Aos primeiros assomos do dia seguinte, a casa de Domingos Leite e a de
Francisco Mendes Nobre, eram invadidas pela justiça dos corregedores de
dois bairros. A da rua dos Vinagreiros foi arrombada, e a outra exposta
á busca pelo escudeiro. Bernardo, como gaguejasse nas respostas, foi
preso, conduzido, e posto a tractos. O velho, apenas as puas da roda
compressas a torno lhe deslocaram os ossos dos braços, confessou que
Domingos Leite, ás duas horas da noite passada, se havia refugiado em
uma casa da rua das Olarias, pertencente a Francisco Mendes Nobre. A
horda dos quadrilheiros derrubou a porta, bateu todos os cantos, e não
encontrou vestigios de ali ter estado alguem recentemente; mas um
visinho tresnoitado depoz que, por volta das tres e meia da manhã, havia
dado tento de estropear de cavallo, depois que a porta da rua se
fechára. Pero Fernandes Monteiro, corregedor do crime da côrte, alvitrou
que Domingos Leite devia ter partido para Guimarães, sua terra natal.
Incontinenti se despediram postilhões para o Minho.
Fr. Francisco Brandão é o unico, e mais coevo e esclarecido narrador que
nos relata estes passos: ..._Tres vezes veio o réo sobredicto_ (Domingos
Leite) _a este reino, ainda que da primeira não consta que fosse com o
mesmo intento. Teve-se noticia da sua entrada n'aquella occasião
primeira, e foi tal a desgraça sua que com apertadas dilligencias em
Lisboa e Guimaraens se não pôde descobrir nem aprisionar; que a ser assi
é veresimil que desculpára as persumpçoens do passado e não incorrêra
etc._[9]
Emquanto estas diligencias frustradas se cumpriam, D. João IV prevenia
Antonio Cavide que era forçoso, logo que Domingos Leite estivesse em
ferros, transferir Maria Isabel e a filha, com o maximo segredo, para
mosteiro muito afastado. Receava o astuto monarcha as declarações
escandalosas do preso, as quaes, desmentidas pela clausura da mulher,
lhe redobrariam a penalidade, aggravando o crime de homicidio o aleive
assacado á pessoa sacratissima do rei e á innocencia da esposa.
Baldaram-se as prevenções. Duas semanas passadas, a espionagem de
Antonio Cavide em Madrid assegurou-o que Domingos Leite ali estava, dado
que vivesse mais retirado que da primeira fuga. Maria Isabel recobrou-se
dos seus pavores. Cavide folgou do bom successo do negocio sem effusões
sanguinarias, o marquez estudava traças de apiedar o rei, e o rei, com
grande magua da ciosa Luisa de Gusmão, raras horas passava fóra da
tapada de Alcantara.
No entanto, o proscripto, reconcentrado com a sua vergonha, cujo pungir
sobre-excedia as angustias da saudade, laborava no cerebro uma idéa de
vingança, pela qual elle daria de bom grado a vida, que lhe era cruz
atrocissima.
Confidenciou o seu pensamento de matar D. João IV, ao hebreu Francisco
Mendes. Este discreto moço oppugnou-lhe o desvairado intento com
argumentos e supplicas, instando-o a que o seguisse para Hollanda, e lá
pediriam ao tempo o balsamo da chaga, e a vingança do remorso nas
consciencias do rei e da collareja real.
Rebelde á rasão e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para
Amsterdão, quando o medo da inquisição de Hespanha o forçou. Era immensa
a tristeza do christão-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor
da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe
seguissem.
Roque da Cunha não podia ser estranho á desventura do seu amigo, já por
que Domingos lh'a referira, já porque os faccionarios de Filippe IV em
Portugal a transmittiram para lá com o intento de aviltar o monarcha,
violador adultero da honra dos seus mais serviçaes acclamadores.
