Com estes analogos pregões caiu um bando de negociantes de senhas sobre

os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor

maneira possivel. Cêdo entravam no salão do theatro, onde já centenares

de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas,

apertadas, esmagadas quasi, aos encontrões dos mascaras, arrebatados

n'um galope vertiginoso.

O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem,

com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez

a operação, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob

pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos

fazem;--uma das mais poderosas razões dos nossos actos na vida.

Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em diversão fóra dos

seus habitos, provavelmente mais pacificos--o que fiz só por a

necessidade que tinha de mostrar em acção o caracter do nosso heroe e

exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual--concordo em

que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem

consolam, nem divertem.

IV

UM ANJO FAMILIAR

Vae adiantada a manhã do dia seguinte áquelle, em que se passaram as

scenas descriptas já. São mais de onze horas, Carlos dorme ainda.

Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas

no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os

sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a

sonhar talvez a continuacão, favoravel aos seus desejos, de qualquer

aventura incompleta do baile da vespera?

A situação da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infracção

dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e não para

sonhos e repouso.

O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o

bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.

Esta nossa cidade--seja dito para aquellas pessoas, que porventura a

conhecem menos--divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por

physionomias particulares.

A região oriental, a central e a occidental.

O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o

brazileiro; o occidental, o inglez.

No primeiro predominam a loja, o balcão, o escriptorio, a casa de muitas

janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se

sujeitam velhos casarões com o intento de os modernisar; o saguão, a

viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposição dos

moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de policias; as

ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os

cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaçadas de procissões, e as

mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais

se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro

muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as apparencias

modernas que revestiu.

O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos

capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes

moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de

azulejo--azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral

azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve

com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de

estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro,

com o nome do proprietario e a era da edificação em lettras tambem

douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e

a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o

mirante chinez. As ruas são mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi

sempre algum capitalista ocioso.

O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o _habitat_

d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de

rôxo-terra, de côr de café, de cinzento, de preto... até de

preto!--Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas

rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.--Já uma

manifestação de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril

tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo

dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e

cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas.

Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de

fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas

encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanças

de cabellos louros e de babeiros brancos.

Taes são nos seus principaes caracteres as tres regiões do Porto; sendo

desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra

classificação, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem

estabelecemos demarcações bem definidas, nem recusamos admittir algumas,

e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em

1855.

É claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr.

Richard, e sua familia.

O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscrições

mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.

A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido

artificio, para a não trahir para com algum leitor mais desoccupado.

Era uma das taes casas escuras, com vidraças de caixilhos brancos,

retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaçavam tão

intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos

de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas

irregularmente traçadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.

A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilhão,

ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres

amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.

Era n'este pavilhão o quarto de Carlos.

Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo

_confortable_, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.

Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio,

tão funestas ás encantadas visões dos somnos matinaes.

Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia

absorvendo a manhã inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o

tempo dos poucos, que ainda hoje começam a dar as boas tardes logo

depois do meio dia.

Jenny nunca podia adormecer emquanto não ouvisse entrar o irmão,

circumstancia que, não obstante, lhe occultava para o não constranger

nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse

constrangimento prevía utilidade.

Tendo por isso notado a hora avançada a que, d'aquella vez, Carlos

voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as forças

perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias

novas.

Como uma joven mãe, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde

manhã cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do

irmão, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.

No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da

casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce

figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que

nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.

Ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido

attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a

denunciar-lhe o acordar.

Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía

inspeccionar e dirigir os preparativos do _lunch_ de Mr. Richard, cujas

horas se aproximavam já.

N'uma d'estas occasiões, em que voltava de dentro do quarto do irmão,

encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da

porta do jardim, parecia tão dominado por pensamentos penosos, que nem

lhe deixaram perceber a aproximação de Jenny.

A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle

perguntou-lhe:

--Como está sua mãe, José?

O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:

--Hoje ainda não sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal.

--Hoje não sabe?!--exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do

corredor, que marcava onze horas e meia--Não sabe, e é perto de meio

dia!

