TRES CAPITAES
Impresso em machina _Marinoni_,
na =Typ. Minerva= de Gaspar Pinto de Sousa & Irmão
V.ª N.ª de Famalicão
José Augusto Corrêa
TRES CAPITAES
[Illustration]
FAMALICÃO
TYP. MINERVA DE GASPAR PINTO DE SOUSA & IRMÃO
20—Rua de Santo Antonio—24
1909
_RAZÃO DE SER_
_É opportunissimo o momento de estudar e de tentar descrever as duas
grandes capitaes da America do Sul, rivaes pela opulencia, vizinhança,
estimulo e por consubstanciarem e traduzirem a riqueza, o porvir, a
grandeza e a gloria de duas pujantissimas nacionalidades, destinadas aos
mais brilhantes destinos._
_Montevideu, capital de um pequeno Estado, comparado com o Brasil e a
Republica Argentina, entre os quaes agita-se, febrilmente, servindo-lhes
de constante pomo de discordia, não obstante ser uma cidade importante e
interessantissima, póde considerar-se um compasso de espera no parallelo
entre o Rio de Janeiro e Buenos-Aires._
_Das três capitaes trata este livro; porém o seu interesse maximo
concentra-se na apreciação d’estas duas famigeradas metropoles que,
encarniçadamente, disputam-se a primazia sul-americana._
_O auctor percorreu-as pessoal e minuciosamente, detendo-se, com
especialidade e interesse, nos pontos em que o seu orgulho e patriotismo
de cidadão brasileiro, teve de ceder o logar á admiração pelos progressos
affirmados, ha muitos annos, em varios aspectos da grandiosa capital
argentina._
_Do terreno sacrosanto e utilissimo da actividade e competencia nas
diversas manifestações da civilização e do progresso dos povos e das
nacionalidades, não deve admittir-se, hoje em dia, que ultrapasse a
rivalidade entre os membros da grande familia humana, collectiva e
individualmente considerados._
_Toda a America é um grandioso laboratorio, onde o trabalho e o
capital dão-se as mãos no desenvolvimento dos tres grandes factores da
prosperidade das nações—a agricultura, o commercio e a industria._
_Os Estados Unidos da America do Norte, porém, attingem, actualmente, o
vertice da escala progressiva, tendo dado, ao mundo, o assombroso exemplo
de quanto póde a energia de uma raça preponderante, auxiliada pela
collaboração de todos os povos da Terra._
_A America Central está dividida em pequenas Republicas que, a cada
passo, guerreiam-se e esphacelam-se em mesquinhas lutas de interesses._
_É na parte meridional d’aquelle immenso e uberrimo continente que,
n’este instante da vida universal, produz-se, principalmente, a
vitalidade da raça latina, quasi expurgada dos vicios hereditarios
das suas antigas metropoles, pelos beneficios da immigração e pelas
excellencias das instituições democraticas, fundidas no preciocissimo
cadinho de uma natureza bella e fecunda._
_Na America do Sul, todavia, nem todas as nações progridem á altura das
suas instituições politicas e do sólo ubérrimo que as alimenta._
_No Mar das Antilhas, a Venezuela, dá-nos o degradante espectaculo de uma
democracia subjugada por um tyranno demente e senil._[1]
_A Colombia, cujo territorio é banhado pelos dois maiores oceanos do
nosso planeta, vegeta em condemnavel apathia._
_Encravada entre ella e o Perú, a Republica do Equador mantem-se,
equilibrada, no concerto sul-americano._
_Das tres nacionalidades que degladiaram-se, ha annos, por questões de
territorio, apenas o Chile conserva relativa importancia, devido á sua
invejavel e especialissima situação geographica e topographica._
_Quanto á Bolivia e ao Perú, tardiamente recuperarão as energias
perdidas._
_O Paraguay e a Republica Oriental do Uruguay, abafadas pela approximação
de dois colossos, debatem-se entre as ambições e os interesses de ambos,
influenciadas ora por uma ora por outra das parcialidades rivaes._
_Só o Brasil e a Republica Argentina estão em plena e progressiva
prosperidade, pleiteando-se, honrada e gloriosamente, no campo da
actividade humana. Por vezes, essa effervescencia ameaça degenerar em
conflicto armado, por causa de ambições desmedidas e, especialmente, de
vinganças e de represalias entre personalidades rivaes e preponderantes
em um e outro paiz._
_Estanislau Zeballos, por exemplo, estadista e escriptor de merecimento,
alto commissario e arbitro argentino no pleito das Missões, nunca poude
perdoar ao Brasil, em geral, e particularmente ao Barão do Rio Branco,
representante brasileiro n’esse litigio, a victoria d’este ultimo._
_Esses dois eminentes cidadãos encontraram-se, ao mesmo tempo, á frente
do ministerio das relações exteriores dos seus respectivos paizes. D’ahi
más vontades, animosidades, ameaças de rompimento, mal estar geral,
atmosphera pesada e quente._
_O Barão do Rio Branco, á força de prudencia e de diplomacia, conseguiu
conjurar a tormenta, vencendo, mais uma vez, o seu terrivel adversario._
_Este não desanimou, porém, e saíndo do ministerio, foi para as columnas
de «La Prensa», o mais importante jornal argentino, mover tremenda
campanha contra o Brasil e o seu rival._
_Crêmos, todavia, que como aquellas, falharão todas as tentativas que,
n’uma e n’outra nacionalidade, sejam feitas para alterar a paz entre os
dois povos. Estes são bem os successores e os continuadores de hespanhoes
e portuguezes, para os quaes o pontifice Alexandre VI dividiu o mundo, em
duas partes iguaes, e que gravaram, nas paginas da Historia, feitos de
tanta e tão imperecivel gloria, que desafiam a acção deleteria do tempo,
e fulgirão, deslumbrantemente, pelos seculos além, até ao ultimo alento
vital da humanidade._
_Brasileiros e argentinos continuarão, pacifica e activamente, a
desenvolver as suas aptidões e os seus recursos naturaes, de cuja actual
importancia póde avaliar-se pela descripção das suas soberbas capitaes._
_O conhecimento e a comparação dos elementos progressivos de ambas, assim
como as suas preciosidades e defeitos, poderão servir de orientação e
de estimulo no aproveitamento de uns e na eliminação e substituição de
outros._
_Eis a razão de ser d’este livro, escripto com toda a imparcialidade
e inspirado no interesse e no amôr a que tem direito a grande familia
humana, e não sómente o povo entre o qual nascemos e as encostas e os
valles que repercutiram os nossos primeiros vagidos e beberam as nossas e
as lagrimas das nossas mães._
[1] No momento d’este livro entrar no prélo parece finda a dictadura do
general Castro.
