--Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes

queres dar o prazer de t'o affirmarem?

--Daria se... se me lembrasse.

--O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por

que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este

relogio--disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr.

Richard.

--Devéras?! Pois elle... Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse

prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae

no coração, não é assim?

--Sei, Charles, sei.

--Mas os outros...

--Todos te fazem justiça, só tu é que...

--Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não

ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa

tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar;

acabando elle ... penitenciar-me-hei na quaresma.

--O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para

assim te attrahirem, Charles!

--Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas... Tu não pódes talvez entender

isto, que não obstante é exacto... são insipidos, mas irresistiveis ao

mesmo tempo.

--Ora!

--Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não

morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de

lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas

noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo,

Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas

d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece

ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de

Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e

selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.--Não é assim que

diz o Milton?--E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me

a expatriação. Vês?

--Estás a gracejar, Charles?

--Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se...

--E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da

manhã?

--Hoje? Ah, mas... perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de

hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo

confessal-o.

--Então?

--Então... é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me

escutar e prometteres não me ralhar muito...

--Ah! pois temos culpas?

--Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que

procedesse bem. Mas tu o dirás.

Jenny sorriu.

--Ouçamos--disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de

trazer para a sala.

VI

REVISTA DA NOITE

--Como te disse, Jenny,--principiou Carlos, procedendo áquelle

extemporaneo almoço, ás horas a que muita gente encetava a séria e

importante tarefa da digestão do jantar--hontem correu-me a noite mais

agradavel que de costume.

--Sim? Então que te succedeu?

--Eu te conto. Levantamo-nos da mesa ás onze horas; foi um longo jantar,

ao qual os brindes continuados não deixaram nunca desfallecer a

animação. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso;

atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libações e

d'aquelle ruído todo...

--E pezaroso...

--Com os remorsos que a tua carta me veio despertar.

--Ah!... remorsos?!...

--Afianço-te que os tive. N'estas disposições de animo parecia-me um

inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras,

gritos de condemnados as desafinações da orchestra...

--E ficaste?

--E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me

auctorisasse a retirada. Já vejo que nem ideia fazes sequer d'estas

cousas, que aliás são verdadeiras. Deixa-me continuar.

--Continúa--disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras

inglezas, que estava na mesa.--Mas é devéras estranha essa maneira de te

divertires... martyrisando-te.

--É, confesso que é. Mas outros muitos estão n'este caso; pódes crel-o.

--Bem; vamos adiante--replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras

douradas da brochura.

Carlos proseguiu:

--Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem

apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porém, por

fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem

a sorte me arrojára.

Jenny ergueu para o irmão a vista, com um modo particular.

--Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a

felicidade alheia não é espectaculo de que nos venha conforto, quando o

infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta

bemaventurança e voltei-os...

--Para o lado esquerdo?

--Justamente; para o lado esquerdo.

--E... e o que achaste d'esse lado do coração, Charles?--perguntou

Jenny, sorrindo.

--Ai, Jenny! ai, minha pobre irmã! prepara a tua santa paciencia, que

aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixões.

--Eu logo vi; não sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Então é

devéras uma paixão?

--Receio que sim.

--Pobre Charles! Que fatalidade!

--Estás a rir?--disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena

para a encher outra vez--Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do

coração, como dizes, estava um dóminó feminino, fitando-me de uma

maneira ... como nem te sei dizer... e com uns olhos... mal sabes que

bonitos olhos eram aquelles, Jenny!

--Os da mascara?--perguntou Jenny, preparando a chavena.

--Não; os da mascarada, os quaes eu percebia através das aberturas

oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabeça

descaía-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e

melancolia, e n'esta posição a sêda da mascara descobria-lhe um canto de

labios e um principio de collo tão bem modelados, que eu não pude

desviar mais d'alli o olhar extasiado, e... e... Então que quer dizer

agora esse teu sorriso, Jenny?

--Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias.

--É que não imaginas que bonito cortôrno o d'aquelle rosto; não

imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illusões andam

ligadas á mascara de sêda, que, por descuido estudado, se afasta um

pouco, o preciso... o conveniente... Porque na maior parte dos rostos ha

pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando

só apparecer as perfeições. Conheço que é facil illudir-se então o olhar

e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se póde ver, conheço...