--Então, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde...

--Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!... Sabe lá a falta que

lhe estará fazendo?

--Mas, se...

--Vá; Carlos não lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá.

--Então muito agradecido, minha senhora,--disse o rapaz, sensibilisado

com a bondade da sua joven ama.

Jenny continuou passeiando.

Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma

cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para

observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo

para alli. Jenny não pôde reprimir um pequeno movimento de desagrado.

O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos

inglezes, não lhe permittia ver com indifferença aquillo.

--Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?--perguntou ella a um criado,

com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.

--Varreram, sim, minha senhora--respondeu este.

--Repare--acrescentou Jenny.--A fallar verdade são bem pouco cuidadosos.

Veja esse corrimão cheio de pó.

--É que se tornou a sujar. O vento...

--Seria; mas não tira que se limpe outra vez.

--De certo; eu vou já.

--E olhe--continuou Jenny, indicando as vidraças, que davam para o

jardim--passe tambem com um panno humedecido por esses vidros tão baços

e dê lustro aos metaes dos fechos.

--Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelão que ensaibre o jardim;

depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso--lembrou o criado, como

todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos

outros do que em cumprir as suas.

Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala

de jantar.

Lançou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha,

brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa louça ingleza.

Esteve algum tempo a examinar com attenção as particularidades do

serviço, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.

--Pedro--chamou ella por fim, apoiando a mão no espaldar da cadeira,

destinada a Mr. Richard.

O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.

--Então onde pôz a mostarda?

--Ai! é verdade.

O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da

cozinha britannica.

--Veja como dobrou esse guardanapo.

O criado apressou-se a corrigir a imperfeição notada.

--Aquelle pão não é o que o pae quer para os _lunchs_. Bem sabe.

--Tem razão, minha senhora.

O pão foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.

--Desvie mais para o centro aquellas flores. Tão perto do fiambre não;

chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou.

Ficou peior agora. Assim. Ponha o _Times_ ahi ao lado. Está bom. Póde

ir.

Ficando só, por suas proprias mãos deu ainda um geito particular a tudo,

attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de

que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a

final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para

dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e

voltou de novo ao corredor.

Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos

baixos e maneiras enleiadas.

--Que tem, Luiza?--perguntou-lhe Jenny.

--Venho dizer adeus a _miss_ Jenny, porque me vou hoje embora.

--Como vae embora! Quem a mandou?

--Ninguem, mas...

--Não está bem?

--Se estou, mas...

--Então?

--A _miss_ Jenny sabe que a minha irmã estava a servir ahi para fóra da

cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era tão fraca! Lidou

quanto pôde, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha mãe. Mas

como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega?

Meus irmãos andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á

enfermeira?... Quem pensa n'isso? Assim vou eu... e, quando ella se

achar melhor, se a _miss_ Jenny me quizer outra vez...

--A Luiza não póde de modo nenhum deixar-nos agora.

--Mas...

--Escute; se quizer tratar de sua irmã, traga-a para ahi.

--Ó minha senhora...

--Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.

--Seja por amor de Deus...

--Olhe, Luiza--apressou-se a interrompel-a Jenny--vá ver se me aprompta

aquelles punhos que eu lhe disse, vá.

--Vou já fazel-o, minha querida senhora--disse a rapariga, a quem

palpitava o coração alvoroçado de contentamento.

N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram

parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza.

Vinham do andar superior aquelles gritos.

O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a

sorrir:

--É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente!

--Pobre Kate!--murmurou Jenny, suspirando--e subiu com ligeireza as

escadas, que conduziam ao mirante.

Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma

criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora,

paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho

pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os

criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e

as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os

seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos

assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que

poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse.

--Cães!--bradava ella agora, n'aquelle estranho _imbroglio_ linguistico,

impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a

seguravam--Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas

deixem estar que em vindo Dick... Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me!

Dick! Dick!--Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr.

Richard.--Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer?

Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu... Olha

que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios,

que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer?

Larguem-me!

E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou

os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no

rosto encarquilhado e contrahido.