RIO DE JANEIRO
Domingo de Ramos
Ás 5 horas da manhã de 12 de Abril de 1908, o velho e rapido
transatlantico _Magellan_, da Messageries Maritimes, passou por entre
as fortalezas da Lage e de Santa Cruz, e deixando atrás de si a de
Villegaignon, fundeou defronte das ilhas Fiscal e das Cobras, N’este
momento já o astro-rei emergia do Oriente, a realçar e aureolar a
maravilhosa e incomparavel belleza natural da bahia de Guanabara, e
do immenso e formosissimo scenario que a abraça em deslumbramentos de
apotheose.
A amplidão da bahia, semeada de muitas e grandes ilhas, circumdada de
duas cidades e de ridentes povoações, a alvejarem por entre verdejantes e
floridos maciços; as serras e montanhas, opulentamente vestidas, até aos
vértices, e que encantadoramente fecham a orla do horizonte; todo esse
empolgante conjuncto, que constitue o mais bello e arrebatador panorama
do nosso globo, patenteava-se alli, á nossa vista deslumbrada.
Ao mesmo tempo, o nosso pensamento, enlevado nas sublimidades do supremo
encanto e da belleza maxima, divinizava-se aos esplendores eternos.
Approximavam-se as visitas officiaes e, após ellas, immensos botes e
pequenos vapores conduzindo parentes e pessôas amigas dos passageiros.
Em um d’elles lobrigamos gente querida, havia muito tempo ausente, e
com ella desembarcamos, radiantes de contentamento e anciosos de revêr
e percorrer de novo a terra idolatrada, hoje transformada e onde se
passaram os melhores annos da nossa mocidade. Era ainda cêdo para almoço.
Que fazer?
—Dar um passeio, de bonde, até á Gavea, alvitrou alguem.
Unanimamente approvada a ideia e ... a caminho.
Estavamos em Botafogo, o bairro da aristocracia, do luxo, da elegancia,
da formosura e do supremo gosto.
O bonde electrico começou a deslisar e os nossos olhos não sabiam
o que mais admirar, se os primôres irradiantes da paisagem, se as
curiosidades que nos cercavam, quasi originaes para nós, empolgantes e
interessantissimas.
O vehiculo parou defronte da matriz de S. João Baptista, e foi invadido
por numeroso grupo de crianças e senhoras, que empunhavam floridos
ramalhetes, de varios tamanhos, vélas de cêra enfeitadas a papeis de
côres e cannas servindo de hastes a ramos de flôres.
—O que é isto? inquirimos.
—Domingo de Ramos, foi a resposta.
Continuamos a observar as devotas. Nada póde haver de mais bizarro e
extravagante.
A variedade de colorido cançaria a paciencia ao mais habil classificador
de nuances.
Desde o negro retinto e do preto suavisado pelo cruzamento do sangue,
até ao vermelho aloirado das filhas de Albion e da Germania, tudo alli
se via em mistura de encantos, a contrastar cora as côres berrantes dos
vestuarios e com os deslumbramentos da paisagem, ridente de primôres e
abrasada de sol.
A manhã brilhava na suavidade e frescura do arvoredo, no dorso
azulado das montanhas, ao longe acariciadas e envoltas por nuvens que
hauriam-lhes as humidas e fecundantes exuberancias.
E o electrico continuava sempre a correr entre a apotheose da natureza
e os vividos quadros realçados pelas cariocas que empunhavam os ramos
commemorativos da entrada triumphal de Christo na cidade deicida.
O bonde parára á porta de outra egreja. Era a matriz da Gavea. Grande e
garrula renovação, de passageiras.
Como as primeiras, as nossas novas companheiras de passeio eram igual e
altamente interessantes nas côres do rosto, do vestuario, dos floridos
tropheus e, principalmente, n’essa linguagem cantante e dulcissima, que
é um encanto para quem vae acostumado ao forte e classico portuguez de
Portugal. O tempo aquecêra, porém. A atmosphera tornára-se pesada e
humida. As devotas, acclimadas, dessoravam a essencia das suas côres
naturaes, emquanto que o nosso possante e adiposo tecido desfazia-se em
liquidas camarinhas e ardentes exhalações.
Attingiramos o ponto extremo da linha dos electricos da _Botanical
Garden_, depois de, por largo espaço, havermos seguido parallelamente a
essa maravilha das curiosidades fluminenses que se chama Jardim Botanico.
Restava-nos retroceder.
As nossas garridas companheiras tinham ficado pelo caminho e
desapparecido por entre frondosos e bellos jardins, que abraçavam
lindissimas chacaras. Outras passageiras as substituiram; porém o
interesse de observal-as tinha, pouco a pouco, cedido o logar a um
appetite devorador e á morbida prostração causada pelo vazio do estomago
e pela ardencia rigorosa e dissolvente da canicula.
Em todo o caso, a primeira impressão fôra de ineffavel agrado e de
saudosissimas recordações. Elle ahi estava, bem patente ao nosso olhar
investigador, esse Rio de Janeiro exuberante de seducções e de primôres,
em profundo renovamento esthetico, mas sempre soberbo e magnificente nos
inesgotaveis thesouros da sua pujantissima natureza, que eternamente o
sublimarão á hierarchia da mais bella cidade da Terra.
E como dirigissemos um ultimo olhar de despedida e de admiração á
paisagem circundante, vimos o dorso imponente e alteroso do Corcovado,
ligeiramente occulto pelas proprias emanações, liquidificadas em diaphana
e alvissima nuvem. O Chapéu de Sol, a refulgente auréola do seu vértice,
velado pelas opulencias do ether, trocava segredos com os mysterios do
infinito, talvez haurindo dos arcânos da immensidade nova e deslumbrante
apotheose, com que divinizar o já inextinguivel diadema de soes, que
realça os naturaes esplendores da capital brasileira aos deslumbramentos
divinos.
Situação e Aspecto Geral
Entre 22°43´ e 23°6´ de latitude Sul, 4° de longitude Este, e 35° long.
Oeste, abre-se a entrada da bahia e do porto do Rio de Janeiro, apenas
com 1:500 metros de largura, mas que, no interior, attinge a amplidão de
28 kilometros por 30 kilometros de comprimento.
Os transatlanticos passam por entre as fortalezas da Lage e de Santa
Cruz, deixando, á esquerda, a gigantesca mole do Pão de Assucar e a
fortaleza de S. João.