Roque era o portador das lastimas de sua mãe e dos fidalgos ao
desgraçado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez
que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir
ameaças de morte a D. João IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou:
--Viva Deus! que afinal topei um homem! Quantas vezes, Domingos, quantas
vezes eu tenho dito cá muito commigo: «Se Maria Isabel fosse minha
mulher, o duque de Bragança, que me deshonrou, havia de morrer tres
vezes ás minhas mãos, visto que o padre Luiz morreu uma, não me tendo
feito mal nenhum! A mim, na verdade, assombrava-me que este nobre desejo
de vingança te não houvesse passado ardente pela alma como um raio da
justiça divina! Ainda hontem D. Luiz de Alencastre, irmão do marquez de
Porto Seguro, me disse: «E que faz esse brioso Domingos Leite que não
espeta dous pelouros no peito do real bandalho que lhe paga os serviços,
tomando-lhe a mulher como quem compra com quatro sequins uma fregona do
bêcco da Madragôa! Que faz esse homem de honrados figados que matou um
padre, pela innocente rasão de ter amado uma mulher primeiro do que
elle!» E esta, meu querido amigo, é a linguagem de Diogo Soares, do
conde de Figueiró, de Francisco Leitão, e até... queres que te diga
tudo? el-rei Filippe IV, que tem sido o exemplo dos reis continentes,
quando tal soube, disse: «É bem feito que o mateiro de Villa Viçosa faça
os seus vassallos veados, já que alguns d'elles entenderam que o melhor
rei seria o mais destro e certeiro matador de porcos-espinhos. É bem
feito que Domingos Leite receba alvará de Cornelio _tacito_ para
dignamente escrever os Fastos do seu real amo!...» Aqui tens ouro fio o
pezo que está fazendo na opinião de Castella o teu infortunio. Ora
imagina agora, amigo meu, com que jubilo eu não direi ámanhã a D. Luiz
de Alencastre: «Pode v. ex.ª dizer a el-rei nosso Senhor que Domingos
Leite hade vingar-se de modo que a posteridade o aponte aos reis
devassos como aponta o punhal de Bruto aos tyrannos de Roma!»
--Melhor é que não digas nada,--observou glacialmente Domingos Leite--Eu
tanto despreso as censuras como os applausos. Se eu matar D. João IV,
não me hei de glorificar com os gabos nem descorar na presença dos
verdugos...
--Dos verdugos!--acudiu Roque--Se te expozesses ao alcance da corda ou
do cutello, serias honrado, mas parvo. Se queres vingança com gloria e
reputação de sensato, é mister que o homem morra, e que tu fiques a
ouvir-lhe gargantear o _de profundis_. Alem de que, se a tua heroica
idéa fermentar, eu heide ser ouvido, e sócio da aventura...
--Não quero cumplices--disse Domingos Leite.
--Nem amigos? Dize isso aos outros: não o digas a Roque da Cunha, réo de
homicidio, na pessoa do muito reverendo thesoureiro de S. Mamede, que
Deus conserve á _porta inferi_, esperando a alma de cantaro de D. João
de Bragança. Amigo,--proseguiu, abraçando-o, e recuando o peito para lhe
vêr de fito o rosto--Se queres só para ti a gloria de matar o amante de
tua mulher, justo é que a tenhas; não serei eu que a dispute á coragem e
ao pundonor da tua justiça; porem, quando essa conjunctura venha a
realisar-se, Roque da Cunha hade estar á tua beira; por modo, que se a
desaventura te fizer cambapé, ambos nós tombemos ao mesmo abysmo. Quem
te falla assim, ou hade ser teu cumplice, ou teu inimigo. Escolhe.
--Sabes o que eu escolheria, se me fosse permittido escolher? A morte; o
adormecer, e não acordar; o esquecer-me subitamente d'esta minha
execravel situação.
--Temos sesão de fraquesa? Vá lá! Os leões tambem tremem suas maleitas.
