NOTA 12.ª

Estas miudesas do meu _M. S._são corroboradas com a seguinte noticia

extractada das _Memorias de Diogo de Paiva de Andrade_: «Vicencia

Correia, chamada depois _Dona_ Vicencia, foi filha de uma grande

alcayota e bebeda, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em

Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu officio que o

exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros annos passou bem

divertida por industria da mãe e habilidade propria, e vivendo de

mancebia com um fulano Cunha, teve d'elle um filho chamado Roque, e

d'outro fulano Pereira teve uma filha chamada Marianna. Mudou depois de

amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta

estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos,

comiam á mesma mesa; e morrendo a enteada, que quiz casar com o porteiro

que então era do Juizo de India e Mina e elle não quiz, tomou lucto

publico. Servia n'este tempo Francisco Leitão de Juiz de India e Mina.

Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas

lettras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavalleiro

da Ordem de Christo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em

Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos

grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi n'este reino, onde o

nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua

litteratura, visitava D. Vicencia, e a presenteava.»

Acho noticia d'este marido de D. Vicencia em um dos papeis que

appareceram em Madrid, por 1637, assignados pelo _Manuelinho de Evora_,

que symbolisava o espirito revolucionario de Portugal. Como peça

desconhecida, extrahimos o mais curioso d'ella. É uma satyra intitulada

_Quadras que se mandaram a Sua Magestade para uma sala de bom retiro_.

Figuram Philippe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de

Vasconcellos, Francisco Leitão,[15] o conde do Prado e Thomaz Dibio, o

marquez de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antonio de Athaide,

Mathias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao

leitor alguns nomes e appellidos que, rodados poucos annos, realçam em

Portugal pela sua dedicação.

Diogo Soares tem um livro na mão com esta lettra:

_Este livro ensina os modos_

_De roubar os povos todos._

Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta lettra:

_Nos bofes fel e vergonha;_

_E em ser ladrão atrevido_

_Sahi a meu pai cuspido._

Vai Francisco Leitão com esta lettra:

_Nasci de quem nasci,_

_Cazei com quem cazei,_

_E o prazo renovei_

E á margem: _Filius meretricis_.

Vae o conde do Prado e diz este mote:

_A missa ouço em S. Roque,_

_Beijo o chão antes que acabe,_

_A tenção só Deus a sabe._

Thomaz Dibio glosa-lhe o mote:

_As palavras são de um sancto;_

_Mas as obras joeiradas_

_São malicias refinadas._

O marquez de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:

_Desterrado y ocioso,_

_Miro solo la destresa_

_Con que hurta su Altesa._

E diz D. Jorge de Mascarenhas:

_Com capa de zelo vosso_

_Muito dinheiro ajuntei,_

_Sem elle e sem vós fiquei_

Mathias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em

camisa com uma vela na mão, tem esta lettra de D. Antonio:

_Mentir, calar, e fingir_

_Verbos de que tenho usado_

_Me pozeram n'este estado._

O mote de Mathias de Albuquerque diz:

_Sem tiro e golpe de espada_

_A Pernambuco larguei,_

_São e rico me fiquei._

Mote do conde da Vidigueira:

_Estes como eu fugiram,_

_E escaparam por taes modos,_

_Que eu vim a pagar por todos._

Diz o bispo do Porto:

_Sou de geração humilde;_

_Mas mui sagaz e astuto_

_Com duas pedras de p..._

Tem ementa á margem da trova, cuja ultima palavra é um _calemburgo_ que

finge estar no tempo presente, modo indicativo do verbo _deputar_. Diz a

glossa: _Este bispo, n'este anno, fez tudo aquillo que quiz, pondo e

dispondo á sua vontade_.

Em livro mais de molde a demoradas exhumações historicas, darei ao

leitor curiosa e ampliada noticia d'este prelado, definido pelo

_Manuelinho de Evora_.

A nota, que já se vae delongando, não é despecienda como amostra do

genero tão fallado como desconhecido que usaram os fermentadores da

restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos

secretarios do _Manuelinho_.

O Regicida · 第 47 / 57 题