IV

Á primeira vista, ninguem confundiria o principe com um velho, mas

examinado de mais perto, ninguem deixaria de verificar que é um cadaver

movido por mólas; empregaram toda a casta de artificios para disfarçar

n'um adolescente semelhante mumia. Um chinó estupendo, suissas, bigodes

postiços, mais pretos que o proprio ébano, lhe tapam metade do rosto. As

faces estão pintadas com singular pericia; nem uma ruga: que é

d'ellas?... Vestido no rigor da moda, dir-se-hia saído de um figurino de

alfaiate. Traz assim a modos de uma _visite_, isto é, qualquer coisa

elegantissima feita expressamente para as visitas matutinas. Luvas,

gravata, collete, tudo isso de brancura deslumbrante e do mais

requintado gosto. O principe manqueja um tudo-nada, mas tão levemente!

Dir-se-hia mais um tempêrozinho exigido pela móda.

Um monoculo no olho,--n'aquelle, exactamente, que é de vidro,--vem

saturado de perfumes. Quando fala, arrasta umas certas palavras, talvez

por impotencia senil, ou por serem postiços os dentes, ou ainda por

elegancia. Pronuncia umas certas syllabas com doçura extraordinaria e

accentua a letra _e_. Tem uma pontinha de não se-me-dá que lhe ficou da

sua vida de homem feliz em amores. Se não perdeu de todo a transmontana,

pelo menos está sem memoria. Engana-se a cada instante, fica-se a mascar

e a metter os pés pelas mãos. É necessario ter um certo dom de

opportunismo para sustentar com elle uma conversa. Maria Alexandrovna,

todavia, tem a consciencia dos proprios recursos, e a presença do

principe léva-a ao auge do enthusiasmo.

--Mas não o acho nada mudado, nada, nada! exclama ella agarrando em

ambas as mãos ao hospede e amesendando-o n'uma commoda poltrona.

Sente-se! sente-se, principe! Seis annos! seis annos, inteirinhos e

integrados sem nos vermos, e nem uma carta, nem uma linha, durante todo

o tempo! Oh! quantas culpas não tem para commigo, principe! Se soubesse

o quanto eu estava zangada comsigo, meu caro principe! Mas, e esse chá!

esse chá! Ah! meu Deus! Nastassia Petrovna, o chá!

--Obrigado... ô--ôbrigado!... sou cul... cul... pado... gaguejou o

principe.

(Esqueceu-nos dizer que gaguejava um tanto; e d'ahi, é moda.)

--Cul... culpado! Ora imagine que, o anno passado, quiz abs...

absolutamente vir aqui, acrescentou a mirar a casa através da luneta.

Mas tinham-me mettido medo: disseram-me que por aqui andava a có...

cólera...

--Não, principe, não a tivemos por cá, affirmou Maria Alexandrovna.

--Tinhamos a morrinha, meu tiozinho, interrompeu Mozgliakov, que se quer

tornar conspicuo.

Maria Alexandrovna méde-o com olhar sevéro.

--Ha de ser isso... a mo... mo... rrinha ou coisa que o valha. E vae, eu

então deixei-me ficar. E seu marido, minha que... querida Maria

Nikolaievna, ainda está na ma... a... gistratura?

--Não, principe, diz Maria Alexandrovna, meu marido não está na ma...

a... gistratura.

--Iá apostar que o tiozinho a está confundido com a Anna Nikolaievna

Antipova! exclama o perspicaz Mozgliakov.

Acto continuo, porém, mordeu o beiço, percebendo que nem por isso está

muito á vontade Maria Alexandrovna:

--Pois é isso, é... A Anna Nikolaievna, e... e... e eu sempre a

esquecer-me... e então! Antipovna, exactamente, An... ti... povna,

confirma o principe.

--Não, principe, está equivocado! disse Maria Alexandrovna com um

rizinho azêdo. Eu não me chamo Anna Nikolaievna, e, confesso, nunca

suppuz que se esquecesse de mim. Estou espantada, principe, sou a sua

velha amiga, a Maria Alexandrovna Moskalieva. Não se recorda, principe,

da Maria Alexandrovna?

--Maria Ale... lexan... xandrovna! Ora vejam! E eu a confundi-la com a

Anna Vassiliévna... é delicioso!... Dizia eu, pois, que me não fui

hospedar em casa da... E eu, amigo, a cuidar que me levavas exactamente

para casa da tal Anna Matveina!

É impagavel! E dahi, acontece-me isto tanta vez! Quanta vez não vou eu

parar onde não quizéra!... Em geral, fico sempre contente, sempre

contente, aconteça o que acontecer. Com que então não é a Nastassia

Vassiliévna!

É interessante!

--Maria Alexandrovna, principe! Maria A--lex--androvna! Se é coisa que

se faça! Esquecer-se assim da sua melhor amiga!

--Melhor amiga, sim, é verdade! Perdão, pe... er... dão! silva o

principe fixando a attenção na Zina.

--A minha filha Zina! O principe ainda a não conhece! Não estava em

minha casa quando aqui veiu pela ultima vez; lembra-se?

--Sua filha! É um encanto! um encanto! murmura o principe assestando

ávido a luneta na Zina.--Mas que belleza; disse com visivel sobresalto.

--Serve-se de chá, principe? pergunta Maria Alexandrovna desviando a

attenção do jarreta para um _groom_, parado defronte d'elle com uma

bandeja.

O principe serve-se de uma chavena de chá e contempla o _groom_ de

bochechas rochonchudas e rosadas.

--Ah! ah! ah! É seu filho? Perfeito, muito perfeito! e... e... e... bem

comportado, já se vê?

--Perdão, principe... accode pressurosa Maria Alexandrovna. Ainda estou

toda a tremer... Com que, então, deu uma quéda? Não se magoaria? Não é

prudente arriscar a sua pessoa em semelhantes aventuras!...

--Virou-se! virou-se! O cocheiro virou a carruagem commigo dentro!

exclama o principe com extraordinaria animação. E eu, a pensar que era o

fim do mundo ou coisa parecida. Os santos me perdoem: apanhei um

susto... vi as estrellas ao meio dia, eu esperava lá!... eu es...

pera... va lá!... E tudo aquillo, por culpa do meu cocheiro, do

Pamphilio: entrego-te este negocio, meu amigo, has de tratar do

inquerito... Estou convencido de que attentou contra a minha vida!

--Muito bem! muito bem, tiosinho! responde Pavel Alexandrovitch, fica a

meu cuidado. Mas oiça lá; se lhe perdoasse por esta vez, hein, que lhe

parece?

--Por caso nenhum! Tenho a certeza de que quiz dar cabo de mim, elle e

mais o Lavrenty, que eu deixei lá em casa. Ora imaginem,

encasquetaram-se-lhe as taes ideias novas, uma negação... que eu sei

lá... e era um communista em toda a extensão da palavra. Quando me vejo

a sós com elle... fico logo em suores frios.

--Ah! que verdade, principe! Não pôe na sua ideia o que eu tambem tenho

aturado a esta sucia! Já despedi por duas vezes toda a creadagem. Que

gente tão estupida! Anda uma pessoa a ralhar com elles de manhã até á

noite.