--Basta, basta, Charles. Pena é que de tão pouco te sirva o tanto que

conheces, visto que ainda hontem...

--Hontem não havia, não podia haver illusão. Isso é que não. Aquella

cabeça não era d'essas cabeças buliçosas, como folhas de alamo, que

morrem por ser adivinhadas. Era uma cabeça scismadora, melancolica,

cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, não

podéra occultar...

--Ah! Que singular cabeça!

--E depois ha certos extremos de perfeição, que a natureza, quando os

cria, não os vae desperdiçar assim em qualquer rosto, que nas mais

feições destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o

que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a

palavra!

--A quem dirigiste a palavra!

--Sim; que achas tu de extraordinario n'isto, para fazeres esse

movimento? N'um baile de mascaras prescinde-se das apresentações,

ridicula invenção da etiqueta, que eu desconfio ser originaria da nossa

diplomatica Inglaterra.

A reflexão historica transformou n'um sorriso o movimento de surpreza de

Jenny.

Carlos continuou:

--E depois vaes ver que tudo quanto lhe disse podia bem ser repetido á

mais ingenua lady n'um dos nossos bailes de familia. A final de contas,

irmanzita, eu, que arranjei por ahi, não sei bem como, a reputação de

atrevido, tenho ainda canduras, de que muitos dos mais timidos se riam

já aos quinze annos.

Esta confissão, na qual alguma cousa havia verdadeira, desafiou em Jenny

um gesto de duvida, que o mesmo sorriso affectuoso veio porém suavisar.

--Olha que é assim--proseguiu o irmão--e senão... escuta. Como te disse,

fallei á minha sympathica vizinha. Perguntei-lhe se estava muito

fatigada. Ahi tens; a pergunta é mais do que ingenua, é quasi ridicula.

Que lhe censuras tu?

--A essa, de certo que nada. E depois?

--Ella respondeu-me:--«Bem mais fatigada d'isto tudo do que esperava,

vindo aqui, snr. Carlos.»

--Como disseste?... Snr. Carlos?!

--É verdade, «snr. Carlos». Sabia o meu nome a mysteriosa incognita;

sabia o meu nome! Está de ver que augmentou a minha curiosidade.

Continuando a conversar, vim a saber d'ella que tinha vindo alli

acompanhada de outros dóminós femininos, cujo humor mais galhofeiro

contrastava com aquella melancólica seriedade. Ficamos a conversar um

com outro, amigavelmente, innocentemente, assim como eu converso agora

comtigo. E... queres que te diga? havia até alguma cousa do teu fallar,

maneiras de dizer tuas, na conversa d'aquella rapariga; e era isto

talvez o que me impunha certo acatamento para com ella, de que não podia

livrar-me. Não imaginas a graça, o bom senso, a viveza, que revelou em

todo aquelle dialogo commigo. Mostrou-se muito informada a meu respeito

e até a respeito da nossa familia; houve um momento, em que deu mostras

de querer fallar de ti; eu porém evitei a conversa...

--Porquê?!--perguntou Jenny, fingindo-se offendida.

--Porque...--balbuciou Carlos embaraçado, e depois, com mais resolução,

continuou:--Digo-te a verdade Jenny; respeito-te muito; tenho por o teu

nome uma veneração muito grande, para que me fosse agradavel ouvil-o

pronunciar n'aquelles logares, e pronunciado de mais a mais por...--não

obstante o favoravel conceito que continuo a fazer da

desconhecida--mas... por labios que... não sei ainda... que não tenho a

certeza se serão dignos d'isso. Passadas duas horas talvez n'este

inoffensivo conversar, chegaram, já fartos de alvorotar o salão, alguns

dos rapazes, que me tinham acompanhado. Foi-me pouco agradavel,

confesso-o, a presença dos meus amigos e sobretudo desagradabilissimos

os galanteadores conceitos que dirigiram á minha interlocutora e os

gracejos com que a respeito d'ella me mimosearam.

--Coitada!

--Coitada? Ai, se já principias assim a lamental-a ... mal vae á minha

historia.

--Pois acaso?...

