XVII

Aos primeiros assomos do dia seguinte, a casa de Domingos Leite e a de

Francisco Mendes Nobre, eram invadidas pela justiça dos corregedores de

dois bairros. A da rua dos Vinagreiros foi arrombada, e a outra exposta

á busca pelo escudeiro. Bernardo, como gaguejasse nas respostas, foi

preso, conduzido, e posto a tractos. O velho, apenas as puas da roda

compressas a torno lhe deslocaram os ossos dos braços, confessou que

Domingos Leite, ás duas horas da noite passada, se havia refugiado em

uma casa da rua das Olarias, pertencente a Francisco Mendes Nobre. A

horda dos quadrilheiros derrubou a porta, bateu todos os cantos, e não

encontrou vestigios de ali ter estado alguem recentemente; mas um

visinho tresnoitado depoz que, por volta das tres e meia da manhã, havia

dado tento de estropear de cavallo, depois que a porta da rua se

fechára. Pero Fernandes Monteiro, corregedor do crime da côrte, alvitrou

que Domingos Leite devia ter partido para Guimarães, sua terra natal.

Incontinenti se despediram postilhões para o Minho.

Fr. Francisco Brandão é o unico, e mais coevo e esclarecido narrador que

nos relata estes passos: ..._Tres vezes veio o réo sobredicto_ (Domingos

Leite) _a este reino, ainda que da primeira não consta que fosse com o

mesmo intento. Teve-se noticia da sua entrada n'aquella occasião

primeira, e foi tal a desgraça sua que com apertadas dilligencias em

Lisboa e Guimaraens se não pôde descobrir nem aprisionar; que a ser assi

é veresimil que desculpára as persumpçoens do passado e não incorrêra

etc._[9]

Emquanto estas diligencias frustradas se cumpriam, D. João IV prevenia

Antonio Cavide que era forçoso, logo que Domingos Leite estivesse em

ferros, transferir Maria Isabel e a filha, com o maximo segredo, para

mosteiro muito afastado. Receava o astuto monarcha as declarações

escandalosas do preso, as quaes, desmentidas pela clausura da mulher,

lhe redobrariam a penalidade, aggravando o crime de homicidio o aleive

assacado á pessoa sacratissima do rei e á innocencia da esposa.

Baldaram-se as prevenções. Duas semanas passadas, a espionagem de

Antonio Cavide em Madrid assegurou-o que Domingos Leite ali estava, dado

que vivesse mais retirado que da primeira fuga. Maria Isabel recobrou-se

dos seus pavores. Cavide folgou do bom successo do negocio sem effusões

sanguinarias, o marquez estudava traças de apiedar o rei, e o rei, com

grande magua da ciosa Luisa de Gusmão, raras horas passava fóra da

tapada de Alcantara.

No entanto, o proscripto, reconcentrado com a sua vergonha, cujo pungir

sobre-excedia as angustias da saudade, laborava no cerebro uma idéa de

vingança, pela qual elle daria de bom grado a vida, que lhe era cruz

atrocissima.

Confidenciou o seu pensamento de matar D. João IV, ao hebreu Francisco

Mendes. Este discreto moço oppugnou-lhe o desvairado intento com

argumentos e supplicas, instando-o a que o seguisse para Hollanda, e lá

pediriam ao tempo o balsamo da chaga, e a vingança do remorso nas

consciencias do rei e da collareja real.

Rebelde á rasão e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para

Amsterdão, quando o medo da inquisição de Hespanha o forçou. Era immensa

a tristeza do christão-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor

da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe

seguissem.

Roque da Cunha não podia ser estranho á desventura do seu amigo, já por

que Domingos lh'a referira, já porque os faccionarios de Filippe IV em

Portugal a transmittiram para lá com o intento de aviltar o monarcha,

violador adultero da honra dos seus mais serviçaes acclamadores.