--E... stá claro! Gosto de ver um lacaio que não fure paredes, observou

o principe, satisfeito, como aliás succede aos velhos, de que lhes

escutem com respeito a tagarelice,--é até a principal qualidade de

qualquer lacaio,... uma to... leima sincera... em certas occasiões.

Incute-lhes uma certa imponencia... solemnidade! N'uma palavra, é mais

distincto, e eu, a primeira qualidade que exijo a um serviçal é a

distincção. É por isso, que conservo o Tarenty, estás lembrado do

Tarenty, meu amigo? Assim que o vi, percebi-lhe a vocação: Has de ser

porteiro. É phe... e-nome-nalmente es... tupido. Com aquelles olhos de

carneiro mal morto: Mas que boa presença! que solemnidade! Em pondo a

gravata branca, faz um figurão! Gosto d'elle deveras! Eu, ás vezes,

ponho-me a olhar para elle, e não me canço de o ver: ali onde o vêem,

está escrevendo um livro... É um verdadeiro philosopho a... al... lemão, o

proprio Kant, ou antes, um, perú gordo e bem comido, um ser incompleto,

tal qual cumpre a todo e qualquer se... er... viçal.

Maria Alexandrovna ri ás gargalhadas e bate palmas; Pavel Alexandrovitch

faz côro: acha immensa graça ao tio. A Nastassia Petrovna ri tambem; e a

propria Zina dá um ar de riso.

--Mas que graça, principe! que alegria! exclama Maria Alexandrovna. Que

preciosa faculdade de observar ridiculos... E desappareceu o senhor da

sociedade! Privar assim de um talento o mundo durante cinco annos

inteiros!... Mas podia até escrever comedias, principe! Podia muito bem

restituir-nos Visine, Griboiedov, Gogol!

--É verdade, é verdade!... confirma encantado o principe... eu podia

restituir... Quer crêr? Eu d'antes tinha muita graça, até escrevi para o

theatro um vô... ô... deville. Com umas coplas que eram uma delicia! Por

signal que nunca foi representado.

--Que pena! Como havia de ser divertido? Sabes o que te digo, Zina, que

vinha mesmo a proposito. Nós, justamente, principe, andamos a combinar

umas récitas de amadores com um fim de beneficencia patriotica, em favor

dos feridos... Vinha mesmo ao pintar o seu vaudeville.

--E... stá claro, estou prompto a escrevêl-o. De mais a mais, já nem me

lembra uma palavra, mas tenho de memoria um ou dois trocadilhos que...

(O principe beija as pontas dos dedos.) Eu, em geral, quando estava no

estrangeiro... fazia um verda... deiro _furor_... Lembro-me de mylord

Byron... fomos muito intimos... Dansava á maravilha a krakoviak no

congresso de Vienna...

--Mylord Byron, meu tio? Ora vamos, que está para ahi a dizer!

--Está claro!... Byron. E d'ahi, talvez fosse outro. Exactamente, era um

polaco, lembro-me agora muito bem; um grande original, o tal polaco!

Intitulava-se conde, e porfim, veiu-se a saber que era cozinheiro.

Mas dansava lindamente a krakoviak. Quebrou uma perna. Foi n'essa

occasião, até, que lhe fiz estes versos:

O nosso conde polaco

Dansava a krakoviak

E d'ahi... já me esqueceu... ah!

Desde que partiu a perna,

Nunca mais pôde dansar.

--Sim, sim, deve de ser isso, rico tiozinho! exclama Mozgliakov, pôdre de

riso!

--Está c-claro! Quer-me parecer que seria isto ou coisa que o valha. E

d'ahi é possivel que não seja. O que lhes sei dizer é que os versos me

saíram muito bons. Escapam-me certas coisas, tenho tanto que fazer!

--Mas, não me dirá, principe, pergunta com muito interesse Maria

Alexandrovna, em que é que se occupa n'aquella sua solidão? Lembrava-me

tanta vez do principe! Estou a arder de impaciencia por saber tudo por

miudos...

--Em que é que me occupo! Ora essa... immensa coisa em que me occupar...

em geral. Umas vezes descanso, outras vezes dou o meu passeio... a

imaginar cá umas coisas...

--Deve de ter muita imaginação, rico tiozinho.

--Muita, meu caro. Ás vezes, acontece-me imaginar coisas de que eu

proprio fico pasmado. Quando eu estava em Kadnievo... A proposito, tu

não foste vice-governador em Kadnievo?

--Eu, tiozinho? Que está dizendo! Pelo amor de Deus! exclama Pavel

Alexandrovitch.

--E eu a confundir-te com elle...

E dizia eu commigo: Por que será que elle está tão mudado?... Porque o

outro tinha uma phisionomia imponente, espirituosa... um homem

extra-a-ordina... ria... mente intelligente. Compunha sempre versos... a

proposito... De perfil, era tal qual um rei de copas.

--Acredite, principe, interrompeu Maria Alexandrovna, essa vida ha de

deitál-o a perder, lhe juro eu! Encerrar-se durante cinco annos n'um

ermo! Não ver, não ouvir pessoa alguma!... Sabe o que lhe digo, o

principe é um homem perdido! Pergunte a algum dos seus amigos, que lhe

sejam fieis, e todos lhe dirão isto mesmo: é um homem perdido!

--De... de... vé-éras? arrasta o principe.

--Com certeza... Digo-lh'o como se fôra uma irmã, porque sou muito sua

amiga,--pois que as recordações do passado, para mim são sagradas. Que

interesse poderia eu ter em o enganar? Nada, nada, é preciso

absolutamente mudar de vida, aliás, não resiste?...

--Valha-me Deus! pois eu hei de morrer, assim, tão depressa? exclama o

principe, assustadissimo. E caso é que adivinhou: as minhas humorroides

dão cabo de mim, e ha uns tempos para cá, principalmente... e quando me

atacam as crises, tenho sin-tó-ó-mas es... espan... tosos... Eu já lhe

vou contar tudo... por miudos...

--Deixe lá, tiozinho, contará isso tudo, para outra vez. Agora, não será

tempo de irmos dar o nosso passeio?

--Pois, sim, vá lá, ficará para outra vez; e d'ahi talvez não

interésse... Mas com tudo isso... é uma doença... extrê-ê-mamente

interessante. Com uma tal variedade de episodios! Vê se me lembras, meu

caro, contar esta noite, com todos os pormenores, uma certa

particularidade das humorroides.

--Ora, escute, principe, atalhou ainda Maria Alexandrovna. Devia ir ao

estrangeiro, para ver se se curava.

--É isso, é! Ao estrangeiro, absolutamente. Lembro-me de que, ahi por

1820, a gente divertia-se im-men-sa-mente no estrangeiro. Estive para

casar com uma viscondessa, e era francêsa. Eu estava apaixonado por

ella, e queria consagrar-lhe toda a minha vida. Que ella, aliás, casou

com outro... Caso exquisito!... Tinha estado em casa della não havia

ainda duas horas, e foi n'este meio tempo que um barão allemão a

conquistou. Veiu a acabar n'um hospital de doidos.