--Escuta. Ao principio, ella não mostrou timidez; sustentou com

vivacidade o dialogo, aparando e retribuindo triumphantemente os

galanteios, que elles lhe dirigiram. Mas a lucta era desigual; porque

emfim os contendores, n'esta esgrima de palavras, tinham de reserva

armas, de que ella não podia servir-se. Foi então, ao reconhecer isto,

que se mostrou inquieta e ergueu-se para retirar-se; seguimol-a; á porta

do salão ella e as companheiras voltaram-se, viram-nos e pareceram

atemorisadas. Ella então, a desconhecida, dirigiu-se a mim e pediu-me

que lhes servisse de protector, appellou para a minha generosidade e

eu...

--Tu protegeste-as, não é verdade?--disse Jenny, juntando as mãos, e

fixando no irmão um olhar de sympathia--Protegeste, não protegeste?

--Fui, fui um D. Quixote de donzellas perseguidas. Então que queres tu?

Não te dizia eu que havia ainda em mim muito da candura dos quinze

annos?

--Não te arrependas, Charles, não te arrependas de ser generoso.

--É certo que consegui afastar os meus associados, o que não foi pequena

tarefa; fiz valer porém os direitos de descobridor e prometti-lhes

revelar o segredo d'aquella mascara, segredo cuja investigação me

competia. Feito isto, segui-as. Ao principio tudo foram effusões de

gratidão á minha nobreza de caracter, ao meu coração, aos meus

sentimentos, etc., mas, quando nos livramos das ruas mais centraes e

passou o perigo da perseguição que temiam, tudo mudou de figura e

principiaram já a pedir-me para tambem me retirar. Esta ingratidão

offendeu-me e recusei... Então? ahi estás séria outra vez!

--E com razão, Charles. Pois pediam-te e tu... Isso já não é de

generoso... Quem sabe os motivos?

--Perdôa-me, Jenny; tu é que não sabes nada d'estas cousas. Pouco

generosas eram ellas. E demais, esses pedidos seriam sinceros? A regra é

recusal-os sempre; e está certa de que quasi nunca a recusa offende.

--Basta que uma vez...

--Mas repara, Jenny... Valha-me Deus!... Ora vem cá. Tu estás-me ahi a

phantasiar uns bailes de mascaras á tua moda. Suppões que todos estes

dóminós eram... eu sei lá... outras tantas princezas disfarçadas ou

outras Jennys como tu.

--Pois bem, uma vez que o disseste, vamos que era eu?...

Carlos previu o mau terreno, em que se collocava, admittindo a hypothese

e porisso interrompeu a irmã, dizendo:

--Mas não supponho, nem posso suppôr, porque... porque ainda ninguem viu

uma Jenny n'aquelles logares; e demais ouve, que eu não sou ainda assim

merecedor de tantas severidades. Teimei, como disse, em seguil-as; para

desistir, exigia conhecel-as; ellas porém recusaram tirar a mascara e

sobretudo a tal, que eu mais desejava saber quem era. Ás tres horas e

meia estavamos aqui defronte de casa, aonde me tinham trazido

manifestamente para me tentarem a entrar. Resisti á tentação e transpuz,

sem hesitar, a porta, continuando a seguil-as. As companheiras da minha

incognita levavam já o caso a rir e acredito que não poriam grande

duvida em darem-se a conhecer; ella porém mostrava-se... ou fingia-se,

deveras afflicta; dirigiu-se a mim e de mãos juntas pediu-me que me

retirasse.

--E tu?...

--Eu... eu recusei.

--Ó Charles!

--Ouve. Ella insistiu. Disse-me que lhe poderia fazer muito mal se

teimasse, e eu insisti...

--Como és ás vezes tão mau!

--Mas se eu não acreditava na sinceridade d'aquelles mêdos, e agora

mesmo... Mas a final, a rapariga disse-me com uma voz chorosa e na qual

me pareceu descobrir tanta sinceridade: «--Peço-lhe este favor por...»

Adivinhas por quem ella me foi pedir?

--Não.

--«Peço-lhe este favor por sua irmã, por Jenny»; sim, por ti, foi por ti

que ella me pediu e fêl-o ajuntando as mãos com tal candura, que eu...

Precisas de perguntar-me se condescendi d'esta vez?

Jenny estendeu a mão ao irmão.