N'isto entrou Jenny no quarto.

A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao

alcance da mão.

Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e

aproximou-se d'elle.

--Cuidado, _miss_ Jenny!--disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta

matrona ingleza, que suava ainda com o esforço que sustentára.

--Cautela, menina!--repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos

arredores da Maia--Olhe que ella é perigosa n'estas occasiões.

Jenny não as attendeu.

Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mãos,

delicadas e debeis.

A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaçador.

--Bons dias, Kate--disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto,

risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.

Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.

--Então que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces?

A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e não

desviava de Jenny os olhos espantados.

--Não me conheces, ama?--continuou esta, em tom mais affectuoso--Kate,

então? Já nem queres conhecer a Jenny?

O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem

quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo,

que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos

desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão

soltou a faca que ainda segurava.

--Eu logo vi que me conhecias--dizia Jenny, afastando-lhe

compassivamente os cabellos da fronte enrugada.--E has de estar quieta,

não has de?

--Sim, sim--dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em

volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando

com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza.

--Sim, sim, _poor thing_; sim--repetia muitas vezes, cingindo-a a cada

momento mais a si.

--Ai, _miss_ Jenny, _miss_ Jenny!--dizia a despenseira aterrada.

Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a

saír.

A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a

adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com

a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente

Mr. Richard Whitestone.

Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava:

Dorme, filho, que eu vigio,

E emquanto dormes, sorri;

Que a tua porção de lagrimas

Eu as chorarei por ti.

Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz

ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles

profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do

caracter do somno final, que não vem longe.

Adormeceu entoando em voz já mal percebida:

A tua porção de lagrimas...

Eu as chorarei... por ti...

Jenny desprendeu-se-lhe então dos braços, conchegou-lhe a roupa, fechou

a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.

No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto

entre as mãos e soluçando.

--Que é isso, Manoel?

O velho ergueu-se com sobresalto.

--Ai, menina Jenny, é que... veja.

E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso

de porcelana com uma preciosa begonia.

--Como foi isto?--perguntou Jenny.

--O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e

tanto cuidado me recommendou! e vae eu... veja a minha desgraça, logo ao

descer a escada escorrego... Valha-me Deus, valha!

--Socegue. Meu pae não lhe ha de ralhar muito...

--Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta

estimação! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.

Jenny viu, commovida, a afflicção do velho, que nem tinha coragem para

apresentar-se diante de Mr. Richard.

A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde

se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e

descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direcção da estufa.

--Onde vae, menina?--dizia o jardineiro admirado.

Jenny não lhe respondeu.

O velho seguiu-a.

Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de

jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:

--Não quiz confiar a ninguem este vaso, porque... Ai!

Era o vaso, que lhe caía das mãos, e vinha fazer-se pedaços no chão, á

entrada da estufa.

--Oh!--disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.

--Vêem, vêem!--dizia Jenny, fingindo-se consternada--como Deus me

castiga a presumpção!

--É verdade--disse Mr. Richard agachado--um vaso tão bonito! Creança!

Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!

--Está vingado, Manoel--continuou Jenny.--Eu a desconfiar de si, e

vae...

O velho hortelão não podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os

estragos da begonia, elle cobria de beijos a mão de Jenny, que não pôde

retiral-a a tempo.

Era meio dia.

--Vamos,--disse Jenny a Mr. Whitestone--perdôe-me a culpa e venha ao seu

_lunch_.

Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces

e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando,

a sorrir:

--Estouvada! buliçosa!

No degrau da escada não escapou á vista aguda de genuino inglez a terra,

que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o

percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.

--Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra...

--Já! Não sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.

--Agora não, que são horas do seu _lunch_.

Mr. Richard não insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos

preparativos d'esta refeição matinal.