--Mas, caro principe, estavamos falando na sua saúde, e dizia-lhe eu que

devia pensar n'isso muito a sério. Ha grandes medicos lá pelo

estrangeiro. De mais a mais a mudança de ar, já por si, é

importantissima. Terá que renunciar a Dukhanovo, por uns tempos, quando

menos.

--Abso-o-lu-tamente! Já me conformei, tenciono tratar-me pela

hy-dro... the... rapia.

--Pela hydrotherapia?

--Está claro! Foi isso mesmo que eu disse, pela hy... dro... the... rapia.

Já me tratei pela hy... drotherapia. Estava eu nas aguas. Tambem lá

estava uma senhora de Moscou, varreu-se-me o nome, uma mulher muito

poetica, com setenta annos, ou coisa assim; tinha uma filha com uns

cincoenta annos, e com uma belida n'um olho. Falavam ambas sempre em

verso. Aconteceu-lhe um desastre! N'um fogacho de genio, matou o criado.

Teve seus da-res e to... mares com a justiça. E como eu ia dizendo,

puzeram-me no regimen da agua; que eu, ainda assim, não estava doente:

mas se não faziam senão dizer-me "Trate de si! trate de si!" E eu, por

delicadeza, puz-me a beber a agua e, effectivamente, senti allivio.

Bebi, bebi, e tornei a beber! Acho que bebi um lago inteiro... É optima

coisa a tal hy-dro-the-rapia. Dou-me muito bem. Eu, se não tivesse caído

de cama, tinha passado lindamente.

--Lá isso é verdade, rico tio. Ora dize-me, rico tio, aprendeste

logica?

--Valha-o Deus! Que pergunta? observa Maria Alexandrovna, escandalizada.

--Está c-claro, meu amigo... ha muito tempo, aqui para nós. Estudei

philosophia, na Allemanha. Frequentei os cursos todos mas d'ali a pouco

esqueceu-me tudo... Mas... confesso, metteu-me um tal susto no corpo com

as taes do... enças que... fiquei atarantado... Eu volto já. Dêem-me

licença!

--Aonde vae, principe? exclama, pasmada, Maria Alexandrovna.

--Não tardo aqui. Não me demoro... Vou apenas... assentar um

pensamento... Até já...

--Que tal lhe pareceu? exclama Pavel Alexandrovitch, á gargalhada.

Maria Alexandrovna perde de todo a paciencia.

--Eu não o entendo, na verdade, não posso comprehender de que é que se

ri!--começa ella com animação. Rir de um ancião respeitavel, de um

parente! Rebentar a rir a cada palavra que elle solta da bôcca! Abusar

d'aquella bondade evangelica! Tenho até vergonha de o ouvir, Pavel

Alexandrovitch! Mas não me dirá o que é que lhe encontra de ridiculo?

Ainda não fui capaz de lhe notar o lado ridiculo.

--Mas se nunca conhece ninguem, se não faz senão metter os pés pelas

mãos!

--Ahi tem as consequencias do tal sequestro de cinco annos entregue á

guarda d'aquella megéra! Devemos antes ter dó d'elle, em vez de rirmos á

sua custa. Veja lá, nem a mim mesmo me conheceu, até! O senhor foi

testemunha. Pois não é terrivel! É preciso salvá-lo. Eu, se lhe propuz

ir ao estrangeiro, foi na esperança de que se resolva a largar de mão

aquella... regateira.

--Sabe o que lhe digo, é preciso casál-o, Maria Alexandrovna.

--E o senhor a dar-lhe! É incorrigivel, senhor Mozgliakov.

--Não sou, acredite, Maria Alexandrovna, eu, d'esta vez, estou falando

até muito a sério. Por que é que o não havemos de casar? É uma ideia

como outra qualquer. Em que é que isso o pode prejudicar? No estado a

que elle chegou, é um expediente que o pode salvar, creio eu. A lei

ainda lhe permitte casar. D'esse modo, vê-se livre d'aquella

desavergonhada, desculpe a expressão. Escolherá para ahi qualquer

menina, ou qualquer viuva honesta, intelligente, carinhosa e pobre,

sobretudo, que não deixará de o tratar como filha e que comprehenderá

que lhe deve ser grata. Que coisa melhor lhe poderia acontecer? Um

coração terno e fiel, em vez d'aquella... moita! Está claro que convem

que seja bonita, pois o tio professa ainda o culto da belleza. Não viu

os olhos que elle deitava á Zinaida Aphanassievna?

--E onde irá desencantar semelhante ideal? pergunta Nastassia Petrovna

toda ella ouvidos.

--Não está má pergunta? A senhora, por exemplo, sem irmos mais longe...

se me dá licença, perguntar-lhe-hei por que é que não ha de casar com o

principe? Primeiro e segundo, porque é bonita, e viuva, ainda por cima.

Terceiro, por que é fidalga. Quarto, por que é honestissima. Ha de

amá-lo, amimá-lo, pôr na rua a tal carcereira, carregar com o principe

para o estrangeiro, dar-lhe papinha e goloseimas... tudo isto até que

chegue o dia em que elle diga adeus a este mundo de amarguras, o que

tardará para ahi um anno, quando muito, ou um mez ou dois, quem sabe;

depois fica sendo princesa, viuva, rica e, para compensar o trabalho,

casa para ahi com um marquez qualquer, ou um general. É bonito, pois não

acha?

--Ai! Deus meu! Que amor eu lhe havia de ter, por gratidão, quando por

mais não fosse, se elle pedisse a minha mão! exclama Madame Ziablova.

Os olhos feriram-lhe lume, até.

--Mas, isso sim!... são sonhos!...

--Sonhos? Tem empenho em que se realisem? Experimente, peça-me que lhe

alcance essa pechincha. E corto desde já este dedo se hoje mesmo não fôr

noiva do principe. Não ha nada mais facil do que persuadir o meu tio.

Diz sempre a tudo, que sim. A senhora bem o ouviu, ha boccado. Casamol-o

sem elle dar por isso. Enganamol-o, é verdade, mas se é para seu bem,

pois não acha? Em todo o caso, a senhora do que devia tratar era de ir

arranjando uma _toilette_ á altura das circumstancias, Nastassia

Petrovna.

A animação de Mozgliakov transforma-se em enthusiasmo. A Madame

Ziablova, com o seu tino todo, está-lhe a crescer até agua na bôcca.

--Eu bem sei; nem é preciso que m'o lembre, que estou para aqui uma

trapalhona... Pareço até uma cozinheira, pois não pareço?

Maria Alexandrovna está com um cara de palmo. Afoito-me a affirmar que

ouviu a proposta de Pavel Alexandrovitch com uma pontinha de terror.

Quer sim quer não, teve mão em si.

--Tudo isso é muito bonito, mas é um chorrilho de futilidades sem pés

nem cabeça, e que não vem nada a proposito! disse, com sequidão,

dirigindo-se ao Mozgliakov.