Roque era o portador das lastimas de sua mãe e dos fidalgos ao

desgraçado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez

que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir

ameaças de morte a D. João IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou:

--Viva Deus! que afinal topei um homem! Quantas vezes, Domingos, quantas

vezes eu tenho dito cá muito commigo: «Se Maria Isabel fosse minha

mulher, o duque de Bragança, que me deshonrou, havia de morrer tres

vezes ás minhas mãos, visto que o padre Luiz morreu uma, não me tendo

feito mal nenhum! A mim, na verdade, assombrava-me que este nobre desejo

de vingança te não houvesse passado ardente pela alma como um raio da

justiça divina! Ainda hontem D. Luiz de Alencastre, irmão do marquez de

Porto Seguro, me disse: «E que faz esse brioso Domingos Leite que não

espeta dous pelouros no peito do real bandalho que lhe paga os serviços,

tomando-lhe a mulher como quem compra com quatro sequins uma fregona do

bêcco da Madragôa! Que faz esse homem de honrados figados que matou um

padre, pela innocente rasão de ter amado uma mulher primeiro do que

elle!» E esta, meu querido amigo, é a linguagem de Diogo Soares, do

conde de Figueiró, de Francisco Leitão, e até... queres que te diga

tudo? el-rei Filippe IV, que tem sido o exemplo dos reis continentes,

quando tal soube, disse: «É bem feito que o mateiro de Villa Viçosa faça

os seus vassallos veados, já que alguns d'elles entenderam que o melhor

rei seria o mais destro e certeiro matador de porcos-espinhos. É bem

feito que Domingos Leite receba alvará de Cornelio _tacito_ para

dignamente escrever os Fastos do seu real amo!...» Aqui tens ouro fio o

pezo que está fazendo na opinião de Castella o teu infortunio. Ora

imagina agora, amigo meu, com que jubilo eu não direi ámanhã a D. Luiz

de Alencastre: «Pode v. ex.ª dizer a el-rei nosso Senhor que Domingos

Leite hade vingar-se de modo que a posteridade o aponte aos reis

devassos como aponta o punhal de Bruto aos tyrannos de Roma!»

--Melhor é que não digas nada,--observou glacialmente Domingos Leite--Eu

tanto despreso as censuras como os applausos. Se eu matar D. João IV,

não me hei de glorificar com os gabos nem descorar na presença dos

verdugos...

--Dos verdugos!--acudiu Roque--Se te expozesses ao alcance da corda ou

do cutello, serias honrado, mas parvo. Se queres vingança com gloria e

reputação de sensato, é mister que o homem morra, e que tu fiques a

ouvir-lhe gargantear o _de profundis_. Alem de que, se a tua heroica

idéa fermentar, eu heide ser ouvido, e sócio da aventura...

--Não quero cumplices--disse Domingos Leite.

--Nem amigos? Dize isso aos outros: não o digas a Roque da Cunha, réo de

homicidio, na pessoa do muito reverendo thesoureiro de S. Mamede, que

Deus conserve á _porta inferi_, esperando a alma de cantaro de D. João

de Bragança. Amigo,--proseguiu, abraçando-o, e recuando o peito para lhe

vêr de fito o rosto--Se queres só para ti a gloria de matar o amante de

tua mulher, justo é que a tenhas; não serei eu que a dispute á coragem e

ao pundonor da tua justiça; porem, quando essa conjunctura venha a

realisar-se, Roque da Cunha hade estar á tua beira; por modo, que se a

desaventura te fizer cambapé, ambos nós tombemos ao mesmo abysmo. Quem

te falla assim, ou hade ser teu cumplice, ou teu inimigo. Escolhe.

--Sabes o que eu escolheria, se me fosse permittido escolher? A morte; o

adormecer, e não acordar; o esquecer-me subitamente d'esta minha

execravel situação.

--Temos sesão de fraquesa? Vá lá! Os leões tambem tremem suas maleitas.