N’esse momento enfrentam a fortaleza de Villegaignon, já em plena bahia,
deixam-n’a á rectaguarda e vão fundear no quadro dos navios mercantes,
além das ilhas Fiscal e das Cobras.
D’ahi, do centro do mais vasto e bello porto de mar do mundo, a vista
abrange um dos mais empolgantes e arrebatadores panoramas do nosso
planeta. A magestosa bahia, semeada de oitenta ilhas e ilhotas, é ladeada
pelas cidades de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro, na
margem oriental, e do Rio de Janeiro, capital da Republica dos Estados
Unidos do Brasil, do lado occidental. O horizonte do observador é
limitado por serras e cordilheiras, das quaes a mais importante é a dos
Orgãos, ao Norte. Ao contemplal-a, da entrada do porto, nota-se a figura
de um gigante, deitada sobre o dorso.
A immensa bahia de Guanabara, capaz de abrigar todas as esquadras
bellicas e mercantes do nosso globo, forma ainda duas enseadas, a de
Botafogo e a de Jurujuba.
O aspecto geral da capital da Republica, visto do porto é, ao mesmo
tempo, formoso e imponente, se bem que, em grande parte, prejudicado
pela sua configuração topographica e, especialmente, pelos morros que
pejam e encobrem a cidade, ao centro, nas extremidades e em toda a sua
circumferencia.
Os primeiros são os do Castello, de Santo Antonio, de Santa Thereza, da
Gloria e de S. Bento e os outros os da Conceição, Saude, Livramento,
Providencia, Mundo Novo, Santos Rodrigues, Urca, Babylonia, Pinto, Paula
Mattos, Pasmado, Viuva, Corcovado e Pão de Assucar.
A cidade occupa uma superficie de cêrca de dois mil kilometros quadrados,
tendo 14 kilometros de extensão, de Norte a Sul, e 16 ditos, de Leste
a Oeste. É limitada ao Norte e a Oeste pelos riachos Guandú, Merity e
Guandú-Mirim, e ao Sul e Leste pelo Oceano Atlantico.
As condições climatericas da capital do Brasil estão hoje muito
melhoradas com as importantissimas e grandiosas obras de saneamento e
aformoseamento, effectuadas nos ultimos annos, e ainda por outras em
execução. Emquanto, porém, o governo e a municipalidade não se resolverem
a arrasar, entre outros, os morros do Castello e de Santo Antonio, dando
mais ar, mais luz e mais ampla vista á cidade, as manifestações endemicas
não deixarão de produzir-se, periodicamente, e com maior ou menor
intensidade.
A temperatura média é de 24.°, subindo além de 30.° nos mezes de Dezembro
a Abril, e descendo a 20.°, de Junho a Setembro.
A atmosphera é, quasi sempre, humida, o que explica-se pela abundancia de
vegetação, que envolve o Rio de Janeiro em um perenne amplexo de frescura
e de belleza.
A brisa terrestre, de manhã e á noite, e a que sopra do mar, desde
as 11 horas da manhã ao crepusculo, são o providencial lenitivo dos
fluminenses, na maior parte do anno.
Para abranger-se e gosar-se a mais ampla e a melhor vista geral do
Rio de Janeiro, é preciso ascender ao Chapéu de Sol, vértice do morro
do Corcovado. Para vistas parciaes, ou geraes, menos extensas do que
aquella, prestam-se, entre outros pontos, o Observatorio Astronomico,
no morro do Castello, a ponta do Curvello, em Santa Thereza, o Somaré,
n’esta montanha, e o zimborio da Candelaria.
O aspecto geral da povoação é interessante e variadissimo.
O desembarque, no caes Pharoux, praça Quinze de Novembro, proporciona a
vista dos dois passeios ajardinados, que formam esta praça, do palacio
do Ministerio da Agricultura, do ex-palacio imperial, hoje repartição
central dos Correios e Telegraphos, da estatua do general Osorio, ao
centro; do Chafariz Colonial, da Cathedral e do templo do Carmo.
Seguindo-se a rua Primeiro de Março, ou _boulevard_ Carceler, ampla e
bella arteria que se prolonga ao morro de S. Bento, entra-se em plena
cidade commercial. Ahi ostentam-se os grandiosos edificios da Bolsa,
da egreja da Cruz dos Militares, do Correio Geral, do Supremo Tribunal
Federal e do Arsenal de Marinha. D’ella partem e ahi bifurcam-se as
estreitas e animadas ruas do Ouvidor, que terá menção especial, do
Rosario, Hospicio, Alfandega, S. Pedro, General Camara, Theophilo Ottoni
e Visconde de Inhaúma. Tomando-se pela primeira das ruas citadas, e
depois de deixar-se, de um e outro lado, as ruas Julio Cesar, Quitanda
e travessa do Ouvidor, entra-se na magestosa Avenida Central, que será
descripta em capitulo separado. Atravessando-a, continuaremos, ainda
pela rua do Ouvidor, que é cortada n’esse trajecto pelas ruas Gonçalves
Dias e Uruguayana, até ao Largo de S. Francisco de Paula, centro civico
de grande movimento, ponto central dos bondes das Companhias de S.
Christovão e Carris Urbanos, as unicas empresas de viação carioca, ou
fluminense, que ainda adoptam a tracção animal.
N’este largo admira-se a elegante frontaria do templo de S. Francisco de
Paula, a estatua de José Bonifacio e o edificio da Escola Polytechnica.
A antiga rua do Theatro, communica a praça anterior com a da
Constituição, em cujo centro eleva-se a estatua equestre, em bronze, de
D. Pedro I, do Brasil. O theatro de S. Pedro de Alcantara, ostenta ahi
a sua pesada architectura. Pela ampla rua da Constituição attinge-se
a praça da Republica, uma das mais vastas do mundo, com um magnifico
parque, circumdado, entre outros, pelos edificios da Municipalidade,
Escola Normal, Quartel General do Exercito, Estação Central da E. F. D.
Pedro II, Casa da Moeda, Senado e Archivo Nacional.
As ruas do Senador Eusebio e do Visconde de Inhaúma, principalmente,
communicam a praça da Republica com a praça Onze de Junho e a Avenida
do Canal do Mangue, que termina na avenida marginal do novo porto,
actualmente em construcção.
N’este longo trajecto percorrido pelos bairros mais centraes e
interessantes do Rio de Janeiro, a parte mais animada é a comprehendida
entre as praças Quinze de Novembro e da Republica. É n’esse espaço, com
as suas proximas dependencias, que concentra-se e desenvolve-se a vida
commercial e civica da colossal metropole brasileira.