--Então por quê, minha querida Maria Alexandrovna? Por que é que diz que

são futilidades fóra de proposito?

--O senhor está em minha casa, e o principe é meu hospede. Não consinto

que ninguem se esqueça do respeito que se deve á minha casa! Tomo as

suas palavras como mera brincadeira, Pavel Alexandrovitch; mas, ahi vem

o principe, graças a Deus!

--Eu... c... cá... es... tou, guincha o principe ao entrar. É espantoso,

querida amiga,... que fecundidade com que acordou hoje este m... meu

espirito! Ás vezes--talvez não acredites--mas acontece-me estar um dia

inteiro sem me accudir um pensamento a esta cabeça...

--Seria a tal queda d'inda agora que lhe abalou os nervos...

--Tambem me quer parecer, meu amigo, ach... acho util, até, o tal

accidente, tanto assim que estou resolvido a perdoar ao meu Pheophilo.

Queres que te diga?--Palpita-me que não premeditará attentar contra os

meus dias. E demais... já está bem castigado, cortaram-lhe as barbas.

--Cortaram-lhe as barbas!--Que me diz? Elle, que tinha umas barbas mais

compridas que um principado allemão.

--Es... tá c-claro!... sim... um principado. Em geral, meu amigo, são

muito acertadas as tuas conclusões. Mas as barbas d'elle são postiças.

Ora imaginem: Mandaram-me um catalogo: acabam de chegar do estrangeiro

umas optimas barbas quer para cocheiros quer para gentlemen: suissas,

barbas á hespanhola, pêras á império, etc.; tudo de primeira qualidade,

por preços muito mó-mó-di... cos. E eu, então, encommendei umas barbas

para cocheiro. Mandaram-m'as: Ma-a... gnificas! Mas a do Pheophilo era

duas vezes mais comprida. E eu muito atrapalhado: que hei de eu fazer?

Recambiar as barbas postiças, ou mandar rapar as do Pheophilo? Reflecti

maduramente e resolvi em favôr das barbas postiças.

--Prefere a arte á natureza, rico tiozinho?

--Pois está claro!... E que desgosto que elle teve quando se viu de cara

rapada. Cada pêllo que lhe cortavam era um dia de vida que lhe tiravam.

Mas não serão horas de sair, meu caro?

--Estou ás suas ordens, tio.

--Principe, ouso esperar que só irá a casa do governador! exclamou Maria

Alexandrovna, muito sobresaltada. O principe, _pertence-me_, faz parte

da minha familia, por todo o dia. Escusado é dizer, que não tenho nada

que ensinar-lhe, pelo que diz respeito a Mordassov. Talvez queira ir

fazer a sua visita á Anna Nikolaievna, e não tenho direito de o

dissuadir de dar semelhante passo. Tanto mais que estou persuadida de

que a sua propria experiencia lhe servirá de guia. Lembre-se de que,

hoje, sou sua irmã, sua mãe e sua aia por todo o dia... Ah! Estou toda a

tremer por sua causa, principe!... O principe não conhece esta gente,

não conhece, digo-lho eu... Não, que elle é preciso tempo para os

conhecer.

--Deixe o caso por minha conta, Maria Alexandrovna, disse Mozgliakov;

tudo se passará conforme lhe prometti.

--Entregar-me nas suas mãos, eu?... O senhor é um estouvado? Cá o espero

para jantar, principe. Costumamos jantar cedo. Que pena que eu tenho de

que, n'esta occasião, meu marido esteja no campo! Havia de gostar tanto

de o ver! Estima-o tanto! Dedica-lhe tão sincera amizade!

--Seu marido?--Com que então,... tem marido?--

--Valha-me Deus! Que pessima memoria é a sua, principe? Pois esqueceu o

passado a esse ponto? E meu marido, o Aphanassi Matveich, querem ver que

tambem se não lembra d'elle? Está no campo, mas o principe, em tempos,

viu-o, até, muita vez. Veja lá se se lembra; o Aphanassi Matveich?

--Aphanassi Matveich! No campo? Ora vejam lá! Mas é delicioso! Tem então

marido! Que ratice! Existe um vô... ô... de ville versando sobre o mesmo

assunto: _O marido á porta e a mulher na_... Conceda-me licença!... já

me não lembro lá muito bem... a mulher safa-se para Tula... ou para

Yoroslav!...

_O marido á porta e a mulher em Tver_, rico tio, sopra-lhe o Mozgliakov.

--Está c-claro, sim, é isso! Obrigado, caro amigo, exa... cta...

mente... em Tver... É um encanto... um en... can... to... É assim,...

é!... a mulher em Koxtroma... quero dizer... em conclusão... safou-se...

Um encanto! um encanto! Mas já não sei o que é que eu ia dizendo!... Ah!

sim! vamo-nos embora, hein? Até á vista! minha rica senhora! Adeus...

minha linda menina!

O principe beija as pontas dos dedos á Zinaida.

--O jantar! O jantar, principe!

--Demore-se o menos que puder! brada Maria Alexandrovna deitando a

correr atráz d'elle.

V

--Nastassia Petrovna, não seria mau ir deitar a sua rabisáca pela

cozinha, disse ella apóz de haver acompanhado o principe. Palpita-me que

aquelle traste do Nikitka é capaz de se tomar da pinga e deita-nos a

perder o jantar.

Obedeceu Nastassia Petrovna. Á saída, olhou para Maria Alexandrovna e

percebeu que estava animadissima a digna senhora. Em vez de ir vigiar o

tratante do Nikitka, Nastassia Petrovna dirige-se a uma saleta contigua,

d'alli, enfiando pelo corredor, vae ao quarto, e esgueira-se para um

cubiculo de despejos, atulhado de bahús, de vestidos velhos e de roupa

suja de toda a familia. Nos bicos dos pés, acerca-se de uma porta

fechada, sustendo a respiração, e espreita pelo buraco da fechadura:

Aquella porta é uma das três que abrem para a sala (está condemnada).

Maria Alexandrovna sabe que a Nastassia Petrovna é velhaca, pouco

delicada, de poucos escrupulos, e muito capaz de escutar ás portas.

N'este momento, comtudo, Madame Moskalieva está tão preoccupada, que se

descuida de toda e qualquer cautélla.

Senta-se n'uma poltrona e despede significativa olhadela á Zina. E a

Zina a sentir o pêso d'aquelle olhar. Dá-lhe um pulo o coração!

--Zina!

A Zina volta com muito vagar para a mãe o descorado semblante e aquelles

olhos sonhadores.

--Zina, tenho que te falar em negocio importante.

Está de pé a Zina; cruza os braços e espera. Deslisa-lhe pelo semblante

expressão fugaz de despeito e de ironia.

--Quero perguntar-te qual é a tua opinião a respeito d'este tal

Mozgliakov?

--Está farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo

constrangido.

--Pois sim, filha, mas está-me parecendo que se vae tornando um tanto ou

quanto impertinente, atrevido; e em conclusão, aquella sua

insistencia...

--Diz elle que me ama; se assim fôr, acho perdoavel a sua insistencia.

--Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, não o desculpavas, assim,

tanto;... antes pelo contrario, eras, até, muito rispida para com elle,

sempre que eu a elle me referia.

--E a mim, o que me causa admiração é outra circumstancia: A mamã,

d'antes, estava sempre a defendêl-o, e é agora a propria a condemnál-o.

--Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vêr-te assim sempre,

tão triste.--Avaliava bem a tua tristeza,--pois sou capaz de a

comprehender, seja qual fôr o juizo que faças a meu respeito.--Chegou

até a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que só uma mudança

radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudança, ha de ser o

casamento. Não somos ricos, não podemos ir dar a nossa volta pelo

estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda

solteira aos vinte e três annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas

poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida

cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haverá por aqui marido á

altura dos teus merecimentos? É certo que o Mozgliakov é apenas um

peralvilho, e com tudo isso, de todos elles, é ainda o mais acceitavel.

É de boa familia, dôno de cincoenta mil almas: sempre valerá mais que um

procurador que vive de propinas e á custa Deus sabe de que

tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos

verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me convenço hoje de que

era o Suprêmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiança como

advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido

mais vantajoso, não serias tu a propria a louvar-me de não ter até hoje

dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada

lhe terás dito de positivo.--Pois não é verdade?

--Para que servirão tantos rodeios, mamã? quando podia muito bem ter-me

dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.

--Rodeios, Zina! Serão coisas que se digam a tua mãe? Ah! Vejo que de

modo nenhum te mereço confiança! Consideras-me como inimiga muito mais

do que como mãe!

--Acabemos com isto, minha mãe. Parece-lhe bonito ficarmos para aqui a

fazer questão de palavras? Não estaremos fartas de nos conhecermos uma á

outra?

--Repara em que me estás offendendo, minha filha. Pois não vês que estou

resolvida a tudo, a tudo, comtanto que tu sejas feliz?

A Zina põe-se a olhar para a mãe com aquella singularissima expressão de

despeito e ironia.

--Não estará morrendo por que eu case com o principe para complemento da

minha ventura? pergunta a joven com extranho sorriso.

--Nem sequer te disse uma palavra a semelhante respeito, mas visto que

isso veiu á teia, dir-te-hei que, se fosse possivel, representaria para

ti a felicidade, effectivamente.

--Pois eu acho isso pueril, exclama a Zina toda assommada, pueril,

pueril e mais que pueril! e acho, ainda, que a mamã é dotada de

excessiva imaginação: é uma mulher poetica; e tanto mais que é assim que

a classificam em Mordassov. Está sempre a fazer planos. Nem lhe mettem

medo impossibilidades. Assim que vi o principe, tive um presentimento,

de como não deixaria de lhe accudir semelhante ideia. Quando o

Mozgliakov mettia o caso a ridiculo e pretendia que era urgente casál-o,

li no semblante á mamã o pensamento. E d'ahi, foi para me falar n'esse

jarreta que a mamã principiou por se referir ao Mozgliakov. Mas esses

seus sonhos aborrecem-me de morte, não sei se sabe? E peço-lhe que

fiquêmos por aqui!... Nem mais uma palavra, entendeu, mamã? Nem mais uma

palavra! Peço-lhe que tome a serio isto que acaba de ouvir da minha

bocca.

--És uma criança, Zina, uma criança doente, e com mau genio! responde

Maria Alexandrovna em voz meliflua; e estás-me faltando ao

respeito.--Offendes-me! Não ha mãe que aturasse o que eu te tenho

aturado! Mas padeces, e eu acima de tudo sou christã. Vou aturando, e

perdôo-te. Responde-me a uma pergunta, só e mais nada, Zina. Vamos que

eu, effectivamente, tivesse sonhado semelhante alliança, onde é que está

a puerilidade?--Quanto a mim, nunca o Mozgliakov falou com tanto acerto

como ainda agora, quando tentava demonstrar que o casamento é uma

necessidade para o principe. O disparate era o ter-se lembrado d'aquella

fufia da Nastassia.

--Mamã, declare-me com franqueza, se me está dizendo isso por méra

curiosidade ou com um fim qualquer.

--Peço-te que me respondas: onde vês tu n'isto puerilidade?

--Que aborrecimento! Triste sorte é a minha! exclama a Zina a bater o

pé. Vou dizer-lh'o, se é que ainda o não percebeu: aproveitar o ensejo

d'esse velho se achar caído em demencia para o enganar, para o desposar,

assim, enfermo e caduco, para lhe extorquir o dinheiro e andar todo o

santo dia a desejar-lhe a morte, representa, a meu vêr, não só uma

puerilidade, mas uma vilania, e não serei eu quem lhe dê os parabens por

semelhante ideia, mamã.

Silencio.

--Zina, já te esqueceste d'aquillo que se passou ha dois annos? pergunta

de chofre Maria Alexandrovna.

Estremece a Zina.

--Mamã, profere com accentuada seriedade, lembre-se de que me prometteu

não me tornar a falar em semelhante coisa.

--Pois bem, minha filha--que eu até hoje ainda não tornei a dizer-te uma

palavra--peço-te que por uma vez tão somente me desligues da minha

promessa. Zina! Soou a hora de uma franca explicação. Foram mortaes

estes dois annos de silencio! Isto assim não pode continuar!... Estou

prompta a supplicar-te de joelhos que me permittas falar. Entendes,

Zina, é a tua propria mãe que cae de joelhos a teus pés! E

demais--dou-te a minha palavra solemne--a palavra de uma mãe desgraçada

que adora a propria filha--seja qual for o pretexto, em circumstancia

alguma d'este mundo, com risco até da propria vida, de nunca mais abrir

a bocca a tal respeito.

--Fale! diz Zina, muito enfiada.

Maria Alexandrovna calculou optimamente o lance.

--Obrigada, Zina. Ha dois annos, pois, que frequentava esta casa, por

causa do teu irmãozinho, do Mitra, que Deus tem, um _utchitel_.

--Mas para que foi que a mamã assumiu esses modos tão solemnes, para que

estará a desperdiçar toda essa eloquencia, esses pormenores tão

escusados e penosos que ambas estamos fartas de conhecer? interrompeu a

Zina com enfado.

--Porque a mim, que sou tua mãe, Zina, me assiste o dever de me

justificar a teus olhos. E demais, quero apresentar-te este negocio,

todo elle, sob uma luz nova para ti e que é a unica verdadeira. Emfim,

sem estas promessas, não poderias comprehender a conclusão que d'ellas

pretendo deduzir. Não creias, minha filha, que intento fazer pouco dos

teus sentimentos. Não Zina, has de encontrar em mim uma verdadeira mãe,

e quem sabe se não serás tu a propria a cair-me aos pés, lavada em

lagrimas, a supplicar-me que conclua essa reconciliação á qual o teu

orgulho se nega ha tanto tempo. Tenho pois que recapitular as coisas

desde o principio, ou calar-me.

--Fale, repetiu a Zina, a maldizer de todo o coração a grandiloquencia

maternal.

