Da Eschola Romana

Apezar de que a eschola Florentina com razão se possa chamar a mais

antiga, pois que seus alumnos se começam a contar desde Cimabúe; com

tudo a Romana foi, e sempre será como a primeira olhada, não só em

favor e respeito de seu illustre chefe Raphael Sanzio de Urbino; mas

pela bellesa de desenho, elegancia de composição, verdade de expressão,

e sobre tudo intelligencia de attitudes, que a caracterizam e

sobreelevam a todas as outras.

As descobertas dos grandes monumentos de pintura e scultura, que os

zelosos cuidados de alguns papas, e outras principaes pessoas de

Italia desenterravam todos os dias das ruinas da antiga Roma, formaram

o gôsto dos mestres desta eschola, moldando-o no antigo. E tal é a

caracteristica das suas producções. Os rasgos mestres d’aquelles

preciosos _antigos_ lhes inspiraram uma magestosa solemnidade de

expressão nas grandes ideias que concebiam; e esta mira, que levaram

sempre os pintores Romanos, lhes fez desprezar alguma coisa o colorido:

defeito, que bem se esquece por outras, e tão brilhantes qualidades.

Para tecer o elogio da eschola Romana basta nomear Raphael. Que nome

nos fastos das boas-artes! Se Virgilio e Homero não são mais celebres,

que Zeuxis e Apelles; a glória de Raphael quanto é superior á de Tasso

e Ariosto! Não me agrada aquella sentença dos antigos:

--Ut pictura poesis-- _A poesia será como a pintura_

(BOCAGE).

A poesia (attrevi-me a pensá-lo assim, e se a novidade não agradar nem

por isso me desdigo) é uma só: aos poetas pintores, seus primeiros

filhos é dado tratta-la viva: os poetas-versejadores só com o véo do

mysterio coberta a podem ver e seguir. A poesia animada da pintura

exprime a natureza toda; a dos versos porem, menos viva e exacta, falha

em muita parte na expressão de suas bellezas. Que poeta nos poderia

dar uma ideia de Romulo como David no seu quadro das Sabinas? Que

versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade como a transfiguração de

Raphael? Que poema nos faria conceber a magestade d’um _Deus Creador_

dando fórma ao cáhos, e ser ao universo, como a pintura de Miguel

Angelo?

Estas reflexões sobre o parallelo das duas especies de poesia são

minhas; por taes as dou, e me encarrego do mal, ou bem, que d’ellas se

pensar. Por ventura não foi este o conceito dos antigos; mas a arte

mui atrazada entre elles não estava em proporção da nossa; os gregos

não tinham, como nós, Homeros em pintura. Immensas vantagens, como

já notamos, lhes levam os modernos pintores; a que de mais accresce

o nobre invento da gravura, que, (bem como a imprensa nos facilita o

trato dos mais antigos poetas do mundo) transmitte á posteridade e

nações remotas os esmeros da pintura, e ainda da scultura. Os nossos

Appelles não podem temer o ser conhecidos pelos vindouros só de nome

e fama, como o é por nós o dos antigos; a estampa lhes assegura o

conhecimento de _facto_ no mais remoto porvir, e mais longes climas.

Mui fertil foi a eschola Romana; grande é o numero dos seus pintores:

daremos de cada um d’elles uma brevissima, porem exacta noticia: desta

maneira terá a mocidade applicada, como em synopse, e sem o trabalho

enfadonho de revolver muitos e antigos cartapacios, a historia completa

desta e das outras escholas, em que seguiremos o mesmo methodo.

O retrato de Venus e estudos de historia litterária · 第 60 / 133 题