Outra corrida de orientação, para o observador intelligente, é a que
partindo do ponto central dos bondes electricos da _Botanical Garden_,
na Avenida Central, dirige-se ao extremo norte da grandiosa arteria
e deixando, á esquerda, o elegante pavilhão de Monroe e o bellissimo
Passeio Publico, junto a este entra na grandiosa e bella Avenida á
Beira-Mar. Seguindo-a, o passeiante gosa dois panoramas rivaes em
interesse e formosura, o da terra e o da bahia.
O primeiro proporciona-lhe os encantos irradiantes dos artisticos
monumentos do Centenario, da fonte Ramos Pinto, da estatua do Visconde
do Rio Branco; o pittoresco dos morros cobertos de casaria, que fecham o
horizonte; em frente o legendario outeiro da Gloria, encimado pelo seu
celebérrimo santuario e, ao fundo, o famigerado Pão de Assucar, em cuja
cúspide será um dia erecta a gigantesca e symbolica estatua da Patria
Brasileira que, empunhando o facho deslumbrante da Liberdade e da Gloria,
illuminará a immensidade oceanica, a superficie terraquea e os mundos do
firmamento com os esplendôres da pujante nacionalidade sul-americana.
Deixando, sempre á direita, o Palacio da Presidencia da Republica, a
praça do Duque de Caxias, com o bello monumento d’este general, a estatua
de José de Alencar e outros monumentos e numerosos bairros, arruados e
edificios artisticos e interessantissimos, o forasteiro dará entrada
no amplissimo e magestoso Botafogo, precioso escrinio da elegancia, da
belleza e do luxo da capital fluminense.
Ahi a perspectiva é differente da anterior, mas igualmente empolgante e
fascinadora.
Do lado esquerdo está a pequena e lindissima enseada de Botafogo que,
nascendo da pujante Guanabara, por entre os morros da Viuva e da
Urca, vem espraiar-se junto ao paredão da Avenida á Beira-Mar, que
continuaremos a percorrer, deslumbrados pelo panorama geral, até que ella
termine nos contrafortes da montanha Babylonia, magnifico scenario do
ultimo certamen nacional.
Dos jardins e avenidas que decoram a esplanada da enseada de Botafogo,
partem muitas e formosas ruas, algumas extraordinariamente extensas, como
a dos Voluntarios da Patria, e todas ladeadas de lindas chacaras, no meio
de floridos jardins e de bosquetes encantadores.
É aos portões d’esses minusculos paraisos que, passada a hora da ardencia
solar, grupos de formosas e gentis senhoras concorrem a realçar a
imponencia arrebatadora do quadro, aureoladas pelos deslumbramentos do
crepusculo.
O aspecto geral do Rio de Janeiro de hoje, é o de uma grande cidade em
completa e radical transformação para melhor.
Já muito pouco resta da velha metropole colonial, irregularmente
edificada, ao acaso e ao capricho dos influentes locaes.
A independencia nacional e, nos ultimos vinte annos, a mudança de regimen
politico, deram causa ao despertar de energias civicas que, em breve
prazo, farão do Rio de Janeiro, não só a primeira cidade da America do
Sul, mas tambem a rival gloriosa das mais celebres capitaes do nosso orbe.
Se, interiormente, a metropole fluminense é o que, rapidamente,
vimos apreciando e vamos conhecer em detalhe, os seus arrabaldes e
suburbios encerram e irradiam tanta pujança, belleza e encantos taes
e tão maravilhosos, que a penna, por impotente, não póde traduzir nem
pallidamente descrever.
Sob este ponto de vista, a capital do Brasil não conhece nem admitte
rivaes.
O ineffavel amplexo da natureza que, perennemente, a envolve em
deslumbramentos de apotheose, attestará ás gerações vindouras que é
aqui o paraiso terreal e a metropole universal, por excellencia, onde,
em porvir pouco distante, os povos da Terra celebrarão, com a gloria da
nacionalidade brasileira, a civilização, o progresso e a grandeza da
humanidade.
Historia
Os historiadores não são concordes sobre a data precisa em que a bahia do
Rio de Janeiro foi entrada pelo primeiro europeu.
Emquanto uns fixam o anno de 1501 como o da descoberta da magnifica
perola fluminense, outros affirmam que só no anno seguinte as aguas da
poetica Guanabara foram sulcadas por embarcações portuguezas.
Parece mais acceitavel a versão de que o dia 1 de Janeiro de 1502
auxiliou o almirante lusitano Gonçalo Coelho a lançar as ancoras dos seus
tres navios nas profundidades guanabarinas.
O navegador dirigia-se da Bahia de Todos os Santos a explorar a costa
meridional da Terra de Santa Cruz. O facto do almirante não dar o nome
de um santo ou santa á nova descoberta, como fizera a outros pontos da
costa, anteriormente visitados, explica-se, talvez, pela supposição
de que a bahia, que occupava, fôsse a foz de um rio, devido á sua
configuração e amplitude.
D’ahi o nome de Rio de Janeiro, com que Gonçalo Coelho a baptisou e que
ninguem, depois d’elle, se atreveu a mudar.
Tanto no littoral como nas principaes ilhas que enfeitam a bahia, o
almirante portuguez encontrou estabelecidos os tamoyos, indios da raça
tupy, cujas tabas, ou aldeias, estendiam-se em maior e mais densa
quantidade, de Uruçumirim, hoje praia do Flamengo, até Paranapuan, ou
seja a actual ilha do Governador.
Gonçalo Coelho continuou a navegar no rumo do Sul, e só 17 annos depois
da sua descoberta, a bahia de Guanabara foi entrada por outra expedição
europeia, commandada ainda por um portuguez, Fernão de Magalhães, mas ao
serviço da Hespanha. D. Manoel, que ao tempo reinava em Portugal, tinha
muito que fazer na Europa e para os lados do Oriente, não lhe sobrando o
tempo para occupar-se de novas e longinquas descobertas.
Só no reinado de D. João III, seu filho e successor, entrou no Rio
de Janeiro a primeira expedição militar portugueza, porque ao rei
constára que, desde 1528, os francezes occupavam a bahia e as margens
circumvisinhas.
Christovão Jaques commandava a esquadrilha lusitana, de reconhecimento, a
que seguiu-se o grosso da expedição, sob as ordens de Martim Affonso de
Souza, em 1531. Este desembarcou na pequena praia, fóra da barra, que se
estende do morro da Babylonia ao da Urca, e que ainda hoje é conhecida
pelo nome de porto de Martim Affonso.
