Esperava-o Bernardo com o ouvido collado ao postigo.
Domingos Leite entrou no quarto do criado, sem sensivel mudança no
rosto. Palavra, que denunciasse as revelações do marquez, não proferiu
alguma. Bernardo perguntou-lhe a mêdo se descobrira a paragem da
senhora. Respondeu que não: disse verdade.
Conversaram ácerca de Angela. O pai perguntava coisas tão
insignificantes que parecia futilissimo, se não fosse desgraçado em
extremo. O criado insistiu outra vez em lhe recontar o caso de ser a
menina açafata. Transtornaram-se as feições do amo. Ouviu-lhe o
escudeiro um ringir de dentes asperrimo, e um como rugido estrangulado
nos gorgomillos. Ás duas horas da noute, Domingos Leite pediu ao criado
alguns sobejos da sua ceia. Sentia-se esvaecer de fraqueza. Comeu e disse:
--Aqui tens meio cruzado pela ceia e pelo repouso de duas horas.
--Ó meu amo!--exclamou Bernardo--vossa mercê falla serio ao seu velho
criado?!
--A ceia deu-te a soldada de tua ama e a casa em que me abrigas d'ella
é. Tu vendes-me parte do que é teu.
--Não o intendo, senhor.
--Deixa-me encostar a cabeça, que ha quatro noutes que não durmo e hei
medo de insandecer. Antes de romper a manhã, acorda-me.
Pouco depois, Domingos Leite, sopitado em lethargia de febre, sonhava
alto, pronunciando vozes que gelavam de pavor o criado. Eram apostrophes
em que o nome suavissimo da filha se envolvia com expressões indecentes
e epithetos que entram sem rebuço nos alcouces. De mistura, estallavam
ameaças de sangue, e a palavra _rei_ soava bem distincta por entre as
objurgatorias que a precipitação tornava inintelligiveis.
O escudeiro, mais supersticioso em sonhos que esperto em tirar
inferencias da vida real, compoz com as phrases soltas que ouviu a
desgraçada situação de seu amo. Chorou então copiosamente ajoelhado á
beira do catre.
Á hora em que devia chamal-o, o amo adormecera serenamente e a febre
remittira. Bernardo pediu conselho ao seu retábulo do Senhor dos Passos,
sobre deixal-o descançar ou espertal-o d'aquelle tão curto dormir.
Figurou-se-lhe que a vontade divina lhe inspirava que deixasse o infeliz
restaurar forças para succumbir depois de muitas e acerbas batalhas.
Era já nado o sol havia muito, quando Domingos Leite espertou. Bernardo,
entre receios e lagrimas, disse-lhe que o não chamara, porque á hora
aprazada adormecera seu amo, depois de arder em febre agitadamente.
--Mas porque choras tu?--perguntou Domingos Leite.
--Porque choro, senhor!... Ai! quem o viu, quem o viu, meu querido senhor!
E abraçou-se n'elle, abafando-lhe os gritos no seio.
O infeliz deixava-se abraçar, e murmurava:
--É verdade, Bernardo!... quem me viu!... O que era eu ha sete annos!
Tão festejado, tão alegre, tão rico, tão esperançado... E agora!...
sabes tu lá quanto eu sou digno de compaixão!...
Não tinha o ceo beneficio maior a dar-lhe que o d'aquella torrente de
lagrimas...
--Como heide eu sahir d'aqui a tal hora?--disse elle ao criado.
--Se não tivesse grande precisão de sahir, que mal estaria aqui vossa
mercê?--e proseguiu com risonho modo--Se ficar, paga-me o alimento e a
dormida...
--Ficarei--conveio Domingos Leite--Olha, Bernardo se eu podesse ver a
cama de minha filha... o berço, aquelle berço em que ella ás vezes
dormia no meu quarto...
--Lá está ainda debaixo do leito de vossa mercê. Nunca mais entrou
alguem na sua alcôva. A menina muitas vezes pediu á mãe que a deixasse
lá entrar; mas a senhora--isto vi eu!--indo uma vez a entrar, para fazer
a vontade á filhinha, assim que deu com os olhos nas coisas como vossa
mercê as deixou, rompeu em tal choro que sahiu d'ali quasi nos meus braços.
Domingos Leite interrompeu-o asperamente.
--Cala-te, homem... O nome d'essa mulher nunca mais o pronuncies na
minha presença, se me estimas!
Pareceram rapidas as horas d'aquelle dia a Domingos Leite.