--Continúo, Zina. Esse tal _utchitel_ da escóla communal, um fedêlho,

por assim dizer, produziu em ti inconcebivel impressão. Contei sempre

com que o teu sizo, a elevação dos teus sentimentos e tambem a

indignidade do individuo, (visto que é preciso dizer tudo) evitariam

qualquer approximação entre tu e elle. E de repente, vens ter commigo e

declarar-me com firmeza que tens tenção de casar com elle. Foi uma

punhalada que me déste no coração, Zina! Soltei um grito e caí sem

sentidos, mas... não deixarás de te lembrar do incidente. É certo que

julguei necessario empregar n'aquella occorrencia toda a minha

auctoridade: e por signal que a acoimaste de tyrannia. Reflécte, pois:

um garotête, filho d'um _diatchok_,[4] com um salario de doze rublos

mensaes, um escrevinhador de máus versos que lhe imprimem por dó na

_Bibliothéca de Leitura_, que não sabe falar em outra coisa a não ser

n'esse maldito Shakspeare,--aquelle fedêlho, teu marido! marido da

Zinaida Moskalieva! São coisas que só acontecem nas novéllas pastorís de

Florian. Perdão, Zina, mas quando me lembro de tal, saio fóra de mim!

Neguei-me a consentir. Não houve influencia que conseguisse

convencer-te. Teu pae, naturalmente, manteve-se na neutralidade, incapaz

de comprehender-me quando tentei expor-lhe o caso e sem saber fazer

outra coisa além de pestanejar. Mantens relações com esse garoto,

proporcionas-lhe até ensejo de te ver, e o que é ainda muito peor que

tudo isso, tens o arrojo de lhe escrever! E as más linguas desde logo a

trabalhar! Fazem allusões offensivas na minha presença. Estão a pular de

contentes, a embocar as mil trombetas da calumnia. As minhas

antecipações a semelhante respeito vão se realizando uma por uma. Dá-se

entre ti e elle um desaguizado e elle manifesta-se indigno de ti.

Ameaça-te de mostrar as tuas cartas, e tu, num assômo de justa

indignação, dás-lhe uma bofetada!... Sim, Zina, conheço tambem essa

circumstancia, estou inteirada de tudo--de tudo, sim! Esse traste,

n'esse mesmo dia, mostra uma das tuas cartas áquelle miseravel do

Zanchine, e, d'alli a uma hora a carta está em poder da Natalia

Dmitrievna, minha inimiga figadal! Á noite, aquelle, doido, arrependido

já de semelhante acção inqualificavel, por toleima tenta envenenar-se!

N'uma palavra, um escandalo medonho! Aquella pécora da Nastassia accode

toda assustada, a participar-me que ha uma hora que a Natalia Dmitrievna

se acha de posse da tua carta: não se passarão duas horas, sem que a

cidade em pêso apregôe para ahi a tua vergonha. E eu a esticar os nervos

para não caír para ali inanimada. Que lance, Zina! Aquella descarada,

aquella desavergonhada!

A Nastassia exige duzentos rublos para inutilizar a carta. Eu propria,

deito a correr, com os sapatos de trazer por casa, até, atravéz da neve,

para ir a casa do judeu Bumschtein empenhar o meu abrochador, recordação

da minha virtuosa mãe! D'alli a duas horas tinha a carta em meu poder:

roubou-a a Nastassia: arrombou uma boceta e está salva a tua honra. Nem

vestigios, sequer! Mas que dia de angustias! Logo ao outro dia,

encontrei entre os meus cabellos immensos fios brancos,--os primeiros,

Zina! Tu foste a propria a avaliar até que ponto era indigno de ti

aquelle garoto, pois concordas agora, não sem amargura, talvez, que

teria sido uma loucura entregar-lhe o teu destino. Depois, comtudo,

pégas a atormentar-te, a soffrer, não podes varrêl-o da lembrança,--não

a elle,--foi sempre coisa tão rasteira que a tua vista nem sequer podia

deter-se n'elle,--mas ao teu primeiro sonho de amor. Hoje, esse

desgraçado está a expirar--nem sequer já se levanta.--Dizem que morre

tisico, e tu--anjo de bondade,--não queres casar emquanto elle fôr vivo;

para lhe poupar soffrimento, visto que é ciumento... e não obstante,

nunca te teve amor, tenho a certeza, amor sincero, elevado! O que o não

impede de espionar os passos do Mozgliakov, de te rondar a casa, de

tirar indagações...--Tens dó delle, minha filha, adivinhou-te o meu

coração, e Deus sabe as lagrimas amargas que me tem encharcado o

travesseiro.

--Veja se acaba com tudo isso, mamã! atalhou Zina com enfado. O seu

travesseiro não vem cá fazer coisa nenhuma! Não poderá falar com

singeleza?

--Não me acreditas, Zina! Não me trates tão mal, minha filha! Já lá vão

dois annos, e não faço outra coisa senão chorar, mas tenho-te encoberto

as minhas lagrimas, Zina, durante esses dois annos mortaes!... Ha muito

tempo que conheço os teus sentimentos. Medi todo o alcance da tua magua.

Poderá alguem lançar-me em rosto, minha querida, o haver considerado

semelhante ligação como uma phantasia romanesca, nascida sob a

influencia do tal maldito Shakspeare? Qual seria a mãe que condemnasse

os alvitres de que tenho lançado mão e achasse rigoroso em demasia o

modo por que avalio este caso? E comtudo, a mim propria represento o teu

longo padecer, comprehendo e apprecio a tua sensibilidade. Acredita:

comprehendo-te melhor, talvez, do que te comprehendes a ti propria.

Estou certa de que o não amas, a esse garoto ridiculo: a quem tu amas é

ao teu sonho, á tua ventura mallograda, ao esvair das tuas illusões. Eu

tambem amei, não cuides que não, e com mais excesso de paixão do que tu;

tambem eu padeci; tinha tambem as minhas illusões!... Não falo pois sem

experiencia, e se affirmo que uma alliança com o principe representaria

para mim a salvação, mereço talvez que me dêem ouvidos.

A Zina ouviu com espanto aquella estirada declaração, farta de saber que

a mamã nunca assume aquelle tom pathetico sem designio occulto. E

comtudo, a conclusão deixa confundida a joven.

--É pois a sério, que fala em casar-me com o principe? exclama pasmada a

considerar a mãe que assumiu attitude majestatica; não é então uma

hypothese, como se dissessemos? É tenção firme e assente, pelo que vejo?

Mas... como é que poderia salvar-me semelhante casamento? E... e... que

relação terá tudo isso com o que acaba de expôr-me, com essa historia

toda?... Declaro que a não percebo, mamã.