Expulsos os intrusos, o commissario de D. João III, voltou, com as suas
caravellas, para a Bahia de Todos os Santos, ficando novamente Rio de
Janeiro desguarnecido.
Foi preciso que, vinte e quatro annos depois, em 1555, os francezes
voltassem á carga, sob o commando do almirante Nicolas Durand de
Villegaignon, para que o rei de Portugal, passados cinco annos, ordenasse
a Mem de Sá, terceiro governador geral do Brasil, que expellisse os
invasores.
Villegaignon, que sonhára fundar a França Antartica em terras de Santa
Cruz, desembarcou á entrada da barra, na ilha da Lage, hoje fortificada,
passando a occupar e a guarnecer a ilha de Serygipe, que, desde então,
é conhecida pelo nome do almirante bretão, não obstante elle havêl-a
baptisado _Fort Coligny_.
Quando, em 1560, Mem de Sá entrou, com onze navios, o porto do Rio de
Janeiro, encontrou os francezes na melhor harmonia com os tamoyos, e
reforçados por uma esquadrilha, ao mando de Bois Le Comte. Batidos, os
invasores fugiram nos destroços dos seus navios, porém voltaram quatro
annos, mais tarde, e estabeleceram-se na actual ilha do Governador, então
Moracaia, ou Paranapuan.
D’esta vez foi um sobrinho de Mem de Sá, Estacio de Sá, que partiu
directamente de Portugal ao Rio de Janeiro, a fazer frente aos obstinados
usurpadores.
Foi em Abril de 1565 que a nova expedição deu entrada na bahia de
Guanabara, e depois de reconhecer as fortes posições dos francezes,
desembarcou no porto de Martim Affonso. Ahi, entre os morros da Urca e de
Babylonia, o oceano Atlantico e a enseada de Botafogo, fundou Estacio de
Sá uma povoação, Villa de S. Sebastião, Durante dois annos conservou-se
o commandante portuguez n’esta posição, em continuas escaramuças com os
francezes e os tamoyos, seus alliados, até que em 18 de Janeiro de 1567,
appareceu Mem de Sá com cinco galeões e seis caravellas, bem guarnecidas,
em auxilio do sobrinho. Logo tres dias depois, em 20 de Janeiro, os
indios e os francezes fôram atacados e destroçados por mar e por terra.
Em pleno combate, Estacio de Sá, teve o rosto varado por uma flexa,
morrendo trinta dias depois e sendo sepultado na ermida de S. Sebastião.
Para celebrar a victoria, Mem de Sá, elevou a nascente povoação á
cathegoria de cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, resolvendo
transferil-a para o actual morro do Castello, sitio mais central e menos
accessivel aos ataques dos inimigos.
Realisado este intento, e depois de cercar a nova cidade de muralhas e de
fazer erigir no cume da montanha uma capella sob a invocação do orago da
localidade, o governador geral regressou á Bahia, entregando o governo do
Rio de Janeiro, a outro sobrinho seu, Salvador Corrêa de Sá. Este, alguns
annos depois, fez trasladar a ossada do primo, da velha ermida, junto do
Pão de Assucar, para a capella-mór do novo santuario. Cobre o tumulo uma
lapide, com os seguintes dizeres:
«Aqui jaz Estacio de Sá Capitão e conquistador d’esta terra e Cidade. E
a campa mandou fazer Salvador Corrêa de Sá, seu primo, segundo capitão e
Governador, com suas armas. E esta capella acabou no anno de 1583».
A inscripção esquece-se de mencionar o principal titulo e a gloria
immortal da pessôa a quem se refere—a de fundador do Rio de Janeiro. Da
sua leitura conclúe-se que Estacio de Sá conquistou a cidade, o que não é
verdade.
Salvador Corrêa de Sá, que governou durante trinta annos e morreu na
idade de 113 annos, teve a habilidade de transformar os tamoyos em amigos
dos portuguezes, e a tal ponto que o chefe indigena Ararygboia, foi o seu
principal auxiliar nas luctas que teve de sustentar com os francezes, que
não podiam conformar-se com a ideia de dar de mão á sua sonhada colonia
Anctartica.
Taes foram os progressos da nova cidade, e tambem das suas immediações
que, em 1608, o governo de Lisbôa elevou-a á cathegoria de governo geral,
comprehendendo as capitanias de S. Paulo, do Espirito Santo e do Rio de
Janeiro.
Depois da audaciosa tentativa de Villegaignon, o mais sério ataque
dos francezes contra a preciosa perola de Portugal, realisou-se em
1710, sob o commando de Duclerc. Tendo desembarcado, em 11 de Setembro
d’esse anno, na praia de Guaratiba, o inimigo conseguiu penetrar até
ao centro da cidade, onde foi batido pela pequena guarnição militar,
poderosamente auxiliada pelo povo e, especialmente, pelos estudantes. Dos
1:100 invasores, 400 pagaram, com a vida, as velleidades de conquista,
entregando-se os restantes á benevolencia dos vencedores.
Quanto a Duclerc, foi assassinado por um desconhecido, seis mezes após
estes acontecimentos.
O celebre Duguay-Trouin foi encarregado de vingar a derrota do collega, o
que conseguiu, ganhando um combate naval, nas aguas guanabarinas, contra
a armada lusitana e obrigando os habitantes da cidade a pagar-lhe um
tributo de 610:000 cruzados, cem caixas de assucar e 200 bois.
Quando, em 1733, o conde de Bobadella, general Gomes Freire de Andrade,
foi nomeado governador do Rio de Janeiro, esta cidade entrou em activa
phase de prosperidades, sendo, em 1762, elevada a capital do Brasil,
e recebendo o conde de Bobadella o titulo de vice-rei. No seu governo
foi importada, de Cayenna, a planta do café e construido, entre outros
melhoramentos, o famoso aqueducto da Carioca.
Desde 1763, anno em que falleceu Gomes Freire de Andrade, até 1808, data
da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, governaram o Brasil, o conde
da Cunha, o conde de Azambuja e o marquez de Lavradio.
Com a presença e demora da côrte portugueza, pelo espaço de treze annos,
desenvolveu-se extraordinariamente a capital brasileira.
O fugitivo monarcha começou por franquear os portos do Brasil ao
commercio de todo o mundo, em 1 de Junho de 1808, memoravel data, cujo
centenario foi, no anno passado, celebrado pela Exposição Nacional.