Encerrou-se no seu quarto, lendo e rasgando papeis tirados dos seus
contadores, memorias da sua mocidade, extractos das suas leituras,
escriptos politicos com que seu talento ganhara a estima do marquez de
Gouvêa, bilhetes de João Pinto Ribeiro e do desembargador João Sanches
de Baena, de incumbencia ou de agradecimento de serviços prestados
arriscadamente ao duque de Bragança.
A espaços, o escudeiro encontrava-o com a face debruçada sobre os
braços, amparando-se no bofete. Quedava-se o velho soffreando a
respiração para o ouvir dormír; e ás vezes confundia os soluços com o
alto respirar d'um somno irrequieto. Outras vezes achava-o curvado sobre
o espaldar do berço, com os olhos marejados a embevecerem-se na
almofada, em quanto o leitosinho se balouçava movido pela mão.
Neste lance temia o velho que seu amo enlouquecesse, parecendo-lhe muito
mulherengo aquelle acto de estar um homem acalentando um berço vasio.
Ahi pelo meio da tarde, o guarda-portão do marquez de Gouvêa procurou o
escudeiro de Domingos Leite, e, com muito resguardo, o encarregou de
levar um papel lacrado a seu amo.
Bernardo fôra prevenido desta mensagem. Acceitou carta, sem dizer ao
portador que seu amo estava ali.
O contheudo era a prorogação do encontro para a noite do seguinte dia,
visto que nada podia resolver sem mais algumas horas de actividade.
O mordomo-mór não tinha descançado. Vamos no encalço d'este leal amigo
de Domingos Leite Pereira.
A hora desacostumada na manhã d'aquelle dia fôra em seu coche acordar o
secretario d'estado Antonio de Cavide. Relatou-lhe, tão ingenuo quanto
imprudente, a vinda clandestina do marido de Maria Isabel, de proposito
para levar a filha comsigo a Madrid, e continuou:
--Tem V. S.ª[8] occasião de fazer grande serviço a el-rei, á
sua amante, á filha de Domingos Leite, a este desgraçado homem e a mim.
Tantos favores a tantas pessoas em pouco esforço estão. Consiga V. S.ª
que Maria Isabel me entregue a menina que eu lhe prometto sahir Domingos
Leite de Portugal na mesma hora em que eu lh'a restituir. Por este modo,
evitamos que o marido exasperado publique o destino da mulher; evitamos
dissabores a el-rei; evitamos grandes pesares e talvez remorsos a essa
mulher, finalmente resgatamos a menina de uma situação pouco exemplar.
--Diz V. Ex.ª optimamente--obtemperou Antonio Cavide--Vou vestir-me, e
saio em direitura para Alcantara a procurar Maria Isabel. Não sei se
poderei vel-a, porque el-rei está hoje a caçar na tapada do palacio, e a
sua _Diana_ deu agora em querer segurar a tréla dos falcões--ajuntou o
velhaco sorrindo--No entanto, aguardarei __ o ensejo de me ver a só com
ella. V. Ex.ª conhece o genio de el-rei. Se eu lhe digo que o temerario
Domingos Leite, affrontando a justiça, ousou metter-se em Lisboa, temos
na rua os corregedores todos com a sua matilha de esbirros na piugada do
pobre homem, que será aperreado depois do que nós sabemos...
Aqui arregaçou o secretario outro riso infame e prosseguiu:
--O melhor será que ella diga a el-rei que de seu moto proprio envia a
pequena ao pai. El-rei não lh'o impede, porque a presença da creança o
estorva; e as coisas feitas assim ficam excellentemente feitas.
--Muito bem--concordou contentissimo o mordomo-mór--A que horas calcula
V. S.ª poder responder-me?
--Ás duas da tarde devo estar de volta de Alcantara. O Domingos Leite
está hospede de V. Ex.ª?
--Não, sr--respondeu ingenuamente o marquez--disse-me que se recolhera á
rua dos Vinagreiros, e eu fiquei de me encontrar com elle á noite, ou
avisal-o hoje de qualquer nova.
--Pois eu vou satisfazer a V. Ex.ª; entretanto, esse infeliz que tenha
cuidado sobre si, porque de Madrid tem vindo confidencias a el-rei muito
aggravantes para Domingos Leite e para o tal Roque da Cunha, que
assassinou o padre Silveira. Eu ouvi dizer a Gaspar de Faria Severim
que, precisando de um fino espião em Madrid, o patife mais ajustado ao
intento era o tal Roque da Cunha; e sua magestade, que conhece os mais
egregios malandrins de Portugal e conquistas, approva o alvitre.
