(Seculo XV e XVI)
Gonsalo Gomes, de quem nada mais se sabe senão que vivia nos fins do
seculo XV, foi pintor de D. Manoel: e a estimação, que este sabio rei
d’elle fez, é o unico, mas relevante testemunho do seu merecimento.
Na chronica de D. Manoel é chamado Duarte Darmas _grande pintor_, e
como tal enviado por el-rei a debuxar as entradas de Azamor, Salé, etc.
(_Vide_ Damião de Goes, _Chron. de D. Man._, part. II, cap. 27, pag.
208, ediç. de 1819).
Firmado no proprio testemunho do auctor assevera (e não sei se com
razão) Vicente Carducho, e com elle Taborda, que o nosso historiador
Resende fôra tambem grande pintor. Não sei se a singeleza d’aquelles
tempos é bastante para crermos um homem no artigo dos seus louvores.
Fr. Carlos, monge de S. Jeronymo, vivia no principio do seculo XVI.
Pintou no stylo de Bolonha, e sobre tudo no de Corregio. Ainda que
flamengo de origem, suas obras tem mais nobreza, que o commum d’aquella
nação, sem deixar de ter sua bella simplicidade.
Gaspar Dias viveu pelos principios do XVI seculo. Mandado a Italia por
D. Manoel a estudar os grandes modelos, e formar o stylo, sua alma
elevada não se contentou d’outros mestres, que não fossem Raphael e
Miguel Angelo. Estudou-os, e mereceu imitá-los com dignidade.
Christovão d’Utrecht n. 1478, m. 1557. Ainda que nascido em
Hollanda, nossos escriptores o fazem portuguez. Soube perfeitamente
a perspectiva, e juntou ao gôsto de Perugino e João Bellini a maior
delicadeza e harmonia de pincel.
Affonso Sanches Coelho n. 1515, m. 1590. Dotado pela natureza de
quanto constitue um grande pintor concebeu fortes desejos de passar á
Italia, onde ouviu as lições de Raphael; honra, que bem mereceu por seu
aproveitamento. Chamado por Philippe II á Hespanha ennobreceu Madrid;
e sobre tudo o Escurial com suas pinturas. Um dos poucos exemplos do
merecimento premiado foi este illustre portuguez. João III de Portugal,
Philippe II, Gregorio XIII, o grão duque de Toscana, o da Saboia,
o cardeal Alexandre Farnese o estimaram, enriqueceram e honraram á
porfia. Sua alma bemformada escutou sempre a voz da natureza; e o
philologo não excedeu n’elle o homem. (_Vide_ Palomino, Bermudes, etc.)
Fernão, ou Fernando Gomes, mandado á Italia por D. Manoel, e em
consequencia vivendo no principio do seculo XVI, foi aproveitado
discipulo de Miguel Angelo; e suas obras o provam bem.
Manoel Campelo tambem enviado á Italia, e tambem do mesmo tempo. Ainda
hoje se admira em Belem nos seus quadros aquella correcção de desenho
da eschola Romana, aquella grandeza de stylo, que faz a glória de
Miguel Angelo, seu mestre, e que a não faz menos do illustre discipulo.
Estas brilhantes qualidades lhe grangearam os elogios de todos os
sabios nacionaes e estrangeiros. (_Vid._ D. Francisco Manoel de Mello:
_Hospital das lettras_; Guarenti, etc.)
Vasques... viveu pelos annos de 1562. Poucos pintores souberam, como
elle, anatomia tão necessaria para o bom desenho, e proporções, em que
se avantajou, e que lhe déram um mui distincto logar na historia da
arte, apezar de seu stylo um pouco rude.
Christovão Lopes n. 1516, m.... O stylo pomposo de Miguel Angelo, que
tanto agradava ao genio sublime e elevado dos portuguezes, foi o seu
modelo; e juntando a tam brilhante qualidade a expressão de Raphael,
enriqueceu a Patria com as magnificas producções, que ainda hoje são
admiradas depois de tantos seculos pelos sabedores, e amantes das
boas-artes.
D. Leonor de Noronha da casa de Linhares, n. 1550, m. 1636. De Duarte
Nunes de Leão na _Descripção de Portugal_, e de Barbosa na _Biblioth.
Lus._ sabemos só que pintou _excellentemente a oleo e illuminação_.
Antonio de Hollanda, inventor da illuminação a pontos brancos e pretos
em Portugal; e com tanto mais merecimento, que absolutamente ignorava
a mesma descoberta, que então se começava na Italia. Delle disse o
Imperador Carlos V, que _mejor le habia sacado al natural Antonio de
Hollanda en Toledo de iluminacion, que Ticiano en Boloña_. Bem pouco
vale este elogio, porque homens desta classe nada entendem de ordinario
de tudo o que póde ter algum valor ou merecimento, tendo de mais a
mais a presumpção do voto decisivo. Não consta porém, que Deus creasse
mais que um Salomão, e como este _um_ morreu ha muito tempo, e estes
senhores se não dão o incommodo de fazer aquillo, que fazem os que
não são Salomões, ou não tem a tal _infusa_, é bem claro o valor de
similhantes elogios. Carlos V porém (façamos justiça) posto que o mais
odioso monarcha por seu cruel despotismo, não era com tudo o mais tolo,
e algumas luzes lhe tinham ficado de senso commum, que se costumam
apagar com a...
Francisco de Hollanda floreceu pelo meio do seculo XVI.--Pintor,
architecto, poeta e philosopho.--Na Italia Paulo III, e todos os
grandes e sabios; toda a Hespanha; em Portugal João III, e toda a côrte
o estimaram como merecia. (Pois n’aquelle tempo tambem em Portugal
se dava preço ao merecimento!) O muito que se tem escripto sobre
este memoravel portuguez, me desobriga de mais extensa apologia. De
sobejo lh’a fazem seus preciosos escriptos, suas pinturas, e toda a
Europa.--De suas producções é sem questão a obra-prima, o baptismo de
S. Agustinho (que ainda se conserva em cabeça de morgado na casa dos
Castros) em que se admiram reunidos a sabia composição de Raphael,
o desenho nobre e altivo de Mig. Angel., e o bello colorido de
Ticiano.--Julga-se que morreu em 1574.