Não me assusta esse desalento... Ámanhã, quando eu aqui voltar á tua

charneca, heide achar essa alma remoçada, e o plano feito. Medita, que

eu tambem vou escogitar o meu traçado. Espero que o meu seja o mais

acceitavel, porque calculo com animo frio, como os estrategicos que

escrevem no quartel da saude a arte da guerra. Domingos Leite Pereira,

ouve lá o que eu te digo: Tens nas tuas mãos o destino de Portugal! E

serás um dos primeiros da tua patria, se o quizeres ser.

Domingos Leite sorriu-se motejando o enthusiasmo prophetico d'aquelle

que ás vezes se lhe pintava infernalmente necessario á sua existencia.

N'aquella noite infinita, a ira, a paixão, fora-lhe exulcerada pelas

zombeteiras declamações de Roque da Cunha. A publicidade do seu vexame,

e a mofa com que o apodavam de transigente no opprobrio, era cauterio

que lhe afogueava as dores. Instantes de desafogo tinha apenas os que a

phantasia sinistra lhe pintava, se diante d'ella via escabujar D. João

IV, nas vascas da morte como outro qualquer homem. Ponderando no que era

e seria sempre sua vida,--engolphando-se na treva que todos os passos

lhe negrejava pelo futuro alem,--pareceu-lhe que matar o rei, e

deixar-se matar sem soltar gemido de covarde angustia, seria a mais

brilhante e redemptora solução de sua desgraça.

Aclarava o dia seguinte, e já Roque da Cunha batia á porta da casa

campestre de Domingos Leite.

Radiou intima alegria no aspeito do marido de Maria Izabel. Um homem

bom, um consolador christão, ser-lhe-hia repugnante, depois d'aquella

insomnia de febril raiva e espectaculos fantasticos de sangue e

patibulos. O unico homem competente á sua desesperação era Roque.

Abraçou-o com arrebatada ternura, e exclamou:

--Heide matal-o!

--Isso sabia eu...--disse o outro friamente.--Resta saber como.

--Pensaste?

--A noite toda. São cinco horas e meia. Bem sabes que é meu costume

levantar-me ás dez, quando durmo o somno do justo. Não dormi nada.

Estive com Diogo Soares até ás onze, com o conde de Figueiró até á meia

noite, com D. Luiz de Haro até á uma, com meu padrasto até ás duas, e

d'ahi em diante commigo só, e agora comtigo para te dizer o que vais

ouvir...

--Toda essa gente--interrompeu Domingos Leite--está, por tanto, no

segredo dos meus projectos?...

--Assim como estava no segredo das tuas desventuras.

--Vamos lá, dize, que eu já me não embaraço com pequenas miserias. Que

vens annunciar-me? que plano trazes?

--Plano de grande artifice. Não é meu: dou o pai á creança: é de Diogo

Soares. O duque de Bragança não póde ser morto face a face, nem dentro

do paço, nem na rua, nem nas passagens que elle costuma fazer de um

palacio para outro, com grande escolta. Quanto elle é covarde sabêm'ol-o

nós, desde que inventámos n'elle um rei legitimo; e, depois que a vida

lhe esteve a pique das espadas do conde de Armamar e do marquez de Villa

Real, hade ter bom olho quem o vir sósinho ao alcance de um tiro, ou

quem o descobrir a dez leguas de distancia de um arraial. Covarde como

todos os infames, diz o conde de Figueiró. Observei eu ao ministro

Soares que tu, homem de bizarra condição, não quererias matar o duque de

cilada. Replicou Soares perguntando-me se o duque, empolgando-te a

esposa, te matára o coração com a vizeira levantada, ou se te não ferira

com a mais abominavel perfidia. Não tinha replica sensata a pergunta.

Traição por traição. Seguiu-se discutir a traça da morte. Diogo Soares

pediu meia hora de meditação. Apanhou a calva fronte entre as mãos,

espremeu os miolos, e decretou o seguinte: A procissão de Corpus-Christi

cahe este anno no dia 20 de junho. Iremos para Lisboa, sem perda de

tempo. São hoje 24 de abril. Devemos partir d'aqui no fim do mez. Soares

tem amigos seguros em Lisboa, que nos hãode alojar sem risco. Alugaremos

casas em uma das ruas por onde a procissão hade passar. Estas casas hão

ter outras e outras contiguas que tambem allugaremos. Abriremos

communicações entre ellas, de modo que façam frente para duas ruas.