--E a mim, meu anjo, espanta-me que o não percebas! exclama Maria

Alexandrovna, com subita animação. Primeiramente, o facto só por si de

teres de transferir-te para outra sociedade, para um mundo differente;

de teres de dizer adeus de uma vez para sempre a esta nojenta cidade das

duzias, semeada para ti de tão temiveis recordações, á qual te não

prende a minima affeição, onde te assacaram calumnias, onde essa sucia

de pêgas te detestam por causa da tua formosura, esse facto só por si,

repito, é já capital. E depois, podes, ainda esta primavera, ir para o

estrangeiro, para a Italia, para a Suissa, para a Hespanha,--Zina--para

a Hespanha, onde irás ver a Alhambra, o Guadalquivir! Não estarás farta

d'este immundo riacho de Mordassov, com aquelle seu nome inconveniente?

--Mas se me dá licença, mamã! está falando como se eu já estivesse

casada, ou pelo menos como se o principe me tivesse já pedido em

casamento...

--Lá quanto a isso não te dê cuidado, meu anjo, sei o que estou dizendo.

Deixa-me continuar. Eu disse _primeiramente_, e ahi vae o segundo ponto:

Comprehendo, minha filha, quanto te contraría o dares a mão de esposa a

este Mozgliakov...

--Sei muito bem, nem preciso de que m'o digam--que nunca serei sua

mulher! interrompeu Zina com arrebatamento.

--Se tu soubesses, meu amor, como eu avalio essa repugnancia! É terrivel

o ter que jurar perante o altar de Deus amor e fidelidade áquelle a quem

se não pode ter amor! É terrivel o pertencer a um homem a quem se não

pode respeitar. E todavia, exigir-te-hia amor; foi para te possuir que

elle casou comtigo: isso adivinha-se nos olhos que elle te deita quando

não olhas para elle. Mas como simular perpetuamente amor? Ah! minha

filha, aqui estou eu que ando a padecer ha vinte e cinco annos com esta

comedia necessaria. Teu pae deitou-me a perder. Posso afirmar, até, que

envenenou de todo a minha mocidade, e quantas vezes não terás visto

correr as minhas lagrimas?

--O papá está no campo; não esteja a atacál-o, por quem é!

--Sim, tu saes sempre em sua defêsa, bem o sei... Ah! Zina!

Confrangia-se-me o coração quando a prudencia me obrigava a desejar o

teu casamento com o Mozgliakov! Com respeito ao principe, com esse não

tinhas tu necessidade de representar nenhuma comedia. Escusado é dizer

que lhe não poderás dedicar o que se chama amor. E demais, elle proprio

é _incapaz_ de exigir semelhante amor.

--Que disparate, meu Deus! E eu affirmo-lhe que se engana de meio a

meio: não tenciono sacrificar-me,--ignoro aliás o fim com que o faria.

Fique sabendo que não quero casar. Não casarei seja com quem fôr;

ficarei solteira. Tem-se farto de me atormentar ha dois annos para cá,

por causa de eu ter rejeitado quantos noivos me tem apparecido, mas não

tem remedio senão conformar-se; não quero, já disse!

--Zinotchka, não te alteres, pelo amor de Deus, sem me ouvires, meu

amorzinho! Que cabeça tão esturrada! Consente em que eu te exponha o

caso em conformidade com o meu modo de ver, e verás que has de vir a

concordar commigo. O principe poderá ainda viver um anno, dois, talvez,

mas não vae além, com certeza. Ora, mais vale ser viuva e nova do que

velha solteirona, isto sem falarmos em que depois de elle fechar o olho

ficas sendo princêsa, rica e livre. Minha querida, desprezas talvez

estes meus calculos baseados na morte de um homem, mas sou mãe, e quem

haverá ahi que condemne a minha previdencia? Em conclusão, se tu, anjo

de bondade, ainda tens pena d'esse tal garoto, se tu, conforme eu

suspeito, não queres casar emquanto elle fôr vivo, considera que, se

casares com o principe, vaes resuscitar aquelle a quem amas! Se é que a

elle lhe restam ainda uns vislumbres de bom senso, comprehenderá,

manifestamente, que o ter ciumes a respeito do principe, seria coisa

fora de proposito, ridiculo. Comprehenderá que não casas com este velho

a não ser por interesse, por necessidade. N'uma palavra,

comprehenderá... quero dizer--depois de fallecido o principe, já se

vê,--que poderás casar segunda vez, se fôr da tua vontade...

--Casar com o principe, expoliá-lo, e estar á espera de que elle morra

para depois ir casar com o meu amante, não é assim? É muito habil; quer

seduzir-me propondo-me... Percebo-a á legua, minha mãe, percebo-a

optimamente. Só o lembrar-me eu de que não pode deixar de fazer alarde

de nobres sentimentos, até, n'um negocio tão pouco limpo? Seria muito

mais estimavel o dizer-me, singelamente: "É uma ignominia, Zina, mas é

lucrativa; e portanto, acceita." Sequer ao menos era mais franco.

--Mas que teimosia será essa tua em encarar o negocio no ponto de vista

da trapaça, da arteirice, da cobiça? Consideras os meus calculos como

uma soez hypocrisia; mas, em nome de quanto venéras como mais sagrado,

onde estará a baixeza, onde a hypocrisia? Vê-te bem n'aquelle espelho:

és formosa o sufficiente para conquistares com esses teus olhos, sem

mais nada, um reino! E tu, tão formosa, sacrificas a um velho os teus

melhores annos; tu, estrella magnifica, vaes embellezar-lhe o occaso da

vida; tal qual a hera viçosa, florir na sua velhice! Está afeito á

companhia de uma feiticeira que o sequestra lá n'um canto do mundo, e

d'essa feiticeira, és tu, tu, Zina, quem vaes ser successora! O dinheiro

e o titulo d'elle podem lá equiparar-se ao teu valor? Onde vês pois

n'isto a baixeza, a hypocrisia?

Nem sabes o que estou dizendo, Zina!

--O dinheiro e o titulo d'elle valem mais do que eu, visto que para os

alcançar, teria que resignar-me a casar com um enfermo. Dêmos ás coisas

os seus nomes: é uma ignobil hypocrisia, mamã!

--Pelo contrario, minha querida, pelo contrario! O caso pode até ser

encarado de um ponto de vista superior, christão. Declaraste-me, um dia,

em um assômo de enthusiasmo, que querias ser irmã da caridade: o teu

coração exaltara-se de amor ao pensares nos humanos soffrimentos, outro

qualquer amor parecia-te tibio e mesquinho. Pois bem! Se ainda queres

acreditar no amor, acredita na dedicação, com sinceridade, tal qual uma

creança, com candura. Dedica-te, e abençoar-te-ha Deus! Tem padecido

este velho; é desditoso, perseguem-n'o. Conheço-o ha muitos annos e

sempre lhe dediquei incomprehensivel simpathia, carinho, por assim

dizer: presentia o futuro. Sê sua amiga, minha filha, seu brinquedo,

até, se é forçoso dizêl-o, mas aquenta-lhe o coração e fál-o por amor de

Deus! Admittamos que é ridiculo? Elle nem sequer d'isso tem consciencia.

Não chega a ser a metade de um homem. Tem dó d'elle, tu, que és christã.