Não me assusta esse desalento... Ámanhã, quando eu aqui voltar á tua
charneca, heide achar essa alma remoçada, e o plano feito. Medita, que
eu tambem vou escogitar o meu traçado. Espero que o meu seja o mais
acceitavel, porque calculo com animo frio, como os estrategicos que
escrevem no quartel da saude a arte da guerra. Domingos Leite Pereira,
ouve lá o que eu te digo: Tens nas tuas mãos o destino de Portugal! E
serás um dos primeiros da tua patria, se o quizeres ser.
Domingos Leite sorriu-se motejando o enthusiasmo prophetico d'aquelle
que ás vezes se lhe pintava infernalmente necessario á sua existencia.
N'aquella noite infinita, a ira, a paixão, fora-lhe exulcerada pelas
zombeteiras declamações de Roque da Cunha. A publicidade do seu vexame,
e a mofa com que o apodavam de transigente no opprobrio, era cauterio
que lhe afogueava as dores. Instantes de desafogo tinha apenas os que a
phantasia sinistra lhe pintava, se diante d'ella via escabujar D. João
IV, nas vascas da morte como outro qualquer homem. Ponderando no que era
e seria sempre sua vida,--engolphando-se na treva que todos os passos
lhe negrejava pelo futuro alem,--pareceu-lhe que matar o rei, e
deixar-se matar sem soltar gemido de covarde angustia, seria a mais
brilhante e redemptora solução de sua desgraça.
Aclarava o dia seguinte, e já Roque da Cunha batia á porta da casa
campestre de Domingos Leite.
Radiou intima alegria no aspeito do marido de Maria Izabel. Um homem
bom, um consolador christão, ser-lhe-hia repugnante, depois d'aquella
insomnia de febril raiva e espectaculos fantasticos de sangue e
patibulos. O unico homem competente á sua desesperação era Roque.
Abraçou-o com arrebatada ternura, e exclamou:
--Heide matal-o!
--Isso sabia eu...--disse o outro friamente.--Resta saber como.
--Pensaste?
--A noite toda. São cinco horas e meia. Bem sabes que é meu costume
levantar-me ás dez, quando durmo o somno do justo. Não dormi nada.
Estive com Diogo Soares até ás onze, com o conde de Figueiró até á meia
noite, com D. Luiz de Haro até á uma, com meu padrasto até ás duas, e
d'ahi em diante commigo só, e agora comtigo para te dizer o que vais
ouvir...
--Toda essa gente--interrompeu Domingos Leite--está, por tanto, no
segredo dos meus projectos?...
--Assim como estava no segredo das tuas desventuras.
--Vamos lá, dize, que eu já me não embaraço com pequenas miserias. Que
vens annunciar-me? que plano trazes?
--Plano de grande artifice. Não é meu: dou o pai á creança: é de Diogo
Soares. O duque de Bragança não póde ser morto face a face, nem dentro
do paço, nem na rua, nem nas passagens que elle costuma fazer de um
palacio para outro, com grande escolta. Quanto elle é covarde sabêm'ol-o
nós, desde que inventámos n'elle um rei legitimo; e, depois que a vida
lhe esteve a pique das espadas do conde de Armamar e do marquez de Villa
Real, hade ter bom olho quem o vir sósinho ao alcance de um tiro, ou
quem o descobrir a dez leguas de distancia de um arraial. Covarde como
todos os infames, diz o conde de Figueiró. Observei eu ao ministro
Soares que tu, homem de bizarra condição, não quererias matar o duque de
cilada. Replicou Soares perguntando-me se o duque, empolgando-te a
esposa, te matára o coração com a vizeira levantada, ou se te não ferira
com a mais abominavel perfidia. Não tinha replica sensata a pergunta.
