Desde as oito horas da manhã que corria pela cidade um boato
inacreditavel. Repetia-o cada qual com maligno contentamento, conforme é
da praxe sempre que se trata d'algum escandalo do qual foi victima
qualquer pessoa d'amizade.
--Perder áquelle ponto a vergonha!
--Rebaixar-se daquella maneira!
--Arrostar assim com todas as conveniencias!
--Que costumes!
Eis o que succedera:
Logo de manhanzinha, ahi pelas sete horas, salvo erro, entrava em casa
de Maria Alexandrovna uma pobre vélhita, afflictissima, a supplicar da
aia que fosse quanto antes accordar a _barichina_[15], mas esta, tão
sómente, ás escondidas de Maria Alexandrovna. A Zina, assustada,
accudira desde logo. Cae-lhe de joelhos aos pés a velhota, aos beijos a
elles, a inundar-lh'os de lagrimas, a exorar-lhe que venha ver o Vassia.
--Passou tão mal a noite! Suppõe-se até que não chega ao outro dia!
Accrescenta a velha que foi o proprio Vassia quem manifestou desejos de
tornar a ver a sua amada, antes de morrer; e supplica-lhe em nome do
passado, e que, se ella se negar, morrerá no auge do desespero!
A Zina despede por ali fora, sem dizer nada á mãe. Vae de corrida até o
extremo de um dos arrabaldes mais pobres de Mordassov. Ali, n'uma baiuca
muito velha e escalavrada, á qual suprem as janelas umas como que ráchas
abertas nas paredes, n'um cochichólo muito baixo de tecto e fedorento,
meio atravancado com uma fornalha, jazia, em cima de uma camada de
taboas, cobertas com uma enxerga, delgada que nem uma folha de papel, um
môço, escondido debaixo de um capóte todo elle farrápos. Tinha livido e
refegado o semblante, os olhos, a luzir com o fôgo da fébre, as mãos,
seccas e transparentes. Quasi que nem respirar podia; era o estertor.
Comquanto o houvesse desfigurado a doença, conservava retraços de
formosura. Triste espectaculo, na verdade, aquelle rosto de tisico, do
moribundo. A edosa mãe que, ainda hontem, acreditava na cura percebe
finalmente que vae em breve ficar sósinha n'este mundo. Com os braços
cruzados, olhos sêcos, para ali está, sem comprehender, sem poder
desviar a vista de cima do enfermo, aniquilada, perseguida pela visão da
cova, na terra fria do velho cemiterio atascado de neve.
Não olha para ella o Vassia, irradia-lhe no semblante a ventura: até que
por fim vê aquella a quem, vae n'um anno, durante aquellas suas eternas
noites de doente apenas viu em sonhos. Percebe que ella lhe perdoou,
visto que veiu, visto que lhe aperta as mãos, visto que o contempla com
aquelles seus lindos olhos, a chorar e a rir ao mesmo tempo. Resuscita
de todo na alma do enfermo o passado: desperta-lhe dentro d'alma a vida
como se quiséra tornar-lhe sensivel a que ponto é triste o ter que a
deixar.
--Zina! Zinotchka! Não chores... não me estejas a lembrar que vou
morrer... deixa-me contemplar-te, pensar que me perdoáste. Vou morrer
sem pensar que morro, até, beijando-te as mãos... Estás tão magrinha,
Zinotchka! Anjo querido, a bondade com que tu estás a olhar para mim!
Lembras-te do gosto com que te rias, d'antes? Ai! Zina! Eu já nem sequer
te peço perdão!... Nem quero lembrar-me do que aconteceu... eu é que m'o
não perdôo, a mim proprio... E quanta noite sem poder dormir, Zina!
Quanta noite não levei eu a pensar, a recordar-me, a estalar, quasi, com
saudades!... É melhor que eu morra! Sou incapaz de viver, Zinotchka!
E a Zina, lavada em lagrimas, muda, a apertar nas suas as mãos do seu
amado, como se quiséra arrancál-o á morte.
--Então, não chores! insistia o enfermo. Eu morrerei hoje, porventura?