Domingos Leite que se precate... Isto revéllo eu muito á puridade a V.
Ex.ª por saber quanto esse desafortunado homem lhe é agradavel, e os
bons serviços que elle fez na restauração, escrevendo e fallando nas
juntas do padre Nicolau da Maya.
Retirou-se o marquez muito agradecido e esperançado no bom exito da sua
discreta ideia.
Antonio Cavide foi sem detença a Alcantara, apeou á porta do palacio
real, e soube que elrei estava almoçando. Perguntou se sua magestade era
sosinho; e, como lhe respondessem affirmativamente, deixou o côche, e
foi a pé em demanda de um palacete contiguo ao mosteiro das religiosas
do Calvario.
Residia ahi Maria Isabel Traga-malhas com sua filha, criadas e pagens. A
visinhança não a presumia theuda do monarcha. O fausto do viver
justificava-o naturalmente a fama dos seus teres. Dizia-se que a
desgraça do ex-escrivão do civel, seu marido, fôra causa d'aquella
retirada para longe do concurso da gente, e que o avisinhar-se de
mosteiro tão rigoroso era já indicio de profunda piedade a que se
acolhiam enormes desgostos. Isto resava a opinião publica que resa
sempre bem.
D. João IV recebia Maria Isabel, a horas mortas, por uma porta do
extremo da tapada. Ás vezes, passavam-se dias inteiros sem que sua
magestade alvorotasse os gamos e veados da floresta; outras vezes, o
real caçador, com a escopeta atravessada sobre as pernas, e a fronte
pendida ao seio da sua _Diana_, como dizia o secretario, ouvia os
gorgeios dos rouxinoes emboscados nos olmedos e espinheiros. A opinião
publica não dizia isto: era Antonio Cavide, e mais algum fidalgo da
intima confiança do rei, que o segredavam entre si.
Annunciou-se o ministro a Maria Isabel. Sahiu a recebêl-o a
açafatasinha, e d'ahi a pouco a mãe com semblante de quem se espantava e
assustava da visita.
Expoz Cavide a sua mensagem, segundo o plano convencionado com o
marquez. Interrompera-o ella com exclamações, com esterismos, já
corando, já empalidecendo; quando, porém, o expositor chegou ao ponto
essencial, aconselhando a entrega da menina, Maria Isabel replicou
inflexivelmente que não dava sua filha, e que ninguem lh'a arrancaria
dos braços.
Desanimou o agenciador, receando desvaliar-se aos olhos de el-rei nos
olhos da sua amante. Pediu perdão de a ter aconselhado, beijou-lhe
mesureiramente a mão, e ergueu-se para sahir.
Perguntou-lhe, ao retirar-se, Maria Isabel se seu marido se alojára na
casa do Salvador. Respondeu Cavide que lhe constava estar Domingos Leite
na rua dos Vinagreiros.
Antes de duas horas da tarde, o marquez sabia que as diligencias do
secretario se malograram. Tergiversou entre desenganar e esperançar
Domingos Leite. Venceu-se alfim do mais generoso pensamento, resolvendo
ir pessoalmente fallar com Maria Isabel, calculando reduzil-a com o
vaticinio das funestas consequencias da sua recusação.
Quando ás quatro horas da tarde a procurou, a dama era fóra de casa,
posto que a sua aia dissesse estar de cama com subito incommodo. Maria
Isabel, sem prevenir o seu real amante, nem usar grandes resalvas de
honestidade, entrou no atrio do palacio com Angela pela mão, e foi
conduzida reverentemente ás salas.
D. João IV, mais contente que sobresaltado da inesperada visita, foi
receber a gentil comborça ainda mal enchuta das lagrimas. Referiu ella
com entrecortadas vozes, sem pejo da filha, e quasi deitada nos braços
do rei, o que passára com Antonio Cavide, e concluiu mostrando-se
receosa e até certissima de que Domingos Leite, não lhe tirando a filha,
seria capaz de matal-a. Era sincera no seu terror.
Tranquillisou-a o rei; e, sem medear tempo, mandou chamar Antonio
Cavide. Apartou-se com elle, e deu-lhe ordens rapidas. Ao cahir da
noute, o secretario d'estado entrava em Lisboa, a tempo que o marquez,
por palpite de maior desgraça, sabendo que o valido fôra chamado a
Alcantara, o estava esperando no seu palacio.
