agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com
papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em
outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou
a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que
já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e
interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo--attenção nem
sempre retribuida--; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de
fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os
despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga
da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se
pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser
incommoda de ver-se.
É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois
interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio
da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se
dizem--caixeiro e patrão--. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba
do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe,
olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de
longe falla por acênos--distracção perigosa para a clareza da ordem
dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu;
os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o
botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado,
emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da
commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na
execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito,
circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de
que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais
impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por
o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.
Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém
muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que
fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que
não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade
substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de
tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão
tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para
a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes,
sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios,
transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás
escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante
dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços,
amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente
munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram
a atacar.--São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.
A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta
_bureaucracia_ ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente
á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar
das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre
os dedos, como para significar que é momentanea a pausa--o que nem
sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e
attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua
classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum
collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um
charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia
requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos
distrahidamente correspondidos por estes.
Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes
capitalistas--commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz,
como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o
brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o
labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar
a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o
empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas
de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade,
estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás
ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados
á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de
inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de
portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça
commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.
Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre
gente, que toda lhe era igualmente familiar.
Como sempre, e como em toda a parte, não se constrangia alli tambem.
O genio que tinha não lhe consentia etiquetas; a sua posição social não
deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.
Enfiava o braço no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava
pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no
cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando
ás occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caça.
Aproximava-se do grupo de capitalistas e barões, que discutiam
acaloradamente o relatório de uma companhia, e cêdo, com suas reflexões
e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e
jovial; abandonava-os, e ia abraçar alguns rapazes, tão laboriosos como
elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bôca de enfadados;
d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre
uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as
qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do
cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a
Praça e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o:
chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a
lama das botas, e, durante esta operação, divertia-se a bater-lhe com o
chicote na copa do chapéo. Ás vezes ouvia com apparente attenção um
homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio
Whitestone, mas, se a exposição se demorava, o seu interlocutor, quando
menos o esperasse, achava-se só, porque Carlos fora, sem ceremonia,
conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistára na janella de um
primeiro andar. Tão depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe
pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graças o attrahissem.
N'este genero de occupações se demorou Carlos Whitestone na Praça
aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,--unico fim que tinha na
ideia.
Mr. Richard estava porém na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era
assiduo frequentador.
Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se
das mais graduadas individualidades da praça.
Carlos passou o braço por cima do hombro de um barão, enfiou o outro no
de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho
inglez, que estava na companhia tambem.
--O que não ha em toda a Europa é uma Bolsa assim como a do Porto--dizia
um commerciante bem intencionado, em quem se encarnára a balda, muito
portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeição alguma cousa boa, que
temos ainda por cá.
O inglez estremeceu de pasmo.
--_What!!_--A exclamação saiu-lhe ingleza na violencia da explosão--Na
Europa! Que diz, senhor? Vocemecê já viajou?
--Nada, não, senhor; ainda não saí do Porto; mas dizem entendedores...
--Ora então... então... A Bolsa de Londres... o Royal Exchange... não
vamos mais longe... o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal
Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto
chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois
levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra
bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lançou-se a
primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em
tres annos estava completo.
--E esse quando ardeu?--perguntou Carlos.
O inglez sorriu, sem responder á pergunta, e preparava-se para entrar em
circumstanciada descripção da planta baixa e alta do edificio.
Carlos interrompeu-o outra vez:
--O que estou vendo, Mr. Lyons, é que ha em Londres uma terrivel
disposição para _arderem as bolsas_.
O barão e o brazileiro acharam extraordinaria graça ao dito de Carlos, e
batendo-lhe no hombro e chamando-lhe «maganão, patusco, cabeça de
vento», e outras injurias assim amaveis, não quizeram mais saber do que
lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da
noticia historica e architectonica.
--Mas, senhores!--dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o
meticuloso possuidor de umas cinco acções de certa companhia, a um dos
directores da mesma--Eu não vejo as cousas bem figuradas. Para que hei
de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram.
O governo! Quem é o governo? O governo a final não é pessoa que se
penhore; porisso voto que...
--Mas repare,--dizia o director com exemplar paciencia--repare que as
garantias offerecidas são das mais seguras; o governo compromette-se...
