--As consequencias foram as que vocês já sabem, o conselheiro...

N'este ponto, a narração de Carlos foi interrompida por o criado da

hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta.

--Com a sua permissão, meus senhores,--disse Carlos, preparando-se para

abril-a.

--Bravo!--exclamou o jornalista--temos carta de algum Ecco impaciente.

--_E un foglio a me lasció_--cantarolou um _dilettante_, voltando as

costas da cadeira para a mesa.

--É a proposta de capitulação de alguma Troya sitiada--disse o militar.

--Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim.

--Antevejo então uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos

escaparemos.

Carlos sorria, ao abrir a carta.

--Ó Carlos, olha que são perigosos para as digestões os sobresaltos de

coração--notou o estudante de medicina.

--Socega; é um excitante a que já estou habituado--respondeu Carlos.

De repente tornou-se serio.

--Má nova!--disseram alguns.

--O caso complica-se.

--As exigencias da beneficiada sobem até o acrostico, querem ver?

--Não é isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia,

e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos.

Carlos não os escutava já. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e

escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras á pressa.

Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a

resposta, diziam:

--Meu anjo, se no céo...

--Vôo nas azas do amor...

--Qual outro Leandro, eu, naufrago...

--Minha Heloïsa; se o infortunio de Abeillard...

--Julieta, quando o rouxinol...

Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao

criado.

Esforçava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esforço era visivel,

circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito.

--Que é isso?--disse o militar, que lhe ficava defronte--respiraste a

peste n'essa carta?

--O nosso Manrique terá de correr a salvar a sua Leonora das garras de

um conde de Luna?--disse o _dilettante_.

--Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de

despejo aos...

--Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma

avultada conta de enfeites.

--Um dominó leva a sua ingratidão até...

--Já vão numerosas as hypotheses--disse Carlos, enchendo um calix de

vinho e procurando conservar ás suas palavras o tom jovial do principio

da noite; depois acrescentou:--Este bilhete era para me recordar...

--Ai! recordações!...

_Te souviens tu, de même,

De nos transports brulants_...

--Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos--concluiu Carlos.

--Devéras!

--É o que eu te digo.

_Quan tu m'as dit: «je t'aime!»

J'avais alors vingt ans_.

--E estavas calado com isso.

--Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, não me teriam aqui.

--Então? Receber-nos-hias em tua casa?

--Tambem não. Costumo consagrar estes dias exclusivamente á vida de

familia.

--Oh! oh! sentimentalismo!

--Britannico! Pés no _fender_, _punch_ na mesa, _Times_ na mão. E de

quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjeição, que produz

na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso!

--Deve ser um céo aberto!

--Mas céo inglez, um pouco turvo de nevoeiros.

--E de carvão de pedra.

--Não esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico.

--E umas variações vocaes sobre motivos do _God save_.

Carlos sorriu, respondendo:

--Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado

assim.

Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se não todos, sentiam

a verdade do que acabára de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades

para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de

fazer tão claro, e em plena ceia de carnaval, tal confissão. Que querem?

não está em moda trazer o coração á vista. É costume tratar, como

ridiculas, todas as manifestações de sentimento; consideram-se como

pequenas fraquezas que com milhares de outras, só se devem confiar na

discrição das quatro paredes do nosso quarto.

Carlos porém não sabia dissimular; com verdadeira convicção e franca

ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram allusões

epigrammaticas ao que elles chamavam «respeitabilissima tendencia para

pae de familias».

O bilhete, que motivára esta scena e que parecia haver impressionado

devéras Carlos, era da irmã e dizia apenas:

«Charles.

É hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria

desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O

pae esperava-te. Adeus.

_Jenny_.»

A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas:

«Jenny.

Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. Não me

succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do

anniversario de qualquer de vós. Fazes-me a justiça d'essa supposição,

não é verdade? Agora não posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir até o fim

companheiros tão doudos como eu; e, quando os deixasse, não sei se ainda

iria em estado de poder, sem profanação, sentar-me ao teu lado, á santa

e patriarchal mesa de familia. Bem vês que nem vale a pena festejar o

dia, em que veio ao mundo mais uma cabeça leve. Ámanhã te pedirei

perdão... Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de

entrudo?!

Teu mau irmão

_Charles_.»

A final, após algumas explicações mais, um dos convivas levantou-se e

empunhando o calix:

--Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos--bradou,

em tom de brinde.

--Apoiado--responderam todos, imitando-o.

--Carlos--continuou o primeiro--bebo aos teus vinte annos! Contes pelos

trezentos e sessenta e cinco dias, que se vão seguir ao de hoje, as

paixões que fizeres nascer; e possas tu...

--Não se admittem longos _speeches_; olá! Bebamos!--disse uma voz.