Contrafaze-te; com força de vontade consegue-se domar a alma para

semelhantes façanhas. Quanto não custa o pensar as chagas nos hospitaes,

com que repugnancia se não respira o ar viciado dos lazaretos: mas não

ha anjos que desempenham sem asco essas repugnantissimas taréfas e que

ainda dão graças a Deus pela triste sorte que lhes coube? E ahi está o

remedio de que tanto necessitava o teu magoado coração: uma tarefa

heroica! Onde vês tu n'isto egoismo? Baixeza? Não me acreditas, suppões

que estou representando uma comedia, não podes comprehender que uma

mulher mundana, n'este meio de viver leviano, possa ter uns sentimentos

de tanta elevação? Pois bem, não me acredites, minha filha! Desconfia do

coração de tua mãe! mas sequer ao menos concorda em que as minhas

palavras são sensatas e salutares. Esquece que sou eu quem te estou

falando, fecha os olhos, volta-me as costas e põe na tua ideia que é uma

voz misteriosa que estás ouvindo... O que acima de tudo te prende, é a

questão de dinheiro, essa apparencia de compra e venda. Pois bem,

rejeita o dinheiro visto que lhe tens tamanha aversão, acceita apenas o

necessario, e o resto, dá-o aos pobres. Por exemplo, estende o teu braço

áquelle desgraçado que está ás portas da morte.

--Elle nunca acceitaria, disse a Zina, baixinho, como se estivera

falando comsigo.

--Dado o caso de que elle rejeite, lá está a mãe para o acceitar em nome

d'elle, responde Maria Alexandrovna sentindo que conseguiu acertar-lhe

com a corda sensivel. Acceitará sem que elle proprio o saiba. Já

vendeste os teus brincos (presente de tua tia) para lhe accudir, ha seis

meses, que eu bem o sei, e tambem sei que a mãe, a pobre da velha, anda

a lavar roupa para sustentar o filho.

--Dentro em pouco deixará de precisar seja do que fôr.

--Comprehendo-te! apanha de relance Maria Alexandrovna, (accode-lhe

uma inspiração, uma verdadeira inspiração.) Dizem que morre tisico:

mas quem é que o affirma? Indaguei a seu respeito, ha dias, do

Kalist-Stanislavitch... Pois sou a primeira a interessar-me pelo pobre

rapaz, tambem tenho coração, Zina! E o Kalist-Stanislavitch respondeu-me

que a doença é grave, não ha duvida, mas que, até hoje, existe apenas

uma forte affecção dos bronchios,--tu mesmo lh'o podes perguntar. E

accrescentou que a mudança de clima, impressões fortes, podiam curar o

doente. Contou-me elle que, em Hespanha--e já não é a primeira vez que o

oiço... li-o, até--ha uma ilha extraordinaria, Malaga, creio eu...

emfim, um nome que lembra o de um qualquer vinho--onde não só os que

padecem do peito, mas até os proprios tisicos saram de todo, graças ao

clima. Vão ali tratar-se fidalgos, e commerciantes ricos. Que elle,

effectivamente, a Alhambra--esse palacio encantado--as murtas e os

limoeiros, os hespanhoes a cavallo nas mulas, não será o sufficiente a

produzir impressão n'uma natureza de poeta? Suppões que rejeitaria o teu

dinheiro?... Enganas-te se tens dó d'elle! A mentira é perdoavel, quando

d'ella depende a vida. Alimenta-lhe a esperança, promette-lhe o teu

amor, dize-lhe que casarás com elle quando enviuvares,--tudo se pode

dizer com nobreza: tua mãe não era capaz de te dar maus conselhos,

Zina!--Has de fazer tudo isso para o salvar e o bastante para te

justificares. Recuperará alento assim que souber que está esperando por

ti. Tratar-se-ha, seguirá rigorosamente as recommendações do medico, ha

de querer resuscitar para a ventura. Se elle se curar, ainda quando não

viesses a ser sua mulher, sequer ao menos têl-o-has salvo! e se a

desventura o tiver mudado, se o houver tornado digno de ti, casarás com

elle. Effectuada a cura, poderás alcançar-lhe uma situação na sociedade,

facultar-lhe uma carreira. O teu casamento, n'estas condições,

tornar-se-ha possivel. Hoje!... que é que os espera a ambos, se

porfiassem em perpetrar o acto de loucura de casarem. O desprezo de toda

a gente e a miseria.

Pensas acaso que a leitura entre ambos do seu Shakspeare lhes havia de

compensar tudo isso? Ficariam a vegetar aqui em Mordassov até que elle

morresse, o que não tardaria, aliás. Mas se está na tua mão o

incutir-lhe gosto pelo trabalho e pela virtude!

Perdoa-lhe e adorar-te-ha. O remorso d'aquelle seu acto vergonhoso

apavóra-o! O teu perdão tudo irá ápagar e reconciliál-o-ha comsigo

mesmo.

Passa ao serviço activo, sobe postos, e se morrer, sequer ao menos

morrerá feliz, nos teus braços (visto que poderás achar-te a seu lado),

seguro do teu amor, do teu perdão, á sombra das murtas e dos limoeiros,

debaixo da cupula azul de um ceu exotico. Ah! Zina! Tudo isto se acha

nas tuas mãos; basta que consintas em casar com o principe.

Cala-se Maria Alexandrovna. Segue-se prolongado silencio. A Zina acha-se

no auge da afflicção.

Não nos abalançaremos a descrever os seus sentimentos: não os

conhecemos. Mas, a julgar pelas apparencias, Maria Alexandrovna

encontrou o verdadeiro caminho para o coração da filha. Não ha duvida de

que a excellente mãe andou um tanto ás apalpadélas, até que por fim

conseguiu pôr o dedo na ferida, principiou por maguar sem precaução os

pontos mais sensiveis das feridas ainda abertas, a despeito de um

desenvolvimento por ahi além de sentimentos.

Agora, comtudo, logrou introduzir na mente da Zina o pensamento que a si

lhe convinha: produzindo-se o effeito, alcançou-se o fim desejado. A

Zina escuta com soffreguidão, com as faces afogueadas, o seio a arfar.

--Ora escute, mamã,... diz por fim, resoluta, comquanto a subita

pallidez manifeste claramente quanto lhe custa semelhante resolução.

--Escute, mamã...

N'este ensejo, comtudo, resôa no vestibulo um ruido: uma voz aguda a

chamar por Maria Alexandrovna.

Maria Alexandrovna levanta-se com vivacidade.

--Ah! meu Deus! demonios levem aquella pêga! É a coronela! E eu que

quasi que a despedi, ha quinze dias! accrescenta, desesperada...

Mas é impossivel recebêl-a agora! De todo impossivel! E comtudo isso...

quem me diz que me não virá trazer noticias... aliás, nunca se

atreveria. É caso sério, Zina, é-me indispensavel sabêl-o, nada se póde

desprezar...

--Como lhe fico grata por esta sua visita... quanto estimo!... exclama

correndo ao encontro da coronela. A que feliz acaso serei eu devedora de

se ter lembrado de mim, minha preciosa Sofia Petrovna? Encantadora

surpreza!

A Zina deitou a fugir.

Um club da Má-Lingua · 第 10 / 25 题