Traição por traição. Seguiu-se discutir a traça da morte. Diogo Soares
pediu meia hora de meditação. Apanhou a calva fronte entre as mãos,
espremeu os miolos, e decretou o seguinte: A procissão de Corpus-Christi
cahe este anno no dia 20 de junho. Iremos para Lisboa, sem perda de
tempo. São hoje 24 de abril. Devemos partir d'aqui no fim do mez. Soares
tem amigos seguros em Lisboa, que nos hãode alojar sem risco. Alugaremos
casas em uma das ruas por onde a procissão hade passar. Estas casas hão
ter outras e outras contiguas que tambem allugaremos. Abriremos
communicações entre ellas, de modo que façam frente para duas ruas.
Suppõe tu... proseguiu Roque traçando no papel a planta das casas ...
Aqui tens tu tres moradas de casas, vês?
--Sim.
--Imagina que estamos na extrema da parochia de S. Nicolau. A entrada
d'este primeiro predio é por este bêcco. Sabes como se chama?
--Não.
--É o bêcco de Pero Ponce de Leão, que vai dar aqui ao Terreiro de traz
da capella mór de S. Nicolau. Percebes?
--Percebo...
--Bem. Aqui n'este Terreiro principia a rua dos Torneiros. Ella aqui
vai... Ora agora, este outro predio, como vês, fica no ultimo canto da
rua dos Torneiros, e faz face para a Fancaria e bêco do Ourinol.
Comprehendes?
--Sim.
--A outra casa, como vês, está no meio das duas.
--É claro.
--A procissão, ao recolher da Sé, vem aqui ter da rua dos Torneiros.
Quando aqui passar, temos o rei pela frente; e, quando entrar na
Fancaria, têmol-o de costas, não é assim?
--É.
--N'esta casa, que olha para a Tornearia, abrimos uma seteira; e aqui,
no angulo que fronteia com a Fancaria, abrimos duas, uma no primeiro
sobrado, e outra no segundo. A do primeiro andar, como vês, é que mais
geito nos dá para a pontaria, porque a rua aqui é larga. Deu-se o tiro
nas costas do rei, suppomos. Nada mais facil que o escapar-se a gente.
Esta casa d'onde sahiu o tiro está trancada com alavancas. O povo
naturalmente quer arrombar a casa, d'onde sahiu o estrondo, não é assim?
Mas emquanto se arromba a porta, passamos nós para esta casa do meio,
pela communicação interior que temos aberta, e d'aqui passamos a estas
que estão no beco de Pero Ponce, mettemo-nos ao meio da multidão,
vestidos de atafoneiros, vamos sahir ao postigo de Nossa Senhora da
Graça, cavalgamos á noite fechada, e passem por lá muito bem. Que te
parece?
--Tudo isso é de Diogo Soares?
--É.
--E as casas tambem?
--As casas!..
--Não digo as casas que pintaste; pergunto se são d'elle e estão
devolutos os trez predios representados n'estas linhas.
--Entendo o gracejo. Queres dizer que não estão á nossa espera trez
casas com taes condições...
--Quer-me parecer...
--Esse milagre pertence á alçada do dinheiro.
--Não contes commigo, que sou pobre.
--Conto eu...
--Com quem?
--Commigo.
--É el-rei de Hespanha que me dá recursos para me eu desaffrontar?
Regeito-os.
--Não é el-rei de Hespanha: sou eu. Tudo que se gastar não será um terço
do que te devo. Esqueces-te de que as tuas algibeiras em solteiro eram
as minhas? Saldaremos contas depois. Approvas o plano ou tens outro?
--Tenho outro.
--Dize lá.
--Esperar el-rei, á entrada ou sahida da casa de Maria Isabel, e matal-o.
--E depois?
--Morrer, ou ás minhas proprias mãos, ou ás do carrasco.
--Acho isso bastante antigo;--volveu o outro motejando--parece-me grego
ou romano; mas é tolo, consente á minha amisade que t'o escreva assim na
fronte, é romanamente e gregamente tolo esse plano.
--O que tu quizeres. Devo dizer-te que assim mataria o padre, se elle
houvesse sido amante de minha mulher.
--Onde mora tua mulher?
--Não sei.
--A quem o vais perguntar?
--Lá verei.