Suppõe tu... proseguiu Roque traçando no papel a planta das casas ...

Aqui tens tu tres moradas de casas, vês?

--Sim.

--Imagina que estamos na extrema da parochia de S. Nicolau. A entrada

d'este primeiro predio é por este bêcco. Sabes como se chama?

--Não.

--É o bêcco de Pero Ponce de Leão, que vai dar aqui ao Terreiro de traz

da capella mór de S. Nicolau. Percebes?

--Percebo...

--Bem. Aqui n'este Terreiro principia a rua dos Torneiros. Ella aqui

vai... Ora agora, este outro predio, como vês, fica no ultimo canto da

rua dos Torneiros, e faz face para a Fancaria e bêco do Ourinol.

Comprehendes?

--Sim.

--A outra casa, como vês, está no meio das duas.

--É claro.

--A procissão, ao recolher da Sé, vem aqui ter da rua dos Torneiros.

Quando aqui passar, temos o rei pela frente; e, quando entrar na

Fancaria, têmol-o de costas, não é assim?

--É.

--N'esta casa, que olha para a Tornearia, abrimos uma seteira; e aqui,

no angulo que fronteia com a Fancaria, abrimos duas, uma no primeiro

sobrado, e outra no segundo. A do primeiro andar, como vês, é que mais

geito nos dá para a pontaria, porque a rua aqui é larga. Deu-se o tiro

nas costas do rei, suppomos. Nada mais facil que o escapar-se a gente.

Esta casa d'onde sahiu o tiro está trancada com alavancas. O povo

naturalmente quer arrombar a casa, d'onde sahiu o estrondo, não é assim?

Mas emquanto se arromba a porta, passamos nós para esta casa do meio,

pela communicação interior que temos aberta, e d'aqui passamos a estas

que estão no beco de Pero Ponce, mettemo-nos ao meio da multidão,

vestidos de atafoneiros, vamos sahir ao postigo de Nossa Senhora da

Graça, cavalgamos á noite fechada, e passem por lá muito bem. Que te

parece?

--Tudo isso é de Diogo Soares?

--É.

--E as casas tambem?

--As casas!..

--Não digo as casas que pintaste; pergunto se são d'elle e estão

devolutos os trez predios representados n'estas linhas.

--Entendo o gracejo. Queres dizer que não estão á nossa espera trez

casas com taes condições...

--Quer-me parecer...

--Esse milagre pertence á alçada do dinheiro.

--Não contes commigo, que sou pobre.

--Conto eu...

--Com quem?

--Commigo.

--É el-rei de Hespanha que me dá recursos para me eu desaffrontar?

Regeito-os.

--Não é el-rei de Hespanha: sou eu. Tudo que se gastar não será um terço

do que te devo. Esqueces-te de que as tuas algibeiras em solteiro eram

as minhas? Saldaremos contas depois. Approvas o plano ou tens outro?

--Tenho outro.

--Dize lá.

--Esperar el-rei, á entrada ou sahida da casa de Maria Isabel, e matal-o.

--E depois?

--Morrer, ou ás minhas proprias mãos, ou ás do carrasco.

--Acho isso bastante antigo;--volveu o outro motejando--parece-me grego

ou romano; mas é tolo, consente á minha amisade que t'o escreva assim na

fronte, é romanamente e gregamente tolo esse plano.

--O que tu quizeres. Devo dizer-te que assim mataria o padre, se elle

houvesse sido amante de minha mulher.

--Onde mora tua mulher?

--Não sei.

--A quem o vais perguntar?

--Lá verei.