Se ha tanto tempo que está morta a felicidade! És mais intelligente e
vales mais do que eu... bem sabes que valho menos do que tu, por que
será que me tens amor? Bem sabes que te não mereço! Oh! quanto me não
tem feito padecer semelhante pensamento! Ah! querido amor, foi um sonho
a minha vida: não vivi, sonhei! E eu a desprezar a multidão: e que
razões tinha eu para ser tão soberbo? A purêza do meu coração? A nobreza
dos meus sentimentos? Mas se tudo isso tinha apenas a consistencia dos
meus sonhos, nada mais, Zina!
--Basta! basta! Matas-me!
--Não me interrompas, Zina!... Perdoáste-me, bem sei: e ha já muito
tempo, talvez, mas avaliáste-me e comprehendeste o que eu era, e é isso
que me atormenta. Sou indigno do teu amor, Zina! Fôste sempre leal e
generosa; fôste ter com tua mãe e declaraste-lhe o teu firme desejo de
casar commigo, ou com mais ninguem: e cumpriste a palavra dada, pois que
para ti, palavra e acção são uma e a mesma coisa! Ao passo que eu,...
eu! Não sabes, eu até hoje não tinha comprehendido, sequer, a extensão
toda do sacrificio que fazias em ser minha mulher. E lembrar-me eu de
que tu, commigo, te arriscavas a morrer de fome! Mas se a mim parecia-me
que nada ha n'este mundo que se compare á honra de ser esposa de um
grande poeta... sem nome,... é certo! Não quiz intender o motivo que
alegavas para retardar o nosso casamento. Tu a padeceres por minha
causa, eu a martirizar-te, a exprobar-te, a desprezar-te... até que por
fim te ameacei com aquella carta... Eu, n'esse instante, nem sequer
cheguei a ser um miseravel, mas sim um ente abjecto, e nada mais! Ah!
nem quero pensar até onde iria o teu desprezo! Não, não! É bom que eu
morra! Obrigado por não haveres querido pertencer-me! Iriam correndo os
annos, e quem sabe se eu afinal não viria a ver em ti um tropêço ao meu
porvir. Sim, antes assim! E agora, o amargor das minhas lagrimas, sequer
ao menos, purificou este meu coração. Ah! Zina! Concede-me um quinhão no
teu amor, tão sómente, no teu amor de algum dia!--N'esta hora
derradeira, sequer ao menos! Sou indigno do teu amor, bem o sei! mas...
mas... mas... ai meu anjo!
E a Zina, desfeita em pranto, a escutar. Tentava interrompêl-o, elle
porém, ia proseguindo... supplice, a gesticular, e aquella sua voz
debil... abafada e sibilante,... fazia mal á Zina...
--Não me tiveras tu encontrado, e não me terias amado, e não morrias...
disse a Zina. Ah! Oxalá nunca nos tivessemos encontrado!
--Não, meu amor, não! Não te estejas arguindo da minha morte! A culpa
foi minha, e só minha! O amor proprio... o romantismo!... Nunca te
contaram, Zina, a minha estupida historia? Existiu aqui, ha três annos,
um prisioneiro, um miseravel, um ladrão. Mas no dia em que chegou o
castigo, faltou-lhe o animo. Sabendo que não levam a justiçar um
enfermo, alcançou uma garrafa de vinho, deitou-lhe de infusão tabaco e
enguliu-o. Tomaram-n'o uns vomitos que duraram tanto que principiou a
escarrar sangue e deu cabo dos pulmões. Levaram-n'o para o hospital e,
d'ali a dias, morreu tisico. Pois bem! Occorreu-me á memoria esse
ladrão, no dia em que se deu aquelle caso da carta... E resolvi acabar
commigo da mesma maneira. E por que foi que eu, de proposito, escolhi a
tisica? Por que foi que me não enforquei ou me não deitei a afogar?
Seria porque me assustasse uma morte tão abrupta? Talvez; mas a mim
quer-me parecer que concorreriam, e não pouco, para isso, as minhas
ideias romanescas. Não me largava este pensamento: Que morte tão bella
não será a minha, estirado como agora o estou, n'uma cama, com o
estertor da tisica!... E tu, ao pé de mim, a lamentar-me, e a padecer
com a ideia de que eras talvez a causa da minha doença! E eu a ver-te
entrar por ali dentro, arrependida, ajoelhar á beira do meu leito... E
eu a perdoar-te e a expirar nos teus braços!... Toleima, Zina, pois não
era?
--Esquece-te de tudo isso, nem me tornes a falar das tuas culpas, que tu
estás a exaggerar; lembrêmo-nos dos momentos ditosos, dos dias de
ventura.