V

UMA MANHÃ DE MR. RICHARD

Mr. Richard era de uma rigorosa pontualidade nos seus actos de vida

domestica. Logo pela manhã, depois de uma leitura de _Biblia_ e de uma

revista á preciosa collecção de aves e de insectos de Inglaterra, que

possuia, consultando a proposito os livros de Yarrell, Shuckard, Rennie,

e de outros especialistas da localidade, passava a gosar no jardim das

bellezas matutinas e a exercer a sua paixão florista, cavando, mondando,

semeiando os seus bem guarnecidos canteiros. Esta occupação matinal de

Mr. Richard, forçoso é confessal-o, não era demasiadamente favoravel ao

horto, para com o qual elle tinha aliás as melhores intenções d'este

mundo.

Apesar de no seu gabinete se encontrarem constantemente abertos livros

de botanica e de horticultura desde a _Flora Londinensis_ de Curtis e as

obras completas de Lindley, até ás publicações periodicas das varias

sociedades horticolas de Londres, Mr. Richard Whitestone costumava fazer

sciencia por sua conta e risco. Despresando os preceitos dos escriptores

theoricos, juntamente com a experiencia provada do velho Manoel,

ensaiava ás vezes processos, não referidos nos manuaes de jardinagem,

com grave detrimento das mimosas e raras plantas, cuja acquisição, por

todo o preço, obtinha nos melhores mercados da Europa e principalmente

no _Covent-Garden market_ e no _Pantheon de Oxford Street_.

A natureza tinha sempre muito que fazer ao remediar os resultados da

arte do velho commerciante.

Felizmente para o aspecto geral do jardim, Mr. Richard Whitestone era

exclusivo nas affeições floristas. A uma unica planta dedicava, em cada

época do anno, os seus cuidados horticultores. Por aquelle tempo, eram

as begonias as suas predilectas. Ia um destroço n'ellas, occasionado por

tanto amor e cuidados, que consternava o velho Manoel, devéras

affeiçoado ás plantas.

Mr. Whitestone ensaiára nas pobres uma especie de rega, á qual grande

numero succumbiu. Era um liquido artificial de uma composição indigesta,

e em que elle procurára reunir todos os elementos, que julgára mais

proprios para lhes desenvolver a vegetação.

--Isso queima-lhe as folhinhas!--aventurára-se a dizer Manoel, vendo Mr.

Richard a temperar aquella caldeirada.

--Cala a bôca, tolo. Verás como ficarão viçosas.

Á vista do resultado, Mr. Richard teve porém de abandonar o processo,

mas sem se dar por vencido.

--É que estes vasos são pouco porosos... Hei de mandar vir de Londres

uns.

Era uma maneira muito de Mr. Richard, esta de sair das situações

apertadas. Appellava sempre para Londres, como fiel inglez que era.

N'estes entretenimentos levava pois o tempo até á hora do _lunch_.

Voltava então a casa. Era uma verdadeira hecatombe de ostras qualquer

refeição d'estas. O mercado do Porto a custo póde satisfazer as

exigencias dos numerosos malacozoofagos da colonia ingleza, entre os

quaes Mr. Whitestone occupava logar eminente. O _roast-beef_ á ingleza,

ou o fiambre, a mostarda, as batatas, a bolacha, a cerveja, o queijo de

consistencia pastosa forneciam tambem estes _lunchs_, accommodados á

robustez d'aquelle estomago saxonio, descendente dos que ainda no quinto

seculo da era christã eram antropophagos--segundo affirma o auctor da

_Viagem de Jersey a Gran-ville_.

Carlos fazia de ordinario companhia ao pae n'este repasto matinal. Mr.

Richard gostava de ver o filho junto de si, em tão solemnes momentos,

comquanto não trocasse com elle meia duzia de palavras; passados os

cumprimentos iniciaes, era costume seu abrir o _Times_ e acompanhar o

acto manducatorio da leitura d'este interminavel jornal, interrompendo-a

apenas por alguma certa phrase a recommendar ou criticar um ou outro

prato.

Porisso a ausencia de Carlos n'esta manhã cavou-lhe uma ruga de

descontentamento na fronte, que os ares do jardim haviam expandido, e

suspendeu-lhe a aria festiva, mas por elle um tanto estragada, que entre

dentes vinha trauteando ao entrar na sala.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 3 / 30 段