--Não verás nada; não acharás ninguem que t'o diga. Não se espera um rei

á porta de uma amante. Os reis não entram nem sahem pelas portas, nem

pelas janellas, nem pelas trapeiras das amantes. E o duque de Bragança,

desde que D. Francisco Manuel lhe bateu no pateo da condessa de Villa

Nova de Portimão (tu sabes que o pobre poeta está preso na Torre Velha

ha quatro annos..) nunca mais andou n'estes cazos como homem em quem as

pranchadas de uma espada não são brincadeira. A tal respeito, vem de

molde informar-te, segundo as informações que teve Diogo Soares, que a

sr.ª Maria Isabel não recebe o amante em sua casa; é recebida no palacio

de Alcantara. Ninguem sabe quando; mas sabe-se por onde. O pavilhão e as

colgaduras do seu camarim amoroso são as arvores da tapada; é o que os

passarinhos lá cantam uns aos outros.

Domingos Leite fez um gesto de indignação, e disse:

--Isso é vil!..

--Que é vil?!

--A minha desgraça deve poder mais que o teu genio zombeteiro!

--Não zombo, Domingos!.. Tracto de obstruir com a irrisão as veredas por

onde tu queres ir a uma desgraça infallivel. Matares o rei frente a

frente!.. Sabes lá o que isso é?.. Corto a cabeça se fores capaz, se

quer, de o encarar com um pensamento homicida!

--Essa!...--atalhou Domingos Leite.

--Bravos cavalleiros eram os fidalgos inimigos de D. João II; valentes e

expostos á morte andavam os duques de Bragança e Vizeu; muitas

occasioens se lhes ageitaram de matar o rei; e, chegado o lanço de o

apunhalarem, retrahia-se-lhes o braço gelado da covardia que incute na

alma o olhar de um homem que se chama _rei_--coisa fantastica mas

terribilissima como a palavra _diabo_ ás creanças que o temem. Poderoso

de braço e coração era o duque de Vizeu, e ali se deixou cravejar de

punhaladas de D. João II...

--Depois de agarrado pelas costas...--ajuntou Domingos Leite.

--Pelas costas são agarrados todos aquelles que os reis querem matar,

Domingos Leite... (_Nota 23.ª_) Eu não percebo o que seja vingança, se a

desaffronta custa a vida de quem se vinga. Morrer eu, sem provar o

nectar dos deuses! morrer, fechar os olhos, não ver... não palpar a

victima! Então, antes eu queria perdoar-lhes christãmente, e deixar-me

acabar de paixão; que assim pelo menos havia de ter dois frades que

espalhassem cá por baixo que eu estava no ceo; mas passar da vingança á

forca! Domingos Leite, deixa-me abraçar-te, e dizer-te que tu não és

parvo! Não deves dar a tua cabeça ao algoz como prova de que não podes

viver sem o amor e a fidelidade de Maria Isabel Traga-malhas. Que mates

o rei ou mates o ultimo criado das cavallariças reaes, isso que monta,

se a tua questão não é a morte, é a vingança! E, depois, homem, ouve lá

isto: Se tentares publicamente contra el-rei, ainda que nem de leve o

firas, sabes que desde a masmorra até ao cadafalso hasde ser arrastado

nas ruas; e que no Pelourinho te hão de decepar as mãos; e mutilado, com

horrendissimas agonias, te hão de levar muito de vagar até á forca; e

que tua filha hade ser herdeira da tua infamia até á terceira geração,

privada dos bens, por que tudo que houver sido teu hade ser confiscado

para a camara real?... Pensaste n'isto? viste a tua querida Angela entre

ti e o rei e o carrasco?...

Domingos Leite passou vertiginosamennte a mão pela fronte, e murmurou:

--Jesus!...

Invocára o dulcissimo nome da divina caridade humanada, e... estava

perdido! Quem sabe como lá soou nos juizos de Deus aquella invocação!

Quem sabe a distancia que medeia entre o grito do homem e a serena

magestade do seu Creador!

O Regicida · 第 26 / 57 题