Cavide, vendo o mordomo-mor na sua sala de espera, acercou-se d'elle, e
disse-lhe ao ouvido:
--Não ha tempo a perder. V. Ex.ª saiba corresponder a esta
confidencia... Domingos Leite que se esconda, que fuja, porque vai ser
preso. Adeus. Vou procurar o conde de Odemira; vou cumprir ordens
d'el-rei. O amor é o diabo, sr. marquez, o amor é o diabo! Estas Dalilas
tosquiam o nosso Sansão, e queira Deus que o templo se não alúa sobre
elle e sobre nós...
--Biltre!--disse de si comsigo o marquez.
Era noute cerrada.
O mordomo-mór só confiou de si o melindroso aviso. Disfarçou-se com a
maior precaução, e foi á porta do Salvador.
Domingos Leite esperava ainda alguma nova, quando o escudeiro abriu a
porta ao desconhecido, que se intitulou enviado da pessoa que já ali
tinha mandado recado a seu amo.
Esquivava-se a dar-lhe entrada, quando Leite Pereira reconheceu a vóz do
marquez. Subiram para o primeiro sobrado. A terrivel noticia revelava-se
no aspecto do consternado fidalgo. Domingos comprehendeu-o.
--Nada feito, sr. marquez?
--Nada feito. Serei breve porque o tempo urge. Cavide fallou a Maria
Isabel na entrega da filha. Foi repellido. Quiz eu experimentar a
condição d'essa mulher. Procurei-a; mas não estava em caza. Devia estar
com el-rei. Perto da noute soube que o conde de Odemira ia ser
encarregado da sua prizão.
--Ainda bem!--exclamou Domingos Leite--Quero ser prezo!
--Não diga absurdos, que me faz arrepender de lhe votar tamanha amisade!
Quer ser preso! para que?
--Direi entre ferros quem é o rei de Portugal!
--Não dirá nada entre ferros, porque ha mordaças. De sobra sabia
Francisco de Lucena quem era D. João IV, e nada disse, morrendo
innocentissimo, e D. João IV de sobra sabia que Lucena morria
innocente... e deixou-o morrer. (_Nota 22.ª_) Não me conteste nem
resista, que perde o unico amigo que tem no reino. Fuja sem demora. Vá
para Madrid, se não prefere antes ir para França. Eu, á força de idear
traças de lhe restituir sua filha, heide conseguil-o cedo ou tarde.
Espero commover o rei, pintando-lhe a dor do infeliz marido e pae...
--De modo nenhum!--obstou Domingos Leite com azedume--Peço-lhe que me
não avilte, sr. marquez! Deixe-me morrer com dignidade! Não quero a
misericordia do tyranno, do adultero, do devasso, que eu por entre
punhaes de castelhanos e de portuguezes acclamei em Evora. Não quero
d'esse homem senão um saldo de contas que se hão de liquidar...
--_Sio!_--atalhou o marquez, tapando-lhe a bôcca, e sopesando os
cabellos que se lhe irriçavam de terror na fronte gelada.--Cale-se,
mentecapto!... cale-se! que, senão, eu maldigo a hora em que vim aqui!..
--Perdão, meu nobre amigo!--volveu Domingos Leite--Se v. ex.ª se
arrepende de vir aqui, repêso me sinto eu tambem de o haver procurado.
Entretanto, como v. ex.ª se me figura traspassado de um certo horror de
cumplicidade nos meus propositos de vingança, o meu dever é preserval-o
de susto, retirando-me ámanhã para Castella.
--Ámanhã não, hoje, é urgentissimo que seja hoje; porque, ao raiar da
manhã, esta casa póde ser rodeada de quadrilheiros.
--Em tal caso vou retirar-me para outra casa que tenho, e sahirei d'ella
ao romper do dia.
--Vae para a rua dos Vinagreiros?
--Não, senhor marquez... E, quando fosse, quem denunciou o meu
esconderijo da rua dos Vinagreiros?!
--Fui eu por imperdoavel imprudencia a Antonio de Cavide. Cuidei que o
tinha compadecido, e hoje receio que elle dirija para lá e para aqui ao
mesmo tempo os aguasis.
--Vá v. ex.ª descançado que não heide ser encontrado aqui nem lá.
--Meu amigo do coração!--clamou o mordomo-mór abraçando-o--Adeus! adeus!
fie de mim o seu futuro, o seu perdão, e a entrega da sua querida filha!