--Obrigada. A final o bem triumpha sempre no teu coração. Estava certa

d'isso.

Carlos baixou a cabeça, como mortificado com estes louvores da irmã.

Dir-se-hia que aquellas palavras lhe estavam a fazer sentir remorsos,

longe de os desvanecerem.

Depois de uma hesitação de momentos, terminou por dizer, com evidente

enleio:

--Olha, Jenny... eu por fim de contas não sou homem para aceitar

louvores que não mereço... repugna-me esta hypocrisia; custa-me deveras,

mas... sou forçado a dizer-te que... que não sou digno d'esses

applausos.

--Porquê?

--Porque... alguma cousa se passou... Eu não disse tudo ainda e... É

verdade que... condescendi... sim... mas não tão desinteressadamente

como... sim... porque exigi... usurpei... á maneira de compensação...

--O quê?

--Um beijo, ao qual a pobre rapariga não retirou a tempo a face e que a

lançou n'uma especie de desespêro, fingido talvez, de certo... mas bem

fingido...

Jenny reproduziu o gesto de desgosto.

--Mas não me condemnes, Jenny,--apressou-se Carlos a acrescentar--porque

a final eu nem lhe vi o rosto, e estou provavelmente condemnado a nunca

descobrir quem ella seja. Além d'isso cumpri religiosamente o

promettido, renunciando a acompanhal-a, o que me custou devéras; ainda

hoje me preoccupa o olhar, a voz d'aquella rapariga e quasi lamento...

Vamos, não continues a olhar-me d'esse modo. Pois recusas perdoar-me,

quando eu...

--A fallar verdade, mereces bem pouco que te perdoem. Mas, como cedeste

em meu nome, quasi me tiraste o direito de ser severa. O final... o

final... na verdade...

--E vês o meu endurecimento na culpa? foi isso de toda a aventura o que

me deixou mais agradavel memoria de si...

--Então!--disse Jenny, batendo-lhe com o livro na mão--Olha se queres

que retire ainda o perdão que já te dei. Que mais terás a pezar-te na

consciencia? aproveita o ensejo d'esta minha disposição benevola.

--Julgo que não tenho mais nada.

--Ahi está uma alma com excellente opinião de si! Visto isso, tens

cumprido todos os teus deveres?

--Mas... deveres de que genero?

--Que pergunta! Pois nem sabes os deveres que tens?! Maus indicios!

Deveres de christão, de cidadão, de filho, e de...

--O que ahi vae! o que ahi vae! Por quem és, Jenny! vamos por partes,

senão...

--Pois bem, quero fallar-te agora só de uns, que me parece teres

descurado um pouco.

--Falla.

--Dize-me: tens ido ao escriptorio?...

--Ai, o escriptorio!--disse Carlos, rindo--Então era d'isso que me

querias fallar? Bem longe estava eu de pensar no escriptorio.

--Tens lá ido?

--Eu não.

--Não!

--Ha já bastante tempo que lá não vou, ha... mas... achas isso grande

peccado?

--E pergúntal-o? Não é o trabalho um dever?

--O trabalho será.

--Então...

--É que faz sua differença. Tu não sabes como eu trabalho no

escriptorio? É outra d'essas imposturas sociaes, que me fariam rir

devéras, se não fossem tão fastidiosas. É preciso que saibas, minha boa

Jenny, que no escriptorio, o trabalho real, o trabalho util, o

trabalho--trabalho, está encarnado na pessoa de Manoel Quentino. Esse

sim. É quem alli faz tudo, quem a tudo dá solução, e parece-me que o

unico até capaz de o fazer. Exige-se que eu vá lá tambem, não para

trabalhar; a minha cooperação o mais que faz é impacientar o bom do

homem, distrahir os outros caixeiros e alterar a ordem methodica dos

papeis commerciaes. Eu vou só para fingir que entro n'aquellas cousas,

para representar de commerciante, embora não penetre em nenhum dos

segredos ou transacções, em que anda empenhada a firma. Hoje lembram-se

de me communicar o principio de certo negocio, do qual se julgam depois

tão dispensados de dizer-me o resultado, como eu de perguntar por elle;

ámanhã, dar-me-hão parte da conclusão de outro, cuja existencia eu

ignorava ainda. Ora aqui tens como eu sou commerciante. O pae gosta de

me ver lá em baixo, como representante da firma Whitestone & C.ª, e mais

nada. Chego ao escriptorio, abro a janella, mostro-me ao publico como

uma especie de taboleta da casa, dou tres passeios na Praça, converso em

tudo, menos no negocio, e venho embora. Se isto é trabalhar...

