II

N'esse instante um fantasma entrou nos regios paços.

Sereno e formidavel.

Encarou fixamente o rei, cruzando os braços

No peito inabalavel,

E trovejou, deixando o papa sacrosanto

Livido, espavorido:

«Sou a Fraternidade. Entrega-me esse manto

E essa espada bandido!»

Despedaçou-lhe o gladio e a tunica purpurea,

E sahiu triumfal.

E o papa horrorisado, espumando de furia,

Uivou como um chacal:

«N'esta invencivel mão d'abutre encarquilhada

Guarda o melhor thesoiro.

Ficou-me ainda o sceptro. Era de ferro a espada...

Prefiro o sceptro... é d'oiro!»

E o papa viu então, oh tragica anciedade

Um vulto sobrehumano

Avançar e bramir:--O meu nome é Egualdade;

Dá-me o sceptro, tyranno!--

Quebrou o sceptro e foi-se. E o papa, como um lobo

Sombrio respondeu:

«Na minha forte mão ainda sustento o globo...

Ainda o globo é meu!...»

E desatou a rir... um riso sanguinario

De panthera. Depois

Surgiu novo fantasma herculeo, extraordinario,

Maior que os outros dois.

E como o rebentar potente d'um trovão

Que abala a immensidade

O fantasma rugiu:--Não me conheces, não!

Chamo-me a Liberdade!

«Venho buscar o mundo. Entrega-o, salteador!

É meu o globo, harpia!»

E arrancou-lh'o. Soltando um grito, no estertor

Convulso da agonia,

Tombou por terra o papa. E repentinamente

Viu surgir-lhe do lado

Um esqueleto a rir, todo fosforecente,

Podre, desengonçado,

Que he disse:--Morreu, ó Papa, o nosso imperio,

Morreu o mundo antigo.

Tu chamas-te Alexandre, eu chamo-me Tiberio...

Vem-te deitar commigo!...

E como um caçador fantastico que leva,

Sangrenta e moribunda,

Uma hyena a gemer, de rastos, pela treva

N'uma noite profunda,

O esqueleto levou para a crypta sombria

O cadaver do irmão,

Indo dormir os dois na eterna mancebia

Da mesma podridão!

A Velhice do Padre Eterno · 第 62 / 66 题