--Não m'o perdôo, meu amor, e é por isso que falo a semelhante respeito.
Ha já dezoito mêses que te não via. Queria alliviar este meu coração!
Durante esse tempo todo, eu para aqui, sósinho, e não houve um só
instante, em que eu não pensasse em ti, meu amor. O que não desejaria eu
fazer para reconquistar a tua estima? Até ao derradeiro instante não
acreditei que morria; não me entreguei á cama desde logo, andei a pé,
por muito tempo, com o peito escangalhado. E que sonhos tão ridiculos!
Ás vezes suppunha ser um grande poeta e em vesperas de publicar um poema
como ainda não tinha apparecido outro egual n'este mundo, que ninguem
tivera genio para o escrever. E eu a pensar que me iriam n'elle todos os
meus sentimentos, a minha alma, toda inteira, e que, d'este modo, me
acharia sempre a teu lado, e que qualquer que fosse o sitio em que te
encontrasses, os meus versos ir-te-hiam recordar a minha existencia, e o
meu sonho unico era acreditar que tu em conclusão poderias dizer: "Não,
elle a final não é tão mau como eu o suppunha". Toleima, Zina, toleima,
pois não é?
--Não, não, Vassia, exclamava a Zina.
E debruçada sobre o peito d'elle, pôz-se-lhe aos beijos ás mãos.
--E o ciume! Como me atormentava o ciume durante esse tempo, todo! Eu,
se tivesse ouvido falar no teu casamento, caía morto, redondamente!... E
eu a vigiar-te, a espreitar-te... Era ella quem lá ia (apontando para a
mãe). Tu nunca tiveste amor ao Mozgliakov, pois não é verdade? Ai! meu
anjo! Lembrar-te-has tu de mim quando eu já não fôr d'este mundo?
Lembras, sim, que eu bem sei! Mas os annos hão de ir passando,
arrefecer-te-ha esse teu coração, o inverno ir-te-ha tomando posse da
alma, e olvidar-me-has, Zina!...
--Não, não, nunca! E nunca me hei-de casar, tem a certeza!... Foste o
meu primeiro amor e serás o derradeiro.
--Tudo morre, Zinotchka, tudo, até a propria recordação, até os mais
nobres sentimentos. Dão logar a um certo raciocinio: frio, que acalma as
saudades. Insurgirmo-nos, para quê? Trata de aproveitar a vida, ama, sê
feliz. Ama um vivo! Para que serve o teu amor a um morto?--E comtudo,
não me esquéças de todo! Tivémos horas atribuladas, é certo, mas quantos
dias de tanta doçura? Ah!--Foram-se de uma vez para sempre!... Escuta,...
amei sempre o pôr do sol... Oh! não!... morrer, por quê?... Ah!
viver, viver! Lembra-te da primavera! Do sol! Tão lindo! Das flores!
Vivemos por uns tempos n'uma festa! E agora, olha! Olha!
E o pobre enfermo a apontar com a mão diáfana o vidro empanado pela
giada. Depois agarrou-se ás mãos da Zina e entrou a chorar com amargor.
E os soluços a esfacelarem-lhe o já dilacerado peito.
E assim se passou todo o dia: A Zina a dizer-lhe que jamais o olvidaria,
que a ninguem n'este mundo viria a dedicar amor egual áquelle que a elle
lhe dedicára. E elle a acreditál-a, a sorrir-lhe, a beijar-lhe as mãos.
N'este meio tempo, Maria Alexandrovna, inquiéta, havia já mandado por
mais de dez vezes indagar o que seria feito da Zina, a supplicar-lhe que
voltasse para casa, que não acabasse de se desacreditar na publica
opinião. Até que por fim, ao lusco fusco, resolveu-se, esparvoada de
receio, a ir, em pessôa, em procura da filha. Exorou-lhe de joelhos; a
Zina a ouvil-a sem a intender. Maria Alexandrovna saíu desesperada. A
Zina estava decidida a passar a noite junto do moribundo. Não lhe largou
da cabeceira. O estado do infermo ia peorando a olhos vistos: quando
rompeu a madrugada, quasi que nem conservava sopro de vida. E não
obstante, viveu ainda um dia inteiro. Porém, no momento em que o sol no
occaso abrasáva as vidraças, exalou-se a alma com os ultimos raios.