D. João VI fundou, no Rio de Janeiro, a Côrte de Justiça, a Academia
de Marinha, o Supremo Conselho Militar, a Fabrica de Polvora, o Banco
do Brasil, a Escola de Medicina, o Tribunal do Commercio, os Archivos
Militares, a Imprensa Real, o Jardim Botanico, a Bibliotheca Nacional,
etc. Em 10 de Setembro de 1808, publicava-se a «Gazeta do Rio de
Janeiro», primeiro jornal fluminense, impresso em uma typographia da rua
dos Barbonos. Foi de 1:200 contos de réis o primeiro capital do Banco
do Brasil, inaugurado em 12 de Outubro de 1808, data inolvidavel na
prosperidade e grandeza da nação brasileira.
O _rei tabaqueiro_, na phrase dos seus detractores, que na metropole
fizéra má politica e pessima administração, acabando por abandonar a
patria ao jugo dos invasores, com a mudança de hemispherio, mudou de
temperamento e quiçá de ideias politicas e administrativas, a tal ponto,
que a sua viagem forçada á grande colonia sul-americana, assignalou um
periodo de assombroso desenvolvimento para o Brasil.
O rei cercou-se de gente de grande valor e de prestigio, tal como
Lebreton, membro do Instituto de França, os irmãos Taunay, João Baptista
Delbret, Zeferino Ferrez, sabios e artistas do pincel e do escopro
e, acima de todos, Grandjean de Montigny, que nos legou a admiravel
concepção architectonica da Academia das Bellas Artes, álem de outros
trabalhos de que teremos conhecimento.
Em 26 de Abril de 1821, D. João VI regressou a Lisbôa, deixando na
regencia do Brasil, o principe D. Pedro, seu filho. Logo no anno
seguinte, em 7 de Setembro, andando o regente a viajar por S. Paulo,
taes noticias recebeu da côrte de Portugal, inadmissiveis pelas suas
exigencias, que alli mesmo, nas margens do Ipyranga, proclamou a
independencia do Brasil.
A 30 d’esse mez, apresentou-se o principe no Rio de Janeiro,
em um camarote do theatro S. Pedro d’Alcantara, ostentando a
legenda—Independencia ou Morte.
Este acto é especialmente notavel por antecipar acontecimentos que
forçosamente teriam de realisar-se em breve futuro, devido ao gráu de
prosperidade da mais preciosa joia de Portugal e ás absurdas medidas
adoptadas pelas côrtes portuguezas, no intuito de contrariar os desejos
de independencia, que já começavam a manifestar-se no Brasil. Foi a
antiga colonia transformada em imperio e o seu regente em imperador. Este
facto teve logar no Rio de Janeiro, em 12 de Outubro de 1822.
Em 7 de Abril de 1831, D. Pedro I foi obrigado a abdicar a corôa em seu
filho D. Pedro d’Alcantara, criança de 5 annos, e a retirar-se para a
Europa. As principaes causas d’esta resolução foram os actos absolutistas
do novo imperador, entre os quaes avultaram a dissolução da Assembleia
Constituinte e um vergonhoso tratado celebrado com Portugal. Á abdicação
precederam as noites das _garrafadas_, ou de motins populares, sangrentos
para a população do Rio de Janeiro.
Durante o reinado de D. Pedro II, e álem do facto capital da guerra do
Paraguay, muitos acontecimentos politicos se deram na capital do imperio,
que seria longo e fastidioso enumerar, e augmentariam demasiadamente este
capitulo.
Não podemos, todavia, deixar de mencionar o 13 de Maio de 1888 e o 15
de Novembro de 1889, datas, respectivamente, da abolição da escravidão
em todo o territorio nacional e da proclamação da Republica dos Estados
Unidos do Brasil.
O aureo e glorioso decreto de 13 de Maio, foi assignado por D. Izabel,
regente do imperio, ex-princeza imperial e ainda hoje condessa d’Eu,
na ausencia de seu pae, o imperador D. Pedro II, que viajava pela
Europa. Não obstante os protestos dos conservadores, interessados e
tradicionalistas, tal acontecimento foi motivo de grande regosijo para
a população fluminense, e teve por immediata consequencia a mudança de
instituições politicas, em 15 de novembro do anno seguinte, pelo exercito
e pela armada, com o tacito consentimento do povo brasileiro, em geral, e
muito especialmente dos habitantes do Rio de Janeiro.
Na presidencia do marechal Floriano José Vieira Peixoto, 2.º presidente
da Republica e successor do marechal Manoel Deodoro da Fonseca, teve
logar, na bahia de Guanabara, de 1892 a 1894, a revolta da armada, sob o
commando do contra-almirante Custodio José de Mello. No espaço de muitos
mezes, a cidade do Rio de Janeiro foi bombardeada e muito damnificada,
se bem que com a hostilidade da esquadra mais soffresse a sua visinha
fronteira, a cidade de Nictheroy, capital do Estado do Rio de Janeiro.
No Arsenal de Marinha, um soldado de infantaria tentou assassinar o dr.
Prudente José de Moraes Barros, presidente da Republica, de 1894 a 1898,
conseguindo trespassar, com a bayoneta, o marechal Machado Bettencourt,
ministro da guerra, que se interpuzéra. Desde então, a paz não tem sido
perturbada, na capital da Republica, que Municipio Neutro, por decreto de
1884, e Districto Federal, pela Constituição de 24 de Fevereiro de 1891,
conta hoje uma população superior a 900 mil habitantes e, concluidos os
melhoramentos que a transformam, por completo, será, indiscutivelmente,
a primeira cidade da America do Sul e uma das mais bellas e importantes
metropoles do mundo.
Phases Fluminenses
Nos dois primeiros seculos de existencia civica, Rio de Janeiro progrediu
morosamente, por duas causas principaes—o abandono da metropole e as
constantes hostilidades dos francezes e dos indios. Em 1618, isto é,
43 annos depois da sua fundação, a cidade apenas contava uns 3:500
habitantes, incluindo a guarnição militar.
Dois seculos mais tarde, quando D. João VI desembarcou na capital do
Brasil, apenas havia, mal edificadas, 46 ruas, 19 praças, campos e largos
e 4 travessas. Foi n’essa epocha que teve inicio o grande desenvolvimento
da cidade. Em cincoenta annos de progresso, o seu activo era de 284
ruas, 47 praças, 42 travessas, 27 morros e 30 praias habitadas, nas
proximidades.
A povoação, já immensa, galgava e contornava as collinas que a pejam e
circumdam, estendendo-se pelo Engenho de Dentro, Laranjeiras, Andarahy
Grande, Gavea, Tijuca, Villa Izabel e outros pontos.
A segunda fortaleza construida para defeza da cidade occupava o logar da
actual egreja da Cruz dos Militares, que era então beira-mar.