--E adeus, minhas encommendas!--tornou o outro--Ora que é scisma! Mas
quem é o governo? Eu não sei quem é o governo! Uns valdevinos, que hoje
são tudo e ámanhã são nada... Faz-se o contracto com uns e ámanhã
respondem por elle caras novas. Não me entendo com isso. Muito bonitas
fallas, sim, senhores; mas como não respondem por o que é seu... E os
nossos capitaes...
Estes capitaes eram cem mil réis por junto.
O director pedia resignação a Deus, para não romper com o obstinado.
Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o braço do accionista
dissidente, e, sem lhe attender aos esforços, afastou-o para o passeio,
dizendo-lhe a meia voz:
--O senhor já sabe do que se trata hoje na Praça? Vae organisar-se uma
companhia monstro.
--Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o
senhor...
--Ouça--insistia Carlos--é negocio dos accionistas ganharem quarenta por
cento, avaliando muito por baixo.
O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para
Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.
Depois a phrase «quarenta por cento» era de uma sonoridade!
A physionomia de Carlos tomára uma expressão de sisudez irreprehensivel.
--Pois sim, mas... eu agora...--dizia ainda o homem.
Carlos insistiu:
--Olhe que lhe fallo serio. É uma companhia de capitalistas inglezes,
que se vae metter n'isso. Meu pae está encarregado do trabalho da
instituição. É porisso que eu...
--Mas que é a final?--perguntou o sujeito com curiosidade.
--Demais espera-se que o governo conceda um subsidio...
O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu á
tentação d'esta vez.
--Mas qual é o fim?--perguntou em vez d'isso.
--E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este
commettimento--continuava Carlos, devéras embaraçado em organisar a tal
companhia.
--Mas o fim da empreza? ... o fim?--bradava já o outro.
--O fim? Um grande fim... uma nova via de trafego commercial entre a
cidade alta e a baixa.
--Como? Alguma rua...
--Não, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no
seio da cidade.
Um enxame de ideias extravagantes esvoaçaram na imaginação do
accionista, que já com ardente curiosidade perguntou:
--Mas... que é? como?
--Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.
O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas
cêdo depois voltou-lhe as costas _desapontado_ e procurou o director,
que estivera interpellando; este porém aproveitára o ensejo e
desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro
lhe apontára ao peito--Quem era o governo?
O leitor, que é do Porto, permitta-me que eu explique aos que o não são,
que este nome pomposo de rio da Villa é dado a um pequeno riacho de
aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e não mais
asseiados do que ellas, até desaguar furtivamente e como envergonhado,
no Douro.
O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era
uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um
collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este
terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho
do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicação enredada de
pedidos--da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como
resentiu--parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem
pedir explicações, e como homem que logo á primeira vista entrou no
ámago da questão, não fazia senão prometter applicar todo o seu
valimento e ser até importuno para servir o amigo.
Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas. É preciso que se
diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido,
aquella mesma manhã, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora
provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com
que o pouco dissimulado irmão de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado
diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo á
franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do
caracter d'elle, Carlos não pôde emfim reprimir-se, que não dissesse:
--Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente
C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?
Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas
phrases, em taes casos forçosamente tolas; fartos emfim de mastigar
orações sem nexo, separaram-se friamente.
O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais
com elle pela sua pouca lisura.
E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos
como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda
aos mais reservados e egoistas.
Resolveu finalmente o irmão de Jenny entrar no escriptorio.
Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo,
baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.
Parou a escutal-o.
--V. s.ª passou bem?--disse o recem-chegado.
Carlos correspondeu ao cumprimento.
--Ora eu--continuou o homem--já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.ª;
mas nem v. s.ª nem o senhor seu pae lá estavam. Eu não sei se v. s.ª me
conhece.
--Não, senhor--disse Carlos, entretido a olhar para o laço da gravata do
seu interlocutor.
--Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o
anno passado...
Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o
botão de peito do snr. Anastacio Rebello.
--Ora v. s.ª--proseguiu este--ha de estar certo de que ha dois mezes...
um meu correspondente de Braga me pediu... Eu não sei se o pae de v. s.ª
lhe disse... Talvez não dissesse...
--Talvez não--disse Carlos, sem o attender...
--Pois o negocio é simples: este meu correspondente... que é também meu
compadre... isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança
de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por
causa de uns humores frios que...
Carlos assobiava já.
--Mas agora quer este meu compadre... Olhe; aqui está a carta que elle
me escreveu;--proseguiu o homem, procurando-a no casaco--eu julgo que a
trago commigo... Por ella fará ideia.