Deu-se então horrivel scena. A edosa mãe abraçou-se com o corpo do
filho, e, voltada para a Zina:
--Fôste tu que o deitaste a perder, maldita! clamou.
A Zina, porém, não ouvia coisa nenhuma; estava para ali, qual estatua
insensivel, como se, a ella, a alma a tivera deixado tambem. Até que por
fim, abaixou-se, fez sobre o defunto o signal da cruz, beijou-o na
testa, e saíu do quarto.
Tão tremendas sensações, e aquellas duas noites de véla, quasi que a
haviam enlouquecido de todo... e depois, sentia-se prestes a entrar em
um novo viver, triste, ameaçador.
Não teria ainda andado dois passos, eis lhe surge na frente o Mozgliakov
como se com elle se abrira o chão.
--Zinaida Aphanassievna, disse com timidez, rodando a vista para todos
os lados, Zinaida Aphanassievna, sou um jumento; isto é, não é isto
que... Se me dá licença, não serei um jumento, visto que procedi
briozamente, apezar de todos os pezares... Mas lá que fui um jumento,
fui... e estou mais que arrependido... Está-me a parecer que estou a
meter os pés pelas mãos, Zinaida Aphanassievna. Perdoe-me, atendendo a
este concurso de circunstancias...
E a Zinaida, inconsciente, a olhar para elle, e a seguir seu caminho,
sem tugir. Como no passeio não houvesse logar para dois, Mozgliakov
desceu para a calçada.
--Zinaida Aphanassievna--proseguiu o mancebo, se m'o consente, estou
pronto a renovar o meu pedido, pronto a esquecer tudo, a
perdoar-lhe--com uma condição:--Ficará tudo sendo segredo por emquanto.
Ausenta-se d'esta terra o mais breve possivel, eu sigo atras, ás
escondidas, casamos para ahi seja onde fôr, sem que ninguem dê por isso,
e vamos para Petersburgo. E então! Que me diz? Consente, Zinaida
Aphanassievna? Responda, depressa, por quem é! Não posso esperar;
poderiamos ser vistos.
A Zina não respondeu: olhou para o Mozgliakov, tão somente, mas fêl-o,
porém, de modo tal, que elle comprehendeu desde logo, cumprimentou-a e
sumiu-se por detrás da primeira esquina.
"Ora esta! matutava; ella, ainda não haverá dois dias, a lançar em rosto
a si propria as culpas todas, e agora!..."
N'este comenos, em Mordassov, precipitavam-se os acontecimentos.
O principe, acarretado pelo Mozgliakov para o hotel, n'aquella mesma
noite caíu perigosamente enfermo. Os Mordassovenses só vieram a ser
informados do caso ao romper do dia. Kalist Stanislavitch não largava a
cabeceira do doente. Ao anoitecer, effectuou-se uma conferencia dos
medicos todos de Mordassov. Os convites para comparencia eram redigidos
em latim. E não obstante, a despeito do latim, o principe achava-se em
estado de delirio, e tudo era pedir ao Kalist Stanislavitch que lhe
cantasse uma certa romança, a fallar a respeito de chinó e bigode
postiço e, de vez em vez, muito assustado, soltava uns berros.
Concluiram os medicos que era uma inflammação do estomago, resultante do
excesso de hospitalidade mordassovense, e que d'ali tinha passado á
cabeça. Alegaram, tambem, não sei com que fundamentos, um tal qual abalo
nervoso. E d'ahi, não se esqueceram de notar que o principe havia muito
que manifestava predisposições para a morte e que, por conseguinte...
está claro!--e que por conseguinte, morria. Esta ultima hypothese
pareceu ter certo fundamento: o pobre do ginjinha expirou ao terceiro
dia, ahi pelo anoitecer. Obito a tal ponto inesperado consternou
Mordassov. Acudiram em chusmas ao hotel, discutiam, abanavam a cabeça, e
concluiram acusando directamente "os assassinos do principe, coitado!"
(aludindo assim a Maria Alexandrovna e á filha).
Concordava toda a gente em que tão escandalosa historia não deixaria de
dar brado, e podia, até, "ir muito longe".