As egrejas de S. Domingos e da Lampadosa foram construidas, no seculo
XVIII, fóra da cidade que, em 1700, apenas attingia o ponto por onde hoje
passa a rua de Uruguayana.
Em 1572 foi uma temeridade edificar-se, _no sertão_, o templo de S.
Francisco Xavier. O primitivo santuario da Candelaria, foi construido
em 1604, e as egrejas de Santa Luzia e de N. S. da Conceição, em 1592 e
1600, respectivamente.
A actual egreja de S. Sebastião do Castello é a terceira erguida no mesmo
local, desde a trasladação da cidade, não obstante a data que encima o
portico ser a da fundação do primeiro santuario, inscripção conservada no
mesmo logar, assim como, na capella-mór, tem sido respeitado o tumulo de
Estacio de Sá, o primeiro dos fluminenses.
O primeiro corpo administrativo e municipal que teve o Rio de Janeiro,
com o nome de Senado da Camara, era constituido por tres vereadores, um
procurador, um escrivão, dois almotacés e o Juiz de Fóra, que presidia.
No anno da chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, este senado
estabeleceu, por meio de marcos de pedra, os limites da cidade junto aos
rios das Laranjeiras e Comprido, por um lado, e por outro junto ao mar,
em toda a circumferencia.
Foi tal o desenvolvimento commercial e civico da capital, no primeiro
quartel do seculo XIX, e eram tão estreitas, tortuosas e deficientes
as arterias publicas existentes n’essa epocha que, em 1838, a Camara
publicou uma postura ordenando que todas as vias publicas da cidade, e
seu termo, tivessem, pelo menos, sessenta palmos de largura. Em 1893, a
Prefeitura decretou que essa amplitude fôsse, no minimo, de 17 metros.
O primeiro nivelamento das ruas, calçamento e illuminação, foi começado
em 1854, e dois annos depois a municipalidade prohibiu as aguas furtadas
e mandou que todos os projectos de construcção fôssem submettidos ao seu
exame e approvação.
Deve-se, porém, á Republica, em geral e, especialmente, a tres eminentes
patriotas—o dr. Rodrigues Alves, presidente da Republica; dr. Lauro
Müller, ministro da Viação e Obras Publicas e dr. Francisco Pereira
Passos, Prefeito Municipal, a transformação do Rio de Janeiro colonial,
com todos os defeitos das povoações da metropole, aggravados pelos
caprichos dos mandões locaes, em uma grande cidade, moderna, rival das
mais bellas capitaes do nosso planeta.
Pertence á iniciativa e execução do Governo, principalmente, a
construcção do porto, com cáes acostaveis, na extensão de 3:500 metros; a
magestosa e formosissima Avenida Central, de mar a mar, rasgando 16 das
velhas e movimentadas ruas da cidade, e as obras especiaes de saneamento
da capital, que déram em resultado a extincção da febre amarella e de
outras molestias endemicas e epidemicas, de ha muito acclimadas no sólo
fluminense.
A Prefeitura, ou Municipalidade, no espaço de 4 annos, de 1903 a 1906,
executou e iniciou os seguintes melhoramentos:
—Avenida á Beira-Mar, do Passeio Publico á Praia Vermelha, no comprimento
de 5:200 metros e com a largura de 33 metros.
—Avenida Mem de Sá, na extensão de 1:540 metros, desde o largo da
Lapa até á rua Frei Caneca, atravessando as ruas dos Arcos, Lavradio,
Riachuelo, Rezende e Invalidos.
—Avenida Salvador de Sá, ligando a rua Estacio de Sá, com a rua Frei
Caneca.
—Alargamento, para 17 metros, d’esta rua e das do Visconde do Rio Branco,
Carioca e Assembléa.
—Prolongamento e alargamento da antiga rua de S. Joaquim, hoje Marechal
Floriano, até ao largo de Santa Rita.
—Prolongamento da rua Visconde de Inhaúma até ao mar, na extensão total
de 1:500 metros e largura de 23.
—Prolongamento da rua do Sacramento até á rua do Marechal Floriano, com a
largura de 15,ᵐ60.
—Alargamento da rua Camerino.
—Prolongamento e alargamento da rua da Prainha, hoje do Acre, até ás ruas
Marechal Floriano e Uruguayana.
—Transformação d’esta rua, com a largura de 17 metros, arborisação e
edificação de grandiosos predios.
—Alargamento e transformação da rua Treze de Maio.
—Ajardinamento do largo da Gloria, da esplanada de Botafogo, do Alto da
Boa Vista, na Tijuca, e da praça Quinze de Novembro.
—Ampliação e embellezamento do Cáes Pharoux.
—Prolongamento da travessa de S. Francisco ao largo da Carioca.
—Transformação da praça Marechal Deodoro.
—Ampliação do palacio da Prefeitura.
—Construcção da estrada das Furnas, na Tijuca.
—Canalização do Rio Carioca.
—Construcção do Theatro Municipal.
—Construcção do Mercado Central e de mais tres mercados regionaes.
—Decretação do alargamento e recúo de oitenta ruas.
—Aperfeiçoamento do calçamento de numerosas ruas e augmento da sua
illuminação.
—Transformação do quadrilatero da praça da Republica, defronte do Quartel
General do Exercito.
Para tão pequeno espaço de tempo é assombroso o trabalho realisado pela
municipalidade do Rio de Janeiro.
O governo geral está procedendo á construcção de uma gigantesca avenida,
que começando junto da Avenida Central, passe defronte do novo porto
e vá terminar na praia de S. Christovão, communicando assim esta com
a bellissima praia de Botafogo, na extensão de 10:500 metros. Será,
incontestavelmente, a primeira arteria do mundo, em dimensões, porque
em belleza, supplantal-a-ha a Avenida Oceanica que, partindo da Avenida
Beira-Mar, na Praia Vermelha, contornará, exteriormente, o Pão de Assucar
e, pelas praias da Copacabana, do Leme e de Ipanema irá terminar no
extremo-sul da praia da Gavea.
E de tudo isso que ahi fica exposto, o que ainda não está prompto ou
iniciado, será concluido no espaço de poucos annos, porque o Brasil,
em geral, e muito especialmente a sua esplendorosa capital, entraram,
decididamente, pela descentralisação administrativa e sob a egide de
instituições democraticas, na rapida e brilhantissima senda dos seus
gloriosos destinos.
Monumentos
Candelaria
Ha duas versões sobre a fundação d’este santuario.