E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens,
letras, contas, recibos... dizendo, ao passo que examinava cada qual por
sua vez:
--Não... isto é outra cousa... é a ordem para me pagarem uns cincoenta e
tantos mil réis... E já não veem sem tempo... Mas onde diabo puz eu a
carta?... Não é isto... Isto é o escripto de arrendamento da minha casa
do Forno Velho... Isto é... Que S. Pedro é isto?... Ah! a carta do
Maranhão... isto ... isto é uma encommenda que me fazem de Bragança...
V. s.ª não me sabe dizer onde se vende... a estampa da guerra da
Crimeia?
--Eu não, senhor--disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.
--Encommendaram-m'a e eu...--continuava o homem, seguindo-o--Ah! achei;
cá está a carta!--exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco--Ora
quer ler?
--Eu não, senhor--respondeu este, tentando evadir-se.
--«Prezado amigo e compadre--principiou o homem a ler.--«Recebi a sua de
13 e agradeço-lhe as recommendações, que me manda. A comadre...--é a
mulher d'elle--recommenda-se á snr.ª D. Maria do Carmo--é a minha
mulher...--e o Juca...--é o tal meu afilhado...--manda muitos beijos ao
padrinho...
--Que é o senhor--disse Carlos, já impaciente com a massada.
--Justamente--respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.
--Pois sim, mas eu agora não posso demorar-me--acrescentou Carlos,
fazendo outra tentativa para fugir.
--Isto tambem não interessa...--concordou o homem--aqui mais abaixo é
que... tal, tal, tal... sim, senhores...--«A festa do Bom Jesus este
anno promette ser feita com espavento e eu espero que
vocemecê...»--Elles querem que eu...
--Com licença, que estou com pressa.
--Sim; isto tambem não faz ao caso. É aqui abaixo...--«A camara
municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposição levou uma
derrota que...»
Carlos já não podia mais.
--Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?
--Tem v. s.ª razão... É que eu julgava... Tal, tal, tal--«O seguro não
quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do
Souto...»--Olhe que tambem isto de seguros...
--Adeus--disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.
--Ah! é aqui; agora sim--exclamou este triumphantemente--Cá
está...--Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra...
Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através
d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos
vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua,
deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.
--Adeus, minha flor.
A rapariga respondeu-lhe:
--Ninguem o conheceu hontem no baile.
--Então esteve lá?
E proseguiu o dialogo, mesmo em presença de toda a sisuda classe
commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.
Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado
com o que via.
Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.
Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás
que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.
Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no
escriptorio.
IX
NO ESCRIPTORIO
Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho,
onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que
escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e
isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino,
personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e
homem de habitos de vida, tão beneficiadores da saude do corpo, como
mantenedores da serenidade do espirito.
Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confusão de papeis, com
que lidava, taes como:--correspondencias, facturas, contas correntes,
contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de
letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle
só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposição
ordenada.
D'isto mesmo se gabava; o que não se devia taxar de presumpção da sua
parte.
Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem
hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular
classificação, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard,
antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer
orientar-se, não dispensava nunca o fio conductor das explicações do
guarda-livros.
Homem de habitos regulares, a mais não poder ser, invariavelmente ao
soarem as sete horas da manhã no verão, e as oito, no inverno, estava
Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora
depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. Ás
tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no verão, movia segunda vez a
chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasião
extraordinaria, em que a affluencia de serviço o obrigava a serões.
Não era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mão rapida, e de
prompto expediente, que n'um momento dão solução a muitos negocios
juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia:
«para pressas é que não era»; graças, porém, á paciencia e á
regularidade de trabalho, que não perdia nunca, insensivelmente o
serviço adiantava-se-lhe nas mãos e difficil seria acharem-o atrazado
alguma vez.
Observava pontualmente o judicioso preceito: _festina lente_, e
comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.
Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se
achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e
principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos
melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar
diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se
devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso,
visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.
Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro
paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo
ennegrecera, com o chão aspero e picado pelos insectos, com as janellas
de construcção antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos,
aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros
tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz
de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas,
os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo
os velhos modelos dos escriptorios antigos.
Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como
taes as amava.
Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois
segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o
guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo
quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para
fazer tudo por suas mãos.
Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos
escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle,
com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para
Londres.
Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa,
aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da
escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega
curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma
carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por
incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao
guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos
desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade,
entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo
lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer
d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio
um silencio, que agradava a Manoel Quentino.
Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que
estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.
Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.
Á força de lidar com a penna, á força de tão indissoluvelmente a ver
associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a
quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a,
reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que
se pretende guiar.