--É sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que

sáe--acrescentou outra.

--Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio, é o vinho

que a merece; pois é elle, n'este momento, o que mais _sabe_.

--Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, á difficil

digestão dos teus _calembourgs_.

--Então? Bebamos!--insistiu o côro.

E o brinde foi geral.

Carlos correspondeu constrangido áquella saudação. Parecia-lhe estar

vendo Jenny a olhal-o com uma expressão de amigavel desgosto; Jenny, a

unica a fazer companhia ao velho negociante, que não pouco devia ter

sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite já não era para o

pobre rapaz dissipar completamente aquella impressão penosa.

Apoderára-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso

de se ver alli; e este effeito, se não lhe distrahia completamente a

attenção dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a

intensidade d'ella a ponto de nem já tomar parte nas discussões, nem o

occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros.

Á placa da camara escura, não preparada na officina photographica, é

comparavel o pensamento, em occasiões assim. Lá se gravam ainda as

imagens das cousas exteriores, mas, não as fixando a attenção,

dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram.

D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observações feitas por

Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi

forçado a dar.

Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem

escutar; a qualquer d'estes assumptos não costumava Carlos, nas

ordinarias disposições de espirito, recusar attenções, nem esquivar a

concorrencia propria.

O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupação

em que o viu.

Ora uma observação qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente

a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper.

--Que tem você, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi

apopletico. Coragem! É negocio de coração? Alguma loura e nevada _miss_?

hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo _to

flirting_!--d'aquelle _flartar_, como, com tanta razão, traduz Garrett,

á falta de melhor vocabulo.

E elle ahi principiava:

--Você já leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas _Viagens_, hein?

Oh! é inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as ás de

Xavier de Maistre. Que eu não participo da admiração geral por Xavier de

Maistre; é preciso que saiba.

Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma

asserção mais arrojada, a pausa era de rigor.

Carlos, já se sabe, não redarguiu. N'este intervallo, pôde ouvir o

conviva proximo, que dizia:

--Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de réis;

ia d'aqui a Paris; depois...

O jornalista proseguiu:

--Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a

grande distancia d'elle. A _Viagem sentimental_, sim. Oh! A _Sentimental

journey_. É um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria

philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O

_humour_ morreu com Sterne.--Pausa.--A demasiada philosophia gela a

inspiração litteraria. Ahi tem Pope. É frio, é árido, é

marmoreo.--Pausa.--Os poetas francezes não teem tanta tendencia para se

deixarem _philosophicar_, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás

vezes... Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor

Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubiçasse o

_Childe Harold_. Força de contrastes! Aquelle _Childe Harold_! aquelle

_Childe Harold_! Que me diz você áquelle _Childe Harold_? É o unico

poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até

hoje.--Pausa.--Perdôo-lhe o _Poor, paltry slaves_! com que nos mimoseia.

E note que eu não sou admirador cego do Byron.

Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.

Carlos continuava calado.

Percebeu então que n'um grupo vizinho se dizia:

--Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias.

--Melhor é a do Manoel Galveias.

E mais adiante:

--Perdão, menino; mas para mim a synthese não é uma mera condensação dos

factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a força que

vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os

principios evidentes; Kant...

O jornalista continuava:

--Eu não me regulo pela critica convencional. É o meu systema. Não me

resolvo a entoar _amen_ á opinião dos povos.--Pausa.--Por exemplo, tenho

a sinceridade e a coragem de confessar que não me fascina Dante.

Grande pausa.

--Padre Manoel--dizia n'esta occasião, do fundo da mesa, um dos

convivas, apontando para o calix, que levava aos labios--_Ecce Deus qui

lætificat juventutem meam_.

O padre sorriu, mas não disse nada. Comia.

--Porque a final de contas--proseguiu o discursador--você ha de

concordar commigo; Dante é um rapsodista quasi como Homero. Que é a

_Divina Comedia_, senão o compendio das crenças religiosas d'aquelle

tempo?

Pausa.

--O que ha a respeito da revolução carlista em Pamplona?--ouviu Carlos

perguntar.

--Nada mais se sabe por emquanto, apenas que estão implicados alguns

sargentos, cabos e paizanos--respondia outra voz.

E continuava a dissertação litteraria:

--O grande merecimento de Dante é o da fórma. Lá essa qualidade tem

elle. Logo os primeiros versos:

_Nel mezzo del cammin di nostra vite_...

Acho porém dotes superiores em Boccacio.--Então que quer? É um espirito

encarnado em corpo de menor vulto, mas... você já leu o _Decamaron_?