--Mas, já que te repugna essa ociosidade, porque não trabalhas devéras?

--Porque não é costume. O trabalho é para o guarda-livros. Nós somos uma

especie de padrinhos; damos o nome á creança e pagamos-lhes o enxoval,

mas não nos encarregamos das fadigas da sua educação. Comtudo, já uma ou

outra vez tentei trabalhar, por descargo de consciencia; mas lembrança

minha era saudada com uma risada do Manoel Quentino e com o riso mal

disfarçado dos outros caixeiros. Pelos modos era disparate certo.

--Pois bem; porisso mesmo que tão pouco se exige de ti é que devias ser

mais assiduo.

--Mas é tão monotono! Fazes lá ideia! Odeio aquella rua dos Inglezes,

Jenny; abomino-a.

--E preferes mortificar o pae, que já hoje se queixou das tuas faltas,

quando um pequeno sacrificio...

--Não lhe chames pequeno; mas, grande que seja, estou resolvido a

fazel-o para te agradar. Ámanhã...

--Ámanhã!--disse Jenny, encolhendo os hombros.

--Pois então? queres que já hoje?...

--E porque não?

--Mas vê que já é tarde...

--Mais tarde será se te demorares.

Carlos emmudeceu.

--E ao mesmo tempo--proseguiu Jenny--aproveitaria a occasião de mandar

saber d'aquella pobre viuva ingleza, que ha já tantos dias não apparece.

Não tenho querido que lá vá nenhum criado, porque, por mais que lhes

recommende, todos gostam de a aperrear, e ella, coitada, afflige-se

tanto... Se tu fosses hoje ao escriptorio, ficava-te em caminho...

Jenny sabia que qualquer acção generosa servia a Carlos de estimulo para

realisar sacrificios: por isso lhe lembrou esta visita de caridade a uma

das muitas pobres, que a familia Whitestone soccorria. Não se enganou a

previdencia da irmã.

--Está dito--disse Carlos com modo resoluto.--Vou hoje ... trabalhar.

Mal sabe Manoel Quentino, que é o grande motor d'aquella machina

commercial, o que lhe está imminente. O homem dá ao demo o meu auxilio;

mas que t'o agradeça, Jenny. Manda-me o José para me ajudar a vestir;

inda hoje me não deu o gosto de o ver, o mariola.

--Ai, o José?--disse Jenny, pousando a mão no hombro do irmão--Olha,

Charles, o pobre rapaz tem a mãe tão doente, que eu tive pena d'elle e

mandei-o...

--Basta, basta; fizeste bem. Eu não me lembrava d'isso, senão...

Passaremos sem o José, e não passaremos mal.

Jenny abraçou o irmão, e saiu contente da sala.

Em consequencia d'este dialogo, Carlos appareceu na Praça Commercial

pelas duas horas da tarde.

VIII

NA PRAÇA

Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes, á hora a que

o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.

A vida commercial estava então no seu auge; numerosos grupos occupavam

os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e

de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em

occasião assim.

Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos

differentes individuos, que compõem estes grupos, póde-se encontrar

indicios da posição commercial, que elles occupam.

Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras

medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento,

mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de

porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes

oraculos;--são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de

outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades

da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes,

meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III,

na abertura do parlamento francez.

Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não

escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não

teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente

cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das

pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o

tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da

eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é

representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.--São estes os

negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de

grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a

numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem,

mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os

valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada

esperam d'ella.

Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil

interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de

cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos

mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se

por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem

pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou

faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam

os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a

distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro

de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de

novo. Que quer dizer isto?--É um negociante fallido de pouco e rodeiado

de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em

quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes

concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e

precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem

os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a

pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes

negociantes fallidos.

O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa

distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram

suspensos, aquelles, cujas remotas _fracturas_ teem sido miraculosamente

_consolidadas_ pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de

maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é

possivel a discriminação.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 5 / 30 段