I
O vigario de Deus na terra disse um dia
Aos batalhões do clero:
Tragam-me o manto d'oiro e seda que cobria
As espaduas de Nero.
E trouxeram-lhe o manto, um manto do brocado,
Da purpura mais fina,
Com escarros de lodo obsceno, inda empastado
No sangue de Agripina.
E o papa continuou: «Preciso armar o braço,
Para dictar as leis;
Fabriquem-me uma espada enorme com o aço
Das espadas dos réis.»
E trouxeram-lhe o gladio. O papa ficou mudo,
N'um assombro d'espectro.
De subito exclamou: «Ainda não é tudo;
Tragam-me agora um sceptro!»
Trouxeram-lh'o. E depois d'um silencio profundo
Rugiu como um leão:
«Tragam-me agora o mundo!» E pozeram-lhe o mundo
Na palma da sua mão.
E sopesando o globo e arrancando o montante
Enorme da bainha,
Bradou pela amplidão: «Sou Jupiter-tonante!
Humanidade, és minha!
Eu tenho o gladio e o sceptro, a excomunhão e a bulla;
Sou o Deus, sou a Fé.
Miseravel reptil, Humanidade, oscula
A ponta do meu pé!»
E sentando-se sobre o coração da Italia
O satrapa romano
Estendeu desdenhoso o bico da sandalia
Para o genero humano!