Mozgliakov nem sabia já que fazer á sua vida. A situação,
effectivamente, antolhava-se perigosa. Não fôra elle quem accarretara
com o principe para casa de Maria Alexandrovna? Não fôra elle tambem que
carregara com elle para o hotel? Não sabia o que havia de fazer com o
cadaver, onde o enterrar, a quem informar. E de mais a mais, como
passava por ser sobrinho do principe, o seu medo todo era não se
lembrassem de o accusar de ter morto o veneravel ancião.
Eis que de repente mudam as scenas. Uma bella manhã, chega á cidade um
viajante, desconhecido. E Mordassov, em peso, pespegado á janella, a
commentar o adventicio.
--O tal viajante era nem mais nem menos que o celebre principe
Chtchepilov, parente do defunto, sujeito de seus trinta e cinco annos,
usando dragonas de coronel e as agulhetas de ajudante de ordens. Aquella
gran-cruz compenetrava de um respeitoso pavor a todos os
_tchinovnicks_[16] do logar. O prefeito de policia por pouco não
indoidece.
Em breve se veiu a saber que o principe vinha de S. Petersburgo e já
havia passado por Dukhanovo. Não encontrando ali ninguem, viera
seguindo as piugadas do principe até Mordassov, onde o surprehendera a
fatal noticia. Tomou desde logo a tudo sobre si, e Mozgliakov retirou-se
muito encolhido em presença do lidimo sobrinho.
O illustre defunto foi trasladado para o mosteiro. Ao outro dia, a
cidade em peso congregou-se a ouvir a missa funeraria. Entre as
senhoras, corria que Maria Alexandrovna compareceria em pessoa na
egreja, para pedir perdão alto e bom som perante o caixão, em
conformidade com as exigencias da lei. Escusado será dizer que tal Maria
Alexandrovna não appareceu.
Fôra para o campo e levára a Zina, parecendo-lhe insustentavel a
situação na cidade. Lá da sua aldeia, ia recolhendo com inquietação as
atoardas e mandava tomar informações.
Do mosteiro a Dukhanovo, o caminho passava a uma versta das janellas de
Maria Alexandrovna. Teve pois occasião de ver desfilar o prestito
funebre. Atrás do féretro seguia uma longa cauda de trens. E por largo
espaço, n'aquelle campo branco de neve, foi perfilando aquelle seu vulto
negro, lento e majestoso, o carro melancólico.
D'ali a oito dias, Maria Alexandrovna, com a filha e Aphanassi Matveich,
transferiu-se para Moscou. A aldeia e a casa foram postas em leilão.
E assim perdeu para sempre Mordassov uma senhora, o _mais comme il faut_
possivel!
O caso não escapou a commentarios; nem faltou quem affirmasse que o
Aphanassi Matveich se achava tambem á venda juntamente com a aldeia...
Rodou um anno, outro ainda, e ninguem tornou a falar em Maria
Alexandrovna.
E comtudo, correu que havia adquirido outra aldeia em outro governo, e
que outra capital de districto não tardaria em tremer entre as suas
potentissimas mãos. A Zina estaria ainda á espera de noivo.
O Aphanassi Matveich...
Mas não nos tornemos éco de boatos sem fundamento. É falso tudo isso.
* * * * *
Já lá vão três annos desde que eu escrevi as linhas que acabaes de ler.
Quem me diria que ainda havia de vir a folhear o manuscripto para lhe
accrescentar ainda mais uma lauda?
Mas vamos ao facto:
Principiarei por Pavel Alexandrovitch Mozgliakov.
Ao ausentar-se de Mordassov, foi direitinho a Petersburgo, onde alcançou
o logar que lhe andava prometido havia muito tempo. Não tardou em se lhe
franquearem as portas da sociedade, infronhou-se n'umas intrigalhas,
guindou-se ás alturas de espirito do século, tornou a apaixonar-se,
renovou o seu pedido, voltou a apanhar um não pelas ventas, enguliu-o, e
não podendo digeril-o, sollicitou o ser incorporado a uma expedição
enviada a um dos cantos mais remotos d'este nosso paiz sem limites.
O corpo expedicionario transpôz sem novidade de maior florestas e
desertos, alcançando a capital da longinqua região.
Foi acolhido pelo general-governador.
Era um homem magro e de semblante severo, um velho militar, ferido em
diversas campanhas, condecorado com dois cráchás e com uma cruz branca.
Convidou a todos os _tchinovniks_ para um baile effectuado aquella mesma
noite.
