e
bons pedaços descriptivos, é frouxa e morna composição. Que differente
era a frauta que ia soando pelas margens do Lis, a dulcissima frauta
de Lobo, quando comparada com a tuba heroica, para cuja altivez lhe
fallecem natureza e arte! seus pastores são verdadeiros pastores, sua
linguagem é verdadeira do campo, não lhes sahem pelos golpes do pellico
as alfaias da cidade, tão mal encubertas pelos outros bucolicos, os
quaes, sem excepção do proprio Camões, todos peccam por mui sabidos
e lettrados, por discretos e galantes mais que sóem ser aldeãos e
pastores.
Alem d’isso ha derramados pela Primavera, Pastor peregrino,
etc., pedaços lyricos de summa belleza, romances excellentes e
verdadeiramente dignos de admiração e estudo.
Tinhamos perdido a independencia; perdemos logo o espirito nacional,
o tymbre, o amor patrio (que amor da patria poderá haver em quem
patria já não tem!); a lisonja servil, a adulação infame levou nossos
deshonrados avós a desprezar seu proprio riquissimo e tão suave idioma,
para escrever no guttural Castelhano, preferindo os sonoros helenismos
do portuguez ás aspiradas _aravias_ da lingua dos tyrannos. Vergonha
que só tem par nas derradeiras vergonhas com que nos enxovalharam
a lingua e a fama os tarellos, francelhos, gallici-parlas e toda a
caterva dos gallo-manos!
Em Castelhano escreviam já esses degenerados portuguezes: mas pouco
importava que o fizessem, que n’isso fraca perda tivemos nós: de toda
essa çafra de versos castelhano-portuguezes pouco ou nada ha que
espremer.
D’ésta commum baixeza se alevantou o honrado e douto magistrado
Gabriel Pereira de Castro, que depois de ter aberto na jurisprudencia
um caminho novo e n’aquelle tempo tão difficil por grandes verdades
então perigosas, tomou ousado a trombeta de Homero, e não se arrojou
a menos que a competir ao mesmo tempo com a Iliada e Odyssea; que
tanto abraça o assumpto de seu poema. Grande é a concepção, bem
distribuidas as partes, regularissimo o todo, regular e bella a acção,
bem intendidos os episodios; mas o stylo... o stylo é, prototypo da
_Phenix-renascida_, o requinte do gongorismo, cujo patriarcha foi entre
nós, pervertendo-nos, á sombra de sua grande fama e brilhante ingenho,
todo o resto escasso que de gôsto tinhamos ainda, intrincando a poesia
(senão que tambem a prosa por mau exemplo) n’um dedalo inextricavel
de conceitos, de argucias, de exagerações, de affectada sublimidade,
falsa e van grandeza; com que de todo veio a terra a poesia nacional,
e acabou a grande eschola de Camões e Ferreira, que tantos e tamanhos
alumnos havia produzido. E suppunha esse homem vaidoso ter sobrepujado
com as queixotadas da sua Ulyssea as naturaes bellezas dos divinos
Lusiadas!
Quasi o mesmo errado trilho, mas que menos brilhante e com inferior
ingenho, seguiu Sá de Menezes na Malaca. Esse poema, que tanto tem
engrandecido o mau gôsto, é na minha opinião um dos derradeiros titulos
de glória da litteratura portugueza. E todavia é bem regular, bem
concebido, e a espaços se lhe encontram grandes rasgos de gentileza
poetica. A falla de Asmodeu no conselho infernal faz lembrar muito
a de Lucifer em Milton. Porem quando agitado o poeta do genio mau
que avexava e endemoninhava os poetas d’então, começa a guindar-se,
a transpor os derradeiros limites da naturalidade; esquece todo o
deleite que algumas estancias mais descuidadas nos haviam causado, e
é forçoso desemparar a dura tarefa de tão incommoda leitura, porque
verdadeiramente incommoda e cança tal stylo, tal phrase, tanto
hyperbolico luxo e destemperado alambicar.
V
Quarta epocha: idade de ferro; aniquila-se a litteratura, corrompe-se
inteiramente a lingua.--Fins do XVII, até meados do XVIII sec.
Mas ainda estes tinham sua nobreza, havia não sei que grande entre
todas essas _nuvens de talco_; talvez lhes viesse dos assumptos: porém
seus discipulos que ainda quizeram ir ávante, deram em fazer _silvas_,
_acrosticos_, e engendraram todos os outros monstros (originarios,
segundo Diniz, do _paiz das bagatellas_) e distillando mais e mais
as quintas essencias dos conceitos, tanto torceram e retorceram o
ja delgado fio poetico, que de todo o quebraram. So Manoel da Veiga
o atou momentaneamente em uma ou duas lyras da Laura de Amphriso.
Logo tornou a estalar: e per ahi andaram as pobres musas portuguezas
jogando as cabras-cegas pelas eclogas de Poliphemo e Galatea, pelos
romances hendecasyllabos, e per todos os outros escondrijos do gosto
depravado, de que boas amostas se conservam no precioso tombo da
_Phenix-renascida_ e alguns outros hoje ignorados livros d’essa triste
data.
E todavia ja nós tinhamos recobrado tão gloriosamente nossa
independencia, ja o nome portuguez tornára a ser honra e nobreza, e
ainda essa lepra castelhana lavrava.
Dous grandes escriptores, ambos prosistas e ambos dignos de muito
louvor, concorreram para a continuação d’este mal. Quem podia deixar de
admirar Vieira? Quem não iria levado pela torrente de sua eloquencia?
Quem resistiria aos impetos de arrebatamento de Jacinto Freire? O
grande talento de ambos, a vasta erudição e desmedido ingenho de Vieira
sobre tudo, fizeram grande damno á litteratura: sabiam, escreviam
perfeitamente a lingua, tinham grande crédito na côrte, tractavam
grandes assumptos, animava-os o nobre e sincero enthusiasmo da glória
e liberdade nacional: tudo foi após elles; imitaram-lhes vicios e
virtudes; como não distinguiam em Vieira o grande orador, o grande
philosopho do gongorista affectado (quando o era) não estremavam
em Jacintho Freire o historiador, o panegyrista do declamador, do
academico vão; ruim e bom seguiam. E como é mais facil imitar a
affectação, que a naturalidade, as argucias de má arte, que as graças
de boa natureza; os imitadores foram alem de seus typos no affectado,
no mau d’elles, ficaram immenso aquém do que n’esses era bello e para
imitar.
Nem o conde da Ericeira que traduziu a Arte poetica de Boileau e d’elle
levou tão immerecidos e banaes elogios, tomou d’ella triaga bastante
para se curar do veneno commum: e ainda assim melhor é sua frigida
Henriqueida que os outros versos que por então se faziam em Portugal:
porem o unico ôlho que o fez rei em terra de cegos, não lhe era
bastante para ver e acertar com a vereda da posteridade. Ahi morreu no
seu seculo e ahi jaz pela poeira de alguma livraria de bibliomanico.
As academias de historia, de litteratura do tempo de D. João V, as
associações ridiculas de todos os nomes e descripções que então se
formaram, a mais e mais empeioraram o mal, que progressivamente cresceu
até o ministerio do marquez de Pombal.