Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.»

Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes

faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem

chronologica do nascimento:

Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.

Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu

o avô, que era seu padrinho.

Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889.

Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.

Simão, nascido a 6 de julho de 1891.

Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.

Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas

transcripções do jornal de Famalicão, _O Lusitano_, apezar de em

qualquer d'ellas se encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que

eu considero apenas um amavel cumprimento de quem os escreveu.

Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos.

Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções.

Dizia _O Lusitano_ no seu numero de 29 de agosto do corrente anno:

«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de

Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto

Pimentel.

«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta,

passados tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos

seria desagradavel saber se o nosso estimado confrade do _Popular_

tomou, ou não, a resolução de contar no jornal, que redige, como é justo

que o governo tome a iniciativa de proteger, de algum modo, os

malaventurados netos do grandioso estylista.

«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha,

entre aquellas seis creanças, uma--o Camillo--possuidora de

intelligencia rara.

«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao

aproveitamento d'aquelle rapaz?

«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor

dos descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro

aproveitou e que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do

Estado, dia a dia, para applicações muito menos comprehensiveis.

«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que

aquillo é, comparativamente com outros tempos.

«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna

e das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de

amizade que póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita

que se reedite aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que

constitue, com motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do

nosso meio.»

[Ilustração: SIMÃO]

Eu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu

procedimento.

Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei no

_Popular_ as impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos

netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo

fiz tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que

aquelle que poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.

Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.

* * * * *

Poucos dias depois de ter lido a noticia do _Lusitano_, acima

transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e

escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás

impressões que eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a

fazer em favor da pensão.

Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da

seguinte noticia que _O Lusitano_ publicou no dia 3 de setembro:

«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente,

perante o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor

dos netos de Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e

jornalista com uma carta, que é a promessa solemne de intervir no

sentido rogado.

«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos

netos de Camillo.

«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o

auxilio de Antonio e José de Azevedo.

«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços

possiveis junto do parlamento e do governo.»

«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se

com o sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais

sisudos de Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense

conhece, ao presente, em pessoa, a justiça da causa, que tanto tem

merecido as nossas sympathias. E dizemos assim porque ainda ninguem a

advogou com tão fervente empenho como nós, que fomos, até, o primeiro a

patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que o _Primeiro de

Janeiro_ publicou logo a seguir á morte do Jorge, sem falar no pedido

directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro Antonio de

Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o notavel

homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro

José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o

_Diario da Tarde_, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de

Lisboa.

«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois

auxilios. Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa

dos netos de Camillo.

_P. S._--_O Regenerador_ refere-se, sobre o mesmo motivo, a uma carta

antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. Menezes

um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e

procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª».

Trabalhemos todos--todos os que veneramos a memoria de Camillo--sem

excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, que a

Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda.

É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores;

honremo-nos pagando.

* * * * *

A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu

disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a

gentileza de me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier

e Karr, que estavam na saleta contigua á alcova de Camillo.

Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr

na reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel.

Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e

collar no tampo da moldura:

«ESTE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE»

«CAMA DE CAMILLO CASTELLO BRANCO EM»

«S. MIGUEL DE SEIDE. FOI-ME DADO ALI PELOS»

«SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,»

«NA PRESENÇA DO SR. ADRIANO DE SOUZA»

«TREPA, DE SANTO THYRSO, E FRANCISCO»

«CORRÊA DE CARVALHO, DE SEIDE.--ALBER-»

«TO PIMENTEL.»

Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede,

fronteira ás janellas.

Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de

Seide.

Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de

Camillo, seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes

conversarei longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso

commum amigo e que elles tão de perto viram soffrer e sonhar--por tantos

dias e tantas noites.

Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte

de pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de

montes.

Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz

pelo Minho, o bulicio pelo silencio, os _boulevards_ pelos pinheiraes, a

capital do mundo pela aldeia erma e profunda.

Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros

tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa

alma, penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna

quasi uma religião: não ha meio de arrancar o camponez ao seu tugurio e

o marinheiro ao seu beliche.

Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava,

virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha

janella, com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e

asymetrica, que apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na

claridade limpida do ar.

Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor

vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei

amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse--como a de dois

inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.

Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra

offerta: o retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da

viscondessa de Corrêa Botelho.

Quando publiquei _Os amores de Camillo_, muito desejei eu obter este

retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido

não seria uma inconveniencia irritante.

Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me

offereceu um exemplar em photographia. No album de Seide havia dois,

tirados em Pariz, no tempo de Napoleão III, casa Mayer & Pierson,

boulevard des Capucines, 3.

Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'_Os amores de Camillo_, se

algum dia a fizer. Aqui não é o seu logar proprio. Mas quero dar uma

rapida impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face

glabra, olhos pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha

direita; vestindo correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata

em laço. _Toilette_ de velho, harmonisando com a physionomia; mas de

velho que, por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.

Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido.

Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de

S. Miguel de Seide.

* * * * *

Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos,

parei um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.

Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte

n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que

seriam ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na

solidão profunda de uma aldêa minhota.

--Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas

noites aqui deviam ser horriveis!

O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou:

--As tardes, as tardes de Camillo é que eram ainda mais agitadas e

tormentosas do que as noites. Depois de jantar, soffria muito;

excitava-se, tinha desesperos, frenesis, que nos amarguravam tambem a nós.

É facil a explicação d'este phenomeno pathologico.

As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com

as _dores fulgurantes_ (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas.

Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises

visceraes, a gastralgia é frequente.

O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas.

Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando

treguas ao pobre Camillo.

Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou

o grande romancista.

Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.

Estive ali no mez de agosto de 1885.

O opusculo _Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de

Seide_ recorda esse facto.

Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das

pessoas que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido,

Jorge e Nuno Castello Branco.

Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia

inteira.

É que a fatalidade de certos destinos iguala-os na vida e na morte,

regulando as suas horas por uma unica ampulheta.

Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.

Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e

meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel.

O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do

naufrago que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um

acaso providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre

montões de espuma.

Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é

hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais

ninguem no mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns

palmos de terra sêcca e hypothecada.

Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a

fulguração de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros.

Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os

amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a

gloria do avô immortal.

[Ilustração: MANUEL]

Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios

exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já

visto florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela

alma do avô, que não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos

realidade o que parece haver sido prophecia do grande espirito de

Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que

prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia

«outra vez inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado

para junto dos netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a

gloria do seu nome.

Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de

despertar a patria adormecida.

Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu, agradecei aos netos

as lagrimas e os sorrisos com que o avô tem preenchido deleitosamente

muitas horas da vossa vida, desde o _Anathema_, uma estreia, até aos

_Vulcões de lama_, a ultima novella, raio de sol poente que não tardou a

apagar-se.

Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo.

Santo Thyrso--Lisboa.

Agosto a setembro de 1901.

Os netos de Camillo · 第 9 / 23 题