Pavel Alexandrovitch estava encantado. Envergara a sua casaca
petersburguense, com a qual contava para produzir immenso effeito, e deu
entrada nas salas nobres com modo desassombrado. Não tardou porém a
perder o aprumo em presença de tanta dragona de cachos e de tanta farda
enfeitada de commendas. Cumpria-lhe ir fazer a sua venia á esposa do
governador, nóva, diziam, e formosissima. Aproxima-se, muito senhor de
si,--mas--de subito,--escancara a bôca, e fica pregado ao chão, de
assombrado. Com um sumptuoso vestido de baile, surge-lhe na frente a
Zina, feraz, soberba, linda, e resplandecente de joias, toda ella. Nem
conheceu o Pavel Alexandrovitch, os seus olhos nem se detiveram sequer
no semblante de mancebo. Mozgliakov recuou e foi perder-se entre a
turba-multa, e soube da bôca de um juvenil _tchinovnick_ coisas
interessantissimas.
Soube que o governador era casado ia já em dois annos, desde uma viagem
que fizéra a Moscou. Desposara uma joven muito rica, de optima familia.
A generala era muito soberba e só dansava com generaes, (havia nove no
baile). A generala tem em sua companhia a mãe, senhora intelligentissima
da mais alta aristocracia, mas que se submete á vontade da filha. E
d'ahi, o general extasia-se tambem deante d'esta. Mozgliakov referia-se
ao Aphanassi Matveich, mas n'aquella região remota ninguem dava noticia
delle.
Um tanto restabelecido d'aquelle seu sobresalto, Mozgliakov deu uma
volta pelas salas e lobrigou Maria Alexandrovna, vestida com singeleza
e, muito animada, a falar com uma personagem graúda. Faziam-lhe cerco
varias senhoras que lhe sollicitavam a boa sombra. Maria Alexandrovna
era amavel com toda a gente.
Mozgliakov arriscou-se e foi-se-lhe apresentar. Maria Alexandrovna teve
assim a modos de um estremeção, mas sopitou-se, acto-continuo. Dignou-se
reconhecêl-o e pediu-lhe novas dos seus amigos de Petersburgo. A
respeito de Mordassov, nem palavra e foi como se tal coisa não
existisse, em conclusão, proferiu o nome de um qualquer principe
estranho ao Mozgliakov, voltou-lhe as costas sem affectação,
dirigindo-se a uma personagem graúda de cabello grisalho e aromatizado,
e d'ali a instantes, dir-se-hia haver-se esquecido de todo de Pavel
Alexandrovitch, que ficou para ali com cara de tolo, diante della.
Mozgliakov, engatilhando um sorriso sarcastico, e de chapeu na mão,
regressou para a sala nobre. Não sei dizer o motivo, mas considerava-se
offendido e não se prestou a dansar. Nunca mais lhe desampararam o
semblante quer uns ares tristes e de distracção quer um méfistofélico
sorriso! Recovado em pinturesca atitude a uma columna, (parecia que de
proposito, tinha columnas o salão), e toda a santa noite, horas a
seguir, para ali se deixou estar no mesmo posto, a seguir com os olhos a
Zina. Tempo perdido, infelizmente! Todas aquellas artimanhas, aquelles
tregeitos todos, aquelles ares romanticos e de nimia decepção... etc...
etc... nada lhe valeu... A Zina nem sequer deu fé da sua presença. Até
que por fim, estafado, exasperado, com os pés dormentes em resultado da
immobilidade, faminto, pois não tinha ceado a fim de melhor sustentar o
seu papel de amante dolorido, recolheu para sua casa, derreado, abatido.
E esteve a pé horas esquecidas, a matutar no passado... Logo no dia
immediato, pediu transferencia e alcançou uma missão que o reconduziu a
Petersburgo. Voltou a serenidade a entrar-lhe na alma assim que voltou
costas á cidade. Lá ao longe, o espaço, o infinito, o deserto, a
denegrida neve das florestas nos confins do horizonte. Ao som das patas
dos cavallos a chofrarem, e a acompanharem o retinir e o telintar das
campainhas. Pavel Alexandrovitch esteve pensativo, por instantes, mas
depois, adormeceu muito socegado da sua vida.
Acordou na terceira muda, fresco, bem disposto, e a pensar noutra coisa.