Deve ler. É um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae além do

seculo, em que foi escripto. E esse é o signal supremo do genio. As

imitações de La Fontaine são pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a

final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella côrte não podia existir

a verdadeira inspiração. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto

Luiz XIV e o seu seculo.--Pausa.--Molière salva-se, mas porque? Porque o

genero comico tem uma índole especial. Não é a inspiração que o regula;

é a analyse, é a reflexão philosophica.

--Eu aposto--berrava um politico--que se os alliados se metterem a dar o

assalto a Sebastopol, não fica um só vivo.

--Veremos--questionava outro.--Deixa Omer-Pachá occupar a estrada de

Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle já

desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens.

O jornalista continuou:

--Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que

Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que

nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.

--É a _Biblia_, os _Lusiadas_ e o _Paulo e Virginia_. Já sei. É o

costume--disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando

subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, apreciações criticas,

cotejos e citações, que saíam, em tom categorico, da palavrosa bôca do

vizinho.

--Não ha tal--respondeu este, porém, tomando-lhe o braço e levantando-se

igualmente.--Esses são a formula dos tres grandes sentimentos da alma--o

da religião, da patria e do amor;--bem o sei; mas confesso-lhe, o que,

por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das

paixões, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais.

A creação de Pantagruel e Gargantua é famosa!

--Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?--exclamou, voltando-se, um

_dilettante_, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle

momento..--Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisação! Que

sentimento!

--Ahi tornas tu com a Ponti--disse um velho rapaz, pronunciado

adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do

anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal

das companhias escripturadas.--És capaz de sustentar que vae bem na

_Norma_. Se ouvissem a Rossi-Cassi...

--A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! Não sacudas reputações

cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.

--Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um

assento de baptismo feito pelo menos em 1800.

--Nego--bradou embespinhado o velho rapaz.

--_Parce sepultis_--disse o padre.

--_Lascia la donna in pace_--trauteou outro _dilettante_.

Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a

fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no _Ei fu_!

do _Cinque maggio_... etc., etc., etc...

Carlos foi retido agora pela mão de um rapaz, junto do qual tinham

chegado.

--Aqui está quem nos póde informar--dizia o que o segurava.--Ó Carlos,

dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?

--Não--respondeu Carlos, distrahido.

--Conheces por força. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que

comprou a quinta do Pedroso.

--E então?

--Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga?

Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se

já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava

esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.

--Não tem que ver; o Viegas não lhe póde dar mais de nove contos.

--Triplique, e não lhe faz favor nenhum--disse, do alto da mesa, o

padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre

os mais disparatados assumptos.

--Ora ahi tens!--disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de

valia provada.

O padre limpava tranquillamente os beiços e enchia um calix de malvasia.

--Então diz o padre Manoel que o Viegas...

--O Viegas tem pelo menos...--dizia de lá o padre, elevando o calix

entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de

completar a phrase, levou-o á bôca e despejou-o de um trago.

Depois continuou:

--Tem pelo menos ... pelo menos...

Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:

--Sessenta e sete contos de réis.

--Ora!

Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista,

que lhe ía dizendo:

--É a questão do dia--O dinheiro--A litteratura resente-se...

E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de

Ponsard ... etc., etc...

--Deixa-te d'isso;--dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um

rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios--a Emilia Victorina é

outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do barão de Tavares, me

encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha,

uma mulher distincta, esplendida.

--Foi, foi; já não é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em

ti appareciam os primeiros dentes.

--A idade...--dizia outro.

--Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.

--Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter

a idade que tem.

--Barbaro! Ó Carlos, que dizes tu?

--Digo que sim--respondeu Carlos, que nem attendera á discussão.

--Está esta creança do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina

á Marianna Prazeres.

--E prefiro, repito.

--Não sejas impio. Quem não acha admiravel aquella bonita cabeça da

Marianna?

--E a mão? Aquella mão comprida e delgada, onde as veias se desenham em

azul; a verdadeira mão artistica, aristocratica.

--No assumpto «mãos», peço licença para citar a primeira...--das

provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva--lembrou um

individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.

--Apoiado!--entoaram muitas vozes.

--A proposito da Clementina Rialva--exclamou uma chronica viva de boatos

do dia--sabem que o Chico da Lousã, sempre a tira por justiça?

--Devéras?!

--Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle.

--Terrivel catastrophe!

--Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae,

tem influencia e, feitas as pazes do estylo...

--Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.

--Que influencia tem o Rialva?--perguntou, encolhendo os hombros, um

mallogrado aspirante á eleição popular.

--Não. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino...

--E o ministerio deve-lhe serviços.

--Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos serviços eleitoraes

do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao

Roboredo.

--Como não arranjou? Ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo?

--Quem levou lá o Roboredo, foi...

--Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio,

mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e

que não obteve, abandonou a regeneração...

--Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh

que alarve!

--Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que

nunca se pôde conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que

até lhe fazia mal pensar na posição incommoda, em que haviam de viver

esses pobres diabos, se existissem...

--E um dia em que elle...

Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em

pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia.

Todas as attenções e todos os olhares convergiram para alli.

Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos

olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido,

poucas disposições para expansão igual.

--É impagavel este homem!--dizia um dos que riam.

--Que foi? que foi?--perguntavam os que não faziam parte do grupo, rindo

já com anticipação tambem.

O dos ares constrangidos respondeu:

--Não façam caso; são doudos.

--Que foi? digam--insistiam todos na sala.

--É aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.

--Eu disse...--tentou este interromper.

--Silencio!--bradaram muitos a um tempo.

--O Claudio!--continuou um dos que mais ria--ouvindo aqui o Lourenço

fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro,

observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe

accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.

--Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse.

A justificação foi suffocada por um côro geral de gargalhadas.

--O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a

Hollanda a uma geral inundação.

--Que terrivel capricho estomacal!

--Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a

Volney!

E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confusão subia

de ponto com isto.

Até que emfim uma voz dominou o tumulto.

--Reparem que são onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada

solemne nos bailes de mascaras.

Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo

o calix:

--Ás nossas conquistas d'esta noite!

--Apoiado!--disseram todos, imitando-o.--Ás nossas conquistas.

E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.

Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes

companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.

Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta terça parte do dia.

Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou

então o braço de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal

seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi

commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas

aspirações no tubo do volumoso cachimbo.

--Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho... Por isso

vou confiar de ti a ultima das impressões que eu revelei em verso... Eu

gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um

coração para ecco. Almas de sensitiva...

Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a

ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho

poetico e improvisador do que fallava assim.

Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras

desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a

plenos pulmões o duetto da Lucia:

_O' sole più rapido a sorger t'apresta_

O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi

selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, não era

muito para produzir ecco nos corações:

No centro dos circulos

De nuvens de fumo,

Um deus me presumo,

Um deus sobre o altar!

Nem d'outros thuribulos

Me apraz tanto o incenso,

Como o d'este immenso

Cachimbo exemplar!

Em divans esplendidos,

Cruzadas as pernas,

Fuma, horas eternas,

O ardente Sultão.

Subindo-lhe ao cerebro

O magico aroma,

Esquece Mafoma,

Houris e Alcorão.

Longe, oh! longe o opio,

Que os sonhos deleita

Da misera seita

Dos Theriakis!

Horror ao narcotico

Que vem das papoulas!

E ao que arde em caçoulas,

No altar do Caciz!

Que a raça gentilica

Das zonas ardentes

Consuma as sementes

Do arabio café.

Despejem-se as chavenas

Da atroz beberagem

Da côr do selvagem

Da adusta Guiné.

E a tal folha exotica,

Delicias da China,

Por nossa má sina

Trazida de lá,

Servida em familia,

N'um morno hydro-ínfuso?...

Anathema ao uso

Das folhas do chá!

Nem tu, ó alcoolico

Humor dos lagares,

Terás meus cantares,

Meus hymnos terás.

Embora das amphoras

Vasado nas taças,

Aos outros tu faças

A lingua loquaz.

Cerveja britannica,

De furor espuma!

De cousa nenhuma

Me podes servir.

Quando ouço do lupulo

Gabarem proezas,

Ás bôcas inglezas,

Desato-me a rir.

Nem venha da camphora

Prégar maravilhas

O das cigarrilhas

Famoso inventor.

Raspail é scismatico

E eu sou orthodoxo,

O seu paradoxo

Não me ha de elle impôr.

Meu canto é da America,

Paiz do tabaco,

Perante o qual Baccho

Seu sceptro partiu.

A Europa, Asia, e Africa

E a terra hoje toda

Este heroe da moda

De fumo cobriu.

Até na Laponia,

Da gente pequena,

Se fuma; e no Sena,

No Tibre e no Pó,

No Volga e no Vistula,

No Tejo e no Douro;

Que immenso thesouro

Se deve a Nicot!

Meus áridos labios

Mais fumo inda aspirem

Que os parvos suspirem

Por beijos, aos mil.

Não quero outros osculos,

Não quero outra amante.

Qual mais doudejante

Que o fumo subtil?

Tornadas Vesuvios,

As bôcas fumegam.

De nuvens que cegam

Vomitam montões.

Fumar! Oh delicias!

Prazer de Nababo!

E leve o diabo

Do mundo as paixões!

--Bravo!--disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a

musa do recitador.

O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a

dissipar-se-lhe a nuvem.

--Quem compra uma senha?!

--S. João! quem quer?

--Doze vintens, meus amos, doze vintens.

Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto · 第 2 / 30 段