Segundo a maioria dos auctores, Antonio Martins da Palma, hespanhol,
da ilha de Palma, e com mandante de um navio de trafego, vendo-se
naufragado, prometteu á Virgem da Candelaria, muito venerada na sua ilha,
erigir-lhe uma capella no primeiro terreno que pisásse, vindo aportar ao
Rio de Janeiro e desembarcando no local do actual templo, acompanhado de
sua mulher, Leonor Gonçalves.
Outros escriptores affirmam que á primitiva ermida foi dado o nome de
uma velha náu, chamada N. S. da Candelaria, encalhada n’aquelle local, e
que foi com o madeiramento d’essa embarcação que se edificou o primeiro
santuario, em 1604.
As obras do actual monumento foram começadas em 1776, e cento e vinte e
dois annos se passaram antes da sua conclusão.
Francisco João Roscio, engenheiro e sargento-mór de Portugal, fez o
desenho do exterior do templo, em estylo barroco. Concluiu a obra, em
1898, o engenheiro civil dr. Antonio de Paula Freitas, que a dirigiu
durante vinte annos, succedendo aos architectos Job Justino de Alcantara,
Gustavo Waehnldt, Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier
da Veiga.
A frontaria, toda de granito e ladeada por dois soberbos campanarios, é
de magestoso aspecto, e melhor sobresairia se mais vasto fôsse o espaço
em que se eleva.
Quatro portas de bronze dão entrada ao imponente e artistico santuario,
ellas mesmas primôres de arte e devidas á genial concepção do esculptor
portuguez Teixeira Lopes.
A decoração interior é em estylo corinthio e constitue o principal valor
e attractivo do monumento.
É marmoreo todo o revestimento mural, niveo, de Carrara, nas pilastras,
cornijas e entablamento, preto nos pedestaes e vermelho nos paineis. Álem
d’estas tres côres e qualidades, o altar-mór ostenta o lapis-lazuli, o
brocatello, o verde antigo, o malachito e o amarello de Verona.
Os nove altares lateraes são de marmore branco, de Carrara.
Nas abobadas, revestidas de alvenaria de tijolo, ha pinturas historicas
de Zeferino da Costa.
Numerosos quadros, bellas esculpturas e preciosos dourados completam a
decoração interior da Candelaria, santuario da religião e da arte.
O templo é aberto em tres naves, a do centro formosa e vastissima; as
lateraes apenas a communicar os altares. Todo o monumento occupa a area
de 3:520 metros.
As suas dimensões, quanto á planta geral do edificio, são de 80 metros
de comprimento por 44 de largura. O corpo de entrada, ou principal, tem
43,ᵐ40 de comprimento, por 12 de largo, excluindo as naves lateraes.
A altura total do edificio, sobre o nivel do mar, é de 76 metros.
As torres teem 57 metros de altura. Este precioso monumento é coroado por
um zimborio de cantaria, tijolo e marmore de Lisbôa, formado por 1:422
blócos de pedra, com o pêso de 630 toneladas, e alto de 64 metros. Do
seu vértice descortina-se amplo e bello panorama geral da cidade, bahia,
arrabaldes e suburbios.
O zimborio foi construido, successivamente, pelos engenheiros-architectos
Bettencourt da Silva, Ferro Cardoso e Evaristo Xavier da Veiga.
Álem das pinturas decorativas das abobadas e muralhas, executadas,
principalmente, pelos artistas Costa e Tunes, e cujos assumptos
prendem-se á lenda dos fundadores do santuario e ás phases da sua
construcção, ha a admirar, entre outras artisticas curiosidades, o
Baptisterio, á esquerda da entrada principal. A pia é de roseo marmore da
Arrabida, e a tampa é de bronze cinzelado, trabalho de Manoel Ferreira
Tunes. É dourada a fogo e produz maravilhoso effeito.
Do lado posterior do baptisterio vê-se um precioso tabernaculo, sobre uma
banqueta.
Na parede do fundo avulta um baixo-relevo, em cedro, representando o
baptismo de Christo, trabalho do mesmo artista.
Theatro Municipal
Dez annos antes da inauguração das obras, que teve logar em 20 de
Novembro de 1904, já a municipalidade tributava as companhias theatraes,
as emprezas de diversões publicas e até os vendedores de bilhetes para
espectaculos, com destino á edificação do Theatro Municipal.
No momento da publicação d’este livro estará elle concluido e, talvez,
inaugurado. É um grandioso e bello monumento, que occupa a area de 4:127
metros quadrados, entre a Avenida Central, o becco Manoel de Carvalho, a
rua Treze de Maio e a praça Ferreira Vianna. Está edificado sobre cêrca
de 1:700 estacas de massaranduba, sapucaia, oleo vermelho, graúna e
angelim pedra, batidas em terreno barrento e arenoso.
Trabalharam regular e diariamente 500 operarios, durante os cinco annos
da sua construcção e decoração, que consumiram quantia superior a 12:000
contos de réis.
O auctor do projecto e engenheiro-chefe da sua execução, foi o dr.
Francisco de Oliveira Passos.
Eis algumas notas escriptas durante uma visita a este monumento, em Maio
de 1908:
No rez-do-chão, deposito d’agua com a capacidade de 200:000 litros. Motor
da força de 115 cavallos, para ventilação.
Entradas especiaes, para o Presidente da Republica, do lado da Avenida
Central e para o Prefeito Municipal, pela rua Treze de Maio.
Paredes decoradas a mosaico francez, representando scenas das principaes
peças do theatro universal. Escadarias de marmore branco, decoradas a
bronze dourado. Sala de espectaculo.
Uma ordem de frisas, duas de camarotes e uma de amplas galerias. Pintura
em branco e profusa illuminação. Camarotes especiaes, á direita, para
o Chefe do Estado, á esquerda para o Prefeito Municipal. Tecto pintado
sobre téla, por Visconti. Lotação total, para 1:700 pessôas. Cinco
entradas para a plateia.
Todo o pavimento dos corredores dos camarotes é a mosaico, bem como o das
frisas e galerias.
O vestibulo é em marmore de côres, avultando o verde e o côr de rosa.
Elegantes columnas de roseo marmore circumdam os pavimentos superiores,
ornamentando a escadaria. Os capiteis das columnas são a bronze dourado.
Todo o marmore empregado no edificio foi importado de Portugal, da França
e da Italia.
Ha dois terraços—varandas, lateraes e exteriores, a seis columnas de
marmore mesclado e pavimento a mosaico.
As bancadas geraes da ultima ordem são de peroba e comportam mais de 800
pessôas.
Na caixa do theatro, todos os pannos são movidos a electricidade.