--Não verás nada; não acharás ninguem que t'o diga. Não se espera um rei
á porta de uma amante. Os reis não entram nem sahem pelas portas, nem
pelas janellas, nem pelas trapeiras das amantes. E o duque de Bragança,
desde que D. Francisco Manuel lhe bateu no pateo da condessa de Villa
Nova de Portimão (tu sabes que o pobre poeta está preso na Torre Velha
ha quatro annos..) nunca mais andou n'estes cazos como homem em quem as
pranchadas de uma espada não são brincadeira. A tal respeito, vem de
molde informar-te, segundo as informações que teve Diogo Soares, que a
sr.ª Maria Isabel não recebe o amante em sua casa; é recebida no palacio
de Alcantara. Ninguem sabe quando; mas sabe-se por onde. O pavilhão e as
colgaduras do seu camarim amoroso são as arvores da tapada; é o que os
passarinhos lá cantam uns aos outros.
Domingos Leite fez um gesto de indignação, e disse:
--Isso é vil!..
--Que é vil?!
--A minha desgraça deve poder mais que o teu genio zombeteiro!
--Não zombo, Domingos!.. Tracto de obstruir com a irrisão as veredas por
onde tu queres ir a uma desgraça infallivel. Matares o rei frente a
frente!.. Sabes lá o que isso é?.. Corto a cabeça se fores capaz, se
quer, de o encarar com um pensamento homicida!
--Essa!...--atalhou Domingos Leite.
--Bravos cavalleiros eram os fidalgos inimigos de D. João II; valentes e
expostos á morte andavam os duques de Bragança e Vizeu; muitas
occasioens se lhes ageitaram de matar o rei; e, chegado o lanço de o
apunhalarem, retrahia-se-lhes o braço gelado da covardia que incute na
alma o olhar de um homem que se chama _rei_--coisa fantastica mas
terribilissima como a palavra _diabo_ ás creanças que o temem. Poderoso
de braço e coração era o duque de Vizeu, e ali se deixou cravejar de
punhaladas de D. João II...
--Depois de agarrado pelas costas...--ajuntou Domingos Leite.
--Pelas costas são agarrados todos aquelles que os reis querem matar,
Domingos Leite... (_Nota 23.ª_) Eu não percebo o que seja vingança, se a
desaffronta custa a vida de quem se vinga. Morrer eu, sem provar o
nectar dos deuses! morrer, fechar os olhos, não ver... não palpar a
victima! Então, antes eu queria perdoar-lhes christãmente, e deixar-me
acabar de paixão; que assim pelo menos havia de ter dois frades que
espalhassem cá por baixo que eu estava no ceo; mas passar da vingança á
forca! Domingos Leite, deixa-me abraçar-te, e dizer-te que tu não és
parvo! Não deves dar a tua cabeça ao algoz como prova de que não podes
viver sem o amor e a fidelidade de Maria Isabel Traga-malhas. Que mates
o rei ou mates o ultimo criado das cavallariças reaes, isso que monta,
se a tua questão não é a morte, é a vingança! E, depois, homem, ouve lá
isto: Se tentares publicamente contra el-rei, ainda que nem de leve o
firas, sabes que desde a masmorra até ao cadafalso hasde ser arrastado
nas ruas; e que no Pelourinho te hão de decepar as mãos; e mutilado, com
horrendissimas agonias, te hão de levar muito de vagar até á forca; e
que tua filha hade ser herdeira da tua infamia até á terceira geração,
privada dos bens, por que tudo que houver sido teu hade ser confiscado
para a camara real?... Pensaste n'isto? viste a tua querida Angela entre
ti e o rei e o carrasco?...
Domingos Leite passou vertiginosamennte a mão pela fronte, e murmurou:
--Jesus!...
Invocára o dulcissimo nome da divina caridade humanada, e... estava
perdido! Quem sabe como lá soou nos juizos de Deus aquella invocação!
Quem sabe a distancia que medeia entre o grito do homem e a serena
magestade do seu Creador!